Crônicas de Alma e Sangue Vol. 6 -#LivroFinalizado

É com muito prazer que anúncio a finalização do primeiro livro das Crônicas de Alma e Sangue. Ele pode e será considerado o Vol. 6 da série. Claro, se você nunca leu os livros da série pode ler as crônicas sem problemas. Mas vai sentir falta de algumas coisas.

Para iniciar o livro, peguei o capítulo 39º do livro Alma e Sangue, A Rainha dos Vampiros, nele Darden visita o rei, Ariel Simon, e o avisa que ele tem uma rainha, mas que a mesma está desaparecida a tanto tempo quanto ele é rei. Isso provocou em Ariel grande inquietação. O capitulo teve mais informações adicionadas, algumas que não pude usar na época do lançamento pois não sabia quanto tempo levaria para dar prosseguimento a minha série.

Terminar esse livro para mim é uma grande vitória e lançá-lo será ainda melhor.

O que esperar desse novo capítulo da série? Muita ação, romance, novos e antigos personagens, e a nossa querida rainha. Ela é doce e poderosa e vai fazer Ariel amá-la profundamente e sofrer um pouquinho também. Os inimigos? Muitos, antigos e perigosos e sedentos pelo sangue da rainha e do rei.

Kara e Jan Kmam estão do lado do rei o ajudando junto com todo o resto.

Agora vou apenas melhorar algumas coisinhas, ver se não esqueci nenhum grande detalhe e continuar o Vol.2 das crônicas. Agradeço o apoio dos que me acompanham nas redes sociais sempre na torcida pelo meu trabalho e livros. Obrigada pelo carinho. Espero em breve poder dar notícias de edição e lançamento do livro. Não tenho nenhuma previsão ainda mais sou uma garota otimista e conto com o apoio dos meus vampirinhos para fazer isso acontecer.

Vou atualizar minhas páginas e meu blog que estão parados graças ao ritmo de escrita que assumi nos últimos meses. Se tudo correr como espero também pretendo terminar o segundo livro da série Pandora Controle Sobrenatural Vol.2 em 2019.

Como de costume fiz meu pequeno ritual de finalização, tomei meu cálice de sangue…Ops! Vinho! Risos. Sozinha no jardim pensando nos meses, no trabalho, nos capítulos, brindando ao futuro e as coisas boas que estão por vir.

Obrigada e beijos mordidos!

Atualização – #Fim das Férias

E minhas férias chegaram ao fim, amanhã já estou de volta ao trabalho. Resultado das férias? Livro praticamente pronto, estou enxugando alguns capítulos e analisando se falta alguma coisa. Mas estou muito satisfeita com o resultado final.
Dei uma sumida, parei de ler e me isolei. Me aturar nesses dias é complicado. Pois é difícil entender que preciso ficar só.
Nessas horas só preciso do básico, comida, água, banheiro. Meu computador e anotações. O resto só me atrapalha.

Pensei muito em como deveria começar e mexi em quase tudo, pois no meio do caminho percebi, que deveria pegar a história exatamente onde havia parado. No final do livro A Rainha dos Vampiros.

Ao longo dos últimos anos percebi muitas coisas, uma delas é que posso fazer o que desejar com o mundo que criei. Estou satisfeita com os livros da série já lançados. Mas relendo algumas partes desejei mudar algumas coisinhas. Nada que altere a ordem dos fatores. Acho que isso é coisa de escritor.
Um desses momentos é no livro a “Rainha dos Vampiros”. Eu desejei muito colocar no livro sobre os anos que Kara ficou longe de Jan Kmam e vivendo com o rei, Ariel Simon em Paris. O problema é que ficaria muito grande e não quis arriscar. Guardei esse material.

Fiz dele dois pequenos livros, eles são “Eternamente Só e o Salvador”, os publiquei em meu blog. Pensei em publicar, mas desisti, porque os quero dentro dos livros da série.

Montando o livro novo percebi que era daí que deveria partir. A presença de Kara na vida de Ariel até o momento que ele descobre que tem uma rainha é vital. Sem falar que no livro o Salvador, Virgílio é um Primogênito, um dos primeiros vampiros criado pelo sangue dos Anciões, Isadora sua cria tem um papel muito importante no futuro do rei e da rainha. Tudo se encaixou.

O livro está com quinhentas e poucas páginas. Só sei que o mais difícil já foi feito. Todos os capítulos estão prontos e estou simplesmente verificando a melhor ordem e deixando o texto redondinho.

Logo poderei fechar o arquivo e enviar para leitura. Mas acredito que ele só será lançado em 2019. De vocês meus fãs e leitores peço apenas aquela torcida básica. Estou lutando por novidades e se conseguir acredito que vocês vão surtar de alegria.

Beijos Mordidos!

Meus Motivos, Ariel Simon e Outras Loucuras

Sempre soube que a série Alma e Sangue teria vários livros.

Motivos:

Muitos personagens, todos com suas histórias e cada uma mais interessante do que a outra. E o maior dos motivos, a tremenda solidão em que o nosso amado rei vive. Ele é o rei, governa os cinco poderes do mundo dos vampiros. É bonito, poderoso, imortal, inteligente, tem dois mil anos, cabelos ruivos e cara de safado. Recentemente uma das personagens novas, a Sophie notou que ele tem sardas, normal, é ruivo. Continuando, ele guarda segredos perigosos, poderosos, decide o destino de muitos. Mas quando a manhã se aproxima, e ele se recolhe a sua câmara para o merecido repouso está sozinho.

Tem amigos, conselheiros, antigos amores, mas ninguém para levar para o leito e recolher em seus braços.

Distrações? Muitas, violino, livros, jogos eletrônicos, joga xadrez por vídeo conferência. Ainda manda cartas seladas, porque acha elegante, mas nada disso preenche o vazio de sua solidão.

Os Personagens falam com seu criador. Ariel Simon, nunca me pediu, mas eu não sou cega, ou quase, afinal, minha miopia é grande. Mas eu sinto na pele essa solidão sempre que começamos a conversar.

Não havia um primeiro capítulo para o sexto livro da série. Tudo que existia era a visita de Darden, o Senhor dos Lobos, no Livro, A Rainha dos Vampiros, capítulo 39, página 357.  O mais interessante é que esse capítulo foi como um buraco na linha do tempo. Tudo que é conversado nessas páginas gerou um novo capítulo. O coloquei no centro do planejamento e comecei a criar em volta.

Sempre me perguntava de onde vinham minhas ideias. E agora tenho certeza, é um conhecimento antigo, tatuado a ferro e fogo na minha alma. Todas as histórias estão apenas adormecidas em meu subconsciente. Quando começo um novo livro, estou somente as despertando e colocando no papel. Digo isso porque esse capítulo foi a chave para todo o resto.

Ariel é o centro das atenções, e gosta disso. Apesar de ter contado sua história no livro dois da série, Alma e Sangue, O império dos Vampiros, ele ainda tem muitos segredos, afinal esse ruivo tem dois mil anos de existência. Sem falar nos casos mais recentes.

Caminhar com ele é intenso, tem mais poderes, e não tem medo de usá-los, ou melhor, ele pode usar todos, é o rei.

Ele me deixa louca, quando começa a ir depressa demais, atropelando a continuidade das cenas, tentando avançar os capitulos. Mas eu amo ele e seu cheiro de lavanda francesa. É um anjo diabolico.

 

 

 

 

 

Mergulhado Nas Sombras – Capítulo 5

marceline_by_huyen_n00b-d5rk46s– Deveria sorrir mais, fica muito sombrio quando fica melancólico.

A voz feminina fez Jan Kmam erguer a cabeça e olhar ao redor. Estava na pequena sacada do apartamento em Paris. Em uma das mãos um cálice vazio aonde se via uma mancha de sangue. Os cabelos estavam soltos, ainda um pouco úmidos do banho recém-tomado. O roupão negro de seda semiaberto exibia o peito firme, de músculos bem definidos. Refugiou-se na pequena sacada, enquanto sorvia um cálice de sangue.

Não sentou na poltrona, não ocupou a rede, que Kara tanto gostava para deitar e ler. Apenas ficou apreciando mais um recanto criado para que desfrutassem de sua intimidade com conforto. As plantas, os detalhes da decoração, ela pensara em tudo para que eles se sentissem em casa.

A voz que chegou aos seus ouvidos foi como o estilhaçar de vidro, interrompendo suas lembranças mais doces daquele recanto.

– O que faz aqui? – a pergunta foi direta, seca.

– Bom dia Jan Kmam. – a vampira provocou e recebeu dele um olhar no mínimo gelado.

– Boa noite Alma. Achei que estava em Viena.

– O rei mandou me chamar, preciso assinar alguns papeis, como sabe sou “cria” dos Poderes. Meu tutor está ausente… Na verdade Edgar me deixou aqui em Paris sob os cuidados do rei em sua ausência. – ela se calou parecendo o maxilar do vampiro enrijecer de tensão.

– Está um pouco longe do Château Coucher du Soleil? – lançando um olhar pouco interessado em sua direção.

– Vim lhe ver. – disse timidamente e com um sorriso no rosto pálido.

– Por que Alma? Encerramos nossos assuntos anos atrás. Salvei sua vida e a coloquei em segurança. Nada me deve. – ele viu o sorriso morrer no rosto delicado da vampira.

– Só queria vê-lo…

Jan Kmam se aproximou dela e abriu os braços, ficou de costa e depois de frente novamente. Mostrava-se a ela, agia com frieza e crueldade. Estava no limite de sua revolta e saudade. Não poderia ser diferente com ela. Não quando se parecia tanto com Valeria, com Thais e com Kara. Ela havia escolhido o pior momento para fazer-lhe uma visita. Na verdade ela deveria evitá-lo. Kara não lidava bem com ciúmes.

– Satisfeita? – quis saber sem alterar a voz suave e bonita – Agora vá, esse é o abrigo que divido com a vampira que amo. Não quero magoá-la novamente.

– O rei… – ela engoliu em seco ao ter sobre si os olhos azuis do vampiro. – Ele mandou que lhe entregasse isso. – ela estendeu a carta e esperou.

O vampiro fitou o envelope ainda nas mãos da vampira por um segundo. Não era oficial, apesar de ter o selo do rei. Mas a cor parda do envelope dizia que era algo extraoficial. Pegou a carta, quebrou o selo e a leu em silêncio.

“Boa noite Jan Kmam,

Temos como imortais responsabilidades, e nenhuma delas é paciente, ou piedosa. O passado é o que nos condena e acorrenta. Mas mudemos aqui o tom dessa missiva. Venho lhe fazer um solicitação. Não achei apropriado um pedido formal. Tenho certeza que podemos resolver a questão de forma extraoficial.

Alma é uma criança em nosso mundo e carece de atenção. Seu tutor, Edgar, teve de se afastar, com pesar, devo dizer, de sua companhia. Ele voltará dentro de alguns meses pronto a reaver sua pupila. Dei-lhe minha palavra, que ela ficaria em segurança. Estamos sobrecarregados, Kara, Isadora, estou sem opções para “babas”. E Alma é um caso muito, muito, especial.

Como rei e amigo peço, que receba minhas palavras como um pedido. Não vou entrar nos detalhes de sua relação passada com ela, quando ainda mortal. Sei que é capaz de cuidar de um recém-nascido. Então espero que o faça com carinho e atenção. Alma é uma criatura tranquila, delicada e doce. Seja paciente e a oriente o melhor possível na ausência de Edgar. Espero que possa lembrá-la que isso é apenas um arranjo. Ele a ama, tem planos, você é comprometido. Faça disso um exercício, não uma missão. Se tiver alguma dúvida, procure-me. Ariel Simon”.

– Filho da Mãe!

Dizendo isso Jan Kmam fechou o punho sobre a carta, entrou e fechou a porta da sacada.

– Fique aí. – a ordem fez a vampira recuar. – Apenas me espere. – disse através do vidro.

O vampiro pegou o telefone e fez uma chamada. Esperou alguns minutos, insistiu e por fim foi atendido.

– Imaginei que me ligaria. – disse Ariel após o quinto toque.

– Não pode me pedir tal coisa. – Jan disse dispensando o protocolo.

Naquele caso havia muito envolvido, e de forma pessoal.

– Claro que posso. Estamos cuidando de várias órfãs. Como sabe os Poderes estão promovendo um perdão coletivo. Trazendo os órfãos a luz e a proteção dos Poderes. Isso evita muitos problemas futuros…

– Ariel… Eu não posso ficar com Alma no apartamento.

– Você tem sua parcela de responsabilidade para com ela. – Ariel o lembrou firme.

– Você me pediu um favor, eu posso recusá-lo. – fez uma pausa e afirmou. – Como deveria ter recusado anos atrás.

– É, mas não podia e foi esperto em perceber isso. Deixemos o passado onde está. Reconheça novamente sua responsabilidade para com ela. Deu-lhe seu sangue, deu-lhe a imortalidade.

Jan Kmam ficou calado, e evitou olhar a vampira na varando olhando-o através do vidro.

– Deve ajudar-me com essa criança. No momento ela precisa de proteção, não podemos deixa-la a mercê de nossos inimigos. Nunca descobrimos quem a mandou, sequer chegamos perto de desvendar tal mistério. Está sozinho agora, pode ocupar-se com essa tarefa.

– Gostaria de assim permanecer.

– Deveria ter saído de Paris. Mas sabe, eu a teria mando deixar sob sua responsabilidade. Ela faz parte da nova geração e devemos preservá-la. Se quiser posso providenciar outro lugar, se lhe incomoda tanto.

– Eu mesmo farei isso. – dizendo isso desligou o celular.

O rei colocou o aparelho sobre a mesinha próxima. Fitou o pergaminho a sua frente. E ficou se perguntando o que Radamés estaria tramando. Ele apareceu diante de Togo e o incumbiu da tarefa de entregar-lhe o pergaminho e logo depois desapareceu. As instruções eram claras e diretas, afastar Edgar temporariamente, colocar Alma sob a responsabilidade de Jan Kmam. Ariel Simon pensou com cuidado sobre aquelas medidas. E só as colocou em andamento cinco dias depois de falar com Radamés, em sonho. Suas explicações e os argumentos eram irrepreensíveis. Contudo o rei não aprovou, achou cruel e arriscado.

– Algum problema majestade? – Togo perguntou ao ver o rei fitar o vazio de modo pensativo.

– O favorito assumiu a responsabilidade. Aumente a vigilância em torno da jovem vampira, Alma. Quero que me mantenha informado de cada movimentos. – falou trancando o baú onde depositou o pergaminho.

Teria de acompanhar aquele pequeno “experimento” de Radamés bem de perto, as coisas poderiam não sair como esperado. O que aconteceria se as memorias de Kara voltassem? Como ela iria encarar aquela nova situação. Era um jogo perigoso e que poderia trazer consequências desastrosas e dolorosas para todos os envolvidos.

– Assim será feito. – Togo garantiu.

Jan Kmam abriu as portas de vidro e madeira e convidou a jovem vampira a entrar. Ela o fez timidamente e esperou em silêncio, os olhos vagaram pela sala, mas se fixaram no vampiro a sua frente.

– Sabe o motivo da carta do rei?

Ela se limitou a balançar a cabeça negativamente.

– Pedi permissão para visitá-lo, me foi concedida, contudo o rei me fez portadora da carta. – explicou delicadamente.

– Veio sozinha? – ele perguntou andando a sua volta.

Observava-lhe as roupas casuais, o batom leve que usava, um pouco de maquiagem. Uma vampira vestida como uma mortal. O que Edgar estava criando afinal? Uma boneca de porcelana?

– Não tenho permissão para sair sozinha. – disse sem aborrecimento.

– Como se alimenta então? – quis saber Jan Kmam sem demonstrar sua surpresa e desagrado.

– Meu tutor me alimenta… E também tenho um servo de sangue.

– Venha comigo.

O vampiro a levou pelo apartamento e através de um corredor. A escada era estreita e levava a uma porta no andar superior. Ele abriu a porta e a fez entrar. O lugar era amplo e um misto de meio ginásio, meio sala, meio quarto e escritório. As cores, os objetos e moveis tinham toque masculino. Aquele era o recanto de um homem, de Jan Kmam.

– Comprei o estúdio há uns cinco anos e fiz dele meu espaço. Aqui quem manda sou eu.

– Eu não estou compreendendo. – disse Alma olhando o espaço e depois o vampiro.

– O rei me fez seu tutor temporário. – disse mostrando o papel amassado – A partir de agora está sob minha tutela. As regras são simples. Eu mando você obedece. Vai viver aqui em cima, a porta de saída é ali. O apartamento está fora de seus limites. Durma bem.

– Eu não comi. – falou quando ele lhe deu as costas

– Vou lhe trazer algo.

Um minuto depois o balde com a garrafa de sangue e um cálice foi deixado sobre a mesinha. Alma o olhou e não gostou, mas ao ver o vampiro partir sem nada dizer compreendeu que não haviam opções.

 

 

 

Eternamente Só – Em Nome do Amor – Capítulo 4

9dabc632904e96ff0179d90bb2a13c7eQuando Jan Kmam desligou o telefone percebeu as manchas de sangue na mesinha, no dorso de sua mão. Suas lágrimas.

Estar longe de Kara não era uma escolha fácil. Por um momento desejou quebrar tudo a sua volta. Fitou a mesinha, estava pronto a despedaçá-la, quando viu o vaso com as rosas. Tocou uma delas e quase pode sentir o rosto de Kara sob seus dedos. As lágrimas por muito pouco não voltaram, respirou fundo e se afastou das rosas.

A única coisa que lhe restou, as rosas, as lembranças. A vida é cheia de escolhas, pouco importa se você é imortal, ou um simples mortal. A vida te obriga a escolher, porque ninguém pode ter tudo, é fisicamente impossível. Não havia arrependimento, só a certeza que fizera o melhor pela vampira que amava. Restou acreditar, manter-se o mais longe possível e esperar. Os sinais chegariam no tempo certo, no tempo que ela desejasse.

– O que fez com ela? Por que ela me esqueceu?

Jan Kmam perguntou a Radamés. Ele apareceu assim que acendeu a fogueira, como um inseto atraído pelo fogo. Estavam muito longe de tudo, o deserto, e a noite os envolviam. Aquela pequena luz brilhava como um pedaço de ouro sobre a areia agora fria. Ao sair do Templo da Esfinge Jan não pode sair do Egito de imediato. Simplesmente mergulhou no deserto, escondeu-se numa velha construção, que sabia existir não muito longe e passou o dia adormecido sob a areia.

Despertou sentindo uma serpente deslizar sobre seu peito. Agarrou-a e fez dela sua primeira refeição. Mais alguns ratos e saiu para a noite. Fez uma fogueira com o que encontrou e pode queimar dentro da velha tumba. Apenas se deixou ficar contemplando o fogo. Não era grande, mas bastava para iluminar as trevas que envolviam o deserto a sua volta. Podia ouvir os escorpiões, as cobras, os ratos. Homens e camelos ao sul e ao norte, a cidade não muito longe. Só conseguia pensar em Kara, no seu despertar. O modo que o olhou, não o reconheceu.

– Nada, além de mostrar o caminho de volta ao seu corpo. Trazê-la de volta não foi fácil. – começou ele a explicar. – A alma de Kara foi submetida a grandes provas. Tive medo de perdê-la diversas vezes. Ela está muito frágil agora. Precisa de tempo para se recompor – explicou Radamés sentando-se do outro lado da fogueira. – A única coisa que a manteve viva foi o amor que sente por você. Isso a manteve no relicário.

– Ela vai ficar bem? – a voz de Jan Kmam tremeu levemente.

O vampiro mais velho o olhou e percebeu a dor, seu sofrimento. Parecia prestes a explodir em lágrimas pela amante perdida, longe.

– Arrependido?

– Faria mil vezes o mesmo, caso fosse necessário. – disse muito sério, a voz cheia de firmeza.

– O que faz aqui? Todos já foram, estão em Paris. – o vampiro falou pegando um punhado de areia na mão.

Jan Kmam percebeu que a areia mudava de cor em sua palma. Tornava-se dourada como ouro. Era sua energia e poder, afinal aquele era Radamés, o vampiro que organizou o mundo vampiro há mais de dois mil anos.

– Ela vai lembrar-se de minha existência? – quis saber sentindo tentando dominar a tristeza que o cobria.

– Talvez sim, ninguém pode prever. – Radamés olhou-o nos olhos e deixou a areia escorrer de sua mão lentamente. – É preciso apenas esperar. Lembre-se de manter sua promessa.

– Acredita que a esqueceria? Que faria a vampira que amo perecer devido ao meu egoísmo?

– Você é o favorito do rei Jan Kmam. Jamais duvidei de que fosse capaz de falhar. – dizendo isso levantou e foi seguido por Jan Kmam.

– O que devo fazer agora?

– Não se enterre vivo. No deserto só vivem bem os espectros, como eu. Kara criou vários mundos para que vivessem juntos, se abrigue em um deles e espere. Confie no amor que os uniu desde sua primeira existência.

Radamés falou enquanto cobria a cabeça raspada com o manto de linho negro. Caminhou rumo à escuridão e desapareceu.

Jan Kmam fitou o fogo e por fim o apagou com um gesto. Lançou areia sobre as brasas e assim como Radamés desapareceu dentro da noite rumo à cidade.

Radamés estava certo Kara criara diversos mundos. Voltou para o apartamento que dividiam e resolveu esperar. Nada mais lhe restava. Mas preferiu ficar incógnito. Não atendeu as ligações de Bruce, de Ariel, de nenhum deles. Apenas se isolou do mundo no mundo que criou junto com sua amada. Todos os dias e noites Kara era seu primeiro e último pensamento. O motivo pelo qual continuava regando suas plantas, deixando tudo pronto para seu retorno.

Quando saia para buscar alimento bloqueava sua presença, evitando que seus sentidos a captassem. Temia correr ao seu encontro. Tudo tinha limite, e quando percebeu que ela estava lutando pelas ruas foi impossível não correr até ela. Pode sentir o ódio o dominar quando a viu cercada por vampiros e lobisomens.

O que diabos Ariel estava fazendo? Por que ela estava nas ruas sem proteção? Lutando? Estava pronto a ajudá-la quando Radamés apareceu e o segurou.

– Observe e aprenda. – disse secamente.

A luta transcorreu ágil e violenta. Durante oito minutos a vampira lutou e derrubou todos que a cercavam. Jan Kmam continha-se ao máximo, fechara os punhos ao ponto das unhas ferirem suas palmas, tamanha a tensão que sentia ao ver a vampira que amava enfrentar cinco vampiros e um lobisomem sozinha.

A espada cortava o ar e desmembrava, feria e matava. Seu corpo movia-se com exatidão, a guerreira dentro dela havia despertado e não parecia disposta a adormecer novamente.

Quando a cabeça do último caiu no chão ela tocou o flanco ferido e sangrento e arrancou a lâmina ali cravada. O sol limparia a sujeira. No fim só restaria o corpo do lobisomem. O homem voltou à forma humana. Seu coração fora arrancado por Kara e esmagado entre seus dedos. Um bom modo de matar um lobisomem sem prata. Difícil era chegar perto o suficiente e sobreviver. Bem, ela cortou seus braços e enfiou um pedaço de madeira em sua boca.

Sua crueza era assustadora. Tornara-se uma maquina de matar. O modo como lutava e matava sem hesitação… Conhecia aquele estilo, a forma como segurava a espada… Em que momento Kara havia se transformado na guerreira?

– Ela está usando todo sem potencial, sem medo, sem culpa.

– Não me parecer ser Kara. Lembrou-me a guerreira que lutou contra os Anciões. – disse Jan certo do que dizia.

– Ela agora é parte de um todo. A guerreira que combateu os Anciões está com ela, às mulheres que vieram depois dela também, a sua Valeria, Rosa Maria, e por fim, Kara, a campeã do rei, a herdeira do sangue do favorito. – completou percebendo que ele compreendia que ao voltar à vida Kara trouxera um pouco de todas as vidas que viveu.

Ela estava bem o suficiente para voltar para casa. E assim o fez, sumiu pelas ruas sem que Jan Kmam pudesse segui-la e verificar se chegaria ao Château Coucher du Soleil em segurança. Radamés o olhava e esperava por uma explicação.

– Não descumpri nosso acordo. – avisou Jan seguro.

– Mas esteve bem perto. – começou friamente – Devo vigiá-lo?

– Não será necessário. – disse Jan Kmam enfrentando o olhar arguto de Radamés.

– Deveria sair da cidade. – aconselhou o vampiro dando-lhe as costas num movimento majestoso.

Jan Kmam continuou no alto do prédio apenas fitando a noite. No coração o peso da preocupação. Quem era aquela vampira? Onde estava a sua doce amada? Aquela de sorriso gaiato, de olhos doces que se derretia com seus beijos e caricias. Não deixaria Paris, não precisava interferir, mas estaria perto.

O vampiro arrumou o casaco e saltou do prédio para sumir dentro da noite.

Eternamente Só – Os Segredos do Rei – Capítulo 3

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Tive alguns problemas com meu notebook, instalação do Windows 10, e me atrasei com o terceiro capítulo do segundo conto das Crônicas de Alma e Sangue. Segue o conto, espero que gostem e deixem seus comentários.

 

Seu corpo e mente estavam em uma espécie de relaxamento profundo. Nunca havia recebido tanta atenção e prazer de um homem, um vampiro. Perdeu a conta de vezes que ele a levou ao orgasmo. Quis tocá-lo, e o fez, mas ele dominou o ato e simplesmente a satisfez plenamente. Encontro junto com ela um prazer intenso.

Não sabia ao certo definir, talvez fosse o longo tempo que permaneceu sem companhia no leito, ou simplesmente tocá-la deu a ele a lembrança da humanidade perdida. Sim, pois era ali com o ato, que se lembrava da batida de seu coração. Calor, a vida, os gestos, seu corpo reclamando posse e prazer.

Olhou-a sob seu corpo, e a apertou junto a si, a beijou longamente, enquanto estremecia num gozo profundo. Quando o vampiro assumiu ele fechou os olhos dilatados, os lábios para que não visse os caninos expostos. Janine o trouxe a tona com força total, seria difícil fazê-lo recuar. Tentou se afastar temendo assustá-la. Mas ela o enlaçou, beijou e ofereceu-lhe a garganta, que Ariel não recusou. Mordeu a carne macia e delicada sentindo seu cheiro. Uma mistura delicada de suor e seu perfume usual. Aquilo ia o enlouquecer.

Janine era como a composição de Tchaikovsky 1812 Overture, finale. Uma salva de canhões! A obra orquestral foi criada para comemorar o fracasso da invasão de Napoleão a Rússia em 1812. Ela é dramática, intensa, lembra uma tempestade, assim como o grande invasor foi chamado. O que surpreende nela é a salva de canhões algo inovador e que fez as plateias que a ouviram sentir o terror do campo de batalha.

Ali, sobre o corpo daquela mulher Ariel Simon sentiu a força daquela peça sobre seus sentidos. Os tiros de canhões soavam em seus ouvidos.

Quando ele afastou as presas, a boca, a viu lânguida no leito, pálida. Teve medo de tê-la levado a morte. Somente quando ela sorriu num estado de êxtase profundo ele relaxou e deixou-se cair sobre ela também sorrindo.

Lambeu a carne ferida, buscou seus lábios e a fez provar do sabor de seu sangue. Docemente ela o abraçou, acariciou suas costas, enquanto beijava seu peito e rosto. Ficou com ela em seus braços sentindo seus carinhos. O sangue o alimentando, dando-lhe paz. Tudo ficou lento, muito lento. Janine adormeceu. Ariel a beijou e deixou-se levar pelo sono. Só muito depois despertariam daquela tempestade de prazer. Venceu algo ou alguma coisa, mais não sabia bem o que era. Talvez o medo de entregar-se plenamente.

Durante o dia ela despertou com fome O rei pegou o telefone e fez uma chamada para a cozinha. Minutos depois uma leve campainha tocou, Ariel foi até uma das tapeçarias que decoravam sua câmara e desvendou uma porta. Ele mesmo trouxe o carrinho dando a eles privacidade. O rei ficou sentado na cama a observando comer. Em dado momento a alimentou com frutas e desejou poder comer junto com ela. Mas eventualmente beijava-lhe a boca sentindo o sabor das uvas, dos morangos que ela escolheu comer. Satisfeita ela se sentiu sonolenta ajeitaram-se no leito e agarrada ao corpo do rei e mergulhou num sono restaurador do qual só despertaram quase ao anoitecer.

O riso, as gargalhadas de Janine preenchiam a câmara do rei, enquanto ele corria atrás dela. Simulavam a captura de um vampiro, mas estava óbvio que era apenas um jogo de amor. Quando ele a capturou jogou-a sobre o ombro e a levou para o leito onde a atacou fazendo-lhe cócegas. A brincadeira ficou mais lenta, quando ele a beijou e puxou-a sob seu corpo faminto de prazer. Tomou-a com carinho e fome, enquanto sussurrava e gemia seu nome livremente, agora que se sentia mais a vontade na presença de Ariel.

Faltavam somente duas horas para o anoitecer. Ariel poderia estar trabalhando, mas preferiu ficar no leito desfrutando um pouco mais da companhia de sua enfermeira. Falaram de livros, musicas, das decisões difíceis que tinha de tomar como rei. Parou de falar subitamente e disse:

– Vem, quero dançar.

Ariel saiu do leito elevando Janine com ele. Ela buscou seu roupão, mas ele andava nu como um colosso por seus domínios sem se importar. Foi até o computador e procurou um vídeo no youtube, logo as imagens e o som da música da banda Simply Red invadiu a câmara real. A melodia fez Janine sorrir.

– My Night Nurse.

Ele a puxou para si e a conduzia no som do reggae. Cantava junto ao seu ouvido, envolvendo-a, enquanto ela sorria e seguia seus passos. Ele a ensinou a se mover e logo conseguiram seguir o ritmo. As mãos passeavam por seu corpo delicado sob a seda de um de seus roupões, que ela vestiu. Ela sentiu sua excitação e o beijou longamente.

Magnífico. Isso deveria bastar para descrever Ariel Simon, o rei dos vampiros, mas havia u pouco mais. Ele era sedutor, engraçado, sedutor, inventivo. Parecia ter o compromisso de não se repetir mesmo quando em pleno ato, sexual. Mas mantinha um ritual delicado de beijar e prender todo seu. Muito ficou claro, a lista de espera, por apenas alguns minutos em sua companhia, o modo que ele as evitava e se isolava, sim, ele era de certo modo recluso. Uma criatura milenar e eternamente só.

Segurou seu rosto entre as mãos e o beijou longamente e o puxou pela mão rumo ao leito. Assumiu o controle, o tocou, beijou seu corpo e também o fez gemer alto, quando as carícias desceram de seu peito e se prenderam em seu sexo. Ela o levou ao limite e quando ele atingiu o orgasmo avançou sobre ela e faminto, quase selvagem mordeu o seio farto e sorveu o sangue quente, rico. Aquela jovem havia despertado nele grande desejo e fome. Teve de se conter, afastar-se, enquanto ela gemia sob suas demandas. Temeu exauri-la. Mas Janine não parecia exaurida, na verdade demonstrava a mesma fome e desejo. Bem, como Pacificadora ela provou de seu sangue na cerimônia de iniciação e sobreviveu. Talvez por isso o seguisse sem reservas. Contudo não queria arriscar fazer-lhe algum mal. Quando ela aconchegou-se a ele no leito, lânguida e sonolenta. Estava exaurida e com razão, ele exagerou. Ariel mordeu a ponta do dedo e deixou que as gotas caíssem sobre seus lábios. Ela abriu os olhos e os fixou nos dele, enquanto sugava-lhe o dedo com fome. Janine recuperou o tom rosado da pele que estava pálida e percebeu o ânimo voltar, a sonolência desapareceu. Não haveria mudanças, ela fora Pacificadora e já provara antes de seu sangue.

A noite havia chegado, Ariel a levou para sua banheira e lá banhou seu corpo mimando-a. Ele podia fazer aquilo por dias e noites, e nunca se cansar. Janine se entregava em cada carícia e gozo. Libertava uma mulher que desconhecia, mas que ia manter bem viva de agora em diante.

Vestiram-se, e quando ela estava pronta para partir o rei a segurou e falou:

– Quero vê-la novamente.

– Não posso. – disse preocupada – Togo me avisou que jamais voltaria ao seu leito majestade. Apenas deixe que me despeça. – pediu tocando seu rosto.

– Ariel, meu nome aqui é Ariel. – disse segurando sua mão. – Quero que volte amanhã à noite, quando terminar de ajudar na enfermaria. Vamos jantar fora. – disse tomando-lhe a mão delicada para beijar.

– Togo avisou-me…

– Sou seu rei, esqueceu? – disse paciente com ela, mas dando mostras de estar aborrecido.

– Não, mas…

– Agora vá Janine.

Beijou-a nos lábios e a libertou para que partisse. A queria, e a teria quantas vezes desejasse. Estava cansado de ter Togo como vigia de seu leito. Furioso arremessou o cálice de vinho vazio na lareira.

Quando os criados entraram e passaram a cuidar da arrumação do quarto, percebeu que eles apagavam as marcas dos bons momentos ali vividos. Sorveu um cálice de sangue e os observou em silêncio sombrio.

Vestido e pronto para as audiências o rei estava satisfeito, mas taciturno. Togo nada perguntou, mas tirou suas próprias conclusões. A noite foi cheia. E seu ânimo só melhorou quando Kara apareceu na sala de audiências.

A campeã do rei prestou esclarecimentos sobre sua busca a Górki. Ela relatou sobre suas vítimas e seguidores. E como o matou na construção. Sua caçada foi considerada um sucesso e o caso encerrado. Nenhuma acusação foi dirigida a ela pelos vampiros que seguiam Górki e que por ela foram mortos.

– O que vai acontecer com as meninas tocadas por Górki.

– Serão entregues ao Livro.

– O que isso significa? – a vampira quis saber.

A sala não estava cheia, pelo menos não com desconhecidos. No salão estavam Romano, representando os Lordes, Valdés, Misha, Tiago e Togo. A maioria dos casos em julgamento aquela noite já haviam sido resolvidos e os envolvidos deixado o salão.

– Os Anciões acharam por bem mantê-las com eles. – disse Romano entendendo a preocupação de Kara.

– Vão viver com eles? – quis saber incrédula.

– Sim. – o rei afirmou seguro.

– Mas são apenas meninas. Aquele lugar é… Vazio e desolado. – disse lembrando-se dos corredores do Templo.

– Elas terão carinho e proteção e estarão vivas. É isso ou a morte. – disse o rei. Ordália e as demais anciãs gostaram da ideia de tê-las com elas.

– Quando irão? – quis saber temendo tê-las perdido.

– Amanhã, caso deseje se despedir delas aconselho que faça essa noite. – Togo respondeu passando-lhe um pergaminho para que assinasse.

Era sobre a caçada de Górki, mais um para sua lista de feitos. Kara assinou e sem mais nada a dizer pediu licença e saiu educadamente do salão. Aquelas meninas precisavam de mais, mas como lhes oferecer algo que não saberiam controlar? No mundo exterior teriam de viver sob vigilância e isso não representaria segurança, ou evitaria, que se envolvessem em problemas. Eram tão jovens. ­– pensou lamentando. – O tempo era como um convento de freiras. Sentiu-se incapaz de encará-las. Saiu e fez compras para elas. Alguns brinquedos, roupas e livros.

As visitou e brincou com elas por algum tempo sob a supervisão de uma Pacificadora. Elas não sabiam que iriam para o Templo e Kara não revelou. Temiam que não compreendessem e fugissem. Os anciões saberiam como lidar com elas.

Arrasada Kara saiu do quarto e foi se refugiar na ala oeste do château. O coração doeu, bateu e a cada uma das batidas a fazia fraquejar. Caiu no chão e foi sacudida por uma onde de lembranças. Jan Kmam a envolvendo nos braços, pedindo desculpas. Ela havia deixado de falar e dormir com ele por cinco dias e noites. As sensações, seu toque… Arquejou e gemeu de dor. Minutos depois quando se ergueu do chão sentou em um dos parapeitos de mármore e se deixou fitar a noite. Estava tão mergulhada nas emoções e sensações, que não viu o rei chegar.

– Elas serão bem tratadas pelos anciões, acredito que eles as mimarão. – comentou sentando-se a sua frente, mas a uma distância respeitável.

– Acredito que sim. Se pudesse as manteria comigo, mas acho que não sou alguém muito confiável. – deixou sair dos lábios um de seus medos.

– Acredite-me, seria uma boa tutora, ou melhor, uma boa mãe. Mas elas precisam de um ambiente mais controlado. Isso elas só terão no Templo.

Ele a viu secar uma lágrima. Algo a atormentava profundamente. Não era somente sobre a decisão do Livro, havia algo mais a incomodando, conhecia-a bem, sabia reconhecer os sinais.

– O que há de errado Kara?

– Talvez houvesse sido melhor para todos que eu houvesse morrido. – sussurrou mantendo a voz o mais controlada possível.

– Do que está falando? – quis saber indignado.

Kara se lembrava do olhar, aquele último olhar a marcou. No seu íntimo jamais esqueceu a dor naquela retina azul. O modo como se afastou dela sem nada dizer. O seu silêncio, o que ele disse ao partir? Nada. Parecia ter nojo dela.

– Por que ele foi embora?

Depois de olhar os olhos grandes e negros cheios de lágrimas Ariel respondeu num suspiro cansado.

– Não sei Kara. Por que não o procura e tenta descobrir a verdade? – sugeriu tomando sua mão delicada entre as suas.

– Fiz algo de errado para com ele? Diga-me a verdade, por favor.

As perguntas eram legitimas, havia tristeza, dor, e curiosidade. Ela secou as lágrimas com as costas das mãos. O olhar ficava vago como se lembrasse de sua partida. Tão forte e tão frágil.

– Ele me abandonou, não foi? Por isso me emancipou. Para que não sofresse a desonra de ser tutelada pelos Poderes, por qualquer vampiro que quisesse a pupila de seu favorito. – ela ligou os fatos e viu sua real situação.

– Sim e não. Você é preciosa demais para ser tutelada. Forte demais para ainda necessitar de um mestre. Mas agora observando suas lágrimas me pergunto se estava errado. Talvez ainda precise de um mestre…

– Não. – disse seca e rápida.

Um mestre a prenderia iria tirar sua liberdade. Eles sabiam disso.

– Eu só queria saber por que fui abandonada.

– Estão longe há quase cinco meses, acho que é hora de resolverem essa questão.

Dizendo isso o rei pegou seu celular e fez uma ligação. Kara arregalou os olhos e depois se conteve virando o rosto, não esperava por aquela reação tão imediata. O rei estava quase desligando quando a voz de Jan Kmam se fez ouvir.

– Majestade.

– Caro amigo.

O rei iniciou um diálogo informal com o vampiro, que respondia com tranquilidade e segurança. Kara ouvia a conversa e reconhecia sua voz. Ela era tão familiar, poderia dormir ouvindo sua voz.

– Não vai perguntar por ela? – provocou suavemente o rei.

– Sei que vossa majestade e Bruce estão cuidando bem dela. – a voz continuava segura, mas havia um tremor leve de tristeza, nada que um mortal ouvisse, entretanto, um vampiro, sim.

– Ela faz perguntas – começou Ariel cuidadoso – Uma delas é o motivo pelo qual a deixou?

– Ela recuperou suas lembranças? – houve esperança.

O rei olhou a vampira atenta a ligação e muda, ao seu lado. Quando ela balançou a cabeça negativamente. O rei suspirou e respondeu.

– Não. Só fica confusa por ter sido…

– Existem muitas coisas que não posso explicar… Mas ela precisa crescer Ariel… Ela precisa ser livre, entende? – a voz tremeu.

Jan fechou o punho e conteve o soluço na garganta. Não ia chorar!

– Compreendo, ela é uma força da natureza por assim dizer. – confessou Ariel a elogiando.

– É só isso majestade? – a voz estava fria, dura.

– Sim, Jan só isso.

O telefone ficou mudo. O rei desligou o aparelho e viu a vampira ficar de pé. Ele a segurou e a puxou para seu abraço. Ela soluçou aflita.

– Eu não sei por que estou chorando. – gemeu agarrada ao rei.

– Está se sentindo sozinha é natural chorar. Quer ficar comigo essa noite? Podemos ver um filme, pode dormir na minha cama, eu durmo no divã…

– Obrigada. – disse ainda com a cabeça em seu peito.

– Amanhã vou te apresentar uma jovem vampira, ela se chama Isadora e vocês têm muito em comum.

Naquela manhã Kara entrou na câmara do rei. Buscou o leito e em pouco tempo dormia profundamente, como se estivesse muito cansada. Apenas deitou a cabeça no ombro do rei, a mão sobre seu peito. Ele a abraçou forte e assim ficaram.

Ali, nos braços do rei, Kara sequer sabia o que aquela separação custava ao vampiro que lhe deu a imortalidade. Jan Kmam estava em Paris, mas evitando tudo e todos. Havia soltado o celular sobre a mesinha. Os punhos estavam fechados, as unhas ferindo sua carne. As lágrimas de sangue caiam sobre a madeira polida. Curvou-se sobre si mesmo e deixou a dor o inundar. Vivia uma noite de cada vez, mas cada uma delas sem a presença de sua amada lhe custava um pedaço de seu coração e imortalidade.

 

 

 

 

 

 

A Caçada e Outras Paixões – Capítulo 2

camaDesde seu nascimento para a imortalidade Kara se mostrou única. Chegou mesmo a ser elogiada pelos Caçadores e a Ouroboros. Bem, não era a primeira vez. No passado eles a salvaram da mordida de um lobisomem por admirar sua bravura.

O que Kara não revelou a Bruce foi que as lembranças lhe traziam confusão. Não sabia como lidar com os sentimentos que a dominavam. Algumas lembranças lhe provocavam lentidão e dor. Dor física, mas precisamente as que envolviam Jan Kmam. Pela primeira vez estava morta. Talvez isso a confundisse. Seu antigo mestre nada mais significava para ela. Era apenas um nome no passado. O vampiro que a olhou e partiu sem se importar se estava bem ou não.

Cinco dias depois, na noite do temporal Ariel temeu por sua vida. Um estranho pressentimento o assaltou. Estava ligado a ela, sempre estaria pelo sangue e amor. Saiu no meio do temporal e pediu um carro de apoio. O coração estava apertado no peito. Cidade parecia deserta, as luzes fracas debaixo do chuvisco fino tentavam varrer a escuridão e estragos causados pelo temporal.

Seus instintos e a força do sangue de Kara em suas veias o guiaram para a periferia. Prédios abandonados, alguns em construção. A destruição era grande. Material e lixo espalhados pelo canteiro de obras e cheiro de sangue. Logo encontrou os corpos decapitados caídos em possas de sangue e água. Aliados de Górki. Ela estava por perto agindo como anjo da morte. Isso o incomodava, matar tantos de sua espécie tinha um preço. Temia que tudo aquele derramamento de sangue a chocasse de algum modo.

Possivelmente ela era a vampira mais estranha e perturbadora que já teve o privilégio de conhecer e amar.

Nos últimos tempos vinha se isolando. Um par de vezes a encontrou na ala oeste do château. Era pouco usada e tinha acesso ao jardim por meio de um corredor de arcos.

Sentava entre os arcos de pedra e fitava a noite, o fosso, a vida noturna de insetos, ratos, morcegos, animais no bosque. Por vezes tocando o anel de pedra azul no dedo, que nunca tirava. Entregue a divagações, o rosto às vezes nostálgico, ou triste, nenhuma lágrima, só frieza e o silêncio.

Estaria em seus lábios o sabor da saudade do sangue de seu mestre? Jan Kmam teria voltado a sua mente e coração?

A chuva diminuiu e a noite avançou fresca e doce. Kara no alto do prédio procurando o resto de seus inimigos. Eles estavam a poucos metros, no prédio vizinho. Perto demais! Saltou e evitou ser alvejada por uma rajada de balas.

Três, que boa soma. Havia morto cinco deles, mas eles pareciam se multiplicar bem depressa. Respirou fundo e usando toda sua rapidez correu entre os vampiros e os desarmou. Pescoços e braços cortados. A espada banhada em sangue a fazia sorrir. Quando lutava sentia-se viva e plena. O sangue em suas veias era algo de muito poderoso.

Ela usava muito bem os dons recebidos de seu mestre. Mas seu alvo estava fugindo agora. Escalou as paredes seguindo o vampiro responsável pelo rapto das adolescentes. O caminho que fazia era de fuga e talvez para um cômodo secreto.

Colada à parede Kara esperou. Não olhou para baixo apenas saltou. A pequena abertura a acolheu como um abismo. Ela se viu dentro de um quartinho. Escondeu-se nas sombras e ouviu soluços, corações batendo.

Duas meninas presas em uma cela de grades de ferro. Ainda humanas, mas drenadas. Andou pelo espaço apertado e sentiu cheiro de urina e vômito. Abriu a cela e constatou que as jovens estavam drogadas, ele deu-lhes absinto. Certamente para que ficassem quietas.

Podiam ser salvas ainda, pensou. Quando sentiu a arma em sua cabeça sorriu. Voltou-se lentamente e enfrentou o vampiro.

– Górki como vai? – ela quis saber sem nenhum temor.

– Melhor que você vadia. – rugiu ele atingindo seu rosto com a arma.

Kara virou o rosto com o impacto e sentiu gosto de sangue na boca. Mas logo depois voltou a encarar o vampiro.

Aquela não era a primeira vez que se encontravam. Górki realmente parecia um astro teen. Loiro, olhos verdes, bonito como um anjo. Ela notou sua admiração, o modo como a olhava quando compreendeu quem ela era. Mas não se deixou comover pela aparente juventude e ar inocente. Detrás daquele sorriso de anjo estava um assassino frio que vinha destruindo sonhos.

– É a campeã do rei.

Ele fez a constatação. Sabia que ela o estava caçando mais jamais a imaginou tão bonita e até mesmo pequena. Kara não era alta, suas botinhas a ajudavam, mas não passava de um metro e 1.70. No entanto havia algo nela, o olhar, a postura. Lembrava o rei.

Atrevido ele lançou-se sobre ela e a luta foi quase equilibrada. Kara o feriu diversas vezes e por muito pouco não cortou sua cabeça. O sol a impediu. Mas o marcou cruelmente durante a luta. Cortou uma de suas orelhas. Ele agora usava o cabelo solto para cobrir a ausência. Mutilações eram algo permanente para um vampiro. Queria cobrar o preço pelo que fez aquelas jovens. Sobre seu corpo caído puxou a adaga que levava presa na coxa. E fez o corte com a precisão de um cirurgião. Jogou o pedaço de carne sobre seu peito e mergulhou nos esgotos da cidade onde a luz do sol não a tocaria.

Aquele seria o último encontro. Estava cansada de caçá-lo, queria voltar para o château tomar um banho de banheira.

– Acha mesmo que vou me render? Que vou parar?

– Tenho certeza que não. Por isso vim até você. Vou lhe ajudar com isso. – ela comentou semicerrando os olhos.

– Solte a espada ou estouro seus miolos. – rugiu com o rosto transformado. Os olhos negros, os caninos a mostra, a pele feita em mármore.

As meninas nas celas choravam com medo.

– Tudo bem.

Kara soltou a espada no chão. Não queria levar um tiro no rosto. Ia demorar a se recuperar, mesmo com o sangue de Ariel nas veias. Deixou a espada que o rei lhe presenteara no chão e trouxe da bota sua adaga e a cravou na garganta do vampiro. O golpe sobre o cabo quebrou sua traqueia e o impossibilitou de lutar. O sangue salpicou sua face e roupas. O fitou tocando a garganta, o sangue fluindo por seus dedos.

– Acabou Górki…

Vindo do fundo daquele quadrado sombrio e fétido uma vampira descabelada e suja atacou Kara. Lançou-se sobre ela e tentava arrancar-lhe os olhos. Feriu sua garganta com as unhas imundas e só se afastou ao receber um soco no rosto.

A vampira era velha, mas aparentava ter quinze anos. Possivelmente uma das vitimas mais antigas daquele maldito vampiro. Ela deveria ter uns oitenta anos a julgar pela pele e olhos, a força. Afastada pelo soco foi para perto da criatura que amava, Górki. Tocava-lhe a garganta e puxou a adaga de sua carne sangrenta e rugiu para Kara com a arma em punho.

– Você precisa descansar querida.

No movimento ágil Kara pegou a espada no chão e a matou com um golpe piedoso. A cabeça rolou e um som engasgado saiu da garganta do vampiro que milagrosamente ficou de pé. E avançou sobre Kara numa carreira cega de ódio bem parecida com a sofrida há poucos minutos.

– Merda!

A espada cravou-se no estômago do vampiro, Kara tentou se segurar, mas um empurrão foi forte e jogou ambos para fora da janela do prédio.

Caíram metros a baixo. Górki balbuciava suas últimas palavras. Fora empalado por um pedaço de ferro. Kara tocou a cabeça e sentiu sangue nos dedos. Estava num piso sem paredes e repleto de pedaços de ferro apontando para o alto. Assim que olhou a sua volta acreditou ter muita sorte. Passou muito perto de ter sido empalada também. O sangue de Górki escorria e pingava sobre Kara. A perna estava torcida, ferida. Tocou o flanco e sentiu a roupa de couro rasgada, o corte na carne, o sangue, o pedaço de madeira.

Arquejou e foi tomada por uma lembrança. Os olhos azuis do vampiro estavam sobre ela.

– Você está sangrando! O que aconteceu, Kara? Fale comigo, por favor.

O vampiro do Templo tocava seu rosto com aflição, enquanto a fitava.

– Caí de um prédio. Ai!

Ouvia sua voz, mas quase não se reconhecia frágil e chorosa. Ele não esperou um minuto sequer, tomou-a nos braços e a carregou para o banheiro. Rapidamente a sentou sobre a bancada do lavatório. Nervoso, tirou-lhe a jaqueta, ouvindo-a gemer de dor.

– Merde! O que aconteceu, Kara? Kara?

Voltou à realidade arfante. Precisava sair dali e bem depressa. Só então se percebeu sobre uma fina camada de madeira e gesso. Para piorar o corpo de Górki estava fazendo os pedaços de ferro ceder. Estavam enferrujados e se desprendendo da parede com seu peso. A situação beirava o desastre. O prédio abandonado estava em ruínas e a chuva que caiu não ajudou muito.

Antes que pudesse saltar o piso onde estava cedeu. Seu grito cortou a noite e alertou Ariel não muito longe. Kara viu a chuva de tijolos, ferros, e o corpo inerte de Górki caindo sobre a frágil estrutura onde ela estava. Tudo ruiu e ela foi junto.

– Kara!

De pouca distância ele a viu desaparecer sob os escombros.

Ainda caiam tijolos quando Ariel se aproximou da pilha de entulhos onde Kara estava soterrada. Ele estendeu a mão e a localizou em questão de segundos. A chuva voltou, mas isso pouco importava. O rei dos vampiros estava cavando por entre restos de pedra, madeira e gesso que pareciam não ter fim.

– Kara! Pequena… Não! Não!

Nervoso demais para prosseguir usando sua agilidade de vampiro, ele se afastou. Fechou os olhos por um minuto sob a chuva e quando os abriu novamente estava pronto para usar um de seus poderes.

Estendeu a mão em direção à pilha de destroços. Algo aconteceu, uma primeira camada de tudo que havia no chão afastou-se, uma segunda e uma terceira.

Um feito e tanto para sua mente, mas ele conseguiu, pedaços de madeira e tijolos foram lançados longe e finalmente parte do corpo de Kara ficou visível. O rei segurou sua mão suja de sangue e areia e a beijou.

– Pequena o que fez? – questionou a puxando para a superfície.

Estava desacordada e muito ferida. Havia sangue na cabeça, o ombro fora perfurado por um pedaço de ferro. A perna parecia quebrada. Ela era uma lista de lesões! Sequer sabia com qual se preocupar mais.

Pegou o celular e ligou para o motorista, falava rápido, enquanto via a recobrar os sentidos e gemer de dor, arquejar. Ele a ergueu nos braços. A chuva os castigava e limpava o sangue e areia do rosto de Kara.

– Maldita vampira teimosa! – rugiu aborrecido e aflito.

Ariel caminhou até o fim da rua onde o carro negro e luxuoso apareceu. O Pacificador abriu a porta e assim que o rei entrou a fechou.

– Para casa Arturo e depressa.

Ariel tirou o casaco e a envolveu nele. Feriu o pulso e o levou a sua boca. As gotas caiam e a animaram a beber. A mão débil o segurou junto aos lábios e sugou o precioso líquido. Os olhos se encontraram, estava em seus braços e ele a apertou junto a se com cuidado e carinho.

– Juro, você ainda vai me matar de susto Kara!

No château Joshua cuidaria das perfurações. Limpava o rosto de Kara com um lenço. Sentia-se impotente diante de seu estado. Bem sabia que logo seu organismo reagiria, mas vê-la ferida não lhe agradava, principalmente sabendo o causador.

– Górki…?

– Morto. Você o matou, acabou o coração dele foi destruído completamente. Não se esforce. O sol cuidará de seus restos.

Ele pode vê-la sorrir satisfeita e gemer de dor. O miserável estava morto. Terminou.

– As meninas no esconderijo…

– As encontrei e elas serão resgatadas, fique tranquila. Esta tudo bem agora.

Maldito! O sol o engoliria lhes poupando a limpeza. Fitou o rei mantendo-a nos braços e ergueu a mão para tocar seu rosto. Mas antes que conseguisse apagou.

Havia dado sua palavra para Jan Kmam, que nada de mal aconteceria a Kara. Precisava vigiá-la melhor. Ariel beijou-lhe a testa. Tê-la nos braços novamente era maravilhoso, mas jamais imaginou deste modo, ferida e inconsciente.

O carro parou e logo o pesado portão de ferro se abriu dando-lhe passagem. Metros à frente um criado abriu-lhe a porta. Ariel carregava Kara com extrema facilidade e cuidado, cruzou o hall da mansão e passou pela sala de estar rumo à escadaria como um raio. A Sentinela que abriu a porta e esperou por ordens, que não vieram. O rei sequer o viu, tamanha a preocupação com a vampira. Ele só parou dentro do quarto que agora funcionava a uma sala de cirurgia. Ele depositou Kara sobre a mesa de exames e se afastou. Imediatamente Janine, a enfermeira, antiga Pacificadora se aproximou. Pegou a tesoura e começou a cortar as roupas da vampira para que o doutor começasse a trabalhar.

Joshua vinha substituindo bem o bom Dr. Vitor. Como vampiro conhecia bem a natureza de um corpo imortal. Os Pacificadores e Sentinelas eram seus maiores clientes. Extrações de balas, envenenamentos. Os vampiros possuíam grande capacidade de regeneração, mas se o ferimento não provocasse uma hemorragia aguda, ou se impedisse a cicatrização. Por ser vampiro não era visto como um curioso. A corte crescera nos últimos anos. Menos desgarrados e mais vampiros inscritos no Livro. Mais audiências, o mundo vampiro estava cada vez mais organizado. E não era raro Dr. Joshua receber pacientes um ou dois por noite. Ele tinha até mesmo e soro contra mordida de lobisomem.

– Ela parece um ímã, está cheia de ferro e destroços, vai ser doloroso…

– Use morfina.

– Ela não aprova. – nos últimos dois meses aquela vampira era uma constante em sua mesa de atendimento. E sabia que odiava drogas.

– Que se dane, eu aprovo. Faça. – ordenou Ariel observando com aborrecimento o corpo ferido, sangrento da vampira.

– Janine a seringa. – pediu olhando para sua enfermeira.

A seringa já estava pronta e foi passada para as mãos do médico. Ele injetou o liquido nas veias da vampira e verificou seus olhos. Kara odiava ser dopada. Escolhia sentir dor a lidar com a inconsciência e os efeitos colaterais a deixavam tonta. Tendo-a inerte sobre a mesa começou a remoção dos pedaços de ferro e madeira de seu corpo. Trabalhava rápido, quanto mais depressa os cortes se fechassem menos sangue ela perderia. Enquanto Joshua trabalhava Ariel foi para o banheiro e se despiu. Ele estava encharcado, sujo de barro e sangue. Enquanto se lavava seu criado de quarto apareceu com roupas limpas. Bem em tempo de ver seu rei sair do banheiro e enrolar-se numa toalha.

Os olhos de Janine fixaram-se discretamente sobre seu rei. Os cabelos cacheados e ruivos estavam escuros e lindamente desordenados. O peito largo e pálido era convidativo, assim como os ombros. O cheiro de sua pele e sabonete eram um convite ao olfato. A jovem pacificadora desviou a vista, quando ele soltou a toalha sem pudor. O criado entregou-lhe a cueca boxer e logo depois a calça jeans. A visão de sua virilidade a tocou ao ponto de quase deixar cair à bandeja que segurava. Desviou a vista e se recompôs e recebeu os instrumentos sujos de sangue das mãos do médico.

Era perfeito e realmente… Não esqueceria aquela visão por um bom tempo. O único da espécie que podia satisfazer uma humana, uma loba, uma vampira, até mesmo uma súcuba. Desviou o olhar da sutura e voltou à atenção para o rei.

Os olhos verdes pegaram os seus. Ela baixou a vista envergonhada, mas não arrependida. Era por isso que as vampiras o perseguiam, as roupas caras e elegantes davam a ele um ar civilizado, bonito. Mas o preferia como estava agora, jeans e camiseta negras. Os ombros expostos, o cabelo penteado apenas pelos seus dedos. Sua aparência selvagem e sexy era tentadora.

Calçou um par de sapatilhas de couro leves. Joshua estava terminando com Kara e Janine conteve seus desejos. O rei era um cavalheiro e não cortejava as damas de sua corte. Mas quando desejava uma delas às fazia saber. Pelo que sabia, Togo, seu conselheiro e líder da Ordem dos Pacificadores avisava a vampira caso ela desejasse corresponder, era levada até o rei.

A enfermeira afastou tais pensamentos da cabeça ao ver o médico fechar os cortes mais profundos que a vampira trazia no corpo. Fez curativos e Janine a cobriu com o lençol.

Ariel se aproximou e a tomou nos braços. A levaria para seus aposentos. Não ia deixar que passasse o dia num dos leitos da enfermaria. Seguiu pelos corredores menos movimentados e usou uma de suas passagens secretas para chegar até seu quarto. Aquela noite dormiria na cama do rei. Na verdade Ariel tinha dos quartos, um na câmara subterrânea e um no terceiro andar. Ela não recordava, mas quando estiveram juntos, como amantes, odiava os falatórios sobre eles dois. Kara não era bem vista, não fora antes, nem seria agora que estava livre de seu mestre e emancipada.

Ajeitou-a sobre os travesseiros e a cobriu com mais um cobertor. Os cortes já se fechavam, os ossos voltavam ao lugar, às marcas roxas sumiam deixando a pele lisa e pálida como antes. Logo estaria desperta e pronta para enlouquecê-lo novamente. Beijou seus lábios delicadamente e partiu. Era preciso cuidar dos estragos causados por Górik. Encontrou Togo no corredor para a sala que usava para reuniões.

– Desejo companhia essa manhã. – disse o rei olhando o tablete que recebeu das mãos de Togo.

– Quem devo chamar?

– Janine, a enfermeira. Faça a ela o meu convite. – respondeu, enquanto conferia os e-mails.

Togo o olhou e resolveu falar.

– Ela não é qualificada para servi-lo, majestade. É uma pacificadora.

– Deixe que eu decida Togo. E, ela não é mais uma pacificadora. Esqueceu?

– Existe uma lista de vampiras que…

– Janine, Togo. – insistiu Ariel aborrecendo-se com a insistência de Togo.

– Certamente majestade.

O rei seguiu pelo corredor e foi para sua câmara. O dia nasceria em uma hora. Não gostava de sentir o poder do amanhecer sobre seus sentidos. Seu corpo estava faminto, queria dormir acompanhado, dar e receber prazer. O olhar da enfermeira só o lembrou de quanto tempo estava sozinho. Não fora a primeira vez que a percebera o observando. Bem, muitas o olhavam, mas nem todas chamavam sua atenção. A lista de Togo estava cheia de vampiras, que sonhavam ser sua concubina. Kara era sua rainha, pelo menos era o que desejava que ela se tornasse quando fosse inscrita no Livro. Por agora ela precisava ser protegida e escolher seu caminho.

Desejava-a, mas jamais a tocaria sem que lembrasse quem ele era em sua existência como vampira. Sua presença na casa o deixava ansioso, amava aquela vampira e faria qualquer coisa para vê-la feliz. Vestiu um roupão de seda negra e foi para o quarto. Sentou no divã e pegou um dos livros na pilha ao lado. Havia livros em todos os lugares, claro, o criado tentava manter tudo em ordem, no entanto, não os tirava do lugar onde o rei os deixava. Leu por quase trinta minutos. Togo não voltou, nem mandou mensagem. O dia nasceu. Soltou o livro e resolveu dormir, teria algumas reuniões logo que a noite chegasse. Teria de tomar algumas decisões difíceis…

– Majestade.

A voz de Janine se fez ouvir. Ariel se voltou e fitou a jovem mulher. Havia tirado o uniforme branco. Usava um vestido floral e sapatos de verniz. O cabelo negro estava preso num coque, os lábios coloridos por batom vermelho rubi. Os olhos castanhos escuros tinha uma expressão calma. Mas seu coração estava disparado. Ela era uma visão dos anos cinquenta. Bem, foi nessa época que ingressou como Pacificadora. O vestido certamente era daqueles dias. O uniforme branco escondia sua beleza certamente.

– Fico feliz que tenha aceitado meu convite.

– Sim. – disse ela e começou a desabotoar o vestido.

– Pare, por favor. – ele pediu. – Quero sua companhia primeiramente, se nos sentirmos dispostos, o prazer virar. Tudo bem?

– Eu só… Sim, tudo bem. – concordou se tranquilizando. Seria bom ter a companhia de seu rei.

– Venha, sente-se aqui junto ao fogo.

Ariel Simon a conduziu para perto da lareira. Ela sentou em uma das poltronas e fechou os dois botões. O rei se afastou e quando voltou trazia nas mãos um cálice de vinho e um de sangue.

– Obrigada Majestade – ela aceitou e tomou um gole.

– Pode me chamar de Ariel, estamos longe da corte e aqui sou apenas um vampiro, acompanhado de uma linda dama. – explicou sendo sincero. – Obrigada por aceitar meu convite Janine.

– Togo disse que devo agradá-lo…

– Janine, eu queria companhia essa manhã, você aceitou meu convite. Mas entenda, não quero que me agrade. Seja você mesma isso me deixará feliz.

– Mas…

– Muitas das vampiras veem aos meus aposentos e apenas me fazem companhia. Dormem ao meu lado o que não implica em sexo. Gosto de conversar, jogar, ver filmes.

– Compreendo. – ela disse num murmúrio.

– A decepcionei?

– Não, não. Eu só pensei… – ela se calou.

– Sou obrigado a especificar no convite, que se trata de satisfazer o rei. Minha satisfação passa por muitos estágios. Eu sei que tenho uma reputação. – brincou ele a olhando com atenção a fazendo corar. – Vejo prefere ser enfermeira em vez de Pacificadora.

– Sim. Muito, obrigada por me permitir a mudança.

– Todos têm direito a mudar de opinião. Você nos serviu bem como Pacificadora por cinquenta anos.

– É tão estranho, parece que foi ontem. – comentou sorvendo o vinho. – Depois da guerra eu trabalhei em um asilo de idosos e me senti muito impotente. Então quando o convite dos Pacificadores chegou me senti renascer.

Janine contou ao rei como descobriu o mundo dos vampiros. Ele gostou de conhecê-la melhor. Saber como se tornou Pacificadora. ] Conversaram por quase duas horas animadamente. Ariel riu de algumas de suas histórias como Pacificadora e lhe mostrou uma de suas coleções de pistolas. Ela ficou fascinada, gostava de armas de fogo e entendia bem delas.

Estavam bem perto quando ela tocou seu rosto. Quase como se quisesse saber se ele era real. Apenas ficou quieto e deixou que ela explorasse seu rosto, por fim os cabelos ruivos.

Janine estava bem perto agora e quando ele a puxou para si, ela colocou suas mãos sobre as dele. Ele se curvou e buscou os lábios rubros. Ariel começou com leves toques, devorando seu batom, mas aprofundou o beijo apertando-a contra ele. Janine o envolveu com os braços e retribuiu com desejo. Sentou na poltrona próxima e a puxou para seu colo. Sua excitação à fez recuar suavemente.

– Só a tocarei quando pedir… – ele murmurou junto a sua garganta, afinal a manteve junto a ele delicadamente sem deixá-la fugir.

– Quero você. Faça amor comigo. – ela pediu com os olhos dentro dos seus.

– Mas por que treme? Medo? – perguntou ele segurando seu queixo.

– É que eu nunca… Estive com um vampiro antes – ela não disse mais estava óbvio

– Compreendo. Sou a melhor escolha para esse momento tão importante? – ele quis saber temendo tomá-la como primeiro amante.

– Sim. É.

Imediatamente as portas foram trancadas. O rei usava seus poderes para isolá-los do mundo. Janine gostou disso, poder. Trocavam beijos e caricias, enquanto Ariel a despia. Deixou-a apenas com a combinação de seda cor champanhe. Os dedos dele deslizavam sobre a seda suavemente. Ela era deliciosa aos seus olhos, o vestido, os sapatos e aquela combinação deram ao rei um sentimento de familiaridade único. A pele morna, os seios pontudos sob a seda o convidando ao toque o faziam arder de desejo.

– Você é linda. – sussurrou salpicando beijos sobre a seda numa tortura lenta.

Precisava disso, o lugar comum, uma bela mulher, seda e desejo. Ergueu-a nos braços e foi para cama. A mantinha em seu colo e beijava sua garganta, o colo macio, os seios agora nus.

Ela gemeu quando os lábios dele pousaram sobre o mamilo rosado. A pressão que ele exercia com a língua, a boca, quase fizeram-na chegara ao clímax. Mas ele sabia como levar aquela tortura a graus mais elevados. Sequer percebeu quando ele tirou-lhe a combinação deixando-a apenas com a calcinha de seda.

Deitou-a no leito a passou a salpicar sua pele morna com beijos. Janine retribuía acariciando sua pele pálida e firme e quando suas mãos delicadas empurraram o roupão expondo seu corpo forte ele parou e a olhou nos olhos.

– Vou possuir você Janine, espero que aprecie meu toque.

– Sim…

Ariel Simon puxou aquele último pedaço de seda e ficou diante do corpo nu de Janine. Era linda, arredondada, o sexo entre as coxas exibia pelos aparados e castanhos. Exótica, doce, morna, úmida. Ele mergulhou em seus mistérios e a saboreou fazendo-a estremecer. Quando notou que continha os gemidos na garganta, mordendo o polegar para não gritar, ele sorriu maligno.

– Não se contenha. – ordenou ele segurando suas coxas. – Deixe-me ouvir o quanto está gostando disso. – disse elevando a cabeça de seu ventre onde os cachos rubros a acariciavam.

– Vai me enlouquecer… – ela sussurrou arfante.

– Sim, vou.

Ele avançou sobre sua carne e Janine gritou ao contato de sua língua habilidosa. Contorcia-se, apertava os lençóis e por fim seus cabelos.

Enquanto ela tremia sobre os lençóis de seu leito, o rei sorria e lambia os dedos observando-a pronta para ele. Caminhou sobre seu corpo como um tigre e a beijou. Ela tinha as pupilas dilatadas, o corpo relaxado. Estava pronta para mais. E aquilo o fascinou. Entre beijos e toques a penetrou e a levou com ele em um ritmo lento e vigoroso ao êxtase. O corpo dela estava faminto de prazer, e ele a alimentou, saciou completamente.

Quando ele buscou sua garganta ela compreendeu o que ele precisava e lânguida ofereceu-lhe a carne. Segurou-se em seus ombros sussurrou.

– Tome meu sangue, me tome por completo.

– Sabe que isso não é necessário. – ele disse olhando-a nos olhos.

– Faça, quero que faça. Morda-me, tome meu sangue, quero saber como é, por favor.

O rei a olhou e os caninos ficaram expostos diante de seus olhos. Havia medo, mas havia também expectativa e fome. Ainda dentro de seu corpo se moveu deixando-a muito perto do limite de mais uma onde de prazer. Só então lambeu a carne macia provocando-lhe arrepios. Movia-se lentamente e quando não pode mais suportar a mordeu. O sangue inundou a boca do vampiro que teve o corpo sacudido por um gozo profundo partilhado por sua parceira. Ela gemia sob seu corpo e se deixava levar onda após onda. O sangue sorvido deu a Janine um êxtase grandioso, algo jamais experimentado.

Eternamente Só – Capitulo I

 

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Para fazer do mês de Outubro um pouco mais especial, um presente para os fãs da série Alma e Sangue. Mais um conto das Crônicas de Alma e Sangue. O conto é Eternamente Só. Ariel Simon, Kara, Jan Kmam e outros vampiros passeiam por esse conto nos dando um pouco do prazer de ser imortal.

Uma hora de chuva ininterrupta. Um temporal havia desabado sobre Paris. Na TV os telejornais pediam cautela e se possível permanecer em casa até que tudo passasse. A maioria dos vampiros que estavam no Château Coucher du Soleil esperando uma audiência preferiram não se molhar. O rei só os atenderia na segunda feira, estavam livres para ir ou ficar. Era sexta feira e Ariel saiu pelos portões com rumo certo.

Quando viu o fosso que circundava a construção imponente, antiga e bela transbordando se preocupou, Kara havia saído nas primeiras horas da noite. Segundo um pacificador, o sol ainda sumia no horizonte quando ela envolta em um manto espesso de veludo cruzou os portões.

Estava em perseguição a um fora da lei, um vampiro que estava matando jovens adolescentes. O crime fora julgado pelos Poderes e a sentença era a morte. Deveria ser encontrado e decapitado. Conseguiu boas pistas trabalhando sozinha. Mas sabia que os Pacificadores a seguiam quando conseguiam.

Ela se voluntariou para caçar o vampiro. Foi durante uma das audiências abertas, ela sabia que naquelas condições o rei não poderia lhe negar o direito de campeã. Apesar de ter provado inúmeras vezes sua capacidade e bravura. Para a pessoa do rei, Ariel Simon, ela jamais seria forte o suficiente. Bem, esquecer seu mestre e grande parte de sua história não foi exatamente benéfico. Esse estado só reforçou uma fragilidade que não sentia, que não possuía.

Lembrava-se daquela primeira noite, quando saíram do Templo da esfinge. Além da construção só havia o deserto e a noite. Conduziram-na para o transporte e por fim para o jatinho do rei. Sentia-se desconectada de tudo e de todos. Os ouvia sussurrando, falando sobre ela e sua condição. Até mesmo sobre aquele vampiro que a olhou e partiu. Aos poucos se lembrava de ser vampira, dos poderes, dos amigos e inimigos. Estava tudo lá, bastava acessar, no entanto tudo estava diferente, longínquo.

A medida que provou estar lúcida e sã a vigilância diminuiu. Mas podia sentir seus olhares sempre sobre ela. A liberdade voltou, mas controlada. A pedido de todos ficou no castelo, ou como chamavam aquela bela construção, Coucher du Soleil. Vagou por ele nas noites que se seguiram e via imagens, ouvia vozes do passado, do seu ou eram o de outra mulher vampira? Descobriu ter opositores. Eles andavam pelos corredores e comentavam que a amante do rei havia voltado, deixado seu mestre para galgar o poder. Sussurros maliciosos, cruéis sobre ela e o rei. Por vezes aparecia a frente deles e os observava em silêncio ameaçador. Muitas vezes apenas se isolava e tentava lembrar quando fora amante daquele belo vampiro ruivo, de corpo atlético.

Radamés tirou muito dela e jamais lhe ofereceu uma boa explicação do porque o fizera. Não adiantou chamá-lo quando dele lembrou. Simplesmente ele não veio. Estava sozinha, o coração mudo dentro do peito. Lembrava-se dele batendo e era consolador.

A resposta era lutar, quando se ofereceu para caçar o vampiro diante da assembleia sentiu-se viva. Ela traria o culpado pelas mortes das adolescentes ou cortaria sua cabeça. O rei diante dos Poderes, dos seus súditos cedeu à petição. Afinal, ela ainda era sua campeã, não iria desmoralizá-la diante da corte. Poucos sabiam do seu real estado.

Togo lhe ofereceu dois pacificadores como apoio, mas ela recusou, enquanto se armava para sair na noite. Sozinha trabalhava melhor. Consegui algumas pistas, mas nenhuma delas levou-a ao vampiro que procurava. Até que ouviu um nome nas ruas, Górki.

– Você é a campeã do rei não é mesmo? – o vampiro de cabelos curtos e negros perguntou a certa distância.

– Sim, sou. O que tem a dizer?

A vampira observou cuidadosamente o vampiro de pouco mais de cem anos e esperou. Ele queria falar, mas pelo visto tinha um preço. Aproximou-se com cautela, deixou clara sua presença e quando tocou sua mente foi com um nome.

– Acho que sei quem procura campeã.

Ele saiu das sombras até que a luz do poste o tocasse. Ela podia vê-lo bem no escuro, sabia com o que lidava. No entanto o jovem parecia disposto a impressioná-la. Vestia jeans, botas, camisa e uma jaqueta surrada. Não tinha selo de herança nas mãos. Ou seja, um anel de linhagem. Seria um desgarrado? Possivelmente. Sabia que se procurasse alguém viria até ela e lhe diria a verdade. Por isso recusou os Pacificadores, eles eram bons em combate, mas afastavam os mais acanhados. Olhos claros, cabelos castanhos. Beleza, uma boca convidativa.

– Fale.

– Tudo tem um preço…

Num piscar de olhos o vampiro se viu erguido no ar, pregado a parede como um inseto. Enquanto os olhos escuros da vampira o examinavam bem de perto. Os caninos dela estavam à mostra, a íris escura como um abismo negro. Aquele olhar era estranho e vazio como o de um demônio seria.

– Escute bem – começou ela suavemente – Sou a campeã do rei, estou caçando um maldito desgarrado, que esta pondo o seu rabo e o meu na luz do sol. – cuspiu gelada – Acha que pode negociar comigo?

– Eu só quero ver o rei…

– Posso espremer você até que sangre, o que acha?

A pressão que exercia sobre o corpo do vampiro era esmagadora. Faltou-lhe ar nos pulmões. O medo o enfraqueceu.

– Sou um desgarrado… Só quero uma chance… De ver o rei…

– Por que deveria acreditar?

O vampiro caiu no chão e tentou se recompor, quando foi deixado livre pela campeã. Tossia e tocava a garganta. Ela era tudo que diziam nas ruas, majestosa e mortal. O aroma de seu perfume estava nele sobre sua pele, jasmim. Sentiu medo. Caído observou suas roupas negras de seda, veludo e couro e tentou pensar com clareza. Trazia a cabeleira negra presa numa trança, que pendia sobre o ombro e colo.

– Fui transformado e abandonado. Aprendi a sobreviver sozinho, tenho cento e vinte cinco anos. Quero ser inscrito no Livro. Sei que existem Poderes… – os olhos negros o avaliavam. – Nem todos tem sorte.

Ela quase o ouvir dizer: sua sorte.

– Como se chama? – falou brincando com sua adaga.

– Samuel, mas me chamam de Samy. – revelou fitando a lâmina nas mãos da vampira.

Dizia a verdade. Kara guardou a lâmina e pegou o telefone. Falou com Togo e consultou as regras. O jovem vampiro seria recolhido, o sangue analisado pelo Livro, se seu criador fosse um inscrito pagaria por seu abandono. Se não ele seria adotado. Teria uma audiência com o rei e caso aceitasse os termos seria inscrito. Conseguiria um mestre tutor e aprenderia a viver no mundo vampiro civilizado. Estaria dali em diante vivendo debaixo de leis, que poderiam levá-lo a morte, caso pisasse em falso. Poderia obrigá-lo a dar-lhe as respostas, mas seria cruel, além disso, Samy não revidou seu ataque como esperava.

Desligou o telefone e lhe passou as regras. Ele pensou por alguns minutos e as aceitou e começou a falar tudo que sabia.

– Górki tem a aparência de um jovem de dezoito anos. Mas possui trezentos, não sabe usar muito bem seus poderes, mas é cruel ao torturar suas vítimas.

Dizendo isso o jovem abriu a camisa e mostrou o peito marcado por riscos. Chicotadas. Mas porque não cicatrizaram e sumiram? Percebendo o olhar da vampira sobre as cicatrizes ele resolveu elucidar suas duvidas.

– Sal, ele me chicoteou e depois jogou sal para que as marcas ficassem para sempre. – disse Samy. – Ele caça adolescentes por prazer. Quer vampiros iguais a ele. Ele frequenta os locais aonde os jovens se encontram. E quando acha o que deseja, os mata ou escraviza.

Samy fechou a camisa e baixou a vista como se soubesse o preço por aquele crime.

– Sabe o que farei com ele quando encontrar, não é mesmo?

– Sim, sei, não sou tão ignorante quanto pareço. Sou apenas um desgarrado. Você vai cortar a cabeça dele. – falou rouco e tenso. – Foi o que ele disse que faria comigo se falasse algo para um vampiro inscrito no livro.

Nada é realmente por acaso, o que moveu Samy até a campeã foi medo.

– Sei que é proibido tocar alguém tão jovem.

– Por que ele o chicoteou? – Kara quis saber sem pressão.

– Queria me recrutar, quando me neguei ele me atacou. A maioria dos desgarrados prefere caminhar sozinho. Quando o pacto entre vocês e os lobos foi quebrado e houve a guerra no deserto, havia um líder a seguir. – ele falava sem reservas – Não gostamos de Justin Bieber. Entende?

Kara pegou seu telefone e ligou para Togo novamente. Ele localizou o vampiro nos arquivos criminais e passou um registro de imagem para Kara. Um desenho antigo de um jovem loiro e com feições de anjo.

– É ele mesmo. – confirmou Samy.

Quando desligou o celular se aproximou de Samy que se forçou a ficar imóvel e calmo. A vampira tirou um cartão do bolso e entregou ao jovem desgarrado.

– Quando estiver pronto para enfrentar o crivo dos Poderes ligue para esse número, diga seu nome e espere. Eles virão te buscar, e o resto é com você.

Ela deu-lhe as costas de partida.

– Kara?

Ela parou e esperou ainda de costas.

– Obrigada.

– De nada Samy.

Dito isso sumiu diante de seus olhos e o impressionou. Aquilo lhe trouxe uma lembrança. Aquele vampiro loiro, o seu mestre, fez isso anos atrás, discutiram e ele saiu pela porta e sumiu diante de seus olhos. Aquilo a impressionou. Jan Kmam, o vampiro que a transformou… A emoção do momento era de que o amava. No entanto, lembrar-se dela não a fez senti-la. Era apenas uma lembrança. O afastou e todo o resto.

Voltou sua mente para Górki. Ele foi procurado, mas havia desaparecido por quase duzentos anos. Bem, ele estava de volta às ruas e ela o encontraria.

Togo fechou o celular e olhou os arquivos de Górki. Devia ter suspeitado, mas a lista de procurados e infratores era extensa. Os progressos de Kara agradavam ao líder da Ordem dos Pacificadores, ela era útil nas ruas lutando, tinha bom faro. Pena seu rei acreditar que ela não era capaz. De vê-la somente como amante e não como sua campeã. E ela tentando superar as expectativas negativas se colocava em risco.

A lista de jovens mortais desaparecidas crescia, a polícia não media esforços para encontrá-las. A merda caiu no ventilador e tomou proporções de filme de terror quando dez dias depois uma das vitimas de Górki voltou para casa e drenou os pais e arrancou a cabeça de dois policiais, que tentaram detê-la. Felizmente nenhuma câmera filmou seu ataque e ela desapareceu na noite sem deixar rastros.

A tenente Yasmim ocultou os detalhes ao máximo, mas a situação estava fora de controle. Kara cruzou com ela saindo da sala onde o rei estava reunido com os poderes. Resolveu não entrar e foi para a cidade, talvez conseguisse encontrar a menina, agora vampira.

Kara tentou pensar com a adolescente. Vagava pelo prédio da escola onde ela estudava e a viu no telhado. Estava vivendo no sótão e saia à noite para se alimentar. O problema é que fazia bastante sujeira. Seguiu o rastro de sangue e sua intuição. Ao ver Kara nos túneis a menina se aproximou e a olhou. Provavelmente era a primeira de sua espécie que via. Estava suja de sangue, magra, a imortalidade visível. Não sabia como se ocultar.

Teve medo a princípio. Mas Kara soube como falar e depois de uma longa conversa conseguiu convencê-la a seguir com ela até o château.

– Não estou sozinha. – a jovem de quatorze anos falou.

– Tudo bem, temos muito espaço. – disse Kara sentindo as outras duas meninas aparecerem.

Estavam sujas, desgrenhadas. A mais nova trazia na mão uma ratazana morta, tinha a boca suja de sangue e nos olhos muita fome. Eram jovens demais para serem tocadas pela imortalidade. Preocupou-se, o que aconteceria com elas? Roubou um carro e as levou para o château. Ligou para Bruce e pediu ajuda, entrou pela ala norte, que estava fechada. Temia que as meninas se assustassem e fugissem.

Quando parou o carro e ela ajudou as meninas a descerem viu Bruce e Ariel na entrada ele sorriu ao vê-las chegar. Por algum motivo desconhecido pareceram respeitar sua presença. Era a voz do sangue? Sim, provavelmente. Elas o seguiram e foram conduzidas a aposentos, enquanto foram servidas de sangue e roupas limpas e até brinquedos para a menor. Sorriam e se não fosse pelo olhar vítreo e os caninos entre os lábios agora rosados, eram meninas normais.

– O que você não consegue Kara?

O rei perguntou ao ver as três meninas adormecidas, calmas e cientes que não poderiam deixar o château. Eram suas hospedes agora e aprenderiam como lidar com seus poderes e a fome de sangue. Duas pacificadoras foram designadas para cuidar delas. Teriam bastante entretenimento e sangue.

– A confiança daqueles que respeito. – disse andando ao seu lado no corredor vazio. – O que vai acontecer com elas?

– Na melhor das hipóteses elas ficam vivas. – falou mentalmente temendo que mesmo ali no corredor elas pudessem ouvi-lo.

– Não podem fazer isso. – disse indignada parando para olhar o rei.

O rei esperou e viu a antiga Kara, aquela que teve de matar homens e mulheres infectados por lobisomens em sua primeira missão como campeã do rei. Ela cumpriu sua incumbência, mas quando retornou veio ter com ele em sua câmara. A conversa não foi boa e ela terminou presa em seus aposentos. Naquela manhã ela dormiu em seus braços e foi maravilhoso despertar sentindo seu corpo nu, mesmo sem tê-la possuído. Ele jamais esqueceu a emoção, a sensação. Mas seu coração estava cheio de tristeza por seu mestre, Jan Kmam, que fora condenado à caixa por cinco anos. Será que ela lembraria? Ou tudo teria sido apagado por Radamés?

– Farei o possível para que sejam mantidas vivas. Mas saiba, a lei é clara nesses casos.

– Não podem executá-las, elas não pediram isso. – disse com calma e buscando racionalidade, justiça.

– Kara… Sei disso, mas compreenda, ser tocado nessa idade é muito mais perturbador e difícil de ser assimilado. Jamais terão controle absoluto. O desejo de sangue será sempre mais forte.

Ela baixou a vista e foi para uma das janelas. Pareceu compreender o que ele tentava lhe dizer, enquanto fitava a noite, as árvores que faziam parte do bosque que circundavam o château. Afinal, mesmo para um adulto a fome de sangue por vezes era incontrolável.

– Como seria feito? – perguntou tocando a pedra fria dos arcos da janela, os olhos brilhando pelas lágrimas que continha.

– De forma indolor e o mais rápido possível. Elas não sentirão ou saberão. Nada de medo para elas.

O olhar escuro da vampira buscou o dele. Ela estendeu a mão e o tocou. Os dedos delicados sobre o anel de rubi imperial. Parecia querer dizer algo, talvez agradecer, ou jurar que mataria Górki, no entanto, se conteve. Afastou-se usando de reverencia curta e sumiu pelo corredor.

– Kara?

– Sim, majestade.

– Eu sinto muito.

Com um aceno de cabeça ela sumiu na galeria e a partir daquela noite Kara desapareceu dentro de Paris. Dormia nos esgotos e procurava Górki incansavelmente. Os pacificadores a perderam de vista, mas estavam encontrando vampiros mortos, os aliados de Górki, ela os estava matando sem julgamento.

O rei ficou furioso e mandou Bruce encontrá-la, se havia alguém capaz de fazê-lo era ele. No entanto, isso levou algum tempo. O vampiro a encontrou na Avenida Samson, no 18o arrondissement. Para ser mais preciso, no cemitério de Montmartre. Estava escondida num velho mausoléu. Foi ali que se esconderam quando fugia de Jan Kmam anos atrás. Ela descobriu que ele possuía uma escrava de sangue. O episódio a levou ao rei e a conhecer parte de seu passado.

O cheiro de sangue tomou o ar do mausoléu. Bruce se preocupou ao ver a vampira. Kara estava ferida, suja de terra e sangue. Parecia ter saído de uma briga com cães.

– O que houve Kara?

– Nada demais. – murmurou tocando a cintura onde havia uma mancha de sangue. – Foi uma luta justa, três contra um… – ela gemeu e ele se aproximou.

Despencou no chão e tossiu sangue. Haviam hematomas no rosto, tinha os nódulos dos dedos feridos. Lutaram com punhos e presas a julgar pelo sangue que manchava seu queixo e garganta. Mordeu o pulso e lhe ofereceu a veia aberta.

Um minuto depois ela sorvia o sangue com ânsia. Bruce era próximo a sua linhagem de sangue e podia alimentá-la. Não rejeitaria sua oferta. Os cortes fecharam, os hematomas sumiram dando-lhe uma melhor aparência. Se Ariel houvesse visto seu estado, a prenderia em cárcere privado.

– O que faz aqui? Como sabia…?

– Vim te levar para casa. – revelou decidido. – Eu a encontrei aqui, nesse esconderijo anos atrás, não lembra? – quis saber ele semicerrando os olhos.

– Vagamente. Havia dor, mas o túmulo era bem seguro. – comentou sem citar Jan Kmam.

– O rei te enviou.

– Você pode continuar sua caçada, mas precisa voltar a um local seguro para passar o dia.

– Aqui é seguro. – explicou empurrando a pesada tampa do túmulo que vinha usando.

O mausoléu era muito antigo. Ficava longe das quadras mais movimentadas onde os túmulos eram mais novos. O que ocupava beirava os trezentos anos e tinha a entrada, o portão obstruído pelo mármore e concreto. Esperta, ela usava um túmulo afastado da entrada. Bruce notou que haviam inscrições no chão e na porta feitas com tinta e vela. Pelo visto ela havia aprendido alguma coisa com Marie, a bruxa. Aquilo afastava mortais, lobisomens, espíritos, bruxas e até demônios.

– Não, não é. – insistiu ele olhando em volta.

– Bem, estou cansada e vou dormir e você? Vai ficar aí fora?

O dia vinha chegando e qualquer vampiro de juízo precisava se esconder ou enfrentar as consequências. Bruce olhou o interior do túmulo e ficou surpreso. Estava limpo, cheirando a lavanda e forrado com um edredom negro e roxo. Havia mesmo um travesseiro.

– Vejo que esta bem instalada.

– Gosto de limpeza. Prefiro a cama em meu quarto no château. Mas estou em missão e isso não importa.

Enquanto falava entrava no túmulo, teve o cuidado de bater as botinhas e exigiu o mesmo de Bruce. Ajeitou-se e puxou a pesada tampa com a ajuda do vampiro. Quando a escuridão os envolveu ela se ajeitou agarrando ao travesseiro.

– Venha Kara pode recostar-se em mim. – disse o vampiro e a viu sorrir na escuridão.

– Isso é bom. – comentou ao aconchegar-se a ele.

– Sim, muito bom.

Ele ligou o celular e mandou uma mensagem ao rei e deixou o celular no silencioso.

– E então? Lembrou-se de mais alguma coisa? – ele perguntou percebendo que ela ainda estava acordada.

– Sim, alguns fragmentos de conversas, brigas, momentos de sexo com aquele vampiro de olhos azuis. – disse sem nenhuma emoção.

– Jan Kmam, minha querida esse é o nome dele.

– Vocês são amigos há muito tempo, não é mesmo?

– Sim.

– Por que ele foi embora? – ela perguntou sem nenhuma emoção na voz.

– Eu não sei minha querida, mas compreenda-o – a voz dele tremeu de emoção – Ele o fez por um bom motivo. Você é a coisa mais importante para aquele vampiro. Ele daria a imortalidade para salvá-la.

– Eu não sinto isso… Não consigo sentir nada por ele… – ela pegou a mão de Bruce e a levou até seu peito. – Escute – pediu – Meu coração está morto e Jan Kmam é… – A voz dela ficou rouca, presa na garganta como se doesse falar seu nome. – Eles morreram juntos em meu peito.

O silencio em seu peito era bem real sob os dedos de Bruce que tocou seu rosto e beijou sua testa de modo consolador.

– Sonhei com ele, fazíamos amor, mas era como se… Não há nada lá, são somente imagens. – disse sincera.

– Entendo. – disse Bruce contendo sua revolta e tristeza. – Acredite em algum momento você vai lembrar e vai sentir essas emoções… Tudo vai voltar, eu apenas espero que seu coração possa aguentar o amor que está ai adormecido, quando ele despertar. – comentou sorrindo tristemente.

– Acha que ele sofre?

– Sim, muito.

– Lamento por ele, mas não posso sentir o que ele sente. – afirmou pensativa.

– Bem, agora durma você precisa se curar completamente.

Dizendo isso a abraçou, acariciava seus cabelos de modo suave, ele sabia como mimar sua amiga. E logo ela adormeceu. Ele ficou pensando por longos minutos e decidiu que falaria com o rei e depois com Jan Kmam. Aquela situação já fora longe demais. Eles precisavam ficar juntos, só assim ela se lembraria. Ariel estava se comportando como um cavalheiro. Mantinha-se distante apenas a protegendo.

Na noite seguinte Bruce despertou se se viu sozinho no túmulo. Ela havia partido e deixado um bilhete.

– Diga ao rei que logo voltarei.

Ariel teria de esperar um pouco mais para vê-la cruzar os batentes do château. Havia se tornado uma arma letal. Esquecer seu mestre deu a ela uma espécie de independência fria e crua. Aparentemente não temia a morte, estava desconectada de seus sentimentos. Lançava-se a luta, aos desafios sem medo.

O Salvador – Capítulo X – O Julgamento – Final

if_we_meet_again_by_vampire_zombieNão tenho dúvida sobre a relatividade do tempo. Ele passa depressa quando estamos felizes e lentamente quando enfrentamos problemas ou simplesmente estamos tristes.

Os últimos cinco dias de minha existência como imortal tem se mostrado, literalmente eternos. Após ser atacada por Virgílio e separada de Misha despertei em outra cela. Não era fria, ou no subsolo de um castelo. Mas era um cárcere privado, sem janelas, uma porta de ferro e algum conforto. Livros, uma mesa de estudos, uma cama, banheiro, roupas e o silêncio. Ele pretendia me deixar ali por muito tempo. Examinei as paredes e percebi que eram bem grossas. Mas onde estava? Perder a consciência e despertar em lugares estranhos havia se tornado uma rotina.

Ouvi sons no corredor e logo parte da porta se abriu. Uma portinhola na parte inferior, que deu passagem a um balde de água morna com uma garrafa. Era sangue. Faminta a peguei e sorvi um gole no gargalo. Não pude me controlar, a fome era intensa. Após o primeiro gole me senti tonta e pesada. Quanto tempo eu fiquei sem alimento? Soltei a garrafa no balde e cai no chão. Foi como se houvesse levado um soco.

A porta se abriu e mãos firmes, mas delicadas me recolheram do chão. Tremia e quando o cálice tocou meus lábios e aos poucos sorvi o sangue me senti mais forte e menos confusa. Recostada nos travesseiros focalizei o rosto de Virgílio. Bonito como sempre, o rosto cheio de vida sorvida direto de um mortal, enquanto eu me servia em uma garrafa. Desviei a vista e me encolhi no leito, quando ele estendeu a mão em minha direção.

Em resposta ele se afastou. Sentado na poltrona próxima à cama, ele apenas me observava readquirir cor e traços mais humanos.

– Por que esta fazendo isso comigo?

O fitei incrédula e sorri quase histérica.

– O que lhe fiz? – questionei incrédula.

– Nós estávamos bem. – a pergunta dele era sentida, mas fora de propósito.

– Como ousa? – disse ficando de pé furiosa sobre a cama.

Ele me fitou sobre o colchão, punhos cerrados, olhos mudados, caninos a mostra a minha pele pálida como mármore.

– Quando me salvou naquele beco e sentiu meu olhar de admiração e gratidão disse que não me apaixonasse, mas eu… E como uma tola eu me apaixonei. Dei-te minha morte, minha vida imortal e com medo me abandonou! – gritei sentindo o som de minha voz penetrar nas paredes. – Sabe o que senti quando despertei naquele quarto e não o vi ao meu lado? – lágrimas quentes escorriam de minha face.

Ele apenas ficou lá quieto me ouvindo.

– Estava sozinha, indefesa, numa cidade estranha e cheia de outras criaturas. Eu podia sentir o coração imortal de Marie, Valdês e Misha. Eles eram bons e distantes e foi tudo que restou, quando perdi você.

– Eu sinto muito. Estava protegendo-a de Galeso…

– Mentira! Você estava se protegendo! Sentiu muito medo e se livrou da fonte dele, eu. Medo de sentir dor, medo de sofrer, de me perder quando na vida perdemos e ganhamos o tempo todo.

Desabei na cama e solucei amarga, sem forças.

– Eu chorei por tanto tempo. Aquela carta… Foi como se me jogasse no lixo. Nada do que dividimos em nossos momentos de intimidade e amor. Sim, porque eu te amava. Dei a você meu coração de vampira e brincou com ele.

– Eu te amo Isa.

– Jeito estranho de demonstrar. Abandono, violência e uma cela. Está me protegendo de quem agora?

– De você mesma.

– Não vai ter paz, não vou ceder. Nada mais vai ser como antes. – disse cheia de ódio.

– Não é minha prisioneira…

– Hipócrita!

– Quando o julgamento terminar a libertarei.

– Julgamento?

– Sim, Misha vai ser julgado. – falou serio e frio.

– O que está dizendo? – quis saber confusa.

– Será daqui dois dias. Espero que saiba se portar diante do rei. – disse ele olhando-me como se fosse uma criança estúpida.

– Fui convidada pelo rei em pessoa para ser parte de sua guarda pessoal. Conclui meu treinamento inicial, conheço as leis. Tive excelentes tutores, todos da casa dos lordes. Por que acha que não saberia me portar diante do rei? – quis saber indignada.

– Sabe o motivo? – perguntou de olhos semicerrados.

– Sim, eu sei, seu sangue e meu mérito. – expliquei sabendo que ele queria me diminuir em sua raiva e ciúme.

– Quando o julgamento terminar, terá de fazer uma escolha. Espero que a faça com sabedoria. – dizendo isso ele saiu do quarto e fechou a pesada porta.

Nos dois dias seguintes me exercitei e tentei me manter lúcida. O quarto me sufocava e qualquer coisa era melhor que ser prisioneira de Virgílio. Ele aparecia com roupas limpas e alimento. Ofereceu-me sua veia e a rejeitei com muito prazer. Preferia virar um maldito pedaço de mármore a ter de viver ao lado dele eternamente.

Na terceira noite me vesti e esperei. Quando a porta se abriu os Pacificadores esperaram que eu saísse do quarto. O fiz pacificamente e percebi que estava no subsolo de uma casa não muito longe da de Marie. Fui posta em um furgão e meus olhos cobertos por um capuz, as mãos algemadas. Era uma prisioneira. O capuz só foi retirado quando chegamos ao nosso destino, o Coucher du Soleil.

Acostumei-me a claridade e me vi na sala de audiências. O trono estava vazio ainda. Vampiros sentavam-se pelos acentos circulares e falavam em voz baixa. Foi colocada em uma cadeira e algemada. O pequeno auditório deveria contar com cinquenta acentos de madeira e veludo. O trono ficava elevado do piso em uma plataforma. Sem saber o que me esperava, apenas deixei-me ficar quieta. Aos poucos os acentos ainda vazios se encheram. Vi Marie, Valdês, Romano sentarem-se e me olharem com carinho, e de certo modo me passaram alguma força.

Um dos auxiliares de Togo tomou a frente e anunciou a entrada do rei:

– Todos de pé, o rei Ariel Simon está presente.

O som de pês e corpos tomando posição se fez ouvir, ao mesmo tempo em que a figura do rei entrava na sala. De pé o vimos se dirigir ao trono e ficar de pé diante dele.

Vestia um terno completo em tom chumbo e era uma visão de beleza e elegância. Os cabelos vermelhos pareciam um pouco maiores, ele os mantinha soltos sobre os ombros. O brilho de uma pequena argola de prata se fez entrever entre as mechas rubras. O olhar esmeraldino encantava e ao mesmo tempo refletia toda sua autoridade.

– Nossa espécie tem sobrevivido ao longo dos séculos desde que o homem primitivo caçava e se reproduzia nos campos e vales. Sempre soubemos que éramos diferentes deles. O abismo que nos separa deles jamais foi transposto. Mas não estamos isentos de manter seus hábitos e de imitá-los no pior. Temos leis, e é pela manutenção delas, que nos mantemos vivos, organizados, civilizados e longe do olhar curioso dos mortais. Quando falhamos, as leis nos trazem de volta ao estado de civilidade. Mas não pensem que as leis só punem e limitam, elas também libertam e trazem dignidade. – dizendo isso ele se sentou e o auditório o seguiu.

Senti seu olhar sobre minha pessoa, ali no banco dos réus e baixei a vista envergonhada. Contudo, não foi um olhar acusador e sim pensativo.

Vários casos foram expostos e julgados. As leis eram duras, mas justas e não beneficiavam culpados. Não haviam advogados, Togo expunha os crimes, as provas, e o rei, os lordes e o conselho julgavam, cabia ao Livro sentenciar. Alguns saiam livres, outros prontos para enfrentar a punição. Uma hora depois o salão estava quase vazio.

Perguntava-me onde estaria Misha? Ele ficou preso na cela? Por quanto tempo? A ansiedade crescia em meu peito. Valdês olhava-me preocupado e piscou para mim duas vezes em sinal de apoio. Eu precisava de informações, estava num mundo estranho e perigoso. Todos aqueles rostos pálidos, eles eram como o meu, mas neles havia algo que não possuía, conhecimento. Eram velhos e poderosos, me senti pequena e insignificante. Sequei uma lágrima e esperei. Fomos os últimos a ser julgados.

– Começam agora as audiências reservadas. – a voz do auxiliar se fez ouvir.

Imediatamente o auditório esvaziou. Só ficaram os interessados no caso. Marie, Valdês e Romano, Virgílio que havia aparecido durante as audiências abertas, mas não me dirigiu o olhar. Por que faria? Era muito poderoso, velho, para admitir que eu o enfraquecerá. Deveria ter morrido naquele beco? Era meu destino como mortal, por que não o cumpri? Nunca fui boa com prazos. Minha cabeça estava em ebulição havia tantas coisas, que poderia muito bem explodir.

Portas foram fechadas e as acusações começaram a ser lidas. Mas não antes que o prisioneiro fosse trazido ao salão.

Misha ainda estava com a mesma roupa da noite que ficamos juntos. Algemado pés e mãos. Parecia abatido, mas alerta. Procurou-me no banco e quando me viu quase sorriu. Fiquei de pé e fui empurrada pelo pacificador. Ele foi posto num banco do lado oposto do salão. Nada nos impediria de nos olharmos buscando alguma paz.

O rei nos olhou e percebeu o amor, o medo e a fragilidade do amor que sem perceber ele incentivou.

– Leiam as acusações.

O rei se pronunciou e chamou a atenção de todos.

– Lorde Misha passa agora a ser acusado de seduzir e tomar para si a pupila de outro. Mantê-la em seu abrigo e dar-lhe de beber de seu sangue, maculando do vinculo estabelecido com seu criador. O pedido de reparação pede sangue, para que os direitos do mestre tornem a ser reconhecidos sobre sua cria e sua dignidade restabelecida.

A voz era clara e límpida de Togo não deixava sentir emoção que definisse sua opinião sobre o assunto.

Virgílio ouviu as acusações e esperou com os olhos cravados no seu rival.

– Virgílio ­ chamou o rei – Venha para diante do trono e explique aos membros dos poderes aqui presentes porque em primeiro lugar abandonou sua cria.

– Majestade. – disse o vampiro diante do trono e fazendo uma mesura. –Acreditei que essa ocorrência já houvesse sido solucionada.

– As leis são claras sobre abandono. – começou Ariel – Você não poderia tê-la de volta. Abri uma exceção e vejo que errei.

– Majestade quer que façamos uma pausa no relato? – Togo sugeriu, já que ele admitia culpa em um julgamento.

– Sim, o faça. Esse julgamento não vai ser julgado de modo mecânico. Vou estabelecer alguns limites aqui. Traga o livro para o salão.

O rei estava decidido a ser justo. Não que geralmente não fosse, mas havia algo o incomodando. Togo o obedeceu e logo o Livro foi trazido. O carrinho de madeira era rebuscado, ancestral, de cor escura e seu ocupante era como um objeto mítico. Um grande livro aberto com páginas amareladas repleto de escritos e símbolos. Imediatamente ouvi sussurros. Algo forte me sacudiu, apertei os braços da cadeira e fitei o rei. Ele me devolveu o olhar e semicerrou os olhos.

– Quando invadiu meu abrigo temporário aquela noite, dei-lhe muito. – comentou o rei pensativo. – Dei-lhe o direito de reconquistá-la, de recuperar seu lugar de mestre e amante. Por uma simples razão, prevenção. – ele se inclinou para frente e deixou os olhos examinarem o vampiro. Temia que Isadora perdesse o controle, afinal ela demonstrou habilidades reconhecidas por seus tutores aqui presentes. – disse mostrando Marie, Valdês e Romano e por fim Misha. – Agora diante da situação exposta aqui o vejo inapto para lidar com Isadora como pupila, amante e até mesmo com seu poder.

– Estou sob julgamento, majestade? – o vampiro perguntou impertinente assim que o rei silenciou.

O rei gargalhou e se recostou no trono e semicerrando os olhos fez um gesto. Imediatamente os pacificadores cercaram Virgílio, não houve surpresa, apenas contemplação dos presentes. O som das correntes e os movimentos deixaram claro o que ocorria. Ele não lutou, mas estava furioso, o corpo rígido, a face feita de uma mascara gelada de ódio. Mas todo ele dirigido a Misha que dardejava com os olhos.

– Isso responde sua pergunta?

– Sim, majestade. – a voz estava presa na garganta. Mas saiu ao ponto de ser audível.

– Tudo isso poderia ter sido evitado, mas você tomou o caminho mais árduo e me colocou numa situação complicada.

A essa altura eu tinha a mão nos ouvidos, os sussurros agora quase me impediam de ouvir o rei falar. Meus olhos falhavam, era como se visse através de uma cortina de sombras e nela rostos começaram a se mostrar. Pálidos, poderosos, avaliativos. Não entendia o que diziam, era uma língua antiga… Egípcio? Parecia a mesma que Virgílio usava algumas vezes.

– Tenho um dos meus lordes mantido como prisioneiro, humilhado, submetido a acusações das quais poderia não ser culpado. E sabe o que sinto, errei como rei e como vampiro.

– Exijo apenas meus direitos de mestre.

– Não é uma simples traição, o roubo de uma cria, Virgílio. Trata-se do sangue dos anciões e ele deve ser protegido e não enfrentado. A está mantendo prisioneira no subsolo de sua casa. O que acha que vai acontecer? – quis saber o rei examinando as alternativas.

– Pretendo libertá-la…

– Sim, vai dar a ela liberdade. – ordenou o rei.

– Não manteremos preso um descendente direto dos anciões. – completou Romano se aproximando do rei com cerimônia.

– De certo que não.

– Deve retirar as acusações. – sugeriu o rei. – Percebe o que faço aqui Virgílio?

– Protege seu lorde, rouba minha cria e tenta corrigir um erro que não houve?

Foi muito rápido para que os vampiros, ou os pacificadores pudessem agir. Ariel se deslocou do trono e agarrou Virgílio e o conteve sob suas mãos. O poder dele era maior, concedido pelos poderes e pouco importava quantos anos a mais o vampiro tivesse, ele era o rei. As unhas estavam enterradas na pele que sangrava, as presas expostas eram ameaçadoras e o olhar verde provocava dor e terror.

– Não ouse me testar. Sou pouco paciente e minha posição me faz incapaz de não responder uma provocação à altura.

Ele o soltou num empurrão que o fez se chocar contra a divisória de madeira sólida que separava o salão do auditório.

– Acredito que deva ter esquecido sua posição em meu mundo. Sim, no meu mundo. Pois sua cabeça deve ser cortada para que não ameace minha posição diante dos poderes. Porque no fim, são eles quem governam através de mim. – esclareceu e fez o vampiro caído no chão baixar a vista ciente de seu erro.

O rei deu-lhe as costas numa demonstração clara de poder e nenhum receio. Virgílio ficou de pé com a ajuda dos pacificadores, que o juntaram do chão e arrastaram para diante do rei, que limpava a mão num lenço úmido oferecido pelo seu criado particular.

– Togo acho que Virgílio pretende tirar as acusações. – disse o rei ameaçador e o viu assentir e depois falar.

– Retiro as acusações que pesam sobre lorde Misha. Mas reclamo meus direitos sobre minha cria.

O rei levou a mão ao rosto numa atitude pensativa e percebeu que ele lutaria até o fim para manter seu poder sobre Isadora. Mas algo aconteceu.

Eu estava com as duas mãos na cabeça e gemia de dor. Pensava gemer baixinho, mas não verdade os sons que emitia já eram ouvidos por todos. Não tinha mais controle sobre minha mente. Ela se encheu deles, suas vozes, doze delas… Mulheres e homens. Compreendi que eles me tocavam, rodeavam, podia senti-los e por fim vi suas faces. Belos e selvagens guerreiros e lindas fêmeas. As fitava e tocava reverente, envolvida por suas mãos. A visão fizera meu corpo se elevar e só ser parado pelas correntes que me prendiam ao chão. Meu corpo flutuava hirto de poder, do meu nariz escorria um fio de sangue. De minha boca saia à língua falada por aqueles seres. O salão estava mergulhando em duvidas e silêncio.

Aquilo durou uns minutos, mas correntes me feriram a carne de meus pulsos. Por fim despenquei no chão, Misha gritou meu nome e tentou me alcançar. Estava tendo uma espécie de ataque, caída no chão me contorcia.

– Não a toquem! – ordenou o rei bem ciente do que ocorria comigo.

Quando tudo acabou, não demorou muito, talvez dois minutos ou menos. Fiquei de pé sozinha. Libertei-me das algemas com um aceno, pois elas incomodavam. Foi quando percebi o olhar fascinado de todos a minha volta.

– Aproxime-se Isadora. – o rei ordenou e o obedeci sem reserva.

Enquanto andava até o rei me senti estranhamente pesada e o olhar dos presentes no salão era revelador. Os pacificadores se curvaram a minha passagem e não compreendi o motivo, recuei e ao ver o rei me chamar prossegui.

– Sinto-me diferente. – murmurei sem pensar e fitei minhas mãos.

Foi quando notei a cor. Estavam da textura e da cor do mármore, meu corpo! Fitei o rei e tentei compreender. Mas ate mesmo ele olhava-me com admiração e carinho.

– Não fique assustada, o pior já passou. Sua natureza assimilou bem um poder antigo, e só demonstrado por nossos anciões. Bem-vinda Isadora filha do Livro, herdeira do quinto poder.

– O que fiz?

– Nada. O livro fez, ele a reconhece como sua herdeira. A partir de hoje é livre para ir e vir. Escolher como e com quem quer viver.

– Como volto ao normal? – perguntei mais preocupada em perder aquele tom de pedra. Podia me mover normalmente, mas sabia que deveria estar digamos assustadora. Era uma estátua viva.

– Quando se acalmar, eu acredito que suas características de imortal voltam a assumir o controle. Agora deve se colocar diante do livro e assiná-lo.

Togo se aproximou e me conduziu até ele. Podia sentir sua força me chamando, era algo de puro e simples. Não havia medo só curiosidade.

Estendi meus dedos e faíscas saltavam do livro para minhas mãos e delas para o livro numa troca de poder únicos. Por fim o toquei e senti-me parte dele. Vi a cor marmórea recuar. Eu voltava a minha forma natural de vampira e sabia, que agora não mais cairia naquele estado sem que tivesse controle sobre ele. Meu nome apareceu na pagina e minha história começou a ser escrita diante de meus olhos.

Quando me afastei do livro fitei Misha livre e corri para seus braços. Ele me recebeu e abraçou forte e soluçou de alegria. O beijo foi como beber agua límpida e pura depois de dias de sede. Faiscava e o vi sentir cócegas quando uma delas tocou seu rosto.

– Amo você. – disse afastando-me de sua boca.

– Eu também.

Escorreguei e o vi me segurar em seus braços fortes, enquanto sorria amorosa. Ele me ergueu nos braços e foi para diante do rei. Estava exausta e lentamente mergulhei num sono profundo.

– Peço permissão para deixar sua presença Majestade. Minha amada precisa de repouso e eu apenas de sua companhia.

– Concedida.

Olhei o rei e o vi sorrir para mim e piscar. Ele sabia o que aconteceria? Que meu poder viria à tona? Tudo tem o tempo certo dizem. E com o tempo certo eu me salvei, me revelei e me tornei a companheira de Misha. À medida que os dias e noite iam passando ficava mais forte e compreendia, que fazia parte dos anciões e eles de mim. Virgílio se afastou completamente. Misha revelou que ele desculpou-se formalmente diante do rei e partiu de Paris. Talvez houvesse saído em busca de sua vingança, talvez apenas esquecer sua derrota e coração feridos.

Dentro de minhas veias agora o sangue de Misha corria vitorioso. Ligamo-nos oficialmente numa cerimônia diante do rei e dos nossos amigos. Vesti um vestido branco, usei véu e tive Kara como minha madrinha, ela ficou na sala ao lado durante o julgamento pronta a entrar e falar em minha defesa, mas não foi necessário. O rei disse que saberia como libertar-me e a Misha. E assim ele o fez.

Valdês como padrinho. Romano e Marie ficaram ao lado de Misha e ele estava lindo vestido de negro. O anel de noivado e casamento foi presente do rei. É foi um casamento. Marie chorou emocionada e no fim sorriu e me abraçou. A lua de mel? Paris, aqui é nosso lugar especial, foi onde nos encontramos. Havia amor e carinho e desejo, muito mesmo.

Nada mais de Virgílio ficou além das lembranças. Às vezes pensava nele e como tudo teria sido diferente se ele não houvesse tomado à decisão de me abandonar. Estaríamos juntos ainda? E meu poder, o que teria acontecido? Meu coração não o lamentava, não o reclamava. Ele só queria paz e a teria ao lado de Misha. Ele não era meu salvador, mas foi o vampiro, que me ensinou a sobreviver, lutar por minha vida e vencer mesmo quando tudo apontava para minha derrota.

– Dora? – era Misha, havia retornado de seu passeio.

– Estou aqui Misha. – disse aparecendo na sala.

Sai da janela e me deparei no corredor com um buquê de flores do campo. As segurei e senti o perfume. O beijei e ele me envolveu nos braços e num gesto lançou o buquê para o alto. As flores se soltaram e caíram sobre nós dois. Sob à chuva de flores ele murmurou:

– Obrigada por me ensinar a amar.

– De nada meu amor.

Fim

 

 

 

 

O Salvador – Capítulo IX – O Tempo da Verdade – Parte II

a7700b53f7d8893dae7a54149779d127O silêncio pode ser assustador. A liberdade sempre me foi muito preciosa. Ser imortal é só acentuou esse sentimento. Poderes, sentidos, a ausência de medo. Medo. Bem, ele ainda nos assalta, mas é diferente, é algo que podemos olhar com frieza. Na mortalidade nossos sentimentos e corpo nos traem, e o medo é um limitador, enquanto na imortalidade é uma mola que nos impulsiona a ação.

Minha liberdade fora roubada. Estava em uma cela quase medieval sob o Coucher du Soleil. A acusação? Traição. Trai meu criador com outro vampiro. Fui pega na cama com meu amante, um flagrante. Diante das leis do mundo dos vampiros, sou menor, uma criança com poucos direitos, muitas obrigações e sujeita a muitas penalidades.

As grades, a ausência de janelas, o corredor, a grossura da porta deixaram clara a impossibilidade de fuga. Aquele lugar era muito antigo e certamente fora projetado para deter criaturas com poderes bem superior aos meus. O lugar era limpo, cheirava a detergente. Pelo menos não era degradante. Havia até mesmo um sanitário. Bem, era inútil, a menos que desejasse vomitar. Isso um vampiro consegue fazer. Todo o resto é improvável.

Desejava minha cama, ou a de Misha, onde nos amamos pela primeira vez. Como minha vida pode mudar tanto em apenas um ano? Um terremoto a cada três meses.

Quando o líder da Ordem dos Pacificadores, Togo, nos deixou cientes das acusações percebi que Virgílio queria vingança. Não sabia o que pensar, o que fiz? O vampiro de descendência oriental nos deixou e eu desabei no chão agarrada as grades e chorei de raiva e fui amparada por meu novo amante. Sim, ele era meu amante e nada que Virgílio fizesse mudaria isso. Meu coração agora pertencia a Misha. Abraçada a ele tendo as grades como um limitador, eu lamentei.

– Eu sinto muito… Não deveria ter ido procurá-lo…

– Dora? Olha para mim. – ordenou Misha fitando meu rosto manchado com lagrimas tintas. – Eu teria ido atrás de você mais cedo ou mais tarde… Eu te amo.

Dizendo isso ele cobriu minha boca num beijo faminto e cálido, que fez meu coração se aquecer, bater tão depressa que acreditei que explodiria. O segurei forte junto a meu corpo e solucei. Ele acariciou meu cabelo e costas. Ele só provou o que verdadeiramente sentia por minha pessoa.

– Demorei muito, deveria tê-la beijado quando entrei em seu quarto e a vi dormindo. – começou ele beijando meu rosto para limpar as lágrimas. – Senti seu perfume e meu coração disparou. – murmurou e acariciou meus lábios com o polegar.

– O coloquei em perigo. – disse tocando seu rosto.

– Já lidei com coisas piores que uma cela, uma acusação. – disse olhando-me nos olhos. – Quando a tomei como minha amante conhecia os riscos. Seremos julgados, mas eu terei vez e voz. Usarei meus direitos como lorde. Ariel é um rei justo, apenas acalme-se, tudo vai acabar bem.

Ele podia sentir meus medos, minha frustração e culpa. Ficamos sentados no chão mantendo contato por entre as grades. Contive as lágrimas, enquanto ele fazia planos para quando saíssemos daquela confusão. Quando o dia nasceu ficou claro, que não receberíamos mais nenhuma visita. Tremi de frio. As celas eram de pedra maciça e não ofereciam conforto. Adormeci agarrada a Misha, mas ele me despertou delicadamente e me fez ir para a cama em minha cela. O colchão era fino, mas era melhor que o chão gelado.

Deitei-me e fiquei insone, queria respostas. O que nos aconteceria? O que Virgílio poderia fazer contra Misha? Não conhecia o suficiente das leis para saber o que aconteceria agora. Ele era um lorde e estava sendo tratado como criminoso.

– Misha?

– Hum? – respondeu atento.

– O que realmente aconteceu depois que desmaiei?

O silêncio que pesou entre as celas falava de algo além de seu poder. Ele respirou alto e aquilo significava problemas. Misha estava deitado no catre, o braço sobre os olhos. Mas sentou, e se recostou na parede e olhando em minha direção começou a falar.

– Os mais próximos sabem que Virgílio amou apenas uma mulher, Zafara. Não a conheci como mortal, ou vampira, mas me disseram que era muito bonita. Uma perola rara, que Virgílio tratava como rainha e Galeso esmagou num gesto de vingança. Eles são inimigos há tanto tempo, que sequer sabemos o que gerou a rivalidade. Mas certamente é algo, que ficou mais sério quando ele caçou e matou Zafara e devolveu aos pedaços para Virgílio.

As palavras de Misha mantinha um tom baixo, profundo. Ele tentava não me alarmar, mas era impossível. Estive nas mãos de Galeso e escapara ilesa. Então fora por isso que ele me abandonou? Medo que fosse feita em pedaços? Abracei os joelhos e fechei os olhos. Misha fazia o caminho mais longo para me revelar à verdade.

– Seu criador descende quase diretamente do sangue dos Anciões. Acho que ainda não ouviu falar deles. Mas sendo cria de quem é, melhor saber a verdade. Os anciões são os mais velhos vampiros do mundo. É deles que todos nós descendemos. Em algum momento nossos mestres receberam seu sangue. Virgílio é o segundo herdeiro do sangue de Ordalia, a líder das anciãs. Isso faz dele um vampiro muito velho e poderoso.

– Mais velho que o rei?

– Sim, mais velho que Ariel. Contudo, Virgílio não anseia por poder. Poucos sabem de sua real idade. Entende?

Balancei a cabeça afirmativamente compreendendo um pouco mais da árvore de onde eu havia caído.

– Porém no que isso me toca? – quis saber com inocência.

– Os anciãos têm alguns poderes diferentes dos que desenvolvemos quando vampiros. Os mortais que herdam seu sangue ao invés dos poderes receberam dons sombrios na grande maioria. – ele se calou. – Eles têm nomes, tais “dons”. A febre do sangue, o sussurro, a visão, a fúria. Você desenvolveu a marmórea.

– Desenvolvi o que? – quis saber realmente confusa.

– Quando é submetida a muita pressão seu organismo se defende. Sua pele, sangue e músculos assumem a textura do mármore. Isso é apenas uma alusão ao seu estado. Seu corpo enrijece assumindo a firmeza, a cor do mármore…

As palavras morreram em seus lábios. Ele baixou a vista, deslizou a mãos pelos cabelos claros. Por fim olhou-me novamente e suspirou.

– O treinamento, os testes, ter de escolher um novo mestre, lidar com o retorno de Virgílio, a fizeram ter seu primeiro episódio. – ele falou frustrado.

Ouvia a descrição da “doença” percebi que realmente sentira-me levemente enrijecida, mais pálida que o normal para um vampiro. A dor no peito, o braço sem controle quando lutava. Acreditei-me tensa devido à presença de Virgílio. Sua presença disparou o ataque. Estava muito bem, mas ao vê-lo cruzar a porta senti a primeira fisgada.

– Existe uma cura? – era bom saber.

– Não. Tudo que pode ser feito é manter-se longe de pressões. Nada de stress para você. Isso a manterá bem e desperta para nosso mundo. – completou sem muita confiança.

– Mas não faz sentido, se sabiam disso, por que o rei me chamou para ser sua guarda costas? Os testes? – aquelas perguntas mereciam respostas.

– Acreditávamos que desenvolveria o mesmo “dom” que Zafara manifestou. – explicou Misha de imediato.

– E qual seria?

– A fúria. Ela perdia a consciência e tornava-se extremamente violenta pelo que soube. Quando tudo passava não se lembrava das matanças que promovia com lobisomens, mortais, vampiros. Virgílio não conseguia dominá-la. Seu sangue não lhe dava a paz perdida. Por fim descobriram, que se ela se desgastasse treinando, os episódios ficavam controlados.

– Por isso me afizeram treinar. E todo o resto. – falei compreendendo tudo.

– Sim, seria melhor provocar a crise e estar pronto para lidar com ela. Do que ser pego de surpresa. Infelizmente nada aconteceu e você desenvolveu um dom diferente. – lamentou Misha.

– O que acontece se eu não tiver o sangue dele?

– Pode não voltar à consciência. – ele disse desgostoso. – Ficará presa nesse estado indeterminadamente.

– Isso é loucura, não pode ser. Sou feita de carne e sangue. – tentei racionalizar as boas notícias que recebera.

– Acredite-me, é possível. Quando desmaiou seu corpo se enrijeceu. Não consegui fazê-la despertar. Virgílio quase não conseguia abrir seus lábios para que sorvesse seu sangue.

Dizer aquilo lhe custou muito. Outro homem, outro vampiro conseguiu ajudá-la, ele apenas teve de observar e perceber, que ela não lhe pertencia. Aquelas palavra calaram fundo nele e por algum tempo apenas ficou em silêncio. Mergulhado nos acontecimentos que presenciou.

– Você precisa dele.

– Preciso apenas do sangue dele. – o corrigi com carinho.

– Meu sangue não pode ajudá-la Dora. – completou cansado.

– Foi por isso que o rei me devolveu a ele?

– Sim. É nova demais, mas também preciosa para que sua existência seja perdida. Somos poucos, os antigos. Cada nova cria representa nossa sobrevivência como espécie.

– Estamos em extinção? – perguntei confusa.

– Somos poucos e não estamos nos reproduzindo. – completou Misha.

– Não preciso de Virgílio. Ele só me trouxe tristeza, seu abandono me feriu mortalmente. Tudo morreu dentro de meu coração e renasceu por você, Misha.

Fui até as grades e o fitei suplicante. Malditas grades! Eu o queria tanto. Um minuto depois nos beijávamos apaixonadamente. Cansada e sonolenta fui para a cama e dormi durante quase todo o dia. Tive a impressão de ouvir conversas, sons de passos, mas estava sonolenta demais para entender o que ocorria. Mas pude perceber que Misha falava com alguém.

Quando a noite chegou despertei e estava faminta. Tentei esconder minha necessidade gritante por sangue. Mas era visível, estava muito pálida, agitada andando na cela de um lado a outro. Quando se é jovem sangue é uma urgência. Minutos depois ouvimos passos no corredor e logo Togo apareceu. Tive a esperança que ele trouxesse sangue consigo, mas ela morreu ao vê-lo de mãos vazias e acompanhado por meu antigo mestre.

Ver Virgílio me encheu de uma sensação estranha de medo e raiva. Recuei para o fundo da cela onde as sombras me esconderiam. Foi um instinto animal de sobrevivência e pouca lucidez. A vampira estava bem desperta e faminta. Pronta para o ataque.

Havia também um Pacificador, que fez menção de abrir a minha cela.

– Se fosse você não faria isso, é perigoso.

Togo que estava atento a minha atitude deteve o pacificador. Minha herança sanguínea tinha peso realmente. Ele fitou Virgílio e esse entendeu o recado.

– Vim buscá-la Isadora. – ele avisou com suavidade e altivez.

– Não vou a lugar algum em sua companhia. – minha voz estava calma e segura. – Peço que retire as acusações que nos fez. Eu sou livre desde o dia que me abandonou aos cuidados de uma bruxa. Lembra?

– Tem conhecimento das ordens do rei?

O líder da ordem dos Pacificadores me perguntou. Ele trazia nas mãos uma pasta antiga. Em sua face estava estampada imparcialidade, que costumava usar para resolver do mais simples, ao mais complexo caso dentro do mundo vampiro.

– Sim. Fui avisada, mas não vou acatá-las.

– Tem consciência de que pode ser punida por isso?

– Por quem? Pelo rei ou por esse ai que se diz meu mestre? – debochei e o vi semicerrar os olhos perigosamente.

– Por seu mestre primeiramente. – disse Virgílio do lado de fora da cela.

– Fiz minha escolha. Misha é meu novo mestre e amante.

Dizendo isso sai das sombras onde havia me ocultado e estendi a mão pelas grades. Imediatamente Misha a segurou me passando apoio.

– Podemos resolver isso pacificamente, Virgílio. – começou Misha dando um passo a frente para o olhar nos olhos. – Cuidei de Isadora e nos afeiçoamos. Não havia impedimento ou crime. Apenas deixe-me ficar com a guarda dela. O rei não fará objeções. – ele falou e olhou Togo.

– Não. O rei não faria nenhuma objeção. Na verdade tenho ainda os papeis comigo. Mas é claro, que Virgílio teria de dar seu sangue para protegê-la. Isso é simples. – Togo organizou tudo.

O vampiro olhou nossas mãos unidas e o seu desprezo era evidente.

– Vai protegê-la de Galeso? – ele quis saber com frieza.

– De qualquer um que a toque. – respondeu Misha seguro.

– Pensei que fosse mais realista lorde Misha – começou ele – Galeso sempre vai ver em Isadora uma forma de me ferir. Sem falar na herança sanguínea que ela carrega. – falava como se eu não estivesse presente.

– Posso viver sem seu sangue. O fiz por seis meses.

– Deveria deixá-la tentar. Mas não vou, Togo, faça cumprir meus direitos.

O líder dos Pacificadores suspirou de modo cansado, previa problemas. Deu um sinal e o pacificador se aproximou da cela abrindo-a. Tremi junto a Misha. O fitei em desespero.

– Virgílio seja razoável. – pediu ainda apelando. – Não a toque! – rugiu Misha furioso percebendo que ele não cederia.

– Não se aproxime! – falei me afastando de Misha para me esconder no fundo da cela.

– Isso pode ser feito de modo civilizado Isa. – começou ele há alguns passos de distância. – Você banca a pupila inteligente, esquece toda essa tolice e me segue. O que acha?

– Não me faça sua inimiga, apenas deixe-me ir. – pedi e fitei Misha.

Ele andava de um lado a outro da cela. Era um animal enjaulado e perigoso. Togo tentava acalmá-lo, mas era impossível. Ele tinha os caninos a mostra e os olhos dilatados. Sua face de vampiro estava a mostra sem retoques.

– Você é minha Isadora.

Dizendo isso Virgílio se deslocou na cela e me atacou. Um segundo estava livre e no outro, presa entre seus braços. Lutei e gritei, chutei. Mas ele me deteve facilmente, era meu mestre, tinha poder sobre meu sangue. Arrastou-me com ele para a luz e numa espécie de vingança puxou minha blusa e mordeu minha garganta. Gritei e o esmurrei, enquanto era drenada. Ele o fazia com os olhos presos em Misha. Ele exibia seus poderes sobre mim e afrontava seu rival. Um urro furioso ergueu-se da garganta do vampiro, que segurou as grades e as fez tremer sob seus golpes furiosos.

Sem forças me vi suspensa no ar, estava nos braços de meu antigo mestre e salvador. Lágrimas escorriam por minha face, queria estender a mão e tocar a de Misha estendida pelas grades. Mas não tinha forças, fechei os olhos e me entreguei à escuridão.