Crônicas de Alma e Sangue

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O conto “O Inesperado Acontece” faz parte das Crônicas de Alma e Sangue, e será postado  na integra, ou seja, a medida que os capítulos são divulgados na Página da Série, e aqui no blog.

O conto está completo, breve mais um capitulo das ” Crônicas de Alma e Sangue”.

O Inesperado Acontece – Crônicas de Alma e Sangue.

 

O cavalo corria livre pela floresta, a trilha era sua velha conhecida. O cavaleiro deu-lhe rédeas soltas para fazê-lo. O garanhão negro dava tudo de si, e parecia gostar da liberdade que seu dono lhe dava. A noite estava fresca e suave. O cheiro das árvores transpirando era embriagador. A lua era apenas um risco curvo no céu. O vento tocava os cabelos ruivos do cavaleiro, o corpo movia-se junto com o do animal, com se soubesse cada movimento antes mesmo de executá-lo. Os corações batiam juntos na desembalada corrida. Havia um sorriso nos lábios sedosos, um prazer indescritível na retina verde jade. Nesse deslizar veloz ambos conseguiam uma liberdade bem vinda.

Os sons da floresta estavam nos ouvidos e sentidos de ambos. Sentira a mudança, o cheiro do medo, o grito de terror. Os dedos ágeis seguraram as rédeas guiando o animal rumo ao som do grito. A trilha sumiu e o cavalo corria por entre as árvores com destreza. Um minuto depois a clareira apareceu. As luzes do carro. Deteve o animal e desmontou altivo. Houveram perguntas, que ele não respondeu, enquanto fitava a mulher no chão. As luzes dos faróis o iluminavam, seu riso seguro, o olhar mudado causou sobressalto. Tudo aconteceu muito depressa, o tiro, o som de ossos se quebrando, o brilho da faca, o cheiro do sangue. O relinchar do garanhão, seus cascos sobre o homem que tentou segurar suas rédeas. Um minuto depois havia três corpos no chão e uma mulher desacordada e sangrando.

– Togo? Preciso de uma limpeza.

– Onde está majestade?

– Próximo à velha torre, três corpos, um veículo. Varredura cem metros à frente. Mande preparar um quarto e acorde Joshua, tenho uma mulher ferida, preciso dele e do soro, ela está morrendo.

Yasmim acordou em um leito feito de lençóis de linho e almofadas de seda, que cheiravam a lavanda. Vestia uma camisola de algodão leve. Tinha curativos nos pulsos, testa e no ombro e braço, que jazia enfaixado junto ao peito. A atadura era firme, cheirava a anticéptico. A lembrança da tortura sofrida a fez tremer involuntariamente. Os cortes… Quase podia sentir a lâmina novamente sobre sua pele… Os gritos, o modo que o braço foi torcido. A corda envolvendo os pulsos feridos.

As janelas estavam fechadas, a lareira acesa, o ambiente estava deliciosamente aconchegante. Ficou de pé com certo esforço, se percebeu tonta. Desejou água, estava com muita sede. Olhou a mesinha de cabeceira e tentou alcançar a jarra de cristal e o copo delicado. Mas tudo que conseguiu foi ficar tonta. As pernas falharam, escorregou. O impacto só não foi maior porque se agarrou na coluna de madeira da cama que ocupava. Fez força para ficar de pé e sentiu suor banhar seu rosto e corpo. Estava fraca.

– Merda… Onde estou? – subitamente se sentiu enjoada. – Alguém…?

Havia muito luxo a sua volta. Cortinas de damasco e seda, a cama era uma peça de antiquário. O tapete onde estava caída era Oriental e pelo pouco que conhecia era bem antigo e valioso. Os quadros pareciam originais. O cheiro de rosas frescas vinha de um o vaso de porcelana chinesa. As rosas eram realmente magníficas, cultivadas certamente. Rosa e branco, uma combinação delicada certamente, e de muito bom gosto.

– Preciso de ajuda… Não quero vomitar no tapete… – murmurou fraca.

– O que está fazendo fora da cama Yasmim?

A porta se abriu e alguém irrompeu no quarto. Antes que pudesse responder, ou erguer a cabeça. Foi recolhida do chão e levada ao banheiro. Braços fortes a envolveram e a apoiaram, enquanto vomitava sentada no chão. O corpo tremia, sentiu o suor molhar sua pele. Com o braço livre seguravam na borda do vaso. A mão masculina segurava seus cabelos castanhos, tocava sua testa evitando que batesse a cabeça. Estava muito fraca. Quando finalmente a ânsia passou. Sentiu uma toalha úmida deslizar por seu rosto delicadamente. Estava exausta, recostou-se no peito sólido, e tentou recuperar o fôlego, arquejava. Finalmente ergueu a vista. Um par de lindos olhos verdes a fitavam. O olhar estava escuro pela preocupação, mas com um toque curioso. Naquele momento só conseguiu continuar apoiada junto ao estranho. Não comia há quase três dias. Ele deslizou os dedos sobre sua cabeça. Só então percebeu que estava sentada em seu colo. As pernas fortes cobertas pelo jeans. O sapato de cadarço, aquele cheiro delicioso vinha dele? A mão livre segurava seu ombro…

– Onde estou? – foi um sussurro muito baixo.

A mão agora caia frouxa sobre seu colo, o peito do homem a amparava protetor. Sua fragrância máscula e cítrica a envolvia.

– Em segurança, fique tranquila.

– Estou com sede…

Foi suspensa no ar e levada de volta para o leito e lá servida de um copo de água. Bebeu com a ajuda do desconhecido e relaxou sobre os travesseiros. Tocou o braço ferido e pareceu sentir dor.

– Dr. Joshua te deu um analgésico forte, por isso o enjoo, mas vai passar.

Dizendo isso abriu a porta para a criada entrar com um carrinho, e nele o jantar. Esgotada, Yasmim não recusou a sopa. Ou o modo que a sorveu. O homem vestido com uma camisa de malha negra e jeans azul. Sentou na borda da cama e passou a alimentá-la. As colheradas da sopa quente fizeram a cor voltar ao rosto pálido, a alimentava devagar. Parou duas vezes para reunir forças. Logo sua temperatura corporal subiu, percebeu quando ele lhe tocou a testa. Alimentada e mais forte fez perguntas.

– Qual seu nome?

– Ariel Simon, e o seu se não me engano é Yasmim, não é mesmo?

– Sim… Como sabe?

– Encontramos seus documentos no bolso de sua jaqueta. – explicou colocando os canudos próximos aos seus lábios feridos. – Vamos, tome, vai lhe fazer bem. – insistiu que ela tomasse o suco de maçã.

– Minha arma?

– Não, não localizamos. – disse e a viu piscar os olhos. – Mas não se preocupe está em segurança, medicada e por enquanto só precisa descansar e recuperar as forças.

– Obrigada. – murmurou segurando sua mão sobre o lençol.

O homem tomou sua mão entre as dele e a beijou reverente.

– Descanse criança, você passou por momentos terríveis. – dizendo isso apertou suavemente seus dedos. – Logo se sentirá mais forte e poderá sair da cama e retomar sua vida. Está livre e segura.

As palavras do homem, o modo respeitoso que a tratava deu-lhe confiança. A policial Yasmim cochilou. Ariel Simon sorriu quando ela reabriu os olhos. Foi quando viu Togo no corredor, certamente precisava lhe falar. Os olhos escuros de Yasmim agora estavam fixos na face do homem a sua frente. Forçava-se a ficar desperta. Mas pestanas ficaram pesadas e antes que percebesse adormeceu.

A criada saiu levando consigo o carrinho do jantar. Ariel Simon cobriu a jovem adormecida, ligou o abajur, apagou o lustre de cristal no teto. Na penumbra pode ver a cor, o frescor da vida voltando lentamente a seu corpo. Foi quando se lembrou que ela não era Kara, não que houvesse as confundido, não. Talvez fosse os cabelos negros, o rosto pequeno, os lábios carnudos. Yasmim Deveruox era uma mulher diferente e provavelmente não sentia medo do escuro como Kara, sua campeã. A lembrança dela o enchia de um sentimento bem conhecido de saudade e melancolia.

No corredor seguiu ao lado de Togo, e escondeu sob a capa de frieza real, o que lhe ia ao coração. Recebeu a pasta com as informações solicitadas e enquanto caminhava até a biblioteca lia o conteúdo com interesse. Quando entrou na sala Ariel se posicionou detrás de sua escrivaninha e continuou observando os documentos.

– O que faremos majestade? – o homem com traços orientais perguntou com suavidade.

– Por enquanto nada. Dentro de dois dias ela estará de volta ao mundo dos mortais.

– O que pretende fazer até lá?

– Bancar o bom anfitrião, observá-la. Precisávamos de alguém de confiança dentro da polícia. – comentou Ariel cruzando os dedos pálidos diante da papelada. Ponderava com cuidado.

– Temos Marcond Marié. – comentou Togo, mesmo conhecendo a impressão do rei sobre o policial.

– O Tenente Olivier Marié era um excelente policial, integro justo, e de confiança. Um dos poucos mortais no qual confiei plenamente. Seu sobrinho deixa muito a desejar, não gosto dele e tenho minhas duvidas sobre sua utilidade e lealdade.

– O acha capaz de nos trair?

– Ele não viveria para tanto. Mas não sinto que ele mereça a “Dádiva”. – continuou levando o punho junto ao queixo.

– Ele tem mantido a ordem e ocultado pequenos incidentes, foi através dele que consegui as informações que examina. – lembrou Togo estudando o rosto do rei.

Os Poderes do mundo vampiro mantinham informantes em varias instâncias do mundo dos mortais. Homens e mulheres comuns que por acidente haviam descoberto o sobrenatural. A eles era oferecida uma escolha de esquecer, ou simplesmente integrar um grupo seleto de pessoas que contava com a proteção de criaturas imortais. A maioria aceitava, os benefícios eram muitos. Os Poderes chamavam tais benefícios de “Dádivas”, elas variavam de acordo com o mortal recrutado. Cura para um doente, dinheiro, proteção e muito mais.

– Um dos meus Pacificadores relatou que Marcond espancou um homem até a morte na madrugada de ontem. – dizendo isso tirou do bolso um pequeno gravador e o lançou em direção a Togo.

O Líder da Ordem dos Pacificadores não estranhou receber a informação do rei. Ariel Simon andava sempre com sua guarda pessoal, e eles lhe prestavam pequenos serviços. Togo ligou o dispositivo e viu com som e imagem a brutalidade desnecessária, e por fim a execução do jovem que teve o azar de cruzar com Marcond.

– Se isso for a publico, ele estará comprometido. Como pode perceber ele não sabe andar nas sombras. Esse incidente não é o primeiro nem o único. Acho que ele não tem o perfil de que precisamos.

– Devo mandar uma escolta trazê-lo?

– Não. Deixei que tudo como planejado.

– Em três dias ele será trazido a sua presença. Devemos proceder com o ritual?

– Sim, prepare o ritual. Tomarei minha decisão nos próximos dois dias. – disse o rei com um sorriso nos lábios.

Togo se retirou da sala, Ariel Simon observou seu telefone e pensou por um momento. Pegou o aparelho e foi para a pasta de imagens, as observava com carinho, os olhos brilhavam, havia um sorriso nos lábios. Algo meio bobo e ao mesmo tempo triste. Cansado de manter a distância acionou a discagem rápida. O telefone tocou três vezes e a chamada se completou.

– Ariel… Majestade.

A voz suave da mulher tocou seus sentidos como uma carícia. Ele fechou os olhos e ficou ali captando os sons, a sua voz. No mundo onde ela existia longe dele. Sua voz suave fez os pelos de seu corpo se arrepiar.

– Não é um bom momento, pequena?

– Me dê um minuto. – pediu.

A mulher do outro lado da linha afastou a cabeleira cacheada do rosto e saiu do leito. Não queria despertar seu amante. Ela só atendeu porque o celular tremeu sobre a mesinha de cabeceira. Vestiu o roupão de Jan Kmam e se afastou lentamente. O vampiro jazia adormecido entre os lençóis de seda cor de chumbo, o corpo forte semicoberto era tentador. Os cabelos loiros sobre os ombros largos ocultavam seus olhos. A expressão pacifica que seu rosto másculo era encantadora. Na varanda Kara respirou o ar da madrugada e respondeu.

– É quase manhã. – disse sabendo do que se tratava.

– Estava dormindo com a janela aberta outra vez? – brincou ele sabendo que sim.

Houve um tempo, quando foram amantes, que era comum achá-la adormecida no divã de seus aposentos, a janela aberta, a manhã chegando perigosamente sobre seu corpo.

– Acho que adormeci… – a vampira falou num sussurro e fitou Jan imóvel no leito.

– Jan? – quis saber ele.

– Na cama. Algum problema Ariel? – quis saber notando certo peso em sua voz.

– Muitos e todos com uma única solução.

– Vamos, fale. Ainda posso ouvi-lo, majestade.

O rei continuou mudo e por fim soltou uma inspiração.

– Não seja cruel, sabe o quanto detesto quando me lembra de quem sou. Para você eu sempre serei Ariel ou… – ele se calou em tempo. – Sinto muito.

– Você me prometeu…

– Quando vem nos visitar? – habilidoso mudou o rumo da conversa. Evitando revelar o apelido carinhoso que Kara o havia presenteado e que ele prometeu jamais revelar, e muito menos falar em voz alta.

– Não faço ideia. Agora responde, o que o atormenta? – pediu gentilmente.

Conhecia a solidão do rei, e compreendia que quando ele ligava era por não mais suportá-la. Ele já estava na sacada e fitou a luz que minguava levando consigo todo seu brilho e magia. O Jardim estava iluminado pelo orvalho e o ar estava impregnado com o cheiro doce das rosas. Da transpiração odorosa das árvores e plantas que rodeavam o Château.

– Nada que minha campeã possa resolver. Assuntos de estado, mas saiba que seu interesse me enche de satisfação. – afirmou feliz. – Na verdade só queria ouvir sua voz. Saber que está me ouvindo, que estou falando aos seus ouvidos. – havia no som de sua voz uma dor profunda. Algo que só revelava diante dela.

– Fico feliz em poder servi-lo de algum modo. – começou com suavidade. – Como estão todos os “meninos”?

– Mergulhados em saudade, você nos esqueceu, abandonou. Bruce é o único que tem noticias suas e nos faz inveja a todos. Segundo ele você elegeu um único rei a quem servir. – completou um tanto amargo.

– Estou bem perto de chamar Bruce, de boca de chafurdo. Se continuar assim quando pisar em solo Francês serei presa e condenada e decapitada por traição. – brincou tentando desfazer o clima pesado.

 – Presa, condenada e mantida em cárcere privado. Serei seu carrasco. – brincou cheio de desejo.

– Como está o tempo?

– Sinal vermelho. – disse compreendendo a pergunta. – Vamos, seja bondosa, e me deixe imaginar que ainda me pertence. – foi um sussurro rouco. – Hoje preciso de você, amanhã e por mais mil anos.

– Quero que durma um pouco, hum? Parece-me cansado. Tome um longo banho, fume um dos charutos que te dei no Natal e se entregue ao sono.

– Só se ficar comigo.

– Amanhã então.

– Que seja.

– Vou desligar. – avisou vendo Jan Kmam mover-se no leito, o braço estendido, à mão buscando-a.

– Durma bem minha pequena.

– Sim, farei isso. Faça o mesmo, está bem?

– Por você sim, farei. Eu…

– Boa noite meu…

Ariel Simon fechou os olhos com prazer e desligou o celular. Pareceu estar nas nuvens. Ela num gesto de piedade sussurrou ao seu ouvido o modo especial que o designara.

 A vampira desligou o aparelho e caminhou lentamente até a cama. Jan Kmam estava sentado no leito completamente desperto. Fechava as janelas com o controle remoto. Seus olhos estavam fixos na vampira enrolada no lençol. No olhar azul havia uma sombra escura. Algo antigo e que ela conhecia muito bem. Era ciúme. Ele havia mudado, mas às vezes era impossível esconder que o velho “Jan Kmam” ainda estava vivo, amarrado e amordaçado dentro de um quarto escuro. Ele tentava, contudo, as ligações de Ariel Simon estavam aos poucos libertando o prisioneiro. Um vampiro ciumento, possessivo, que seu amante havia aprendido a controlar. Não devia abusar, esse foi um dos melhores conselhos que recebeu de Radamés.

– Minha rainha, Jan Kmam e Ariel Simon dividem sua atenção, seu coração e amor. No entanto, nenhum deles deve cruzar a linha que os separa da violência e do ciúme. Acautele-se, eles ainda estão vivos.

Deixou o celular sobre a penteadeira, enquanto Jan parecia preste a deitar e fingir que nada havia acontecido. E o fez com um suspiro cansado, aborrecido que não pode esconder. O modo como lhe deu as costas e apagou a luz diziam muito. Deitou entre os lençóis e colocou o braço sobre a testa. Sentindo-se quase rejeitada, olhou a semi escuridão do quarto e foi até o closet. Precisava tomar algumas medidas. Uns poucos minutos se passaram.

Quando os primeiros acordes da música soaram no quarto como uma carícia. Jan Kmam se moveu no leito. Voltou-se atraído pelo som do derbak, o kamanja, o nay e de um violino. O vampiro fitou o aposento buscando respostas. Kara estava no meio do quarto, sobre o tapete, coberta por um véu negro.

O olhar aguçado percebeu o fio de ouro em volta da cintura, o brilho de joias que escondiam seu sexo numa cascata de fios e adereços, contas e beatos, algo parecido cobria os seios. Nos tornozelos pulseiras e guizos, certamente para marcar o compasso da música que invadia o quarto, sinuosa como uma serpente.

 O violino jogava no ar uma melodia sensual, misteriosa provocadora. Percebeu que foi seu olhar que a fez se mover sob o véu. O corpo seguindo a melodia com graça e sensualidade. O quadril voluptuoso se moveu no ritmo do derbak. Hipnotizado, seduzido Jan Kmam recostou-se no espelho da cama. Enquanto a vampira revelava e escondia o corpo num jogo de movimentos sinuosos. A pele suave sob o véu enchia o olhar do macho que havia nele.

O cabelo longo da vampira era um segundo véu que se misturava com a transparência do tecido, que num jogo sensual, deixava ver suas curvas. A música evoluía, enquanto ela dançava com graça e sensualidade. Sorria, o atraía com seus olhos negros e misteriosos. As mãos, os braços delicados ondulavam. Provocava jogando os cabelos, girando, detendo-se, enquanto o ventre ondulava movendo as joias que lhe cobriam a nudez.

Era uma pequena demônia! Mais um mistério a ser desvendado… Quando ela havia aprendido a dançar daquele modo? Era a primeira vez que o fazia a sua frente, que revelava mais um poder. E isso o colocou louco. Aquela pequena exibição de sensualidade eram para seduzi-lo? Como ela podia supor que não a desejava?

Jan Kmam a viu ondular o corpo, e pernas, braços, empinando-se em giros, os olhos o seduzindo, convidando. Os havia pintado de negro, algo que ele adorava, pois a deixava ainda mais misteriosa. A música se tornou mais rápida. Ardia de desejo. Sabia-se detentor de uma joia preciosa, mas aquela exibição deu ao vampiro mais um motivo para ferver de ciúme. Ciúme que escondia, e fazia evaporar na sala de ginástica socando o saco de areia. Aquela dança era uma provocação que seria respondida a altura.

A música chegou ao ápice. Jan Kmam já estava de pé, no centro do quarto, nu, excitado. A vampira não se intimidou, e tão pouco parou de dançar. Girava, rodopiava seguindo os últimos acordes de uma batalha vencida com sorrisos e sensualidade. Sorriu vitoriosa ao perceber os efeitos de sua provocação sobre o corpo do amante. A música chegou ao fim numa batida elevada e deixou a vampira que girava diante do amante.

Ele observou os olhos da amada sob a fina proteção do véu, o modo que arfava levemente. O vampiro estendeu a mão em sua direção puxando o véu. Que escorregou e a deixou coberta somente pelos dois adereços, que ele olhou com fascinação. A vampira era uma visão extremamente sedutora. A pele levemente rosada, afinal esteve dançando e isso agitava seu sangue. A pintura dos olhos a deixando exótica, os lábios entreabertos. O corpo nu coberto apenas por joias. Pérolas e pedras, fios de ouro, contas e pequenos cristais eram tudo que a separavam dele. Tocou de leve algumas das contas e joias. Podia sentir o tremor em seu corpo quando os dedos alcançaram a pele. Ela se entregava, de certo modo, submissa a ele, vulnerável como há muito tempo não se deixava ver. Isso o excitou grandiosamente.

A mão firme seguiu por seu ventre numa carícia torturante e alcançou o colo, o pescoço. Os cachos se enrolando nos dedos, cobrindo o anel de safira, que trazia na mão. A trouxe para si num gesto firme, os dedos quase cruéis sobre a nuca. O beijo foi esfomeado e apaixonado. As mãos fortes a envolveram pela cintura estreita, apertando-a levemente, a erguendo do chão. Algo que fez os guizos se agitarem, os pés apontarem para baixo.

– Acho que está tentando me dizer alguma coisa, não é mesmo?

Os olhos azuis do vampiro prendiam Kara. Na semi escuridão podia ver o quanto estavam escuros pelo desejo que ela acendeu dentro dele. Segurou-se nos braços fortes. Sua excitação era evidente e palpável, tocava-lhe o quadril. Havia conseguido provar algo a si mesma, e a Jan Kmam. Ele a segurava no ar, para que sua face ficasse próxima à dele. Uma demonstração de força e posse.

– Sim. Você compreendeu, meu amor?

– Perfeitamente.

Um segundo depois a desceu ao chão. Num puxão fez as joias caírem aos pés de Kara. Ainda a prendendo pela cintura Jan Kmam a beijou. Separou a boca da sua e num murmúrio disse:

– Realmente precisamos conversar.

Kara se viu mais uma vez erguida do chão e levada ao leito. Quando sentiu os lençóis sobre as costas, entreabriu as pernas e recebeu seu amante com um gemido de prazer.

O cheiro de incenso no corredor da ala norte do Château, era delicioso. Ariel Simon seguiu o agradável aroma de Benjoin e encontrou Asti. Ela estava sentada junto à janela aberta. Envolta pelo brilho suave da lua. Havia a musica de Ravi Shankar’s enchendo o ambiente. Demétrius estava fora em missão, só partiu porque a vampira, a seu pedido, ficou sob a guarda do rei. Estavam enfrentando um novo inimigo. Ele precisava saber que ela estava segura para partir.

– Venha, sente-se comigo. – ela convidou sabendo que ele estava as suas costas.

– Não quero interromper.

– Estava apenas admirando a lua, isso você pode fazer comigo. – disse tocando o tapete ao seu lado. – Já que nunca conseguiu se desligar. – brincou ela olhando sua face.

O rei sentou ao seu lado e imitou-lhe a posição, pernas relaxadas, mãos sobre as coxas. Sorriu e sentiu a mão delicada da vampira tocar sua face suavemente e por fim beijar seu rosto. Ariel beijou-lhe a mão e suspirou.

– Estou cansado.

– Mais um ataque? – perguntou olhando sua face triste.

– Sim. Há duas semanas, deixaram uma caixa no portão principal.  Duas vampiras dessa vez, ambas decapitadas. – o rei falava com tranquilidade, mas era possível sentir sua dor. – Jordana estava conosco há quase mil anos. Era excepcional, sempre comparecia ao Conselho, participava de algumas reuniões dos Lordes, como convidada, afinal possuía idade para isso.

– Quem era a outra?

– Beth, sua companheira. Acho que se lembra dela, esteve no último Conselho. Foi nomeada “Observadora” dos novos vampiros na America.

– Seja quem for ele está matando as mais velhas dentre nós. – comentou Asti sentindo a mão do rei sobre a sua.

Não haviam pistas, rastros, mensagens, nada que pudessem ligar as mortes a um inimigo conhecido. Ele agia silenciosamente, matando somente vampiras acima dos duzentos anos. O primeiro corpo foi entregue na casa de Romano, em Veneza. Uma caixa de metal sem marcas. Dentro o corpo de Nicki. Nos últimos cem anos ela estava vivendo na Austrália. Conheciam-se há quase duzentos anos. Misha foi o próximo, e logo depois Bruce, e agora o rei. A caixa foi deixada nos portões do Château. Dentro Jordana e Beth feitas em pedaços.

Cinco vampiras em um mês. Demétrius estava buscando pistas junto com sua nova parceira, Maya. O Livro há chamou um mês depois da morte de Frigia. Eles haviam se dividido buscando respostas. O assassino agia como um maldito fantasma. Os Poderes exigiam respostas, mas não havia nenhuma para ser oferecida. Falava-se em traição dentro do Conselho. O alvo era o rei. Afinal todas as vítimas foram em algum tempo amantes do rei.

– A culpa não é sua Ariel. – começou Asti lhe devolvendo um pouco de força.

– Estou tentando aceitar isso, mas fica difícil, quando se recebe o corpo de suas ex-amantes em pedaços. – ironizou ele amargo.

– Maya e Demétrius nos trarão algumas respostas.

– Assim espero. – comentou sentindo-se um pouco mais relaxado.

Era a musica e o incenso. A presença, a voz conhecida de Asti, que o animava dentro da solidão. Sabia viver dentro das sombras, que o trono lançava sobre sua imortalidade. Mas até mesmo dentro das salas vazias de sua mente era possível ver luz. Uma luz como a da lua, que os banhava dentro do aposento. Todos estavam longe, Otávio além do Jardim, dentro do Templo. Bruce mergulhado em tristeza pelo desaparecimento inexplicável de Martan. Diana e Marie estavam em peregrinação buscando um antigo manuscrito. Romano ainda em Veneza, Misha chegaria logo, isso o animou. Jan e Kara estavam dentro de um paraíso chamado, amor. Todos os outros estavam cuidando de suas vidas, enquanto lhe sobrava o esquecimento, o silêncio.

– Estou aqui meu querido amigo. – disse a vampira percebendo o silêncio do rei. – Sabe que pode contar comigo, não é mesmo?

– O que desejo, não pode ser a mim oferecido. Nem pelo mais fiel dos meus súditos. – sussurrou magoado.

Ele estava cansado, mas parecia não querer se render ao sono que deveria estar evitando. A tristeza o consumia.

– Deve esquecer o passado e buscar o futuro. E o futuro se chama Isobel.

– Ela não atendeu ao chamado do sangue. Isso significa que está morta, ou não quer companhia.

– Significa que deve ir até ela, nada mais…

– Diga isso aos poderes… Eu não quero falar disso, minha amiga. – afirmou exasperado.

– Sabe, para tudo existe uma saída. – ela afirmou.

– O que seria de mim sem você?

– Não faço ideia. – brincou ela se erguendo do chão.

Calçou seus sapatos exóticos feitos de seda, e com um olhar fechou a janela. A vampira estendeu a mão para o rei, que a aceitou. Ela o puxou para fora do quarto e seguiram juntos pelo corredor.

– Estou cansada de dormir sozinha, sinto falta de Demétrius. – confessou com um sorriso tímido. – Posso ficar com você essa noite? – perguntou olhando a noite morrer através dos arcos das janelas que os Pacificadores fechavam se preparando para a manhã.

– É sempre bem vinda.

Seguiram pelos corredores conversando suavemente. Togo lhe entregou algumas cartas e se despediu. As portas, as cortinas se fecharam. Minutos depois Ariel estava deitado no leito. Asti chegou pouco depois, vestia um pijama de seda, e quando deitou envolveu o corpo do rei junto ao seu. Os braços delicados o envolviam de forma fraternal. Ele depositou a cabeça junto ao seu ombro, os braços a envolvendo pela cintura, as pernas entrelaçadas. A apertava junto a si levemente como se a vampira fosse um ursinho. Os dedos da vampira acariciavam os cachos vermelhos do cabelo do rei. Enquanto ela cantava suavemente. Ele suspirou e aos poucos relaxou. O corpo ficou menos tenso, e até mesmo o abraço, que fechou em redor da vampira afrouxou. Estava sendo vencido pelo sono tão bem vindo e necessário mesmo para ele. Por fim beijou sua testa larga e respirou fundo. Pensativa. Os Poderes o estavam matando, Ariel precisava encontrar Isobel e bem depressa. Estava visível em seu corpo, no cansaço de sua mente. Necessitava de uma companheira. Alguém para dividir o leito, e a imortalidade. Para lhe dar a mão, sorrir, ou chorar junto com ele. Ariel Simon não demonstrava, mas estava muito só. A distância imposta por Kara, o feria, enfraquecia lentamente. Não era culpa dela, possuía um amante. Era hora de buscar alguém para ficar ao seu lado.

Um suspiro baixo deixou claro, que o rei finalmente havia conseguido dormir. Asti estava decidida, assim que a noite chegasse procuraria Bruce, ela precisava falar com os vampiros no Templo. O rei carecia estar forte, seguro para vencer um novo inimigo. Para tanto necessitava encontrar a rainha. A vampira apagou as luzes e mergulhou na inconsciência.

Breve  a continuação “Mudança de Planos”.

Comentários são bem vindos.

Beijos mordidos.

11 thoughts on “Crônicas de Alma e Sangue”

  1. Estou adorando! Ansiosa pela continuação!

  2. Amei Naza… me dá a nostálgica alegria de reviver momentos bons que passei ao lado de Jan, Kara e Ariel… nunca nos deixe sem eles… por favor… bjs mordidos!!!

  3. Nazarethe Fonseca said:

    Também acho o máximo volta ao mundo de Alma e Sangue, é como voltar pra casa. Ah! Andei pelos jardins, nos corredores. Foi delicioso, breve mais uma crônica. 😉 Divulguem para as amigas. Beijos mordidos!

  4. Desesperada esperando a continuação…

  5. Juliana Ribeiro said:

    Estou adorando os contos, inclusive os estou salvando em PDF para poder acompanhar em qualquer lugar, porém adoraria bem mais se eles fossem lançados em livro, de qualquer forma fico feliz que você tenha continuado contando mais sobre os personagens, pois confesso que fiquei ansiosa para saber se Ariel vai ficar com Isobel no fim das contas e com o ultimo livro Rainha dos Vampiros não me convenci de que aquele seria o fim de uma saga tão arrebatadora!

  6. Oii, gostaria muuito de saber se você tem alguma intenção de escrever sobre o Lucien?!
    Beijinhos

  7. Cristina Sousa said:

    Ah é uma delicia saber um pouquinho mais deles!Depois de ler os trës livros, decidi que queria conhecer mais sobre essa escritora brasileira fantástica, Que me levou de Paris para o Egito em algumas páginas! Vou começar ler A Rainha dos Vampiros hoje, ansiosa

  8. *ansiosa pela continuação*

  9. Eu tbm!!!

  10. tathyane said:

    tera continuacao quando

  11. Tatiana said:

    Adorei ….lindo demais total e completamente apaixonada pela série. Onde encontro os outros capítulos???

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