Quem Conta Um Conto…

20150930_205635Aumenta um ponto, é o que dizem. Eu fiz o caminho inverso de muitos escritores. Comecei com um livro de 478 páginas e depois escrevi um conto de cinco paginas, A Partida, ele foi publicado no Jornal o Galo em Natal/RN, foi muito bom ver meu conto num jornal de cultura. Isso me deu forças para continuar.

Dai em diante não parei mais, contos, livros. Alguns foram publicados, outros continuam em minha caixa. O que mais me anima é ver a pilha que acumulei nos últimos anos. Sem falar os contos que publiquei em E-Book.

O mais recente saiu na versão impressa esse mês pela editora Avec, Coleção Sobrenatural: Vampiros. Meu conto – Olho Por Olho.

20151003_214610O conto gira em torno da caçada de um serial Killer. Cecily Marcos é uma renomada professora de psicologia criminal, que ao traçar o perfil de um assassino depara-se com o próprio passado. Segredos sombrios virão à tona e um poder antigo e invisível aos olhos dos mortais vai ajudá-la em sua busca. Capturar o criminoso e salvar a próxima vítima torna-se o seu objetivo. O conto conta com a participação de Ariel Simon, o rei dos vampiros da série Alma e Sangue.

Não deixem de ler tenho certeza que vão gostar.

Abaixo minha lista de Contos:

Coleção Imaginários, Névoa de Sangue – Terror

Amores proibidos, O Rosa e o Negro

A boca de Ícaro – Erótico

O Olho que tudo Vê – Livro, Terror.

Miss. Dragonfly: E a Máquina dos Sonhos

Coletâneas de Contos:

Anno Domini – O Preço da Vingança

Nécropolis Bruxaria, A Ciranda dos Desejos

Anjos Rebeldes, Na Terra Como no Céu

Sociedade das Sombras, Contos Sobrenaturais, A Escolha

Depois do Fim – Sociedade Sombria –

Coleção Sobrenatural: Vampiros – Conto – Olho por Olho

Eternamente Só – Capitulo I

 

vanished_by_etoilesu-d8v7i9g

Para fazer do mês de Outubro um pouco mais especial, um presente para os fãs da série Alma e Sangue. Mais um conto das Crônicas de Alma e Sangue. O conto é Eternamente Só. Ariel Simon, Kara, Jan Kmam e outros vampiros passeiam por esse conto nos dando um pouco do prazer de ser imortal.

Uma hora de chuva ininterrupta. Um temporal havia desabado sobre Paris. Na TV os telejornais pediam cautela e se possível permanecer em casa até que tudo passasse. A maioria dos vampiros que estavam no Château Coucher du Soleil esperando uma audiência preferiram não se molhar. O rei só os atenderia na segunda feira, estavam livres para ir ou ficar. Era sexta feira e Ariel saiu pelos portões com rumo certo.

Quando viu o fosso que circundava a construção imponente, antiga e bela transbordando se preocupou, Kara havia saído nas primeiras horas da noite. Segundo um pacificador, o sol ainda sumia no horizonte quando ela envolta em um manto espesso de veludo cruzou os portões.

Estava em perseguição a um fora da lei, um vampiro que estava matando jovens adolescentes. O crime fora julgado pelos Poderes e a sentença era a morte. Deveria ser encontrado e decapitado. Conseguiu boas pistas trabalhando sozinha. Mas sabia que os Pacificadores a seguiam quando conseguiam.

Ela se voluntariou para caçar o vampiro. Foi durante uma das audiências abertas, ela sabia que naquelas condições o rei não poderia lhe negar o direito de campeã. Apesar de ter provado inúmeras vezes sua capacidade e bravura. Para a pessoa do rei, Ariel Simon, ela jamais seria forte o suficiente. Bem, esquecer seu mestre e grande parte de sua história não foi exatamente benéfico. Esse estado só reforçou uma fragilidade que não sentia, que não possuía.

Lembrava-se daquela primeira noite, quando saíram do Templo da esfinge. Além da construção só havia o deserto e a noite. Conduziram-na para o transporte e por fim para o jatinho do rei. Sentia-se desconectada de tudo e de todos. Os ouvia sussurrando, falando sobre ela e sua condição. Até mesmo sobre aquele vampiro que a olhou e partiu. Aos poucos se lembrava de ser vampira, dos poderes, dos amigos e inimigos. Estava tudo lá, bastava acessar, no entanto tudo estava diferente, longínquo.

A medida que provou estar lúcida e sã a vigilância diminuiu. Mas podia sentir seus olhares sempre sobre ela. A liberdade voltou, mas controlada. A pedido de todos ficou no castelo, ou como chamavam aquela bela construção, Coucher du Soleil. Vagou por ele nas noites que se seguiram e via imagens, ouvia vozes do passado, do seu ou eram o de outra mulher vampira? Descobriu ter opositores. Eles andavam pelos corredores e comentavam que a amante do rei havia voltado, deixado seu mestre para galgar o poder. Sussurros maliciosos, cruéis sobre ela e o rei. Por vezes aparecia a frente deles e os observava em silêncio ameaçador. Muitas vezes apenas se isolava e tentava lembrar quando fora amante daquele belo vampiro ruivo, de corpo atlético.

Radamés tirou muito dela e jamais lhe ofereceu uma boa explicação do porque o fizera. Não adiantou chamá-lo quando dele lembrou. Simplesmente ele não veio. Estava sozinha, o coração mudo dentro do peito. Lembrava-se dele batendo e era consolador.

A resposta era lutar, quando se ofereceu para caçar o vampiro diante da assembleia sentiu-se viva. Ela traria o culpado pelas mortes das adolescentes ou cortaria sua cabeça. O rei diante dos Poderes, dos seus súditos cedeu à petição. Afinal, ela ainda era sua campeã, não iria desmoralizá-la diante da corte. Poucos sabiam do seu real estado.

Togo lhe ofereceu dois pacificadores como apoio, mas ela recusou, enquanto se armava para sair na noite. Sozinha trabalhava melhor. Consegui algumas pistas, mas nenhuma delas levou-a ao vampiro que procurava. Até que ouviu um nome nas ruas, Górki.

– Você é a campeã do rei não é mesmo? – o vampiro de cabelos curtos e negros perguntou a certa distância.

– Sim, sou. O que tem a dizer?

A vampira observou cuidadosamente o vampiro de pouco mais de cem anos e esperou. Ele queria falar, mas pelo visto tinha um preço. Aproximou-se com cautela, deixou clara sua presença e quando tocou sua mente foi com um nome.

– Acho que sei quem procura campeã.

Ele saiu das sombras até que a luz do poste o tocasse. Ela podia vê-lo bem no escuro, sabia com o que lidava. No entanto o jovem parecia disposto a impressioná-la. Vestia jeans, botas, camisa e uma jaqueta surrada. Não tinha selo de herança nas mãos. Ou seja, um anel de linhagem. Seria um desgarrado? Possivelmente. Sabia que se procurasse alguém viria até ela e lhe diria a verdade. Por isso recusou os Pacificadores, eles eram bons em combate, mas afastavam os mais acanhados. Olhos claros, cabelos castanhos. Beleza, uma boca convidativa.

– Fale.

– Tudo tem um preço…

Num piscar de olhos o vampiro se viu erguido no ar, pregado a parede como um inseto. Enquanto os olhos escuros da vampira o examinavam bem de perto. Os caninos dela estavam à mostra, a íris escura como um abismo negro. Aquele olhar era estranho e vazio como o de um demônio seria.

– Escute bem – começou ela suavemente – Sou a campeã do rei, estou caçando um maldito desgarrado, que esta pondo o seu rabo e o meu na luz do sol. – cuspiu gelada – Acha que pode negociar comigo?

– Eu só quero ver o rei…

– Posso espremer você até que sangre, o que acha?

A pressão que exercia sobre o corpo do vampiro era esmagadora. Faltou-lhe ar nos pulmões. O medo o enfraqueceu.

– Sou um desgarrado… Só quero uma chance… De ver o rei…

– Por que deveria acreditar?

O vampiro caiu no chão e tentou se recompor, quando foi deixado livre pela campeã. Tossia e tocava a garganta. Ela era tudo que diziam nas ruas, majestosa e mortal. O aroma de seu perfume estava nele sobre sua pele, jasmim. Sentiu medo. Caído observou suas roupas negras de seda, veludo e couro e tentou pensar com clareza. Trazia a cabeleira negra presa numa trança, que pendia sobre o ombro e colo.

– Fui transformado e abandonado. Aprendi a sobreviver sozinho, tenho cento e vinte cinco anos. Quero ser inscrito no Livro. Sei que existem Poderes… – os olhos negros o avaliavam. – Nem todos tem sorte.

Ela quase o ouvir dizer: sua sorte.

– Como se chama? – falou brincando com sua adaga.

– Samuel, mas me chamam de Samy. – revelou fitando a lâmina nas mãos da vampira.

Dizia a verdade. Kara guardou a lâmina e pegou o telefone. Falou com Togo e consultou as regras. O jovem vampiro seria recolhido, o sangue analisado pelo Livro, se seu criador fosse um inscrito pagaria por seu abandono. Se não ele seria adotado. Teria uma audiência com o rei e caso aceitasse os termos seria inscrito. Conseguiria um mestre tutor e aprenderia a viver no mundo vampiro civilizado. Estaria dali em diante vivendo debaixo de leis, que poderiam levá-lo a morte, caso pisasse em falso. Poderia obrigá-lo a dar-lhe as respostas, mas seria cruel, além disso, Samy não revidou seu ataque como esperava.

Desligou o telefone e lhe passou as regras. Ele pensou por alguns minutos e as aceitou e começou a falar tudo que sabia.

– Górki tem a aparência de um jovem de dezoito anos. Mas possui trezentos, não sabe usar muito bem seus poderes, mas é cruel ao torturar suas vítimas.

Dizendo isso o jovem abriu a camisa e mostrou o peito marcado por riscos. Chicotadas. Mas porque não cicatrizaram e sumiram? Percebendo o olhar da vampira sobre as cicatrizes ele resolveu elucidar suas duvidas.

– Sal, ele me chicoteou e depois jogou sal para que as marcas ficassem para sempre. – disse Samy. – Ele caça adolescentes por prazer. Quer vampiros iguais a ele. Ele frequenta os locais aonde os jovens se encontram. E quando acha o que deseja, os mata ou escraviza.

Samy fechou a camisa e baixou a vista como se soubesse o preço por aquele crime.

– Sabe o que farei com ele quando encontrar, não é mesmo?

– Sim, sei, não sou tão ignorante quanto pareço. Sou apenas um desgarrado. Você vai cortar a cabeça dele. – falou rouco e tenso. – Foi o que ele disse que faria comigo se falasse algo para um vampiro inscrito no livro.

Nada é realmente por acaso, o que moveu Samy até a campeã foi medo.

– Sei que é proibido tocar alguém tão jovem.

– Por que ele o chicoteou? – Kara quis saber sem pressão.

– Queria me recrutar, quando me neguei ele me atacou. A maioria dos desgarrados prefere caminhar sozinho. Quando o pacto entre vocês e os lobos foi quebrado e houve a guerra no deserto, havia um líder a seguir. – ele falava sem reservas – Não gostamos de Justin Bieber. Entende?

Kara pegou seu telefone e ligou para Togo novamente. Ele localizou o vampiro nos arquivos criminais e passou um registro de imagem para Kara. Um desenho antigo de um jovem loiro e com feições de anjo.

– É ele mesmo. – confirmou Samy.

Quando desligou o celular se aproximou de Samy que se forçou a ficar imóvel e calmo. A vampira tirou um cartão do bolso e entregou ao jovem desgarrado.

– Quando estiver pronto para enfrentar o crivo dos Poderes ligue para esse número, diga seu nome e espere. Eles virão te buscar, e o resto é com você.

Ela deu-lhe as costas de partida.

– Kara?

Ela parou e esperou ainda de costas.

– Obrigada.

– De nada Samy.

Dito isso sumiu diante de seus olhos e o impressionou. Aquilo lhe trouxe uma lembrança. Aquele vampiro loiro, o seu mestre, fez isso anos atrás, discutiram e ele saiu pela porta e sumiu diante de seus olhos. Aquilo a impressionou. Jan Kmam, o vampiro que a transformou… A emoção do momento era de que o amava. No entanto, lembrar-se dela não a fez senti-la. Era apenas uma lembrança. O afastou e todo o resto.

Voltou sua mente para Górki. Ele foi procurado, mas havia desaparecido por quase duzentos anos. Bem, ele estava de volta às ruas e ela o encontraria.

Togo fechou o celular e olhou os arquivos de Górki. Devia ter suspeitado, mas a lista de procurados e infratores era extensa. Os progressos de Kara agradavam ao líder da Ordem dos Pacificadores, ela era útil nas ruas lutando, tinha bom faro. Pena seu rei acreditar que ela não era capaz. De vê-la somente como amante e não como sua campeã. E ela tentando superar as expectativas negativas se colocava em risco.

A lista de jovens mortais desaparecidas crescia, a polícia não media esforços para encontrá-las. A merda caiu no ventilador e tomou proporções de filme de terror quando dez dias depois uma das vitimas de Górki voltou para casa e drenou os pais e arrancou a cabeça de dois policiais, que tentaram detê-la. Felizmente nenhuma câmera filmou seu ataque e ela desapareceu na noite sem deixar rastros.

A tenente Yasmim ocultou os detalhes ao máximo, mas a situação estava fora de controle. Kara cruzou com ela saindo da sala onde o rei estava reunido com os poderes. Resolveu não entrar e foi para a cidade, talvez conseguisse encontrar a menina, agora vampira.

Kara tentou pensar com a adolescente. Vagava pelo prédio da escola onde ela estudava e a viu no telhado. Estava vivendo no sótão e saia à noite para se alimentar. O problema é que fazia bastante sujeira. Seguiu o rastro de sangue e sua intuição. Ao ver Kara nos túneis a menina se aproximou e a olhou. Provavelmente era a primeira de sua espécie que via. Estava suja de sangue, magra, a imortalidade visível. Não sabia como se ocultar.

Teve medo a princípio. Mas Kara soube como falar e depois de uma longa conversa conseguiu convencê-la a seguir com ela até o château.

– Não estou sozinha. – a jovem de quatorze anos falou.

– Tudo bem, temos muito espaço. – disse Kara sentindo as outras duas meninas aparecerem.

Estavam sujas, desgrenhadas. A mais nova trazia na mão uma ratazana morta, tinha a boca suja de sangue e nos olhos muita fome. Eram jovens demais para serem tocadas pela imortalidade. Preocupou-se, o que aconteceria com elas? Roubou um carro e as levou para o château. Ligou para Bruce e pediu ajuda, entrou pela ala norte, que estava fechada. Temia que as meninas se assustassem e fugissem.

Quando parou o carro e ela ajudou as meninas a descerem viu Bruce e Ariel na entrada ele sorriu ao vê-las chegar. Por algum motivo desconhecido pareceram respeitar sua presença. Era a voz do sangue? Sim, provavelmente. Elas o seguiram e foram conduzidas a aposentos, enquanto foram servidas de sangue e roupas limpas e até brinquedos para a menor. Sorriam e se não fosse pelo olhar vítreo e os caninos entre os lábios agora rosados, eram meninas normais.

– O que você não consegue Kara?

O rei perguntou ao ver as três meninas adormecidas, calmas e cientes que não poderiam deixar o château. Eram suas hospedes agora e aprenderiam como lidar com seus poderes e a fome de sangue. Duas pacificadoras foram designadas para cuidar delas. Teriam bastante entretenimento e sangue.

– A confiança daqueles que respeito. – disse andando ao seu lado no corredor vazio. – O que vai acontecer com elas?

– Na melhor das hipóteses elas ficam vivas. – falou mentalmente temendo que mesmo ali no corredor elas pudessem ouvi-lo.

– Não podem fazer isso. – disse indignada parando para olhar o rei.

O rei esperou e viu a antiga Kara, aquela que teve de matar homens e mulheres infectados por lobisomens em sua primeira missão como campeã do rei. Ela cumpriu sua incumbência, mas quando retornou veio ter com ele em sua câmara. A conversa não foi boa e ela terminou presa em seus aposentos. Naquela manhã ela dormiu em seus braços e foi maravilhoso despertar sentindo seu corpo nu, mesmo sem tê-la possuído. Ele jamais esqueceu a emoção, a sensação. Mas seu coração estava cheio de tristeza por seu mestre, Jan Kmam, que fora condenado à caixa por cinco anos. Será que ela lembraria? Ou tudo teria sido apagado por Radamés?

– Farei o possível para que sejam mantidas vivas. Mas saiba, a lei é clara nesses casos.

– Não podem executá-las, elas não pediram isso. – disse com calma e buscando racionalidade, justiça.

– Kara… Sei disso, mas compreenda, ser tocado nessa idade é muito mais perturbador e difícil de ser assimilado. Jamais terão controle absoluto. O desejo de sangue será sempre mais forte.

Ela baixou a vista e foi para uma das janelas. Pareceu compreender o que ele tentava lhe dizer, enquanto fitava a noite, as árvores que faziam parte do bosque que circundavam o château. Afinal, mesmo para um adulto a fome de sangue por vezes era incontrolável.

– Como seria feito? – perguntou tocando a pedra fria dos arcos da janela, os olhos brilhando pelas lágrimas que continha.

– De forma indolor e o mais rápido possível. Elas não sentirão ou saberão. Nada de medo para elas.

O olhar escuro da vampira buscou o dele. Ela estendeu a mão e o tocou. Os dedos delicados sobre o anel de rubi imperial. Parecia querer dizer algo, talvez agradecer, ou jurar que mataria Górki, no entanto, se conteve. Afastou-se usando de reverencia curta e sumiu pelo corredor.

– Kara?

– Sim, majestade.

– Eu sinto muito.

Com um aceno de cabeça ela sumiu na galeria e a partir daquela noite Kara desapareceu dentro de Paris. Dormia nos esgotos e procurava Górki incansavelmente. Os pacificadores a perderam de vista, mas estavam encontrando vampiros mortos, os aliados de Górki, ela os estava matando sem julgamento.

O rei ficou furioso e mandou Bruce encontrá-la, se havia alguém capaz de fazê-lo era ele. No entanto, isso levou algum tempo. O vampiro a encontrou na Avenida Samson, no 18o arrondissement. Para ser mais preciso, no cemitério de Montmartre. Estava escondida num velho mausoléu. Foi ali que se esconderam quando fugia de Jan Kmam anos atrás. Ela descobriu que ele possuía uma escrava de sangue. O episódio a levou ao rei e a conhecer parte de seu passado.

O cheiro de sangue tomou o ar do mausoléu. Bruce se preocupou ao ver a vampira. Kara estava ferida, suja de terra e sangue. Parecia ter saído de uma briga com cães.

– O que houve Kara?

– Nada demais. – murmurou tocando a cintura onde havia uma mancha de sangue. – Foi uma luta justa, três contra um… – ela gemeu e ele se aproximou.

Despencou no chão e tossiu sangue. Haviam hematomas no rosto, tinha os nódulos dos dedos feridos. Lutaram com punhos e presas a julgar pelo sangue que manchava seu queixo e garganta. Mordeu o pulso e lhe ofereceu a veia aberta.

Um minuto depois ela sorvia o sangue com ânsia. Bruce era próximo a sua linhagem de sangue e podia alimentá-la. Não rejeitaria sua oferta. Os cortes fecharam, os hematomas sumiram dando-lhe uma melhor aparência. Se Ariel houvesse visto seu estado, a prenderia em cárcere privado.

– O que faz aqui? Como sabia…?

– Vim te levar para casa. – revelou decidido. – Eu a encontrei aqui, nesse esconderijo anos atrás, não lembra? – quis saber ele semicerrando os olhos.

– Vagamente. Havia dor, mas o túmulo era bem seguro. – comentou sem citar Jan Kmam.

– O rei te enviou.

– Você pode continuar sua caçada, mas precisa voltar a um local seguro para passar o dia.

– Aqui é seguro. – explicou empurrando a pesada tampa do túmulo que vinha usando.

O mausoléu era muito antigo. Ficava longe das quadras mais movimentadas onde os túmulos eram mais novos. O que ocupava beirava os trezentos anos e tinha a entrada, o portão obstruído pelo mármore e concreto. Esperta, ela usava um túmulo afastado da entrada. Bruce notou que haviam inscrições no chão e na porta feitas com tinta e vela. Pelo visto ela havia aprendido alguma coisa com Marie, a bruxa. Aquilo afastava mortais, lobisomens, espíritos, bruxas e até demônios.

– Não, não é. – insistiu ele olhando em volta.

– Bem, estou cansada e vou dormir e você? Vai ficar aí fora?

O dia vinha chegando e qualquer vampiro de juízo precisava se esconder ou enfrentar as consequências. Bruce olhou o interior do túmulo e ficou surpreso. Estava limpo, cheirando a lavanda e forrado com um edredom negro e roxo. Havia mesmo um travesseiro.

– Vejo que esta bem instalada.

– Gosto de limpeza. Prefiro a cama em meu quarto no château. Mas estou em missão e isso não importa.

Enquanto falava entrava no túmulo, teve o cuidado de bater as botinhas e exigiu o mesmo de Bruce. Ajeitou-se e puxou a pesada tampa com a ajuda do vampiro. Quando a escuridão os envolveu ela se ajeitou agarrando ao travesseiro.

– Venha Kara pode recostar-se em mim. – disse o vampiro e a viu sorrir na escuridão.

– Isso é bom. – comentou ao aconchegar-se a ele.

– Sim, muito bom.

Ele ligou o celular e mandou uma mensagem ao rei e deixou o celular no silencioso.

– E então? Lembrou-se de mais alguma coisa? – ele perguntou percebendo que ela ainda estava acordada.

– Sim, alguns fragmentos de conversas, brigas, momentos de sexo com aquele vampiro de olhos azuis. – disse sem nenhuma emoção.

– Jan Kmam, minha querida esse é o nome dele.

– Vocês são amigos há muito tempo, não é mesmo?

– Sim.

– Por que ele foi embora? – ela perguntou sem nenhuma emoção na voz.

– Eu não sei minha querida, mas compreenda-o – a voz dele tremeu de emoção – Ele o fez por um bom motivo. Você é a coisa mais importante para aquele vampiro. Ele daria a imortalidade para salvá-la.

– Eu não sinto isso… Não consigo sentir nada por ele… – ela pegou a mão de Bruce e a levou até seu peito. – Escute – pediu – Meu coração está morto e Jan Kmam é… – A voz dela ficou rouca, presa na garganta como se doesse falar seu nome. – Eles morreram juntos em meu peito.

O silencio em seu peito era bem real sob os dedos de Bruce que tocou seu rosto e beijou sua testa de modo consolador.

– Sonhei com ele, fazíamos amor, mas era como se… Não há nada lá, são somente imagens. – disse sincera.

– Entendo. – disse Bruce contendo sua revolta e tristeza. – Acredite em algum momento você vai lembrar e vai sentir essas emoções… Tudo vai voltar, eu apenas espero que seu coração possa aguentar o amor que está ai adormecido, quando ele despertar. – comentou sorrindo tristemente.

– Acha que ele sofre?

– Sim, muito.

– Lamento por ele, mas não posso sentir o que ele sente. – afirmou pensativa.

– Bem, agora durma você precisa se curar completamente.

Dizendo isso a abraçou, acariciava seus cabelos de modo suave, ele sabia como mimar sua amiga. E logo ela adormeceu. Ele ficou pensando por longos minutos e decidiu que falaria com o rei e depois com Jan Kmam. Aquela situação já fora longe demais. Eles precisavam ficar juntos, só assim ela se lembraria. Ariel estava se comportando como um cavalheiro. Mantinha-se distante apenas a protegendo.

Na noite seguinte Bruce despertou se se viu sozinho no túmulo. Ela havia partido e deixado um bilhete.

– Diga ao rei que logo voltarei.

Ariel teria de esperar um pouco mais para vê-la cruzar os batentes do château. Havia se tornado uma arma letal. Esquecer seu mestre deu a ela uma espécie de independência fria e crua. Aparentemente não temia a morte, estava desconectada de seus sentimentos. Lançava-se a luta, aos desafios sem medo.

O Salvador – Capítulo IX – O Tempo da Verdade – Parte II

a7700b53f7d8893dae7a54149779d127O silêncio pode ser assustador. A liberdade sempre me foi muito preciosa. Ser imortal é só acentuou esse sentimento. Poderes, sentidos, a ausência de medo. Medo. Bem, ele ainda nos assalta, mas é diferente, é algo que podemos olhar com frieza. Na mortalidade nossos sentimentos e corpo nos traem, e o medo é um limitador, enquanto na imortalidade é uma mola que nos impulsiona a ação.

Minha liberdade fora roubada. Estava em uma cela quase medieval sob o Coucher du Soleil. A acusação? Traição. Trai meu criador com outro vampiro. Fui pega na cama com meu amante, um flagrante. Diante das leis do mundo dos vampiros, sou menor, uma criança com poucos direitos, muitas obrigações e sujeita a muitas penalidades.

As grades, a ausência de janelas, o corredor, a grossura da porta deixaram clara a impossibilidade de fuga. Aquele lugar era muito antigo e certamente fora projetado para deter criaturas com poderes bem superior aos meus. O lugar era limpo, cheirava a detergente. Pelo menos não era degradante. Havia até mesmo um sanitário. Bem, era inútil, a menos que desejasse vomitar. Isso um vampiro consegue fazer. Todo o resto é improvável.

Desejava minha cama, ou a de Misha, onde nos amamos pela primeira vez. Como minha vida pode mudar tanto em apenas um ano? Um terremoto a cada três meses.

Quando o líder da Ordem dos Pacificadores, Togo, nos deixou cientes das acusações percebi que Virgílio queria vingança. Não sabia o que pensar, o que fiz? O vampiro de descendência oriental nos deixou e eu desabei no chão agarrada as grades e chorei de raiva e fui amparada por meu novo amante. Sim, ele era meu amante e nada que Virgílio fizesse mudaria isso. Meu coração agora pertencia a Misha. Abraçada a ele tendo as grades como um limitador, eu lamentei.

– Eu sinto muito… Não deveria ter ido procurá-lo…

– Dora? Olha para mim. – ordenou Misha fitando meu rosto manchado com lagrimas tintas. – Eu teria ido atrás de você mais cedo ou mais tarde… Eu te amo.

Dizendo isso ele cobriu minha boca num beijo faminto e cálido, que fez meu coração se aquecer, bater tão depressa que acreditei que explodiria. O segurei forte junto a meu corpo e solucei. Ele acariciou meu cabelo e costas. Ele só provou o que verdadeiramente sentia por minha pessoa.

– Demorei muito, deveria tê-la beijado quando entrei em seu quarto e a vi dormindo. – começou ele beijando meu rosto para limpar as lágrimas. – Senti seu perfume e meu coração disparou. – murmurou e acariciou meus lábios com o polegar.

– O coloquei em perigo. – disse tocando seu rosto.

– Já lidei com coisas piores que uma cela, uma acusação. – disse olhando-me nos olhos. – Quando a tomei como minha amante conhecia os riscos. Seremos julgados, mas eu terei vez e voz. Usarei meus direitos como lorde. Ariel é um rei justo, apenas acalme-se, tudo vai acabar bem.

Ele podia sentir meus medos, minha frustração e culpa. Ficamos sentados no chão mantendo contato por entre as grades. Contive as lágrimas, enquanto ele fazia planos para quando saíssemos daquela confusão. Quando o dia nasceu ficou claro, que não receberíamos mais nenhuma visita. Tremi de frio. As celas eram de pedra maciça e não ofereciam conforto. Adormeci agarrada a Misha, mas ele me despertou delicadamente e me fez ir para a cama em minha cela. O colchão era fino, mas era melhor que o chão gelado.

Deitei-me e fiquei insone, queria respostas. O que nos aconteceria? O que Virgílio poderia fazer contra Misha? Não conhecia o suficiente das leis para saber o que aconteceria agora. Ele era um lorde e estava sendo tratado como criminoso.

– Misha?

– Hum? – respondeu atento.

– O que realmente aconteceu depois que desmaiei?

O silêncio que pesou entre as celas falava de algo além de seu poder. Ele respirou alto e aquilo significava problemas. Misha estava deitado no catre, o braço sobre os olhos. Mas sentou, e se recostou na parede e olhando em minha direção começou a falar.

– Os mais próximos sabem que Virgílio amou apenas uma mulher, Zafara. Não a conheci como mortal, ou vampira, mas me disseram que era muito bonita. Uma perola rara, que Virgílio tratava como rainha e Galeso esmagou num gesto de vingança. Eles são inimigos há tanto tempo, que sequer sabemos o que gerou a rivalidade. Mas certamente é algo, que ficou mais sério quando ele caçou e matou Zafara e devolveu aos pedaços para Virgílio.

As palavras de Misha mantinha um tom baixo, profundo. Ele tentava não me alarmar, mas era impossível. Estive nas mãos de Galeso e escapara ilesa. Então fora por isso que ele me abandonou? Medo que fosse feita em pedaços? Abracei os joelhos e fechei os olhos. Misha fazia o caminho mais longo para me revelar à verdade.

– Seu criador descende quase diretamente do sangue dos Anciões. Acho que ainda não ouviu falar deles. Mas sendo cria de quem é, melhor saber a verdade. Os anciões são os mais velhos vampiros do mundo. É deles que todos nós descendemos. Em algum momento nossos mestres receberam seu sangue. Virgílio é o segundo herdeiro do sangue de Ordalia, a líder das anciãs. Isso faz dele um vampiro muito velho e poderoso.

– Mais velho que o rei?

– Sim, mais velho que Ariel. Contudo, Virgílio não anseia por poder. Poucos sabem de sua real idade. Entende?

Balancei a cabeça afirmativamente compreendendo um pouco mais da árvore de onde eu havia caído.

– Porém no que isso me toca? – quis saber com inocência.

– Os anciãos têm alguns poderes diferentes dos que desenvolvemos quando vampiros. Os mortais que herdam seu sangue ao invés dos poderes receberam dons sombrios na grande maioria. – ele se calou. – Eles têm nomes, tais “dons”. A febre do sangue, o sussurro, a visão, a fúria. Você desenvolveu a marmórea.

– Desenvolvi o que? – quis saber realmente confusa.

– Quando é submetida a muita pressão seu organismo se defende. Sua pele, sangue e músculos assumem a textura do mármore. Isso é apenas uma alusão ao seu estado. Seu corpo enrijece assumindo a firmeza, a cor do mármore…

As palavras morreram em seus lábios. Ele baixou a vista, deslizou a mãos pelos cabelos claros. Por fim olhou-me novamente e suspirou.

– O treinamento, os testes, ter de escolher um novo mestre, lidar com o retorno de Virgílio, a fizeram ter seu primeiro episódio. – ele falou frustrado.

Ouvia a descrição da “doença” percebi que realmente sentira-me levemente enrijecida, mais pálida que o normal para um vampiro. A dor no peito, o braço sem controle quando lutava. Acreditei-me tensa devido à presença de Virgílio. Sua presença disparou o ataque. Estava muito bem, mas ao vê-lo cruzar a porta senti a primeira fisgada.

– Existe uma cura? – era bom saber.

– Não. Tudo que pode ser feito é manter-se longe de pressões. Nada de stress para você. Isso a manterá bem e desperta para nosso mundo. – completou sem muita confiança.

– Mas não faz sentido, se sabiam disso, por que o rei me chamou para ser sua guarda costas? Os testes? – aquelas perguntas mereciam respostas.

– Acreditávamos que desenvolveria o mesmo “dom” que Zafara manifestou. – explicou Misha de imediato.

– E qual seria?

– A fúria. Ela perdia a consciência e tornava-se extremamente violenta pelo que soube. Quando tudo passava não se lembrava das matanças que promovia com lobisomens, mortais, vampiros. Virgílio não conseguia dominá-la. Seu sangue não lhe dava a paz perdida. Por fim descobriram, que se ela se desgastasse treinando, os episódios ficavam controlados.

– Por isso me afizeram treinar. E todo o resto. – falei compreendendo tudo.

– Sim, seria melhor provocar a crise e estar pronto para lidar com ela. Do que ser pego de surpresa. Infelizmente nada aconteceu e você desenvolveu um dom diferente. – lamentou Misha.

– O que acontece se eu não tiver o sangue dele?

– Pode não voltar à consciência. – ele disse desgostoso. – Ficará presa nesse estado indeterminadamente.

– Isso é loucura, não pode ser. Sou feita de carne e sangue. – tentei racionalizar as boas notícias que recebera.

– Acredite-me, é possível. Quando desmaiou seu corpo se enrijeceu. Não consegui fazê-la despertar. Virgílio quase não conseguia abrir seus lábios para que sorvesse seu sangue.

Dizer aquilo lhe custou muito. Outro homem, outro vampiro conseguiu ajudá-la, ele apenas teve de observar e perceber, que ela não lhe pertencia. Aquelas palavra calaram fundo nele e por algum tempo apenas ficou em silêncio. Mergulhado nos acontecimentos que presenciou.

– Você precisa dele.

– Preciso apenas do sangue dele. – o corrigi com carinho.

– Meu sangue não pode ajudá-la Dora. – completou cansado.

– Foi por isso que o rei me devolveu a ele?

– Sim. É nova demais, mas também preciosa para que sua existência seja perdida. Somos poucos, os antigos. Cada nova cria representa nossa sobrevivência como espécie.

– Estamos em extinção? – perguntei confusa.

– Somos poucos e não estamos nos reproduzindo. – completou Misha.

– Não preciso de Virgílio. Ele só me trouxe tristeza, seu abandono me feriu mortalmente. Tudo morreu dentro de meu coração e renasceu por você, Misha.

Fui até as grades e o fitei suplicante. Malditas grades! Eu o queria tanto. Um minuto depois nos beijávamos apaixonadamente. Cansada e sonolenta fui para a cama e dormi durante quase todo o dia. Tive a impressão de ouvir conversas, sons de passos, mas estava sonolenta demais para entender o que ocorria. Mas pude perceber que Misha falava com alguém.

Quando a noite chegou despertei e estava faminta. Tentei esconder minha necessidade gritante por sangue. Mas era visível, estava muito pálida, agitada andando na cela de um lado a outro. Quando se é jovem sangue é uma urgência. Minutos depois ouvimos passos no corredor e logo Togo apareceu. Tive a esperança que ele trouxesse sangue consigo, mas ela morreu ao vê-lo de mãos vazias e acompanhado por meu antigo mestre.

Ver Virgílio me encheu de uma sensação estranha de medo e raiva. Recuei para o fundo da cela onde as sombras me esconderiam. Foi um instinto animal de sobrevivência e pouca lucidez. A vampira estava bem desperta e faminta. Pronta para o ataque.

Havia também um Pacificador, que fez menção de abrir a minha cela.

– Se fosse você não faria isso, é perigoso.

Togo que estava atento a minha atitude deteve o pacificador. Minha herança sanguínea tinha peso realmente. Ele fitou Virgílio e esse entendeu o recado.

– Vim buscá-la Isadora. – ele avisou com suavidade e altivez.

– Não vou a lugar algum em sua companhia. – minha voz estava calma e segura. – Peço que retire as acusações que nos fez. Eu sou livre desde o dia que me abandonou aos cuidados de uma bruxa. Lembra?

– Tem conhecimento das ordens do rei?

O líder da ordem dos Pacificadores me perguntou. Ele trazia nas mãos uma pasta antiga. Em sua face estava estampada imparcialidade, que costumava usar para resolver do mais simples, ao mais complexo caso dentro do mundo vampiro.

– Sim. Fui avisada, mas não vou acatá-las.

– Tem consciência de que pode ser punida por isso?

– Por quem? Pelo rei ou por esse ai que se diz meu mestre? – debochei e o vi semicerrar os olhos perigosamente.

– Por seu mestre primeiramente. – disse Virgílio do lado de fora da cela.

– Fiz minha escolha. Misha é meu novo mestre e amante.

Dizendo isso sai das sombras onde havia me ocultado e estendi a mão pelas grades. Imediatamente Misha a segurou me passando apoio.

– Podemos resolver isso pacificamente, Virgílio. – começou Misha dando um passo a frente para o olhar nos olhos. – Cuidei de Isadora e nos afeiçoamos. Não havia impedimento ou crime. Apenas deixe-me ficar com a guarda dela. O rei não fará objeções. – ele falou e olhou Togo.

– Não. O rei não faria nenhuma objeção. Na verdade tenho ainda os papeis comigo. Mas é claro, que Virgílio teria de dar seu sangue para protegê-la. Isso é simples. – Togo organizou tudo.

O vampiro olhou nossas mãos unidas e o seu desprezo era evidente.

– Vai protegê-la de Galeso? – ele quis saber com frieza.

– De qualquer um que a toque. – respondeu Misha seguro.

– Pensei que fosse mais realista lorde Misha – começou ele – Galeso sempre vai ver em Isadora uma forma de me ferir. Sem falar na herança sanguínea que ela carrega. – falava como se eu não estivesse presente.

– Posso viver sem seu sangue. O fiz por seis meses.

– Deveria deixá-la tentar. Mas não vou, Togo, faça cumprir meus direitos.

O líder dos Pacificadores suspirou de modo cansado, previa problemas. Deu um sinal e o pacificador se aproximou da cela abrindo-a. Tremi junto a Misha. O fitei em desespero.

– Virgílio seja razoável. – pediu ainda apelando. – Não a toque! – rugiu Misha furioso percebendo que ele não cederia.

– Não se aproxime! – falei me afastando de Misha para me esconder no fundo da cela.

– Isso pode ser feito de modo civilizado Isa. – começou ele há alguns passos de distância. – Você banca a pupila inteligente, esquece toda essa tolice e me segue. O que acha?

– Não me faça sua inimiga, apenas deixe-me ir. – pedi e fitei Misha.

Ele andava de um lado a outro da cela. Era um animal enjaulado e perigoso. Togo tentava acalmá-lo, mas era impossível. Ele tinha os caninos a mostra e os olhos dilatados. Sua face de vampiro estava a mostra sem retoques.

– Você é minha Isadora.

Dizendo isso Virgílio se deslocou na cela e me atacou. Um segundo estava livre e no outro, presa entre seus braços. Lutei e gritei, chutei. Mas ele me deteve facilmente, era meu mestre, tinha poder sobre meu sangue. Arrastou-me com ele para a luz e numa espécie de vingança puxou minha blusa e mordeu minha garganta. Gritei e o esmurrei, enquanto era drenada. Ele o fazia com os olhos presos em Misha. Ele exibia seus poderes sobre mim e afrontava seu rival. Um urro furioso ergueu-se da garganta do vampiro, que segurou as grades e as fez tremer sob seus golpes furiosos.

Sem forças me vi suspensa no ar, estava nos braços de meu antigo mestre e salvador. Lágrimas escorriam por minha face, queria estender a mão e tocar a de Misha estendida pelas grades. Mas não tinha forças, fechei os olhos e me entreguei à escuridão.

 

 

O Salvador – Capítulo VI – A Escolha

any_passig_gemacht_by_enaston-d7mwupyQuando Isadora saiu da sala Misha e Valdés discutiram. Ariel Simon sentou e o criado o serviu de mais um cálice de sangue, enquanto ele observava os dois amigos colocarem a raiva para fora com uma calma invejável e desconcertante. Aquele era o rei.

– O rei o mandou testá-la, não mata-la. Você sequer a preparou para o que ia acontecer. Foi cruel, irresponsável.

– Era um maldito teste, se lhe desse as respostas como saberíamos se ela realmente tem poder? – o Russo defendia sua atitude mais uma vez.

– Misha já foi punido por sua falta de habilidade em executar o teste Valdés.

Comentou Togo passando aos três vampiros seus pedidos oficiais de guarda para que assinassem. Assim quando a vampira decidisse um deles teria a assinatura dela e de seu novo mestre. Eles assinaram na mesinha mais próxima e devolveram ao vampiro.

– Ela conseguiu… – começou Misha.

– Poderia estar em pedaços… Correção ela ficou em pedaços. Maldito seja Misha, eu pedi que cuidasse dela. – o vampiro ainda estava indignado.

– Ele recebeu ordens do rei. – falou Marie defendendo o amigo, enquanto tocava seus ombros e se colocava entre ele e Valdés apaziguadora.

– Não mandei que a matasse. – defendeu-se Ariel sorrindo misterioso para Misha.

– Ela é muito forte e capaz. – disse sem saber como explicar sua atitude.

O que Misha não revelou é que ao entrar no quarto da vampira aquela primeira noite e vê-la dormindo sentiu-se tocado por sua beleza. A desejou de imediato. Ela estava tão vulnerável entre os lençóis, seu cheiro no ar do quarto. No meio da imortalidade e da humanidade. A admirou por incontáveis minutos e chegou mesmo a tocar seus cabelos e a quis. Por que ela o tocou? O que ela tinha de tão especial? Uma recém-nascida abandonada, sem instrução, tão humana que ainda cheirava a sangue e vida!

Depois de amar Beliza e perdê-la se prometeu viver sem amor. Mas não fora covarde como Virgílio, jamais abandonaria sua cria. Ainda mais uma tão bela. Desejo? Sim, o mais puro desejo. A raiva o dominou e antes que percebesse a atacou. Saiu de suas lembranças e ouviu Valdés ainda enraivecido.

– Ela abriu uma reclamação? – Valdés quis saber.

– Isadora recusou esse direito. – respondeu o fitando com aborrecimento. Estava cansado de suas acusações.

– Ela não sabe o que faz, é muito jovem para compreender o que lhe foi feito. – replicou andando pela sala.

– Ai está seu engano. – começou o rei. – Aquela jovem vampira pode ser inocente em alguns aspectos, mas tem bastante juízo. Ela sente, compreende que está sendo testada e observada, apesar de sua insegurança.

– Quem não ficaria? – começou Marie entrando no dialogo. – Virgílio agiu como um idiota a abandonando. Tudo que ela tem feito é passar de mão em mão. Sente-se rejeitada, achou que a mandaríamos embora. Pobre criança. – comentou a bruxa na mesma língua, afinal Isadora não podia ouvir aquela conversa.

– Por que aceitou ficar com ela? – quis saber Romano.

– Virgílio chegou com ela desacordada e me implorou que tomasse conta dela. Galeso o chantageou, não pude me negar. Jamais o tinha visto tão transtornado.

– Você agiu bem Marie. – comentou o rei tocando sua mão. Ela havia se sentado ao seu lado. – Ele me ligou na noite seguinte e explicou os acontecimentos. Só não compreendo porque não a deixou sob custodia. Por que a abandonar?

– Ele sempre foi avesso a crias. – disse Togo organizando os pergaminhos assinados. Agora sabemos o motivo.

– De fato. – comentou Romano. – Ela tem muito poder nas veias. Pergunto-me se saberá lidar com ele. Estar-se-á livre do mal de sua herança sanguínea.

– Se Virgílio conseguiu ela conseguirá. – disse Valdés esperançoso.

– Ame com cautela meu querido Dom Valdés. – começou Ariel. – Sua irmãzinha terá de enfrentar grandes inimigos. Não quero que perca sua estabilidade se ela…

– Ela vai conseguir meu rei. – disse tomando a mão de Marie para beijar. Estava de partida.

– Valdés, quando vai me perdoar?

Misha quis saber o olhando com esperança contida.

– Então existe culpa? – o vampiro moreno e valoroso disse se retirando com um cumprimento cavalheiresco para seu rei.

– De um pouco de tempo a ele – disse Ariel – Sabe como é susceptível a jovens vampiras. Valdés precisa encontrar companhia. – disse o rei pensativo.

– Sim, e bem depressa. Aquelas facas não são boas companhias. – comentou Romano. – Mas o que toca seu coração? – se perguntou o vampiro.

– Facas? – brincou Ariel.

A reunião chegou ao fim e Ariel Simon ficou sob o teto de Marie aquela noite. Romano também, na noite seguinte daria aulas para Isadora e faria sua proposta oficial a ela. Seria bom tê-la como pupila, mas não teria chance, a julgar pelo modo como fitava Misha, ela logo cederia. Havia muita tensão entre eles. Era visível. Ela parecia confusa, até mesmo assustada, dividida por sentimentos conflitantes. Preparava-se para dormir quando seu celular tocou. Fitou a tela e se preocupou, atendeu e começou a falar em árabe.

– Como vai velho amigo?

– Não muito bem. – respondeu Virgílio. – Poderia me encontrar aqui fora?

Minutos depois Romano saiu pela janela e foi para o telhado. Virgílio o esperava junto ao parapeito. Romano se aproximou e eles se cumprimentaram com um abraço.

– Muito tempo.

– Sim, cinquenta anos?

– Exatamente.

– Mas porque não entrou?

– Não lhe parece óbvio?

– Não. – disse o vampiro sentando na borda do telhado. – Você criou uma vampira, a fez sua amante e a abandonou. Isadora tem beleza, potencial e poder nas veias. Ainda não exibiu os sintomas, se é o que veio saber. – comentou o vampiro.

– Cometi um erro criando-a. – falou baixando a vista.

– Não creio, ela é magnifica, inteligente e forte.

– Sim, e pode enlouquecer. E sim, novamente, eu soube do teste. – explicou ele num suspiro.

– O que o trouxe de volta? – questionou Romano.

– Quero que tome a tutela dela em definitivo. – disse seguro.

– Você não pode sequer vê-la agora, quanto mais escolher seu tutor. Você abandonou-a, quando a entregou a Marie a fez menos que um mortal. – acusou Romano.

– Estava desesperado. Galeso a raptou e foi por muito pouco, acredite-me. – a voz dele tremeu e Romano achou já ter visto aquele ar de louco na face de Misha.

Quando Isadora caiu na arena de terra feita em tiras pelo lobisomem, Misha percebeu o que fez, o que vinha fazendo. Uma noite depois do ocorrido foi chamado por Marie. Misha não saiu do lado do leito da vampira, que mais parecia feita de papel. Estava sujo de sangue com ar de louco. Entrou no quarto e foi recebido pelo vampiro que tinha uma adaga nas mãos. A mesma que ela usou para se defender do lobisomem.

– Como ela está?

– Ela vai ficar bem, vai ficar. – disse numa segurança trêmula e duvidosa.

– Sim. Ariel está vindo de Las Vegas para oferecer sangue para ela.

– O meu está sendo testado, vou dar tudo a ela. – explicou certo de que seu sangue a curaria.

– Misha, precisa se cuidar, não comeu ou dormiu. Quando ela despertar precisa…

– Ela precisa de mim. – foi frio e seguro. – Sou seu tutor. – explicou feroz.

– Sim. Vai deixar que ela o veja nesse estado?

O vampiro se olhou, as mãos primeiramente. O sangue seco, a adaga, por fim as roupas. Era o sangue de Isadora. Pareceu despertar do transe, do choque.

– Ela estava com muito medo. – começou ele falando muito baixo. – O rei me pediu que a testasse, mas não disse como. Ela precisava ir ao limite… Foi quando pensei nos lobos, seu sangue, a porção. – ele parou. – Desirée e eu os caçávamos antes do pacto. Ela usava uma faca, somente uma faca. – ele cobriu o rosto com as mãos.

– Achou que ela conseguiria o mesmo? – quis saber Romano tentando entender porque ele fora tão duro com aquela vampira. Compará-la a sua mestra Desirée era algo temerário.

Todos tinham seus traumas e lembranças do passado. Mas ao que parecia Isadora tocou fundo nos de Misha. Certamente ela o desafiou, isso era bem certo. Enquanto dava-lhe aulas sobre as leis notou sua inclinação a rebeldia, sua força de caráter.

– Sim, ela é muito forte. Mas foi muito cedo. – lamentou com os olhos febris presos na vampira inconsciente no leito.

– É, mas é uma criança e estava sob nossa responsabilidade.

Romano o lembrou tentando trazê-lo de volta a superfície. Ele estava em um abismo negro de dor e culpa. Era perigoso para um vampiro velho se deixar sucumbir assim.

– Quase a matei. Como pude achar que ela seria como Desirée? Era diferente, sua natureza não era nada que conhecêssemos bem. Isadora é… Delicada e eu a machuquei… – ele segurou sua mão sobre o leito e a levou aos lábios de modo reverente.

O que houve com o velho e frio Misha? Estaria apaixonado? O amor era uma armadilha sinistra e de grande poder.

– Ela vai ficar bem. Mas você precisa reagir Misha.

Ele se curvou sobre a cama e beijou sua testa e saiu do quarto sem dizer uma palavra.

Romano voltou sua atenção para Virgílio e resolveu falar o que estava engasgado em sua garganta.

– Ela é uma vampira doce e espantosamente inocente. Sabe quantas vezes a vi esconder lágrimas, que certamente foram por sua ausência? Inúmeras vezes.

– A estou protegendo. – ele tentou se justificar.

– É um modo estranho. Felizmente ela se recuperou e vai seguir em frente. O rei vai lhe dar a chance de tomar parte de sua guarda pessoal. Ela vai escolher um mestre em um mês.

– Não, isso não! É muito perigoso. – reclamou Virgílio em alerta.

– É um bom modo para ela usar seu poder. – explicou Romano observando o vampiro preocupar-se com os rumos dos acontecimentos.

– Peço-lhe, tome a guarda de Isa e não permita que ela aceite o convite do rei ou o de Misha. – exigiu Virgílio.

– Ela já aceitou, Virgílio. Já me ofereci, mas acho que ela não me escolherá. Misha fez o convite e a quer como pupila e amante. Nada mais os liga, afaste-se e deixe-a viver o presente da imortalidade que lhe deu.

O olhar do vampiro escureceu e aquilo certamente era ciúme e raiva. É, Ariel muito em breve teria de lidar com um duelo. Pois era o único modo de Virgílio ter sua pupila de volta. Pediria aos seus pretendentes que declinassem e enfrentaria aquele que não recuasse.

– Então veio aqui pedir que proteja sua amante? – perguntou Romano.

– Ela não é mais minha amante. – disse resignado.

– Você a ama, por que mantém esse orgulho? Por que a machucou tanto?

– Eu não… Não suportei a dor. – a voz dele estava presa na garganta. – Quando percebi que a perderia eu senti meu coração se contrair e sangrar… Ela era mais importante que minha vingança contra Galeso, nada mais importava. Não posso lidar com isso, vai me destruir. Tenho de matar Galeso.

– Você deu a ele trégua em troca da vida de Isadora e o está caçando? – perguntou surpreso com sua atitude. Ele mantinha sua palavra e seguia as leis. Aquilo era novo.

– Ele não pode continuar vivo, não depois de tocar em Isadora. Ela se transformou em um alvo, em minha fraqueza. – tentava justificar sua quebra de conduta.

– Ela tem um tutor valoroso e que odeia Galeso tanto quanto você. Apenas vá embora. Deixa crescer em paz, deixa escolher um novo amante.

– Tome-a como sua pupila. – ele pediu ansioso.

– Caro amigo, nada vou lhe prometer, Isadora pode e vai escolher sozinha. E você trate de se afastar e engolir seu ciúme.

Dito isso Romano voltou para dentro do prédio e deixou Virgílio a mercê de seus pensamentos nada organizados. Um pouco de confusão lhe faria bem. Isadora ficaria melhor sob a proteção do amor de Misha. Nem sempre aquele que gera é a melhor escolha.

Como uma sombra Virgílio entrou nos aposentos de Isadora. Usou uma passagem secreta que Marie lhe mostrou anos atrás, caso precisasse de um esconderijo, esgueirou-se pela casa e entrou no quarto. Os Pacificadores não o viram ou sentiram.

Isadora dormia no leito tento um livro sobre o peito. Depois da separação só a viu mais uma vez, ela estava em companhia de Valdés caçando. Observou-a por alguns minutos e partiu da cidade. Revê-la depois de tanto tempo foi doloroso. Havia mudado, estava mais forte, seu sangue a fazia amadurecer como vampira. As características tornavam-se mais evidentes, seu cheiro estava diferente, mais forte e embriagador. Aproximou-se do leito, se mantinha praticamente invisível para ela. Sua faradisa dormia lindamente. Desejou tomá-la nos braços e a possuir, cobrir seu corpo com beijos, ouvir sua voz sussurrando seu nome quando atingisse o êxtase.

A camisola de linho e renda era magnifica e recatada. Tocou o tecido suavemente, precisava dela nua sob seu corpo, sob seus dedos… Sem se conter nem mais um momento avançou no leito e a beijou.

Despertei sob a carícia da boca de um vampiro. As mãos exigentes tomando meu corpo. Recuei na semi-escuridão  e vi Virgílio.

– Escolha Romano, minha faradisa. – o tom era de ordem.

Não era justo! Não agora que ansiava por uma nova vida longe das lembranças do amor frágil e cruel, que ele lhe ofereceu. O empurrou e o surpreendeu. Pegou a espada que repousava sobre a cama onde antes ele estaria e a apontou para o vampiro.

– Saia! – ordenei segura, mas ferida em meus sentimentos.

– Não ouse me enfrentar minha Isa. – ele tentou dar-me ordens?

– Não ouse você. – disse-lhe furiosa e de espada em punho.

– Isa… – pude ver em seus olhos a incredulidade.

– Fora!– gritei sem me importar com todos que poderiam ouvir na casa.

Não podia fraquejar, não depois de ser abandonada, entregue a outra pessoa como um trapo velho. Não depois de tantas promessas quebradas. Ele fora cruel e eu lhe devolveria na mesma proporção. Apontava a espada para ele.

A porta se abriu e Misha apareceu. Estava de camiseta e jeans negros, descalço, cabelos em desalinho. Ele sentiu o medo de Isadora agora que seu sangue corria em suas veias. Seus sentimentos para ele eram tão reais quanto o toque de suas mãos. Reconheceu Virgílio e ficou surpreso por vê-lo.

– Sua presença não é bem vinda, na verdade, proibida. – começou Misha. – Devo mostrar-lhe a saída? – perguntou o russo baixando a espada que trazia nas mãos.

– Pretendo, antes de sair, conversar com a vampira. – disse Virgílio sugerindo com o olhar que devia aceitar.

– Não temos nada para tratar monsieur. – falei friamente contendo minhas emoções.

– Peço que repense sua decisão. – pediu confiante.

– Melhor que vá embora monsieur, como já lhe disse nada temos para falar. – ele precisava sentir minha dor através de minha determinação.

– Não banque a criança. – começou ele impaciente.

– Fui drogada e abandonada pelo meu criador. Apesar de ter o sangue dele nas veias, em meu coração alimentando minha imortalidade, não pertenço mais a ele. – falou guardando a espada. – Deixe que lhe apresente meu tutor e mestre.

Dito isso olhei para Misha que com um aceno de cabeça deixou claro que concordava com minha posição.

– Voltarei amanhã, nós precisamos conversar. – disse Virgílio no meio do caminho para a saída.

– Mestre ­– começou Isadora – Peço-lhe que me permita recusar tal visita. – ela falou e sua voz quase tremeu.

– Concedido. – Misha respondeu de imediato. – Peço que não insista Virgílio ou terei de proteger minha pupila.

– Pedirei permissão ao rei. Somente ele me impedirá de lhe falar Isa.

– Conhece as leis. Se o mestre não permitir, nem mesmo o rei terá o direito de intervir. – o russo disse dando um passo a frente de modo a proteger sua pupila.

Os ânimos se alteraram no quarto.

– Não deixe a sensação de um prazer jamais provado subir-lhe a cabeça Misha. – debochou o vampiro semicerrando os olhos.

O vampiro avançou tão depressa que sacudiu os meus cabelos soltos. Virgílio estava grudado à parede, contido por Misha que tinha sobre sua garganta a espada.

– Quem começou esse jogo foi você. Mas quem vai terminar ele será Isadora quando ela decidir quem será seu mestre. – dito isso ele o soltou e abriu a porta chamando os Pacificadores no corredor lateral.

– Eu preciso me explicar Isa.

Virgílio estava a minha frente, os olhos nos meus. Podia sentir o toque de sua boca, de suas mãos sobre minha pele. Recuei e fui até a mesinha de cabeceira e ele confiou esperançoso.

Quando voltei com um pedaço de papel o entreguei a meu antigo mestre e amante, meu coração batia descompassado, ferido.

– Acho que isso vai refrescar sua memória e evitar que perca seu tempo.

O vampiro olhou o papel e o reconheceu um minuto depois. Era a carta onde se despediu dela com tanta frieza. Não precisou ler, sabia o que estava escrito, cada palavra. Guardou o papel consigo e saiu do quarto. Os pacificadores o esperavam no corredor assim como Romano e Marie.

Ele foi levado certamente para a presença do rei. A porta se fechou e Misha se aproximou pronto a me tocar.

– Você está bem?

– Saia, por favor. – pedi a Misha que tinha a mão estendida para meu ombro.

– Ele não vai lhe ferir outra vez. Não permitirei…

– Deixe-me sozinha.

Pedi com a voz presa na garganta, continha as lágrimas a muito custo. Não queria chorar em sua presença. Fraquejar diante dele seria humilhante. Ele não se moveu por mais um minuto. Podia sentir minha dor? A agonia que experimentava? Deu a volta e saiu fechando a porta atrás de si. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro e sentada na banheira sob o jato de água quente chorei e lamentei por meu coração partido. Chorei por tudo que não mais podia ser.

O Salvador – Capítulo IV– Seu Mestre e Pesadelo

my_sweet_vampire_by_anndr-d4rsa46Então aquele era o rei. O rei dos vampiros, meu rei. – pensava Isadora no alto das escadas da casa de Marie.

A maioria de nós tem a beleza ressaltada pelo sangue de seus mestres. Mas alguns são elevados à grandeza, talvez tenha sido isso que aconteceu com o status do rei Ariel Simon. Ele foi elevado a grandeza. Não conseguia afastar os olhos dele. E agradeci por esta às escondidas e poder observá-lo livremente do meu esconderijo.

Alto, talvez um metro e oitenta de altura corpo bem definido, forte, rosto perfeito em cada linha. Alguma deusa o desenhara. Não existiam mais homens como aquele nascendo em nosso século. Os cabelos ruivos e cacheados caiam em mechas sedosas pela testa, orelhas, ombros. Não era afetado, pelo menos, não nesse século. Mas quase podia vê-lo empunhando uma espada ou lencinho. Vestido com uma bela camisa de linho e calças negras. Nossa! Eu estava tento fantasias com o rei dos vampiros. Mas como não fazê-lo? Ele era soberbo! Seus olhos eram tão verdes quanto o musgo da Irlanda. Mas ali estava ele em trajes modernos. O jeans negro assim como a malha de lã fina, moldavam-se ao seu corpo como uma segunda pele. Havia tirado o blazer de couro. Falava segurando a mão de Marie, enquanto brincava com seus dedos.

Ocultei-me um pouco mais nas sombras. A presença daquele vampiro me trouxe sensações estranhas. E sequer havia estado a sua presença. Sentia-me desprotegida, no entanto, ligada a ele por sangue, ou algum poder invisível. Acho que era o sangue, ele nos unia a todos. Parte dele estava em meu antigo mestre. Agora em minhas veias. Apesar do título, mantinha uma aparência despojada. A primeira vista se passaria fácil por qualquer habitante da cidade. Numa segunda, sua beleza atrairia olhares, depois suspeitas. Afinal o rei possuía um pouco mais de dois mil anos.

Devia camuflar-se bem nas ruas. Através das portas ouvi a conversa que mantinha com Marie. Ao que parecia ela estava lhe censurando por sair todas as noites para vigiar uma vampira chamada Kara. Como rei devia se preservar e não se arriscar por uma vampira que sabia se cuidar muito bem sozinha e ainda por cima era sua campeã. Ele protestou com paciência e carinho e pelo visto faria o que desejava. Subitamente não consegui mais ouvi-los, por mais que tentasse, era como se houvesse uma barreira invisível bloqueando todo o resto, enquanto estavam presos naquela bolha protetora de som. Teria sido descoberta? Provavelmente, ou apenas queriam privacidade para conversar.

Aquela era a primeira vez que o via. Ele visitava Marie esporadicamente, mas nunca foi permitido ficar a sua presença. Às vezes dormia na casa. Quando isso acontecia dois grandes soldados, ou Pacificadores, vigiavam a casa. E havia mais deles do lado de fora, ou nos quartos. Quando ele partia, eles o seguiam.

Ele sorriu e seus caninos apareceram. O anel de rubi brilhou em sua mão quando tocou de leve o rosto de Marie, que sorria junto com ele. Ela sempre ficava mais feliz quando ele a visitava. Teria ela uma relação com o rei? Bem, ele não tinha rainha, e tão belo quanto era seria difícil ficar só. Aquela noite seria apresentada a ele, mas não lhe disseram o motivo. Subiu as escadas, não queria ser surpreendida bisbilhotando o rei. Ele chegou bem cedo, como evitara o sol?

Aquela pequena reunião com o rei, e seus mestres, estava mexendo com seus nervos. Mas não ao ponto de verdadeiramente se importar. Colocaram-na muito longe do limite há um ano. Teve vários tutores Marie, Valdés e Misha. Romano não a tutelava, mas dava-lhe aulas sobre as leis do mundo vampiro. Nenhum deles havia chegado. No inicio sentia-se desconfortável com a situação, contudo, eles disseram que era comum ter vários tutores quando se é filha dos Poderes. Esse era o nome dado a um vampiro sem mestre. Os abandonados. Não havia outra verdade, fora abandonada por Virgílio.

Por um momento Isadora se lembrou do beco, o sabor de seu sangue, toque de suas mãos. Tudo parecia muito, muito longe. Assim como a lembrança de seus carinhos, a promessa de não ser abandonada. O teve por tão pouco tempo. – lamentou silenciosamente. – Enquanto escondia a cabeça nos joelhos. – Uma bruxa. Deixou-a com uma bruxa tamanha a pressa em livrar-se dela. Algumas noites depois de perceber que Virgílio não voltaria, Isadora aceitou o abraço consolador de Marie, pois estava vivendo em silêncio, abatimento e lágrimas. Ela ouviu suas perguntas, culpas e a consolou, deu-lhe um rumo. A levou a Coucher du Soleil, mostrou-lhe a corte, a Togo, que a examinou com um olhar demorado e fez algumas sugestões a Marie em francês, língua que ela não conhecia. Sempre que queriam falar dela usavam outro idioma. Limitava-se a baixar a vista e engolir suas dúvidas e angustias. Mas daquele vampiro de olhos frios e orientais veio uma luz.

Ganhou um novo tutor, Valdés. Segundo soube, ele não tinha herdeiros de sangue, mas possuía horas livres para lhe ensinar a ser imortal e letal. Como ele gostava de dizer. O tempo passou e curou muitas dores, deu novos caminhos. Aprendia todos os dias com Valdés e suas “amantes” como ele costumava chamar suas pistolas e facas. Todas com nomes femininos. Era excêntrico e aventureiro, contava-lhe suas bravatas e tentava fazê-la sorrir com sua jovialidade. Tratava-a como um moleque, mas era um bom professor, até bondoso demais para o gosto de Marie, que vez, ou outra, supervisionava as aulas de tiro e luta…

Misha chegou. – antessentiu Isadora com seu coração, o rosto quente. Minutos depois ouvir sua voz. Ele a deixou com uma escolha por fazer algumas noites atrás. No entanto, não conseguiu sequer compreender seus motivos, quanto mais aceitar pensar em sua proposta.

Meses atrás quando Valdés disse que teria de partir em uma missão, Isadora sentiu o coração doer, se apegara a ele, era seu amigo, professor. Misha o substituiria. Mais um tutor? Quantos ela teria? Era como um saco de roupa suja passando de mão, em mão. Pensou se afastado.

– É a roupa suja mais bonita que conheço Dora. – disse chamando-a pelo apelido e lendo seus pensamentos. – O rei me deu uma missão, devo ficar fora por dois meses, talvez mais, você não pode tirar ferias. –brincou – Voltaremos com nossas aulas quando eu retornar. – disse empurrando sua testa com o dedo indicador. – Misha é como um irmão para mim, ele vai cuidar bem de você, minha irmãzinha mais nova. – dito isso a abraçou carinhoso.

Tinha sorte de tê-lo como tutor, ele aplacou muito de sua dor. Treinaram por algumas horas e depois saíram para caçar. Valdés a deixou em casa e partiu. Sentiria sua falta.

As apresentações foram diferentes com Misha.

Isadora acordou e a primeira coisa que fez foi se debater. Alguém apertava-lhe a garganta. No quarto escuro desferiu golpes e tentou compreender porque estava sendo atacada. Quando o brilho da lâmina ficou visível aos seus olhos soube que seu atacante pretendia matá-la. A seda da camisola sedia sob o fio da adaga. Rugia e num gesto aprendido com Valdés chutou e se livrou de seu agressor momentaneamente. Saiu da cama, mas foi recapturada, junto à porta. Seus cabelos estavam nas mãos de seu agressor e quando foi empurrada contra a porta o gosto de sangue invadiu sua boca.

Caiu no chão pesadamente e foi arrastada, enquanto lutava pateticamente para se libertar. Foi quando lembrou que podia saltar. O pulo a colocou sobre seu agressor. Mordeu seu ombro com força, e foi puxada com violência pelo braço, que certamente quebrou. Sentia o gosto do sangue do vampiro ele era tão forte e antigo quanto o de Virgílio. Tremia, estava seminua e descabelada. Nunca deixaria de ser a vítima? Precisava lutar melhor que isso. O vampiro se deteve esperando seus movimentos, a fitava das sombras onde não podia vê-lo.

– O que quer de mim…? – perguntou segurando o braço dolorosamente fora do lugar.

– Quero que lute. – a voz veio das sombras num timbre forte e exigente, frustrado.

– Quem é você?

– Importa saber quem ia cortar sua garganta?

Dito isso seu corpo se colou ao dela e adaga estava sobre sua pele fria e mortal. Ela se encolheu sob seu toque áspero. Um gemido saiu de sua garganta de forma involuntária.

– Vejo que tio Valdés a mimou demais.

Comentou o invasor tocando seus cabelos entre os dedos sentindo a textura suave. Fitou sua boca suja de sangue, a camisola cortada, o ombro ferido, as contusões que lhe provocou.

– Quem é você? Por que me atacou? – ela quis saber enfrentando seu olhar verde e dilatado.

– Seu novo tutor. Agora que acordou, bela adormecida, vamos treinar.

As luzes se ascenderam e Isabela viu o quarto revirado. Ficou de pé e tentou se cobrir, mas o braço doeu.

– Espere. – ordenou ele – Aproxime-se.

– Fique longe de mim. – rosnou ela apoquentada.

Os ferimentos dela não estavam cicatrizando, mas por quê?

– Sou seu mestre, deve-me obediência. – avisou sombrio.

– Vai à merda! Sai do meu quarto seu maníaco.

Um segundo depois estava colada na parede. Misha a mantinha presa e segurava seu braço dolorido.

– Apenas relaxe agora. – disse e estendeu o membro ferido.

Isadora gritou de dor quando ele posicionou o osso no lugar. Imediatamente seu organismo começou o processo de cura. Pode ver nos olhos do vampiro a surpresa com sua condição. As marcas roxas em sua garganta, os cortes nos lábios tudo sumia, bastou cuidar de um ferimento maior, e os menores cederam.

– Obrigada. – disse-lhe num sussurro, os olhos presos nos dele.

– Não me agradeça, apenas obedeça, e sim, será punida por me enfrentar e insultar. Você está diante de seu novo mestre, professor e pesadelo. – dizendo isso a deixou no quarto.

Naquela mesma noite quando desceu para sala de treinamento, encontrou o seu novo tutor, ou mestre, Misha. Valdés sempre falava dele, ou melhor, ele estava em suas aventuras de modo constante. Mas lá ele era bom e gentil, forte e letal, um maldito fodão com presas, que atacava jovens vampiras inexperientes.

Seus olhares se encontraram e ele a examinou. Lançou uma faca para que pegasse. Jogou-se sobre ela em luta e teve de se defender. Vinte minutos depois estava no chão e sangrando. Cortes marcavam sua pele e roupas.

– Levanta bonequinha. – debochou de costas para ela junto à mesa onde varias armas ficavam dispostas para o uso nos treinamentos. – Preciso lhe passar as regras agora que já analisei suas possibilidades.

Dolorida e com fome a vampira ficou de pé e mancou até ele. Estava muito pálida, o cabelo solto, ele puxara seu rabo de cavalo. Os olhos pareciam enormes. O cheiro de seu sangue no ar. Ele intacto, belo e a fitando como um maldito filho da puta. Odiou que ele fosse tão bonito, aqueles olhos verdes, os cabelos castanhos eram meio longos. Aqueles fortes dos ossos da face o deixavam com uma aparência gélida. Mais um maldito guerreiro.

– Quer me dizer alguma coisa? – perguntou ele certamente captando seus pensamentos furiosos.

– Por que esta me machucando?

– Você é fraca, por isso esta se machucando.

– Não é verdade… Está me surrando gratuitamente. Quebrou meu braço. Cortou-me inteira…

– É fraca, não consegue se defender, age como uma mortal.

– Valdés me ensinou…

– Ele mimou você!

O grito me fez recuar. Segurei o braço cortado, agora cortado e baixei a vista.

– Terminamos?

Não respondi. Percebendo que não falaria prosseguiu.

– Treinamos todas as noites, dentro e fora da casa. Armas, facas, espadas e tudo mais. Luta corporal será toda quinta feira. Marie lhe conseguirá roupas apropriadas. Deixei alguns livros que precisa ler na biblioteca. Quero um resumo de cada um deles para amanhã.

– Misha…

– Para você sou mestre. Entendeu?

– Você tem problemas, ou é só muito arrogante?

Imediatamente Misha pegou sobre a mesa um bastão fino de borracha e se aproximou dela. Ela recuou e por fim parou para enfrentar seu olhar gélido.

– Estenda as mãos.

– Não! Isso é ridículo…

– Se não estender as mãos vou usar o chicote nas suas costas. – a ameaça era verdadeira.

Fui tocada por minha realidade. O aviso de Virgílio em meus ouvidos:

“– Quero que a obedeça, ou será punida. Essas foram minhas ordens, e ela as fará cumprir. Não duvide. Nossas leis são cruéis e não merece senti-las em sua pele”.

– É a segunda vez que me desrespeita. – disse tirando-a de suas lembranças. – Virgílio não lhe ensinou nada? Sou seu mestre agora e me deve respeito e obediência, levo isso muito a sério.

– Eu só…

– As mãos. – exigiu sem dar espaço para explicações.

Fechei os olhos e engoli meu orgulho. Estendi as mãos e esperei com a vista baixa.

– Palmas para cima, e olhe para mim. – ordenou seco.

A vampira fitou o rosto sério de Misha e desejou ter poder para revidar em uma luta justa.

– Está sendo punida por desobedecer seu mestre e insultá-lo.

Os golpes desciam com força. A dor era bem real, os vergões uma marca de sua vergonha. Quando o vampiro se afastou não conseguia mover os dedos.

– Como deve me chamar? – ele exigiu fitando seu rosto, as lágrimas escorrendo pela face pálida. – Vamos ter mais problemas Isadora? – ele perguntou quando ela demorou a responder.

– Não. – a voz era um murmúrio rouco.

– Como deve me chamar Isadora? – ele insistiu rodeando-me como um tigre pronto a atacar.

– M… Mestre. – consegui dizer engolindo minha raiva.

– Ótimo. Vejo você amanhã. Agora pode se retirar.

Fitava as mãos quando ouvi a voz de Romano e sai momentaneamente de minhas lembranças. Mas ainda não podia descer. Ele me chamaria, quando fosse o momento.

Não saberia descrever a dor nas mãos. Os ossos doíam e os hematomas roxos pareciam sanguinolentos sob a pele. Ardia, ficavam dormentes e por fim doíam. Voltei para meu quarto naquela casa e percebi minha cruel situação. O quarto fora arrumado, moveis substituídos, tudo nos lugares. Dentro da banheira, imersa em água quente observava o sangue tingir a água. A olhava hipnotizada. Os cortes se fechavam, enquanto as lágrimas escorriam por minha face. Aquela era a única prova que Virgílio esteve em minha vida. Seu sangue, seu poder sobre meu corpo.

O tempo passou, mas não diminuiu a força da minha raiva, do ódio que sentia por Misha. As primeiras aulas foram de machucados e lágrimas que vertia sozinha na escuridão do meu quarto. Era cruel, exigente e não hesitava em castigar-me por meus erros. Com meses de treino e machucados consegui desenvolver técnica e golpes. Quando ele se recolhia, e eu não tinha livros para ler, ou tarefas para cumprir, voltava ao estúdio e treinava até o dia amanhecer e me fazer fugir para meu quarto.

Lutava para não ser massacrada por ele e à medida que evoluía, ele tornava tudo mais difícil. Certa noite fui levada por um pacificador para um local desconhecido. Quando tiraram o capuz de minha cabeça me vi em uma arena vazia. Acentos de madeira circulares. Chão de barro e grades altas. Uma porta de metal ainda fechada. Luzes focadas no centro do espaço, Senti cheiro de sangue de vampiro e suor de um animal.

Micha apareceu e sentou na quarta fileira e lançou sobre mim um frasco que aparei no ar.

– Se quiser ficar viva, beba.

Imediatamente sorvi a bebida amarga e pegajosa. Com ele não era permitido hesitações. Foi quando ouvi um rosnado. Havia um animal do outro lado da grade de ferro. Um lobo! Mas não um comum. Era um lobisomem. Ele lançou uma faca e uma espada aos meus pés.

– Boa sorte.

O animal foi solto e entrou na arena com fome de sangue. Meu sangue imortal. Lutei com unhas e dentes para ficar viva. Tive o braço mordido, a mão quase arrancada, mas matei o lobisomem. De pé sangrando e muito ferida, vi as minhas veias enegrecendo. O ar faltou em meus pulmões e antes que pudesse entender o que acontecia cai no chão.

Despertei, ou quase, um dia depois, meus ferimentos envoltos em gaze, sentia-me febril. Vi um homem vestido de branco, que me ponteou o ombro dilacerado, a mão. Ao lado dele Marie. Ela estava furiosa com Misha ela o expulsou do quarto. Vi Romano, Togo ao lado da minha cama. Olhavam-me com preocupação. Bebi líquidos quentes, amargos. Balbuciava palavras que não entendia, era consolada, mantida na cama. Tentava levantar, falar, mas por fim apaguei.

Quando a lucidez voltou vi Misha, ele estava com a cabeça apoiada na cama ao meu lado. Os cabelos tocando meus dedos, os olhos fechados.

Acariciei as mechas e por um segundo me perguntei o que fazia? Ele quase me matara. Afastei a mão e virei o rosto.

Um minuto depois o vi despertar e me olhar com seus belos olhos verdes. Havia alegria contida, uma pontada de culpa e alivio.

– Como se sente? – quis saber tocando minha mão.

Puxei a mão e vi sua vergonha por ter me tocado, e respondi como bem sabia.

– Mastigada.

Ele sorriu, algo raro. Mas que iluminava seu rosto e dava-lhe vida. Algo que não mostrara para mim em todos aqueles meses de treinamento rigoroso que quase matou-me.

– Sinto muito. – começou ele num surpreendente pedido de desculpas.

– Por quê? Por quebrar meu braço, me cortar, punir, por ser meu pesadelo? Ou me colocar em uma arena com um lobisomem?

– Deixei-me levar pelos poderes de sua herança sanguínea. Esqueci que é apenas uma recém-nascida. – disse envergonhado. – Você quase foi morta. Não estava pronta…

– Eu venci. – o cortei – Estou viva, estou pronta. Admita.

O vampiro olhou-me surpreso e ciente de que estava reivindicando um reconhecimento justo.

– Sim. Verdade, você venceu.

– Aprendi muito no último ano. Inclusive a perceber que é o que lhe fizeram. Vou ficar apenas com o que me ensinou, não pretendo me tornar o que é. – disse friamente. – Não existe necessidade de se sentir culpado. Estou pronta, sei me defender sozinha. Sua missão chega ao fim.

Misha olhou-me e sem dizer nenhuma palavra, deixou o quarto. Foram necessárias mais duas semanas para que ficasse completamente curada. Mas havia as cicatrizes. Com lobisomens as coisas eram mais demoradas, difíceis. Misha continuava na casa, apesar de não mais treinarmos. Recebi visitas, Romano, Togo, que deixou claro que podia abrir uma espécie de processo contra Misha. Recusei e ele partiu. Valdés, sim, ele voltou e depois de me visitar e constatar que estava bem, teve uma acalorada briga com seu melhor amigo. Virei motivo de discórdia de uma amizade de séculos.

– Isadora? – era Romano me chamando.

Sai em definitivo de minhas lembranças e fiquei de pé. Revisei a roupa. E respirando fundo comecei a descer as escadas. Chegara a hora de conhecer o rei, Ariel Simon.

Continua…

 

O Salvador – Capítulo III – A Fuga

193d55699d75d68c2bad1538ad1bdd76Algo me atingiu no ombro. O metal em minha carne tinha gosto amargo… Fraquejei, cai de joelhos. Um narcótico! Tentei puxar a flecha, mas a posição não ajudava e a carne reclamou. Trinquei os dentes e rugi de dor. Fiquei de pé, cambaleei e me segurei na parede próxima para não cair de cara no chão.

Corri o mais rápido que pude, mas a essa altura minha visão e poderes estavam comprometidos. Podia senti-los atrás de mim, quatro vampiros. Caçando-me, cercando, quando cai no chão tudo que pensava era em Virgílio. Não conseguia mais me mover. Fitei o céu escuro, vi as estrelas, as nuvens e tentei gritar. Estava consciente, todavia incapaz de mover-me. Chamei meu mestre, pedi ajuda e ouvi sua resposta:

– Estou indo Isa.

– Quatro vampiros, eles estão se aproximando…Não consigo me mover.

Era tarde para mim, fora detida. Rostos mascarados, mãos enluvadas, quem eram eles? Queria lutar, fazer todos em pedaços, mas só conseguia sentir as lágrimas escorrendo pela minha face.

Uma caixa de metal… Iam me colocar em uma caixa! Não! Gritava, tentava mover minhas mãos. Quando o metal me rodeou gritava alto, mas meus gritos estavam apenas em minha cabeça. Podia sentir a raiva de Virgílio, sua pressa. Não devia ter me afastado tanto dele. – pensei sentindo-me culpada. Vão me usar contra ele.

Virgílio não estava longe, mas não pode deter o rapto de Isadora. Furioso, aflito chegou ao prédio onde ela fora capturada. Pode sentir sua presença se esvaindo como seu perfume, seu sangue, algumas gotas, o cheiro da droga.

Quando seu telefone tocou, ele o tirou do bolso e viu o nome de sua pupila. Teria conseguido fugir? Uma tola esperança…

– Isadora…

– Como vai Virgílio?

A voz de Galeso trouxe um estremecimento de ódio ao corpo de Virgílio. As coisas eram bem pior do que supunha. Três meses atrás se afastou de sua casa, de sua pupila recém-nascida, para lidar com um inimigo. O caçou e matou ao velho estilo, adaga no coração, e logo depois decapitação. Queimou seus restos e avisou ao rei. Quitava uma divida antiga e possuía liberdade para matar todos, que lhe feriram a carne, e a daqueles que amou. Todavia, a presença de Galeso indicava que seu plano fora bem sucedido, mas trouxe consigo um perigo ainda maior. A hora do ajuste de contas havia chegado, e o que mais temeu aconteceu, havia quem ferir. Isadora e seu coração.

– Ficarei melhor quando cortar sua cabeça. – comentou suavemente.

– Que tal adiarmos isso? – sugeriu Galeso em tom de negociação.

– É um pedido? – debochou Virgílio com impassibilidade.

– Tenho algo em meu poder, como deve ter percebido. Pelo que vi, ela lhe é preciosa, além de bela.

– Solte-a. Está apenas aumentando seus crimes diante dos poderes.

– Estou lhe provocando, velho amigo. – disse Galeso. – Ela é diferente de suas antigas amantes. Pequena, frágil, mas é bonita.

Virgílio precisava manter as coisas sob-controle. Isso manteria Isadora viva. Galeso não mantinha promessas, ou era do tipo que soubesse lidar com reféns.

– O que quer, uma trégua? Cheguei perto demais? – provocou Virgílio sabendo que ele estava se sentindo ameaçado.

– A mantenho viva e você se afasta de meus negócios. – era uma troca.

– Isso não é uma hipótese. Você foi condenado, seus negócios não podem mais existir. Tente outra vez. Mas use a lógica.

Queimar seu cassino, matar seus comandados e clientes o abalou. Bem, tinha ordens expressas de Ariel Simon de destruir seus negócios de jogo e sangue. Estava na lista negra do mundo vampírico, mas quem teria a honra de cortar seu pescoço era Virgílio. A dívida de sangue era grande.

– Quero negociar. – o vampiro falou aproximando-se da caixa para olhar Isadora de olhos arregalados.

– Não vamos negociar. Você vai soltar minha cria e talvez lhe dê dois dias para correr. O que acha? – sugeriu caminhando pelo telhado.

– A coloquei em uma caixa de metal. As coisas vão esquentar para ela quando o dia nascer.

O vampiro do outro lado da linha fechou os olhos e não emitiu nenhum ruído. Mas ouviu o riso de Galeso.

– O que quer?

– Tempo, afaste os Pacificadores e os Caçadores.

Nesse momento Virgílio riu alto, gargalhou. Galeso do outro lado da linha apertou entre os dedos o aparelho em sua capa negra repleto de pequenos cristais. Algo feminino e clássico bem ao gosto de sua dona. Mas nas mãos do vampiro algo fora de prumo.

– Você me supõe muito poderoso. Ninguém controla os Caçadores, conhece as regras. – disse Virgílio olhando a noite a sua volta. Tinha apenas quatro horas para encontrar Isadora.

– Achei que tivesse alguma estima por suas crias. – começou Galeso – Lembro-me de vê-lo chorar da última vez que lhe tirei uma delas. A pequena Isadora não merece sua atenção?

– Três dias lhe bastam? – o vampiro perguntou pronto a ceder.

Não queria perder Isadora, mas também não pareceria frágil diante de Galeso. Ele já lhe tomara muito, não permitiria que a história se repetisse.

– É o suficiente. – o vampiro aceitou e tocou o rosto da vampira.

– Onde ela está?

Tentou não parecer impaciente, mas seu coração estava aflito. O sangue de Isadora em seus dedos o chocou bem mais do que poderia imaginar.

– Vai conseguir encontrá-la, eu prometo. Sabe, ela o chamou. É amor Virgílio. Ela o ama. – ele fez uma pausa maldosa – Como se sente?

O vampiro apertou o telefone e fechou os olhos. Ele a ouviu e sentiu seu medo, o desespero e isso quase o enlouqueceu. Não estava acostumado a lidar com tais sentimentos. Os havia enterrado muito fundo na alma. Ter que lidar com eles agora era algo perturbador. O mais estranho é que só agora percebia o quanto se ligara a Isadora.

– Como é ser amado depois de seiscentos anos? Como pode se permitir tal luxo? – o deboche de Galeso o atingiu como um soco. – Acreditou que não estaria vigiando, esperando?

O vampiro gargalhou cruel e sabia que Virgílio estava mergulhado em ódio e temor. Isadora não precise ser exposta a seu passado, ou seus inimigos.

– Maldito. – rugiu o vampiro perdendo parte de seu autocontrole.

– Vamos esquecer o passado. – começou ele – Serei bondoso e a pouparei. Mas sabe? Seria doce entregá-la aos pedaços para você, ou pelo menos, a cabeça. – o vampiro jogava cruelmente.

– Nada vai conseguir me impedir de matá-lo Galeso. Pode não ser hoje, ou amanhã, mas certamente o farei. Você vai implorar para que o mate.

A promessa de morte já existia, mas ela agora se repetia com mais intensidade e sanha. O rosto de Virgílio mudou, caninos expostos, olhos como cristais. Fora tomado por uma fúria esquecida e perigosa. Vinha caçando Galeso ao longo dos séculos, e isso pareceu petrificar seu ódio. No entanto, ouvir suas ameaças quebraram a crosta de sua frieza e o tornaram letal.

– O tempo fara as circunstâncias, não é mesmo? – ele sorriu. – Vou deixar sua cria entre a água e o fogo, diante do senhor que rege todos nós e diante dos olhos do Deus dos mortais. Sendo ela tão jovem, deve querer pedir perdão pelo sangue que vem sorvendo. Espero que consiga, ou vai encontrar somente cinzas.

Dito isso Galeso desligou o telefone de Isadora, ou melhor, o destroçou entre os dedos. Estava furioso. Fitou a caixa de metal onde a vampira jazia imobilizada e com um gesto mandou que fechassem a tampa.

A caixa foi movida e Isadora lutava contra a droga que a dominava. Foi quando lembrou que talvez se sangrasse, o narcótico usado pudesse sair de suas veias. Mas isso significava enfraquecer ou morrer. Precisava levar o pulso à boca… Ou… Fitou o interior da caixa e viu a ponta de um parafuso.

Virgílio guardou o celular e tocou o cimento do telhado. Tentava encontrar o rumo seguido pelos raptores de sua cria. Captou centelhas de pensamentos, vozes. Saltou do prédio e correu pela noite, seguindo o que acreditava ser o caminho seguido pelos homens de Galeso. Faltava uma hora para o amanhecer, Virgílio havia procurado por fontes e igrejas. Mas em nenhuma encontrou a combinação sugerida. Tentou se comunicar com Isadora, mas só havia confusão. Era o narcótico em seus sentidos, mas havia mais. Duas horas atrás algo mudou, ela enfraquecia, como se sumisse. Algo estava errado, ferida? Talvez.

Podia sentir o sol se anunciar sobre seus sentidos quando chegou a uma praça, a última que sabia ter uma fonte. A fonte jorrava água e diante dela havia uma igreja, não muito longe um relógio de sol.

Água da fonte, fogo do sol no horizonte, o poder de Deus, e o tempo. Mas onde estava a caixa?

Olhou a torre e a escalou. A luz aumentava, a madrugada sumia, enquanto galgava a construção de pedra. No alto viu a caixa de metal, ao seu redor o sangue manchava o piso empoeirado de pedra. Ajoelhou-se junto à caixa, fechou os olhos e esperando pelo pior, arrancou a tampa num único puxão. O metal gemeu rasgando-se sob sua força e raiva.

Sua Isa, sua Faradisa estava desmaiada em um mar de sangue, os cabelos manchados, a pele da cor do mármore. O pulso ferido… A retirou da caixa e tocou sua testa com a dele. Aspirou o aroma de seus cabelos e conteve um grito de ódio na garganta. Fitou o sol despontando no horizonte. Empurrou a porta de acesso a torre e se escondeu. A pedra fria, as sombras os envolveram. Tocou seu rosto e mordeu pulso para alimentá-la.

Isadora despertou com o toque suave das mãos de Virgílio sobre seus cabelos. Agarrou-se a ele num abraço apertado. Fitou o quarto escuro, o sol sob as frestas da porta a fez encolher-se com medo.

– Estamos em segurança. A porta está trancada.

Eram duas da tarde, o que teria acontecido?

– Você está bem?

O sussurro de seu mestre e amante a fez olhar seu rosto com amor e adoração. Ela soluçou e escondeu o rosto em seu peito.

– Não consegui fugir…

– Está tudo bem. Mas por que se cortou?

Isadora o olhou envergonhada e explicou o que pretendia fazer e viu nos olhos de Virgílio preocupação genuína. Seu esforço era para fugir, ou morrer? Ele se perguntou. Não importava, ela se colocou a beira da morte para fugir. Quando tirou o cordão de prata da carne de seu pulso praguejou e lambeu o corte para que se fechasse. Ela demorou muito a despertar, era jovem, e o dia não ajudava. Apenas a manteve em seus braços e a admirou dormir como fazia nos últimos meses. Desenhava-a com os dedos, os olhos, os lábios. Ela vinha o consumindo como o próprio sol. Amor? Desejo? Ele disse que não se apaixonava, mas ali estava rendido, preso aquela criatura feita de carne e sangue, seu sangue imortal. O perigo a que foi exposta o enlouqueceu. Não suportaria perdê-la. Imaginar o mundo sem sua presença era impossível. Como mantê-la protegida, segura?

Num arroubo de desejo a beijou, mas mãos a despiam, enquanto ela o ajudava. Sua pele luzia no quarto escuro, tomou-a no chão com paixão e amor. Dócil, ela cedia a cada carícia, guiada por suas mãos, sucumbindo a sua fome. Lambia e mordia, enquanto ela cravava as unhas em seus ombros abrindo cortes em sua pele. Gemendo, arfando sob sua fome de vampiro. Isadora só assumia o controle quando ele lhe oferecia sua veia. Nesse momento ela o dominava, o prendia com os dentes, com as pernas. O fazia seu e frágil. O sugava com força, aos puxões, quase como uma loba faminta, apertando-se contra ele, atingindo o gozo. Ao se afastar levava parte de sua alma consigo. Lambia os lábios sujos de sangue e fitava seu rosto sabendo-se selvagem e perigosa.

Quando a noite chegou saíram de seu esconderijo e voltaram para casa. As malas já estavam prontas, Antônio havia preparado tudo. Iam para Paris aquela noite. Não era seguro ficar em Barcelona. Virgílio deu ordens, ficou pelo menos uma hora no escritório ao telefone. Falava em árabe ou egípcio com alguém. Tomou banho e se vestiu, quando desceu Virgílio a esperava vestido em terno completo. Tomou sua mão e foram para o carro. No aeroporto tomaram um jatinho particular. Ele não falou muito, pelo menos não com ela. Aquilo a isolou estava distante, sempre ao telefone dando ordens naquele idioma antigo e inacessível.

Ainda podia sentir a carícia de sua boca, dos caninos sobre sua carne. Ele fora mais selvagem do que de costume, como se quisesse devorá-la, prendê-la dentro dele. Quando encontrou o gozo a prendeu junto a si. Tentou falar, mas ele cobriu sua boca com dois dedos e pediu silêncio com um: shhh!

Fechou os olhos e deixou que ele mais uma vez vencesse aquele jogo. O rosto em seu peito, as mãos o envolvendo, sentindo as pernas, seu sexo junto a ela. Ele era seu. Ninguém mudaria isso, nem mesmo o maldito, que tentou tomá-la dele. O envolveu e dormiu. Mas ali estava seu mestre, não o amante. Foram servidos de sangue, ele insistiu que ela bebesse mais de um cálice. Obedeceu, era melhor, mas quando terminou se sentiu pesada e sonolenta.

– Virgílio tem algo errado…

– Não, não tem Isa, apenas relaxe. – disse tocando seu rosto e beijando sua testa.

Despertei em um quarto amplo luxuoso. Lá fora Paris, o som dos carros, o cheiro da noite. Ergui-me do leito e tive certeza que fora drogada, mas por quê? Sentei na cama e senti o corpo reagir, formigar. Vi as flores, senti o cheiro de meu mestre nos lençóis, no quarto. Mas onde ele estava…? Nesse momento a porta se abriu e uma mulher entrou no quarto.

– Olá Isadora, que bom que acordou. – comentou aproximando-se do leito sem medo. – Meu nome é Marie, seja benvinda a minha casa. –

– Onde está Virgílio?

A mulher era um pouco mais alta do que eu, cabelos e olhos escuros. Imortal, mas não vampira. Bruxa? Sim, a julgar pelo anel de prata com a estrela de cinco pontas em seu dedo.

– Ele ficou conosco pela última hora, mas precisou partir. Bem, ele me pediu que lhe entregasse essa carta. Acho que vai encontrar as respostas que busca. – disse entregando-lhe o envelope. – Quando se sentir pronta desça, vou lhe mostrar a casa.

Dito isso a mulher vestida completamente de negro a deixou sozinha. Isadora abriu o envelope e se deparou com a caligrafia de Virgílio.

“Minha Faradisa é com grande tristeza que a deixo. Não posso mantê-la. Tenho inimigos e eles não têm escrúpulos, ou piedade. Considere-se com sorte de ter saído ilesa das mãos de Galeso. Acho que ele amoleceu com o tempo. Em outros tempos a teria feito em pedaços. Acredite-me. Marie é uma amiga inestimável e vai cuidar de você. Temos amigos e alguns deles vão lhe ensinar a sobreviver no nosso mundo. Apesar de não ser vampira, ela agora é sua mestra, dei a ela sua tutela. Quero que a obedeça, ou será punida. Essas foram minhas ordens, e ela as fará cumprir. Não duvide. Nossas leis são cruéis e não merece senti-las em sua pele. Dei-lhe a imortalidade para que fosse livre, e assim será quando aprender nossas leis.

O que tivemos foi maravilhoso e único. Os guardarei sempre comigo com muito carinho. Espero que faça o mesmo, mas não espere meu retorno, não voltarei aos seus braços. Busque um amante se assim quiser, como disse é livre.

Do seu salvador, Virgílio”.

O coração bateu dolorosamente, acho que sangrava dentro de meu peito, pois senti sangue escorrer do meu nariz. Fora abandonada por meu mestre e amante. Lágrimas brotaram de meus olhos e elas eram rubras, feitas de sangue. Ele partiu. Não ele fugiu.

O Que é Necessário Dizer

freelance-article-writingQuando comecei a escrever a minha única pretensão era ver a história datilografada. Não acordei pela manhã e disse: vou ser escritora. A maioria pode ler e dizer: até parece! Mas eu estou viva, e enquanto viver é meu direito contar a minha versão da história.  Nunca fui rica, bem de vida. Meu pai era eletricista e minha mãe costureira, eu e minhas irmãs e irmão sempre trabalhamos.

Quando a TV de todo mundo era colorida, a nossa ainda era preto e branco. Os tempos eram outros, tudo era mais difícil de conseguir. Hoje em dia basta ter cartão de credito e tudo está resolvido em 12 vezes sem juros.

A minha máquina de escrever meu pai comprou de segunda mão, e já passou por quatro revisões. Hoje em dia escrevo no notebook e gosto quando o teclado faz barulho, isso ilude meus sentidos. Datilografei o livro Alma e Sangue em papel reaproveitado, minha mãe entregou uma encomenda e com o dinheiro comprou uma resma de papel para que o datilografasse novamente. Essas coisas não se pode esquecer.

Dai em diante trilhei por caminhos com mais espinhos do que rosas. O original do livro quase foi roubado, entrei na lei de incentivo a cultura, o livro foi aceito por puro mérito. Captei os recursos sozinha. Fui bater no gabinete do secretario de cultura, marquei hora e falei do livro. Nunca deixei cargo, titulo, distancia, homem ou mulher me dizer não sem explicar o motivo.

A editora que pegou o projeto editou do jeito que entreguei o manuscrito, não fez a capa. Encontrei todo tipo de pessoas no meu caminho boas, péssimas e horríveis. Nunca desisti. Cai varias vezes, mas nunca desisti. Passei um ano sem escrever nada, quase vendi minha máquina de escrever.

Passei cinco anos presa por um contrato, sem publicar, tendo dois livros prontos, vendendo sem receber um tostão. Eu me sentia como um preso cumprindo pena. Já vendi e não recebi, tomei calote. Ouvi cobras e lagartos, já fui discriminada por ser nordestina e escrever sobre vampiros. Por ser mulher e está num mercado onde os homens acham que escrevem melhor. Pura idiotice em todos os casos.

Mandaram-me procurar Jesus. Nordeste, Natal? Você mora onde? Você trabalha dois expedientes e ainda escreve?

Perco eventos, às vezes é difícil ir a São Paulo, só lembrando, aparecer nem sempre significa vender. E não aparecer nem sempre significa não vender.

É uma profissão difícil no Brasil? É difícil, mas não é impossível. Se você tiver garra e talento consegue.

Estou no Facebook, no Twitter, no meu blog, no Skoob, e basta senão não tenho tempo de respirar. Quando tenho tempo atualizo tudo, ganhei um grupo, tenho duas páginas no facebook. Esse ano li 80 livros por diversão e puro prazer.

Na minha vida de escritora paguei por dois livros, o Alma e Sangue, em 2000, que foi patrocinado pela lei de incentivo a cultura, e um livro de contos do qual participei, que também foi patrocínio. Sou escritora a moda antiga, mando o livro e seja o que Deus quiser.

Elogio o que gosto, o que acho bom, não costumo puxar o saco de ninguém para aparecer. Se virem alguma matéria comigo pode acreditar é porque o livro se destacou sozinho. Não peço nada para ninguém.

Não perturbo ninguém, no meu Facebook posto o que gosto, música livros, filmes. Essa sou eu, Nazarethe Fonseca. Não tento ser intelectual, só falo do que sei e uso óculos porque sou míope. Já errei e editei posts. Aprendo todos os dias.

Respondo todos os e-mails que recebo, no twitter e no Facebook. Não costumo ler originais, não faço analise crítica isso é coisa para profissional, eu sou só escritora. Se conselho fosse bom se vendia. Dar conselhos sobre texto de outro escritor é o mesmo que tirar férias no Iraque, suicídio. Não faço prefácio nem pros amigos, fiz anos atrás e até hoje não recebi um exemplar sequer. Errar é humano, permanecer no erro é burrice.

Ser escritor é solitário, exaustivo, por vezes decepcionante, você encontra pessoas de todos os tipos.  Tem pessoas que simplesmente não entendem que você tem prazo, os amigos te esquecem, te acham louco. Algumas pessoas acham que sabem mais do seu texto que você, que querem mudar tudo. Porque no mundo deles é assim e assado, é formado, tem duas faculdades. Porque no Brasil você não pode escrever fantasia, você não pode escrever tão bem, você é do nordeste.

Nesses momentos você tem de ter caráter, acreditar no que faz, e ser fiel a você mesmo. O resto é resto. Enquanto os cães ladram a caravana passa.

Tenho dezesseis anos de escrita e ainda não sei tudo, porque a escritora muda conforme envelhece. E seu texto não é imune ao tempo, nem ao escritor. Tenho seis livros publicados e alguns contos em coletâneas e em formato E-Book.

O texto é uma retrospectiva de minha vida como escritora, da mulher que escreve em casa, no ônibus, na hora de almoço, quando dorme, quando está feliz e triste. Escrever é um sexto sentido, meu terceiro braço. Tenho facilidade em escrever e abarroto cadernos com cenas, diálogos. Não sofro, não dói, isso não é pra humilhar quem escreve pouco. Minha vida é só minha e de mais ninguém. Nas minhas férias além de dormir, me divertir, eu leio e escrevo.

Não estou me lamentando, o passado está no passado, aprendi com meus erros e tenho a certeza que não usei ninguém de degrau. Não se pode agradar todo mundo, e nem vou tentar, é burrice.

Ainda me surpreendo quando pago algo com dinheiro do meu trabalho de escritora. É a melhor sensação do mundo. Em março de 2014 estarei lançando meu sétimo livro, Pandora, Controle Sobrenatural. Tem coisas que precisam ser ditas para quem olha de longe e vê apenas o que quer. Quer ser escritor? Então comece a trabalhar.

Beijos mordidos e Feliz 2014!