Scarlets #Série Vol.1,5 – Contos

scarletsOs mistérios que rondavam o alojamento Brookline estão longe de chegar a uma conclusão. Neste episódio da série Asylum, Cal Erickson vai ser obrigado a integrar um grupo secreto, os Scarlets, mas essa decisão mudará toda a sua vida e vai cobrar seu preço. Scarlets é uma peça chave para que os fãs da saga se preparem para a leitura de Sanctum, segundo volume da série (a ser lançado em agosto de 2015)”.

Olá queridos amigos! Não deixe de curtir nossa página no Facebook(https://www.facebook.com/EuVejoLivros/)e meu blog (https://nazarethefonseca.wordpress.com/) , você já leu o livro, o que achou? Me siga aqui no blog Nazareth Fonseca =)

Quando li o primeiro livro da série Asylum sabia que estava mergulhando em algo realmente grande. Todo o mistério do Brookline não poderia ser resumido em um único livro havia muito mais a ser revelado. Sou muito fã do gênero terror/suspense e esses livros me deram boas horas de leitura.
Como a série tem uma ordem um tanto confusa, devido ao lançamento de contos que complementam a história dos livros maiores, resolvi colocar a ordem deles aqui em baixo:

1. Asylum (Asylum, #1)

2. Scarlets (Asylum #1.5)

3. Sanctum (Asylum, #2)

4. The Bone Artists (Asylum, #2.5)

5. Catacomb (Asylum, #3)

Antes de você ir com muita sede ao pote, saiba que ao acabar de ler o primeiro livro Asylum pode passar direto para a leitura do livro Sanctum, porque Scarlets é um conto com 100 páginas sobre um jovem chamado Cal, você vai ouvir falar dele durante a leitura de Sanctum. Eu preferi ler os livros e os contos para ter uma visão ampla de toda a história. A experiência valeu a pena.
Vamos à história do livro, ele é focado totalmente em Cal, ele é filho do reitor da universidade de New Hampshire College. Esqueça aquela história de filho de peixe, peixinho é. Carl não é bom aluno, tem problemas com a bebida e suas notas são péssimas. Definitivamente não é um bom exemplo a ser seguido. Se ele está frequentando curso superior é graças aos pais que tem poder.
A universidade é um castigo para Cal, nisso eu concordo, assistir as aulas da professora Reyes é uma tortura, vocês vão ouvir falar bastante nela. O grupo de estudo é obrigado a descer até o porão do alojamento do Brookline e catalogar tudo sobre o local. Para quem não sabe, o lugar já foi um hospital para loucos perigosos, assassinos. O lugar todo tem uma energia muito ruim e Carl vai descobrir isso da pior maneira possível.
Cem páginas de muito suspense e terror, o mais importante é que quando você estiver lendo o livro Sanctum terá uma visão privilegiada sobre os Scarlets e saberá quem é Cal e se pode confiar nele ou não. Minha nota?

Quatro Beijos mordidos!

beijos-mordidosbeijos-mordidosbeijos-mordidosbeijos-mordidos

 

Scarlets #Série Vol.1,5 #Conto

scarletsOs mistérios que rondavam o alojamento Brookline estão longe de chegar a uma conclusão. Neste episódio da série Asylum, Cal Erickson vai ser obrigado a integrar um grupo secreto, os Scarlets, mas essa decisão mudará toda a sua vida e vai cobrar seu preço. Scarlets é uma peça chave para que os fãs da saga se preparem para a leitura de Sanctum, segundo volume da série (a ser lançado em agosto de 2015).

Olá queridos amigos! Não deixe de curtir nossa página no Facebook Eu Vejo Livros (https://www.facebook.com/EuVejoLivros/) , você já leu o livro, o que achou? Me siga aqui no blog Nazareth Fonseca =)

Quando li o primeiro livro da série Asylum sabia que estava mergulhando em algo realmente grande. Todo o mistério do Brookline não poderia ser resumido em um único livro havia muito mais a ser revelado. Sou muito fã do gênero terror/suspense e esses livros me deram boas horas de leitura.

Como a série tem uma ordem um tanto confusa, devido ao lançamento de contos que complementam a história dos livros maiores, resolvi colocar a ordem deles aqui em baixo:

  1. Asylum (Asylum, #1)

 

  1.  Scarlets (Asylum #1.5)

 

  1. Sanctum (Asylum, #2)

 

  1. The Bone Artists (Asylum, #2.5)

 

  1. Catacomb (Asylum, #3)

 

Antes de você ir com muita sede ao pote, saiba que ao acabar de ler o primeiro livro Asylum pode passar direto para a leitura do livro Sanctum, porque Scarlets é um conto com 100 páginas sobre um jovem chamado Cal, você vai ouvir falar dele durante a leitura de Sanctum. Eu preferi ler os livros e os contos para ter uma visão ampla de toda a história. A experiência valeu a pena.

Vamos à história do livro, ele é focado totalmente em Cal, ele é filho do reitor da universidade de New Hampshire College. Esqueça aquela história de filho de peixe, peixinho é. Carl não é bom aluno, tem problemas com a bebida e suas notas são péssimas. Definitivamente não é um bom exemplo a ser seguido. Se ele está frequentando curso superior é graças aos pais que tem poder.

A universidade é um castigo para Cal, nisso eu concordo, assistir as aulas da professora Reyes é uma tortura, vocês vão ouvir falar bastante nela. O grupo de estudo é obrigado a descer até o porão do alojamento do Brookline e catalogar tudo sobre o local. Para quem não sabe, o lugar já foi um hospital para loucos perigosos, assassinos. O lugar todo tem uma energia muito ruim e Carl vai descobrir isso da pior maneira possível.

Cem páginas de muito suspense e terror, o mais importante é que quando você estiver lendo o livro Sanctum terá uma visão privilegiada sobre os Scarlets e saberá quem é Cal e se pode confiar nele ou não. Minha nota?

Quatro Beijos mordidos!

beijos-mordidosbeijos-mordidosbeijos-mordidosbeijos-mordidos

 

 

 

 

 

A Caçada e Outras Paixões – Capítulo 2

camaDesde seu nascimento para a imortalidade Kara se mostrou única. Chegou mesmo a ser elogiada pelos Caçadores e a Ouroboros. Bem, não era a primeira vez. No passado eles a salvaram da mordida de um lobisomem por admirar sua bravura.

O que Kara não revelou a Bruce foi que as lembranças lhe traziam confusão. Não sabia como lidar com os sentimentos que a dominavam. Algumas lembranças lhe provocavam lentidão e dor. Dor física, mas precisamente as que envolviam Jan Kmam. Pela primeira vez estava morta. Talvez isso a confundisse. Seu antigo mestre nada mais significava para ela. Era apenas um nome no passado. O vampiro que a olhou e partiu sem se importar se estava bem ou não.

Cinco dias depois, na noite do temporal Ariel temeu por sua vida. Um estranho pressentimento o assaltou. Estava ligado a ela, sempre estaria pelo sangue e amor. Saiu no meio do temporal e pediu um carro de apoio. O coração estava apertado no peito. Cidade parecia deserta, as luzes fracas debaixo do chuvisco fino tentavam varrer a escuridão e estragos causados pelo temporal.

Seus instintos e a força do sangue de Kara em suas veias o guiaram para a periferia. Prédios abandonados, alguns em construção. A destruição era grande. Material e lixo espalhados pelo canteiro de obras e cheiro de sangue. Logo encontrou os corpos decapitados caídos em possas de sangue e água. Aliados de Górki. Ela estava por perto agindo como anjo da morte. Isso o incomodava, matar tantos de sua espécie tinha um preço. Temia que tudo aquele derramamento de sangue a chocasse de algum modo.

Possivelmente ela era a vampira mais estranha e perturbadora que já teve o privilégio de conhecer e amar.

Nos últimos tempos vinha se isolando. Um par de vezes a encontrou na ala oeste do château. Era pouco usada e tinha acesso ao jardim por meio de um corredor de arcos.

Sentava entre os arcos de pedra e fitava a noite, o fosso, a vida noturna de insetos, ratos, morcegos, animais no bosque. Por vezes tocando o anel de pedra azul no dedo, que nunca tirava. Entregue a divagações, o rosto às vezes nostálgico, ou triste, nenhuma lágrima, só frieza e o silêncio.

Estaria em seus lábios o sabor da saudade do sangue de seu mestre? Jan Kmam teria voltado a sua mente e coração?

A chuva diminuiu e a noite avançou fresca e doce. Kara no alto do prédio procurando o resto de seus inimigos. Eles estavam a poucos metros, no prédio vizinho. Perto demais! Saltou e evitou ser alvejada por uma rajada de balas.

Três, que boa soma. Havia morto cinco deles, mas eles pareciam se multiplicar bem depressa. Respirou fundo e usando toda sua rapidez correu entre os vampiros e os desarmou. Pescoços e braços cortados. A espada banhada em sangue a fazia sorrir. Quando lutava sentia-se viva e plena. O sangue em suas veias era algo de muito poderoso.

Ela usava muito bem os dons recebidos de seu mestre. Mas seu alvo estava fugindo agora. Escalou as paredes seguindo o vampiro responsável pelo rapto das adolescentes. O caminho que fazia era de fuga e talvez para um cômodo secreto.

Colada à parede Kara esperou. Não olhou para baixo apenas saltou. A pequena abertura a acolheu como um abismo. Ela se viu dentro de um quartinho. Escondeu-se nas sombras e ouviu soluços, corações batendo.

Duas meninas presas em uma cela de grades de ferro. Ainda humanas, mas drenadas. Andou pelo espaço apertado e sentiu cheiro de urina e vômito. Abriu a cela e constatou que as jovens estavam drogadas, ele deu-lhes absinto. Certamente para que ficassem quietas.

Podiam ser salvas ainda, pensou. Quando sentiu a arma em sua cabeça sorriu. Voltou-se lentamente e enfrentou o vampiro.

– Górki como vai? – ela quis saber sem nenhum temor.

– Melhor que você vadia. – rugiu ele atingindo seu rosto com a arma.

Kara virou o rosto com o impacto e sentiu gosto de sangue na boca. Mas logo depois voltou a encarar o vampiro.

Aquela não era a primeira vez que se encontravam. Górki realmente parecia um astro teen. Loiro, olhos verdes, bonito como um anjo. Ela notou sua admiração, o modo como a olhava quando compreendeu quem ela era. Mas não se deixou comover pela aparente juventude e ar inocente. Detrás daquele sorriso de anjo estava um assassino frio que vinha destruindo sonhos.

– É a campeã do rei.

Ele fez a constatação. Sabia que ela o estava caçando mais jamais a imaginou tão bonita e até mesmo pequena. Kara não era alta, suas botinhas a ajudavam, mas não passava de um metro e 1.70. No entanto havia algo nela, o olhar, a postura. Lembrava o rei.

Atrevido ele lançou-se sobre ela e a luta foi quase equilibrada. Kara o feriu diversas vezes e por muito pouco não cortou sua cabeça. O sol a impediu. Mas o marcou cruelmente durante a luta. Cortou uma de suas orelhas. Ele agora usava o cabelo solto para cobrir a ausência. Mutilações eram algo permanente para um vampiro. Queria cobrar o preço pelo que fez aquelas jovens. Sobre seu corpo caído puxou a adaga que levava presa na coxa. E fez o corte com a precisão de um cirurgião. Jogou o pedaço de carne sobre seu peito e mergulhou nos esgotos da cidade onde a luz do sol não a tocaria.

Aquele seria o último encontro. Estava cansada de caçá-lo, queria voltar para o château tomar um banho de banheira.

– Acha mesmo que vou me render? Que vou parar?

– Tenho certeza que não. Por isso vim até você. Vou lhe ajudar com isso. – ela comentou semicerrando os olhos.

– Solte a espada ou estouro seus miolos. – rugiu com o rosto transformado. Os olhos negros, os caninos a mostra, a pele feita em mármore.

As meninas nas celas choravam com medo.

– Tudo bem.

Kara soltou a espada no chão. Não queria levar um tiro no rosto. Ia demorar a se recuperar, mesmo com o sangue de Ariel nas veias. Deixou a espada que o rei lhe presenteara no chão e trouxe da bota sua adaga e a cravou na garganta do vampiro. O golpe sobre o cabo quebrou sua traqueia e o impossibilitou de lutar. O sangue salpicou sua face e roupas. O fitou tocando a garganta, o sangue fluindo por seus dedos.

– Acabou Górki…

Vindo do fundo daquele quadrado sombrio e fétido uma vampira descabelada e suja atacou Kara. Lançou-se sobre ela e tentava arrancar-lhe os olhos. Feriu sua garganta com as unhas imundas e só se afastou ao receber um soco no rosto.

A vampira era velha, mas aparentava ter quinze anos. Possivelmente uma das vitimas mais antigas daquele maldito vampiro. Ela deveria ter uns oitenta anos a julgar pela pele e olhos, a força. Afastada pelo soco foi para perto da criatura que amava, Górki. Tocava-lhe a garganta e puxou a adaga de sua carne sangrenta e rugiu para Kara com a arma em punho.

– Você precisa descansar querida.

No movimento ágil Kara pegou a espada no chão e a matou com um golpe piedoso. A cabeça rolou e um som engasgado saiu da garganta do vampiro que milagrosamente ficou de pé. E avançou sobre Kara numa carreira cega de ódio bem parecida com a sofrida há poucos minutos.

– Merda!

A espada cravou-se no estômago do vampiro, Kara tentou se segurar, mas um empurrão foi forte e jogou ambos para fora da janela do prédio.

Caíram metros a baixo. Górki balbuciava suas últimas palavras. Fora empalado por um pedaço de ferro. Kara tocou a cabeça e sentiu sangue nos dedos. Estava num piso sem paredes e repleto de pedaços de ferro apontando para o alto. Assim que olhou a sua volta acreditou ter muita sorte. Passou muito perto de ter sido empalada também. O sangue de Górki escorria e pingava sobre Kara. A perna estava torcida, ferida. Tocou o flanco e sentiu a roupa de couro rasgada, o corte na carne, o sangue, o pedaço de madeira.

Arquejou e foi tomada por uma lembrança. Os olhos azuis do vampiro estavam sobre ela.

– Você está sangrando! O que aconteceu, Kara? Fale comigo, por favor.

O vampiro do Templo tocava seu rosto com aflição, enquanto a fitava.

– Caí de um prédio. Ai!

Ouvia sua voz, mas quase não se reconhecia frágil e chorosa. Ele não esperou um minuto sequer, tomou-a nos braços e a carregou para o banheiro. Rapidamente a sentou sobre a bancada do lavatório. Nervoso, tirou-lhe a jaqueta, ouvindo-a gemer de dor.

– Merde! O que aconteceu, Kara? Kara?

Voltou à realidade arfante. Precisava sair dali e bem depressa. Só então se percebeu sobre uma fina camada de madeira e gesso. Para piorar o corpo de Górki estava fazendo os pedaços de ferro ceder. Estavam enferrujados e se desprendendo da parede com seu peso. A situação beirava o desastre. O prédio abandonado estava em ruínas e a chuva que caiu não ajudou muito.

Antes que pudesse saltar o piso onde estava cedeu. Seu grito cortou a noite e alertou Ariel não muito longe. Kara viu a chuva de tijolos, ferros, e o corpo inerte de Górki caindo sobre a frágil estrutura onde ela estava. Tudo ruiu e ela foi junto.

– Kara!

De pouca distância ele a viu desaparecer sob os escombros.

Ainda caiam tijolos quando Ariel se aproximou da pilha de entulhos onde Kara estava soterrada. Ele estendeu a mão e a localizou em questão de segundos. A chuva voltou, mas isso pouco importava. O rei dos vampiros estava cavando por entre restos de pedra, madeira e gesso que pareciam não ter fim.

– Kara! Pequena… Não! Não!

Nervoso demais para prosseguir usando sua agilidade de vampiro, ele se afastou. Fechou os olhos por um minuto sob a chuva e quando os abriu novamente estava pronto para usar um de seus poderes.

Estendeu a mão em direção à pilha de destroços. Algo aconteceu, uma primeira camada de tudo que havia no chão afastou-se, uma segunda e uma terceira.

Um feito e tanto para sua mente, mas ele conseguiu, pedaços de madeira e tijolos foram lançados longe e finalmente parte do corpo de Kara ficou visível. O rei segurou sua mão suja de sangue e areia e a beijou.

– Pequena o que fez? – questionou a puxando para a superfície.

Estava desacordada e muito ferida. Havia sangue na cabeça, o ombro fora perfurado por um pedaço de ferro. A perna parecia quebrada. Ela era uma lista de lesões! Sequer sabia com qual se preocupar mais.

Pegou o celular e ligou para o motorista, falava rápido, enquanto via a recobrar os sentidos e gemer de dor, arquejar. Ele a ergueu nos braços. A chuva os castigava e limpava o sangue e areia do rosto de Kara.

– Maldita vampira teimosa! – rugiu aborrecido e aflito.

Ariel caminhou até o fim da rua onde o carro negro e luxuoso apareceu. O Pacificador abriu a porta e assim que o rei entrou a fechou.

– Para casa Arturo e depressa.

Ariel tirou o casaco e a envolveu nele. Feriu o pulso e o levou a sua boca. As gotas caiam e a animaram a beber. A mão débil o segurou junto aos lábios e sugou o precioso líquido. Os olhos se encontraram, estava em seus braços e ele a apertou junto a se com cuidado e carinho.

– Juro, você ainda vai me matar de susto Kara!

No château Joshua cuidaria das perfurações. Limpava o rosto de Kara com um lenço. Sentia-se impotente diante de seu estado. Bem sabia que logo seu organismo reagiria, mas vê-la ferida não lhe agradava, principalmente sabendo o causador.

– Górki…?

– Morto. Você o matou, acabou o coração dele foi destruído completamente. Não se esforce. O sol cuidará de seus restos.

Ele pode vê-la sorrir satisfeita e gemer de dor. O miserável estava morto. Terminou.

– As meninas no esconderijo…

– As encontrei e elas serão resgatadas, fique tranquila. Esta tudo bem agora.

Maldito! O sol o engoliria lhes poupando a limpeza. Fitou o rei mantendo-a nos braços e ergueu a mão para tocar seu rosto. Mas antes que conseguisse apagou.

Havia dado sua palavra para Jan Kmam, que nada de mal aconteceria a Kara. Precisava vigiá-la melhor. Ariel beijou-lhe a testa. Tê-la nos braços novamente era maravilhoso, mas jamais imaginou deste modo, ferida e inconsciente.

O carro parou e logo o pesado portão de ferro se abriu dando-lhe passagem. Metros à frente um criado abriu-lhe a porta. Ariel carregava Kara com extrema facilidade e cuidado, cruzou o hall da mansão e passou pela sala de estar rumo à escadaria como um raio. A Sentinela que abriu a porta e esperou por ordens, que não vieram. O rei sequer o viu, tamanha a preocupação com a vampira. Ele só parou dentro do quarto que agora funcionava a uma sala de cirurgia. Ele depositou Kara sobre a mesa de exames e se afastou. Imediatamente Janine, a enfermeira, antiga Pacificadora se aproximou. Pegou a tesoura e começou a cortar as roupas da vampira para que o doutor começasse a trabalhar.

Joshua vinha substituindo bem o bom Dr. Vitor. Como vampiro conhecia bem a natureza de um corpo imortal. Os Pacificadores e Sentinelas eram seus maiores clientes. Extrações de balas, envenenamentos. Os vampiros possuíam grande capacidade de regeneração, mas se o ferimento não provocasse uma hemorragia aguda, ou se impedisse a cicatrização. Por ser vampiro não era visto como um curioso. A corte crescera nos últimos anos. Menos desgarrados e mais vampiros inscritos no Livro. Mais audiências, o mundo vampiro estava cada vez mais organizado. E não era raro Dr. Joshua receber pacientes um ou dois por noite. Ele tinha até mesmo e soro contra mordida de lobisomem.

– Ela parece um ímã, está cheia de ferro e destroços, vai ser doloroso…

– Use morfina.

– Ela não aprova. – nos últimos dois meses aquela vampira era uma constante em sua mesa de atendimento. E sabia que odiava drogas.

– Que se dane, eu aprovo. Faça. – ordenou Ariel observando com aborrecimento o corpo ferido, sangrento da vampira.

– Janine a seringa. – pediu olhando para sua enfermeira.

A seringa já estava pronta e foi passada para as mãos do médico. Ele injetou o liquido nas veias da vampira e verificou seus olhos. Kara odiava ser dopada. Escolhia sentir dor a lidar com a inconsciência e os efeitos colaterais a deixavam tonta. Tendo-a inerte sobre a mesa começou a remoção dos pedaços de ferro e madeira de seu corpo. Trabalhava rápido, quanto mais depressa os cortes se fechassem menos sangue ela perderia. Enquanto Joshua trabalhava Ariel foi para o banheiro e se despiu. Ele estava encharcado, sujo de barro e sangue. Enquanto se lavava seu criado de quarto apareceu com roupas limpas. Bem em tempo de ver seu rei sair do banheiro e enrolar-se numa toalha.

Os olhos de Janine fixaram-se discretamente sobre seu rei. Os cabelos cacheados e ruivos estavam escuros e lindamente desordenados. O peito largo e pálido era convidativo, assim como os ombros. O cheiro de sua pele e sabonete eram um convite ao olfato. A jovem pacificadora desviou a vista, quando ele soltou a toalha sem pudor. O criado entregou-lhe a cueca boxer e logo depois a calça jeans. A visão de sua virilidade a tocou ao ponto de quase deixar cair à bandeja que segurava. Desviou a vista e se recompôs e recebeu os instrumentos sujos de sangue das mãos do médico.

Era perfeito e realmente… Não esqueceria aquela visão por um bom tempo. O único da espécie que podia satisfazer uma humana, uma loba, uma vampira, até mesmo uma súcuba. Desviou o olhar da sutura e voltou à atenção para o rei.

Os olhos verdes pegaram os seus. Ela baixou a vista envergonhada, mas não arrependida. Era por isso que as vampiras o perseguiam, as roupas caras e elegantes davam a ele um ar civilizado, bonito. Mas o preferia como estava agora, jeans e camiseta negras. Os ombros expostos, o cabelo penteado apenas pelos seus dedos. Sua aparência selvagem e sexy era tentadora.

Calçou um par de sapatilhas de couro leves. Joshua estava terminando com Kara e Janine conteve seus desejos. O rei era um cavalheiro e não cortejava as damas de sua corte. Mas quando desejava uma delas às fazia saber. Pelo que sabia, Togo, seu conselheiro e líder da Ordem dos Pacificadores avisava a vampira caso ela desejasse corresponder, era levada até o rei.

A enfermeira afastou tais pensamentos da cabeça ao ver o médico fechar os cortes mais profundos que a vampira trazia no corpo. Fez curativos e Janine a cobriu com o lençol.

Ariel se aproximou e a tomou nos braços. A levaria para seus aposentos. Não ia deixar que passasse o dia num dos leitos da enfermaria. Seguiu pelos corredores menos movimentados e usou uma de suas passagens secretas para chegar até seu quarto. Aquela noite dormiria na cama do rei. Na verdade Ariel tinha dos quartos, um na câmara subterrânea e um no terceiro andar. Ela não recordava, mas quando estiveram juntos, como amantes, odiava os falatórios sobre eles dois. Kara não era bem vista, não fora antes, nem seria agora que estava livre de seu mestre e emancipada.

Ajeitou-a sobre os travesseiros e a cobriu com mais um cobertor. Os cortes já se fechavam, os ossos voltavam ao lugar, às marcas roxas sumiam deixando a pele lisa e pálida como antes. Logo estaria desperta e pronta para enlouquecê-lo novamente. Beijou seus lábios delicadamente e partiu. Era preciso cuidar dos estragos causados por Górik. Encontrou Togo no corredor para a sala que usava para reuniões.

– Desejo companhia essa manhã. – disse o rei olhando o tablete que recebeu das mãos de Togo.

– Quem devo chamar?

– Janine, a enfermeira. Faça a ela o meu convite. – respondeu, enquanto conferia os e-mails.

Togo o olhou e resolveu falar.

– Ela não é qualificada para servi-lo, majestade. É uma pacificadora.

– Deixe que eu decida Togo. E, ela não é mais uma pacificadora. Esqueceu?

– Existe uma lista de vampiras que…

– Janine, Togo. – insistiu Ariel aborrecendo-se com a insistência de Togo.

– Certamente majestade.

O rei seguiu pelo corredor e foi para sua câmara. O dia nasceria em uma hora. Não gostava de sentir o poder do amanhecer sobre seus sentidos. Seu corpo estava faminto, queria dormir acompanhado, dar e receber prazer. O olhar da enfermeira só o lembrou de quanto tempo estava sozinho. Não fora a primeira vez que a percebera o observando. Bem, muitas o olhavam, mas nem todas chamavam sua atenção. A lista de Togo estava cheia de vampiras, que sonhavam ser sua concubina. Kara era sua rainha, pelo menos era o que desejava que ela se tornasse quando fosse inscrita no Livro. Por agora ela precisava ser protegida e escolher seu caminho.

Desejava-a, mas jamais a tocaria sem que lembrasse quem ele era em sua existência como vampira. Sua presença na casa o deixava ansioso, amava aquela vampira e faria qualquer coisa para vê-la feliz. Vestiu um roupão de seda negra e foi para o quarto. Sentou no divã e pegou um dos livros na pilha ao lado. Havia livros em todos os lugares, claro, o criado tentava manter tudo em ordem, no entanto, não os tirava do lugar onde o rei os deixava. Leu por quase trinta minutos. Togo não voltou, nem mandou mensagem. O dia nasceu. Soltou o livro e resolveu dormir, teria algumas reuniões logo que a noite chegasse. Teria de tomar algumas decisões difíceis…

– Majestade.

A voz de Janine se fez ouvir. Ariel se voltou e fitou a jovem mulher. Havia tirado o uniforme branco. Usava um vestido floral e sapatos de verniz. O cabelo negro estava preso num coque, os lábios coloridos por batom vermelho rubi. Os olhos castanhos escuros tinha uma expressão calma. Mas seu coração estava disparado. Ela era uma visão dos anos cinquenta. Bem, foi nessa época que ingressou como Pacificadora. O vestido certamente era daqueles dias. O uniforme branco escondia sua beleza certamente.

– Fico feliz que tenha aceitado meu convite.

– Sim. – disse ela e começou a desabotoar o vestido.

– Pare, por favor. – ele pediu. – Quero sua companhia primeiramente, se nos sentirmos dispostos, o prazer virar. Tudo bem?

– Eu só… Sim, tudo bem. – concordou se tranquilizando. Seria bom ter a companhia de seu rei.

– Venha, sente-se aqui junto ao fogo.

Ariel Simon a conduziu para perto da lareira. Ela sentou em uma das poltronas e fechou os dois botões. O rei se afastou e quando voltou trazia nas mãos um cálice de vinho e um de sangue.

– Obrigada Majestade – ela aceitou e tomou um gole.

– Pode me chamar de Ariel, estamos longe da corte e aqui sou apenas um vampiro, acompanhado de uma linda dama. – explicou sendo sincero. – Obrigada por aceitar meu convite Janine.

– Togo disse que devo agradá-lo…

– Janine, eu queria companhia essa manhã, você aceitou meu convite. Mas entenda, não quero que me agrade. Seja você mesma isso me deixará feliz.

– Mas…

– Muitas das vampiras veem aos meus aposentos e apenas me fazem companhia. Dormem ao meu lado o que não implica em sexo. Gosto de conversar, jogar, ver filmes.

– Compreendo. – ela disse num murmúrio.

– A decepcionei?

– Não, não. Eu só pensei… – ela se calou.

– Sou obrigado a especificar no convite, que se trata de satisfazer o rei. Minha satisfação passa por muitos estágios. Eu sei que tenho uma reputação. – brincou ele a olhando com atenção a fazendo corar. – Vejo prefere ser enfermeira em vez de Pacificadora.

– Sim. Muito, obrigada por me permitir a mudança.

– Todos têm direito a mudar de opinião. Você nos serviu bem como Pacificadora por cinquenta anos.

– É tão estranho, parece que foi ontem. – comentou sorvendo o vinho. – Depois da guerra eu trabalhei em um asilo de idosos e me senti muito impotente. Então quando o convite dos Pacificadores chegou me senti renascer.

Janine contou ao rei como descobriu o mundo dos vampiros. Ele gostou de conhecê-la melhor. Saber como se tornou Pacificadora. ] Conversaram por quase duas horas animadamente. Ariel riu de algumas de suas histórias como Pacificadora e lhe mostrou uma de suas coleções de pistolas. Ela ficou fascinada, gostava de armas de fogo e entendia bem delas.

Estavam bem perto quando ela tocou seu rosto. Quase como se quisesse saber se ele era real. Apenas ficou quieto e deixou que ela explorasse seu rosto, por fim os cabelos ruivos.

Janine estava bem perto agora e quando ele a puxou para si, ela colocou suas mãos sobre as dele. Ele se curvou e buscou os lábios rubros. Ariel começou com leves toques, devorando seu batom, mas aprofundou o beijo apertando-a contra ele. Janine o envolveu com os braços e retribuiu com desejo. Sentou na poltrona próxima e a puxou para seu colo. Sua excitação à fez recuar suavemente.

– Só a tocarei quando pedir… – ele murmurou junto a sua garganta, afinal a manteve junto a ele delicadamente sem deixá-la fugir.

– Quero você. Faça amor comigo. – ela pediu com os olhos dentro dos seus.

– Mas por que treme? Medo? – perguntou ele segurando seu queixo.

– É que eu nunca… Estive com um vampiro antes – ela não disse mais estava óbvio

– Compreendo. Sou a melhor escolha para esse momento tão importante? – ele quis saber temendo tomá-la como primeiro amante.

– Sim. É.

Imediatamente as portas foram trancadas. O rei usava seus poderes para isolá-los do mundo. Janine gostou disso, poder. Trocavam beijos e caricias, enquanto Ariel a despia. Deixou-a apenas com a combinação de seda cor champanhe. Os dedos dele deslizavam sobre a seda suavemente. Ela era deliciosa aos seus olhos, o vestido, os sapatos e aquela combinação deram ao rei um sentimento de familiaridade único. A pele morna, os seios pontudos sob a seda o convidando ao toque o faziam arder de desejo.

– Você é linda. – sussurrou salpicando beijos sobre a seda numa tortura lenta.

Precisava disso, o lugar comum, uma bela mulher, seda e desejo. Ergueu-a nos braços e foi para cama. A mantinha em seu colo e beijava sua garganta, o colo macio, os seios agora nus.

Ela gemeu quando os lábios dele pousaram sobre o mamilo rosado. A pressão que ele exercia com a língua, a boca, quase fizeram-na chegara ao clímax. Mas ele sabia como levar aquela tortura a graus mais elevados. Sequer percebeu quando ele tirou-lhe a combinação deixando-a apenas com a calcinha de seda.

Deitou-a no leito a passou a salpicar sua pele morna com beijos. Janine retribuía acariciando sua pele pálida e firme e quando suas mãos delicadas empurraram o roupão expondo seu corpo forte ele parou e a olhou nos olhos.

– Vou possuir você Janine, espero que aprecie meu toque.

– Sim…

Ariel Simon puxou aquele último pedaço de seda e ficou diante do corpo nu de Janine. Era linda, arredondada, o sexo entre as coxas exibia pelos aparados e castanhos. Exótica, doce, morna, úmida. Ele mergulhou em seus mistérios e a saboreou fazendo-a estremecer. Quando notou que continha os gemidos na garganta, mordendo o polegar para não gritar, ele sorriu maligno.

– Não se contenha. – ordenou ele segurando suas coxas. – Deixe-me ouvir o quanto está gostando disso. – disse elevando a cabeça de seu ventre onde os cachos rubros a acariciavam.

– Vai me enlouquecer… – ela sussurrou arfante.

– Sim, vou.

Ele avançou sobre sua carne e Janine gritou ao contato de sua língua habilidosa. Contorcia-se, apertava os lençóis e por fim seus cabelos.

Enquanto ela tremia sobre os lençóis de seu leito, o rei sorria e lambia os dedos observando-a pronta para ele. Caminhou sobre seu corpo como um tigre e a beijou. Ela tinha as pupilas dilatadas, o corpo relaxado. Estava pronta para mais. E aquilo o fascinou. Entre beijos e toques a penetrou e a levou com ele em um ritmo lento e vigoroso ao êxtase. O corpo dela estava faminto de prazer, e ele a alimentou, saciou completamente.

Quando ele buscou sua garganta ela compreendeu o que ele precisava e lânguida ofereceu-lhe a carne. Segurou-se em seus ombros sussurrou.

– Tome meu sangue, me tome por completo.

– Sabe que isso não é necessário. – ele disse olhando-a nos olhos.

– Faça, quero que faça. Morda-me, tome meu sangue, quero saber como é, por favor.

O rei a olhou e os caninos ficaram expostos diante de seus olhos. Havia medo, mas havia também expectativa e fome. Ainda dentro de seu corpo se moveu deixando-a muito perto do limite de mais uma onde de prazer. Só então lambeu a carne macia provocando-lhe arrepios. Movia-se lentamente e quando não pode mais suportar a mordeu. O sangue inundou a boca do vampiro que teve o corpo sacudido por um gozo profundo partilhado por sua parceira. Ela gemia sob seu corpo e se deixava levar onda após onda. O sangue sorvido deu a Janine um êxtase grandioso, algo jamais experimentado.

O Salvador – Capítulo VIII – O Tempo da Verdade – Parte I

ec58dde53cb2ca12eb07ad170beb8164O quarto estava às escuras, as cortinas semicerradas, a janela que dava para a rua aberta. A brisa fria empurrava as cortinas deixando um pouco da noite de Paris entrar. Ele estava dentro do quarto, podia sentir sua presença, a força de seu sangue gritando ao meu. Meu mestre estava ali me vigiando como não fazia há meses. Como desejei por tantas noites. Meu coração não batia agitado de emoção, paixão ou amor. Só havia frieza em meu corpo, o queria longe, fora do quarto de minha vida, de Paris.

Busquei o cheiro, a força de meu tutor e não a encontrei. Seu sangue ainda estava em minhas veias, fraco, mas presente. Era ele que desejava que estivesse naquela vigília silenciosa ao meu lado. Meu coração havia abandonado-se a ele, ao desejo de pertencer-lhe.

Movi o corpo e senti dor. Parecia ter levado uma surra. Não queria que ele me percebesse desperta, não ainda. Mas era tarde ele me notou e

– Não se levante, precisa descansar.

A voz de Virgílio foi um comando que faria questão de rejeitar. Fitei seu rosto dentro da semi-escuridão e percebi que continuava o achando muito bonito. Talvez fosse a saudade, que senti por tantos meses, dando sabor a algo que se tornou amargo. Sentei no leito e ele se aproximou preocupado olhando meu estado. Em seus olhos era como se fosse de vidro.

– Eu estou bem. Apenas saia do meu quarto, por favor. – pedi secamente, não suportava sua presença.

– Vou ficar Isa. – ele avisou calmamente.

– Meu nome é Isadora.

– Sim, é, mas para mim é Isa, ou a minha faradisa. – argumentou seriamente, sem se importar com o quanto aquilo era tolo e me importunava.

– Não tem mais direitos sobre minha pessoa… Nem de me chamar como sua amante.

– Tenho. – anunciou seguro. – Diante de seu estado o rei anulou os pedidos por sua custodia e devolveu-me os direitos de mestre.

– Não, isso é mentira. – disse indignada, incrédula.

– Peço que descanse, deixe as perguntas para depois. – sugeriu suavemente.

– O que aconteceu? – quis saber me sentindo tonta e faminta.

– Você teve um episódio. – começou ele cuidadoso.

– Como? Episódio?

– Quando estiver menos agitada falaremos. Agora só precisa saber que pode controlar e que está em nossa linhagem de sangue.

– Quanto tempo estive desacordada?

– Esteve desacordada por uma semana. – disse como se aquilo falasse por si só.

– Não pode ser… Eu só me lembro de sentir dor e meu braço ficou rígido… – vasculhei minha mente e vi Misha correndo ao meu encontro. – Onde está Misha?

– Foi embora. – disse com uma ponta de satisfação e alivio.

– Ele não me deixaria. – disse me lembrando de suas palavras. – Ele… – ainda podia sentir seu coração. Fechei os olhos, toquei o peito. Ele estava longe, o sangue que me ligou a ele enfraquecia. Concentrei-me e pude sentir sua presença.

– Ele a alimentou?

Puxei o braço com força, Virgílio havia segurado minha mão, quando a coloquei perto do peito tentando sentir a presença de Misha. Estava com cara de poucos amigos.

– Sim, ele me alimentou – o olhava nos olhos. – Quando o meu mestre não estava aqui para fazê-lo. Ele me deu de suas veias e me curou…

– Ele quase a matou!

– Acreditou que pudesse vencer e venci. Ele me ensinou muito mais do que você. Saia!

– Não quero puni-la, ainda está fraca…

– Me punir? Por quê? Por dizer verdades e não mais aceita-lo como mestre e amante? – rugia. – O que acha que sou afinal, um objeto para passar de mão em mão?

– Você é minha cria e eu a quero comigo.

As palavras tinha sentido para ele? Para mim nada significavam. Ainda haviam laços de sangue, mas havia somente um grande buraco em meu peito e ele exigia outro como alimento.

– Estou com fome. – disse sem pensar.

– A alimentarei de minhas veias. É tempo de nos unirmos novamente.

Enquanto falava aproximava-se do leito de modo confiante. Recuei para o espelho da cama e me encolhi. Ele notou minha fuga e sentiu minha rejeição. Não o queria, nem ao seu sangue. Levantei da cama e fui para o banheiro. Lá me tranquei, ele bateu na porta por algum tempo e depois desistiu. Quando saiu do quarto percebi que tinha pouco tempo e precisava agir depressa. Vesti-me e peguei minhas coisas e as coloquei em uma valise, vesti o casaco, coloquei a espada no suporte que ganhei de Kara e saltei pela janela.

À noite me recebeu e deixou que me misturasse com as pessoas na rua. Levantei o capuz de meu casaco e depois de algum tempo andando pela cidade parei. Precisava usar meus sentidos, encontrar Misha e foi o que fiz, deixei meus passos me guiarem até ele. Andei sem rumo por uma hora e me deparei com ruelas sinuosas e pequenas moradias. Aquele pequeno pedaço de Paris era como um vilarejo. Busquei descobrir onde estava e vi uma placa, Butte-aux-Cailles, ou colina das codornizes. Estava no centro histórico do 13º arrondissement. Era como esta no campo, o som dos carros ficou para trás nas ruas mais movimentadas. Ali só havia paz, uma paz que buscava ansiosamente.

Parei diante de uma das casas de três pisos com um jardim bem cuidado e repleto de rosas em grande parte vermelhas. O aroma me atraiu enormemente. Estendi a mão entre as grades do muro e toquei uma delas. A suavidade me encantou, eu a queria e num puxão a arranquei. O puxão trouxe-me dor. Fitei a mão e o talo da roseira e vi os espinhos, o sangue. Nada mais profético – pensei e fitei o portão. Foi quando o senti. Era Misha! Na porta de entrada da casa.

Eu o havia encontrado. Ele veio em minha direção e observou minha fuga óbvia. Abriu o portão de ferro e abriu caminho me deixando entrar em sua casa. No hall de entrada era pequeno, mas bem decorado e acolhedor. Pegou minha a capa, a espada e colocou dentro do armário embutido na entrada.

– Siga-me. – pediu carregando minha valise pelo corredor.

Quando chegamos à sala não pude evitar a sensação de que estava em casa. A lareira estava acesa e o fogo crepitava envolvendo a sala em uma atmosfera acolhedora. Os móveis de madeira até meio rústicos reforçavam a ideia de que havíamos entrado em uma cabana nas montanhas, próximo a um lago. Sentei em um dos sofás confortáveis e olhei a manta de tricô, o tapete delicado. Há muito não me sentia tão á vontade em um ambiente. As roupas informais chamaram minha atenção. Estava de jeans, camiseta de manga longa, azul e negro. Só então notei que estava descalço.

Sentei na poltrona mais próxima e fitei as mãos sujas de sangue, a rosa.

– Minhas rosas sabem se defender. – comentou tirando-a a rosa de minha mão com cuidado.

– Sinto muito, eu… Não consegui resistir.

– Compreendo.

Ele fitou a rosa e saiu da sala, quando retornou a trazia em um cálice com água. E colocou na mesinha próxima a poltrona onde estava sentada. Sentou e me fitou demoradamente, suspirou e perguntou:

– O que esta fazendo?

– Não vou voltar para Virgílio. – disse olhando as mãos cicatrizadas, mas ainda sujas de sangue.

– Você fugiu?

– Sim. – respondi sem medo e sustentando seu olhar.

Recebi o lenço úmido e limpei o sangue dos dedos.

– Você… Disse que não me abandonaria. – as palavras saltaram de meus lábios de uma vez, enquanto o fitava buscando um fio de esperança.

– Não a abandonei. O rei revogou o meu pedido, retirou o convite para que seja parte de sua guarda e devolveu sua custodia a Virgílio. – ele explicou de modo sério e se mantendo distante das palavras.

– Por quê? O que fiz de errado? Eu estava lutando quando senti algo. Despertei e tudo que conquistei havia desaparecido. – lamentei. – Não posso passar por algo assim novamente…

O soluço escapou de minha garganta e cobri o rosto e chorei aflita. As lágrimas molhavam minha face. Meu corpo tremia quando Misha me tomou em seu abraço e me consolou. Agarrei-me a ele e solucei infeliz. Ele murmurava suavemente que me acalma-se, que tudo ia dar certo. Não queria perdê-lo. Ergui o rosto e meus olhos encontraram os dele. Foi o encontro de duas almas que se desejavam.

O beijo foi apaixonado e faminto. Vi-me envolvida por seus braços e correspondi como ardor. Havia feito minha escolha e nada nem ninguém me faria desistir dele. Entre beijos e carícias Misha me levou para seu quarto e lá nos despimos e amamos. Tomou-me com paixão e carinho. Tocou meu corpo de modo reverente, lento, faminto. Seu corpo nu confirmou o que imaginava. Músculos perfeitos, definidos, que me deliciei beijando, tocando. Quando ele me tomou junto ao peito senti que desejava provar de meu sangue. O corpo estava tenso, os caninos a mostra, o olhar mudado. Mas ainda havia carinho e os beijos me faziam tremer de prazer. A tortura de suas caricias me levou ao gozo por três vezes. Suas mãos habilidosas me fizeram dizer seu nome em sussurros e gemidos. O beijei e ali em seu colo ofereci lânguida a garganta para que ele me tomasse por inteiro. Os lábios, a língua, a sucção suave na carne antecedendo as presas. Segurava-me em seus ombros e não esperei muito. A mordida foi deliciosa e me levou ao êxtase. Flutuava numa nuvem de prazer e quando ele afastou os caninos e sugou com força, soltei um arquejo. Estava ancorada a ele, enquanto meu sangue era sorvido e meu corpo tomado. Era ele que amava e desejava, meu criador ou não, eu amava Misha.

– Tome de minha veia. – ele murmurou junto a minha boca.

Os lábios rubros com meu sangue. Amparada por seus braços o vi oferecer-me o pescoço forte. Beijei delicadamente e senti seu corpo arrepiar-se de prazer. Lambi numa tortura lenta que o deixou um pouco mais excitado. O levava ao limite, pois era lá que estávamos no limite, na beirada do precipício. Mordi e o ouvi rugir de prazer. Era um ronronar baixo, algum másculo e poderoso. Havia tanto prazer e quando ele me apertou em seus braços senti meu corpo se encher dele, de sua força numa união poderosa e única. Meu coração e o dele. Éramos um único ser. Afastei-me e desfrutei de seu sabor dominando meu corpo. Abraçamo-nos e ficamos assim no leito. Por longos minutos ficamos em silêncio, apenas ouvindo nossos corações. Estava completa, a fome saciada. Aconcheguei-me no peito de meu amante e assim adormeci.

Despertei com o som da porta sendo arrombada. Fomos surpreendidos ainda na cama. Os pacificadores nos cercaram, Misha tinha a espada na mão e me protegia com seu corpo. Cobri-me com o lençol e tentei entender o que acontecia.

– O que está acontecendo? – cobrou Misha aborrecido com a invasão.

O pacificador líder do grupo não estava para dialogo e ao falar deu ordens.

– Levantem, estão sendo detidos por traição.

– Traição?

– Está na cama com a pupila de outro vampiro. As leis são claras e você as violou ao possuí-la. – o Pacificador explicou pronto a fazer valer a lei.

– O que está acontecendo? – quis saber as suas costas.

– Seu criador nos mandou caçar.

Misha ergueu-se do leito sem constrangimento e ergueu o lençol para que me vestisse com privacidade. Feito isso, pegou suas roupas e fez o mesmo. Fomos algemados, retirados da casa e conduzidos para um carro. O destino, Coucher du Soleil, entramos por corredores longe dos salões e fomos conduzidos para o subsolo. Corredores de pedras, celas com grades. Não podia acreditar! Quando a grade de ferro se abriu e fomos conduzidos para seu interior pensei: é um pesadelo. Mas não era um sonho ruim. Era bem real. Fomos pegos nus na cama em plena traição ao meu mestre.

– Vai ficar tudo bem. – disse Misha pondo à mão entre as grades para me tocar.

Fomos colocados em selas separadas e ali esquecidos por duas horas. Quando Togo apareceu no corredor, Misha se colocou de pé e foi para perto das grades. A postura do vampiro líder da ordem dos pacificadores era a mesma de que me lembrava. Altiva e concentrada.

– Quão ruim estão as coisas?

– A vampira e recém criada, fugiu de seu mestre. Ele alega que deu-lhe seu sangue, é verdade?

– Fomos mais longe que isso Togo. – disse Misha com coragem e sem nenhum constrangimento.

Togo olhou-me como seu olhar estilo radiografia e senti-me congelar. Ele me culpava.

– Será libertado ao anoitecer para respondeu ao rei em liberdade. Isadora deve permanecer presa até que seu mestre venha requisitá-la.

– Não vou voltar para ele. – assegurei indo para o fundo da cela.

– Se não o fizer ele pode mantê-la presa aqui ou em seu território o tempo que quiser. – explicou como se saber daquilo bastasse. – Escute-me Isadora. Virgílio é um vampiro muito velho e poderoso. Quando fugiu deu a ele direitos para puni-la.

­ – Quero um defensor. – pedi sabendo o quanto aquilo era difícil de ser conseguido, mas não impossível.

– Nenhum vampiro vai querer defendê-la de tal crime. – Togo explicou os olhando.

– Kara, a campeã do rei, a quero como minha defensora.

Continua…

 

 

O Salvador – Capítulo VII – A Guerreira

rosa-vermelha_black-beijo_papel-de-parede
Corri pela sala desferindo golpes com a espada, minha adversária se defendia e atacava na mesma proporção. Ela era muito boa. Dançávamos um bale leve e ágil, com nossas espadas tinindo pela sala. Nossa plateia assistia aquele misto de treino e combate com entusiasmo.

Vinte dias haviam se passado desde a visita do rei, desde o retorno desastroso de Virgílio. Não havia tomado nenhuma decisão, eu não estava com pressa apesar de me sentir pressionada, tensa e confusa com os sentimentos que me assaltavam. Misha cortejava-me, ensinava-me a dançar e lutar. Roubava-me beijos, falava de seu desejos. E isso me dava forças para apagar a presença de meu antigo mestre. Contudo era difícil quando seu coração e sangue lhe traiam. Provavelmente Misha sabia disso e não insistiu, apenas me mostrava como seria estar ao seu lado, sob sua asa protetora. Isso me fazia sonhar com uma relação duradoura. Apesar de sua posição dura como tutor não acreditava que a mantivesse, caso o escolhesse. No entanto, ficava o medo. Afinal como saber o que vai ao coração dos homens vampiros? Uma hora estava nos braços de Virgílio e no outro abandonada nas mãos de uma estranha.
Na sala de armas o rei estava sentado em uma cadeira no limite do tablado, com ele os meus tutores,e os fãs de Kara, a campeã do rei. Sim, eu estava lutando com a campeã do rei! Mas era algo amistoso, para trocarmos experiências.
Uma semana antes fui avisada por Misha, que ela queria me conhecer. Confesso que fiquei lisonjeada, já haviam me falado da vampira. Era excepcional, apesar de não ter sequer dez anos de vida imortal. Ela passou pelo menos um mês perseguindo um vampiro, que vinha atacando adolescentes e causando falatório entre os mortais. No fim ela o encontrou e matou. Mas isso era nada em comparação a ter liderado o ataque durante a guerra do Pacto no deserto. Valdés contou-me como ela havia conseguido participar do torneio e se tornar a mais jovem campeã.

A vampira veio como combinado e Marie a recebeu como uma velha e querida amiga. Fomos apresentadas e deixadas a sós para que conversássemos. A primeira impressão é que estava diante de uma deusa. A vampira era linda. Cabelos e olhos negros, corpo pequeno, não era alta, mas sua presença enchia uma sala. Usava roupas modernas, calças justas, o corset de couro marrom com fivelas delicadas estava sobre uma malha negra. E a deixava com um aspecto realmente esguio e poderoso. As botinhas de cadarço davam-lhe altura e certamente deixavam seus chutes mais fortes. Vestia-se como uma vampira, não como uma vampira tentando parecer uma mortal.

Por um momento analisei sua roupa de treino e me vi perto do seu estilo. Calça e malha negras, botas leves. Misha, fora ele que conseguira aquelas roupas para ela. Em dado momento Kara mostrou-me algumas de suas cicatrizes, enquanto falávamos de meu teste. Ela também enfrentara lobisomens. A campeã ficou fascinada vendo as linhas finas no meu braço. Tínhamos realmente muito em comum.

– Sou a primeira vampira com a qual tem contato? – perguntou Kara.

– Sim, vi algumas, mas não me aproximei. – a informei sem tirar os olhos de suas roupas e beleza. – Você é muito bonita.

– Obrigada. Mas você também é. Já se olhou no espelho recentemente? – comentou brincalhona. – ela tinha senso de humor.

– Eu sou muito pálida e desinteressante.

– Se comer assim que despertar, manterá cor na pele. Deixe alguma coisa a mão em seu quarto. Eu mantenho uma garrafa térmica. – uma boa dica. –Também pode usar um pouco de maquiagem, se quiser posso te ensinar como disfarçar alguns traços. –ofereceu gentil.

– Não tenho maquiagem. Aliás tenho poucas coisas, não pude fazer a mala e… Meu mestre me entregou a Marie. Foi algo inesperado. – fiquei em silêncio.

– Podemos resolver isso, venho te pegar amanhã para fazermos compras. –sugeriu animada. – Conheço algumas lojas que abrem toda a noite. Também podemos comprar pela internet, faço compras on-line o tempo todo.
Ela pareceu sincera, acho que precisava de amigos tanto quanto eu mesma.

– Eu gostaria muito, tenho algum dinheiro. – expliquei afinal tinha uma mesada de meus tutores.
– A mesada dos Poderes. Eu também recebo e meu salário de campeã. Mas esse eu não uso e minha aposentadoria. – bincou. – Não fiquei envergonhada, também fui abandonada pelo meu mestre. – ela falou tentando dar um tom comum a revelação, mas pude sentir no timbre de sua voz que havia dor oculta.

– É comum então? – quis saber imaginando por que um vampiro abandonaria uma vampira como aquela.

– Não muito. Mas acontece. – respondeu Kara andando pela sala.

– Gostaria de saber o motivo. – disse pensativa.

– O meu não revelou o motivo. Respondeu com meias verdades. – ela disse deixando claro que perguntas foram feitas.

– Não sei se o motivo é importante, mas gostaria de saber, visto que existe um castigo para quem o faz. Não foi nosso caso, fomos postas na porta dos poderes. Você voltaria para seu mestre? – perguntei e a vi me olhar de modo melancólico.

A vampira que andava pela sala há alguns minutos, sentou no sofá de seda cor de chocolate novamente e cruzou as pernas. Recostando-se nas almofadas bordadas e relaxou a cabeça, fitou o teto, mas vasculhava seu coração. Por fim me olhou e começou a falar.

– Não sei ao certo Dora. – começou brincando com um anel de pedra azul, que trazia no dedo anelar. – Eu perdi minhas lembranças, parte delas, não conte a ninguém, por favor. Como sabe sou a campeã do rei, perderia pontos.

– Não teria para quem contar mesmo que quisesse. Contudo, não se preocupe, prometo guardar seu segredo.

– Sofri uma espécie de choque e perdi parte das lembranças, meu mestre fazia parte delas. – falou e apoiou os cotovelos nos joelhos, os cachos escorregaram pelos ombros e face. – Sabe ele está na minha mente, lembro-me de algumas coisas e a intensidade delas. Se não fosse elas poderia sequer pensar nele. Mas quando as lembranças voltam me pergunto como algo tão intenso foi primeiramente esquecido. Dizem que foi o choque, e porque ele, que não as esqueceu, resolveu abrir mão delas, de minha pessoa?

A voz dela se tornou um pouco rouca e baixa, amarga. Ela sentia o peso do abandono tanto quanto eu. Isso doeu.

– Sim, porque fomos abandonadas. – falei e toquei seu ombro.

Ela olhou-me com seus olhos negros e brilhantes e sorriu tristemente.

Mudamos de assunto e naquele primeiro contato fomos para sala de armas. Ouvia os conselhos de Kara e acompanhava seus movimentos. Alertou-me sobre lutar de cabelo solto, ou  preso. Falou-me sobre um adorno com espinhos para colocar entre os fios de minha trança, que inibem puxões. Duas horas depois ela partiu e ficamos de nos vermos na noite seguinte. Como combinado ela apareceu e fomos às compras. Kara realmente sabia o que comprar e onde fazê-lo. Voltei cheia de sacolas e feliz como não me sentia há muito tempo. Ficamos amigas. As roupas novas chamaram a atenção de Misha de modo singular. Ele gostou das calças justas, as malhas que se moldavam as minhas curvas, e especialmente dos vestidos e os sapatos. Deixou isso bem claro, quando me parou no corredor e tocou a seda do meus vestido floral, a malha delicada do casaco leve que vestia foi seu segundo alvo. Estava indo para meu quarto dormir, enquanto lia um livro, que havia escolhido na biblioteca. Nunca lera tanto, a imortalidade, a natureza de um vampiro precisa desesperadamente de algo que as preencha. Os livros são incrivelmente nutritivos para cérebros ávidos. Ergui os olhos em tempo de não colidir com Misha, e me vi em seus braços. O livro era a única coisa que separava nossos corpos naquele momento.

Ergui os olhos e encontrei os seus. O rosto forte, bonito, de linhas tão frias, mas ao mesmo tempo tão belas. Acho que entreabri os lábios, porque ao sentir sua boca sobre a minha gemi. O sabor de sangue era real, havia se alimentado recentemente. Sangue quente e vivo, tirado das veias de alguém. Aquilo me fez retribuir instintivamente.

– A campeã do rei sabe como fazer algo se tornar mortal. – se referia a meu vestido.

As mãos dele estavam sobre a seda na altura da cintura. O casaco leve que cobria meus ombros não era barreira para os dedos de Misha. O beijo veio cálido e doce sobre meu ombro e pescoço. O livro caiu de minhas mãos. Ele afastou a boca de minha pele e deslizou a cabeça lentamente, me olhou e depois ao livro. Abaixou-se e sem desviar a vista subiu com o livro entre as mãos.

– Preciso ir…

– Dora não fuja. – pediu e me segurou delicadamente. – Tem pensado em sua escolha?

– Sim. – consegui dizer, mas não o olhei.

– E?

– Não decidi ainda. – disse sincera.

– É um passo importante. – as mãos dele estavam em minhas costas. Podia sentir o peso, o calor suave dos dedos. – Eu tenho muito a oferecer Dora. Você me fez mudar. – falou tocando meu queixo com beijos.

– Que bom. – disse sentindo que tomaria minha boca novamente.

– Quero cuidar de você. Jamais vou lhe abandonar.

O beijo foi mais intenso e me comprimiu contra a parede, o livro caiu novamente de minhas mãos. O que havia comigo? Desejo? Sim,muito e Misha estava me enlouquecendo noite após noite com seus ataques. Ele me queria e muito. Não só como aluna, como mulher. Respeitava meu espaço, mas quando o desejo o sufocava ele me cercava e tomava o que desejava. Os beijos em minha garganta fizeram-me ansiar pela mordida. Meus olhos estavam dilatados, os caninos sob os lábios exigiam carne e sangue…

Empurrei Misha e corri para meu quarto. Estávamos sendo observados. Na outra ponta do corredor Virgílio apareceu, pude ouvir seu coração, sua raiva e ciúme. Fechei minha mente. Kara me ensinou alguns truques e vejam só! Foram úteis. O que ele queria de mim afinal?

O amor podia se transformar em ódio. Depois de sua aparição Virgílio foi levado a presença de Ariel. Ele estava de roupão e não gostou nem um pouco de ser incomodado, após ter se recolhido com sua convidada, uma jovem mulher chamada Janine. Ele não tinha um caso com Marie. Tratava-a como uma filha. Ela apenas o ajudava a manter seus encontros com aquela jovem mulher. Ela era enfermeira e ficou a minha cabeceira, enquanto me recuperava. Fora Pacificadora e agora trabalhava com o doutor Joshua, na recém-criada enfermaria.

– Foi dor na consciência ou simplesmente percebeu o quanto foi idiota?

O rei quis saber sentando-se na poltrona do quarto para observar o vampiro. Virgílio viu as roupas femininas no chão, a cama desfeita. O maldito invadiu a casa de Marie e violou o selo real. Um sinal posto somente para os olhos dos inscritos no Livro, avisando que a casa é proibida para imortais.

– Conhece minha história, porque a deixei…

– Responda a pergunta. – o rei rugiu com voz firme e alta.

– Eu… Eu…

– Vamos Virgílio, não é tão difícil dizer as palavras. – começou Ariel. –Está vendo esse anel. – falou e mostrou seu dedo onde o símbolo de seu poder repousava rubro. – Ele jamais me impediu de amar. – foi sincero. – A imortalidade é um abismo frio e silencioso, que só ganha calor e som com a presença dos que estimamos. Agora fale! – exigiu o rei sem nenhuma paciência.

– Eu a amo e a quero de volta.

– Ah! Sim, claro. Um idiota. – disse Ariel. – Procure Togo, peça direito a visitas. Mas Dora decide se deseja vê-lo ou não, afinal ela não ficou nem um pouco animada com seu retorno. – debochou o rei – Como diria Antoine, tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Sinto saudade dele. Agora vá, antes que eu mude de ideia e mande que o prendam por violar um selo real. O vampiro foi conduzido para fora e o rei esperou junto a porta já fechada. Foi quando sentiu as mãos de Janine o puxando para o leito.

Agora Virgílio podia visitá-la uma vez por semana. Mas se ela não quisesse vê-lo ele teria de partir. Misha tentou impedir as visitas, mas a lei era clara e o favorecia.

O recebeu nas últimas semanas, mas não queria que ele a lesse, a cortejasse. Estava furiosa com ele, frustrada. Repeliu suas investidas e o lembrou do abandono sofrido e ele reagiu como de costume a olhou e partiu em silêncio.

De volta a sala de armas. A luta era amistosa, não visava melhor ou pior. Kara estava vencendo, não poderia vencê-la, mas estava aprendendo com aquela luta e ate certo modo proporcionando um excelente combate para ela e aos que nos assistiam.

Ambas davam o melhor de si e em dado momento Kara e Isadora sorriram animadas. Os vampiros na pequena plateia aplaudiam os golpes, apostavam, riam e bebiam sangue servido pelos criados.
A luta estava bem equilibrada, Kara me deixava crescer nos movimentos e dava dicas, enquanto as espadas se chocavam.
Sequer podiam imaginar como eram encantadoras lutando com tanta graça e força. Os corpos delicados, a beleza de seus movimentos. Pernas, braços e seios. Os cabelos flutuando, enquanto as lâminas cortavam o ar ruidosas.

O olhar do rei estava sobre Kara . Ele tinha a mão no queixo, o dedo indicador acariciando o lábio. Um brilho misterioso nos olhos cor de jade. Trazia o cabelo preso por uma fita de veludo negro aquela noite. Vestia jeans, camiseta e um casaco até a cintura, bordado em fios de ouro velho. Parecia um toureiro. A o brinco na orelha esquerda já era parte de seu estilo selvagem e moderno, a eleita aquela noite fora uma pérola imperfeita e rara. Misha não estava diferente dele, o olhar estava preso em sua aluna. Não conseguiu ficar sentado para assistir. Andava de um lado a outro observando atento, estudando seus movimentos e golpes. Valdés via sua atitude com mais tranquilidade, era aparente que estava ligado a Isadora, que a desejava e não sabia lidar bem com tais sentimentos. O tempo de Isadora estava se esgotando, logo teria de escolher seu mestre. Desconfiava que ela o escolhesse. Os observou e notou que ela o admirava, e até certo ponto o desejava. Ele estava caido de amor. Já haviam presentes, um quarto em sua casa e sabe mais Deus o que!
A presença constante de Virgílio, que arrependido tentava conquistar o que descartou com tanta facilidade, confundia Isadora. Temia pelo coração de Misha. E se ela o recusasse? Se a voz do sangue falasse mais alto. A porta da sala se abriu, o pacificador deixou Virgílio entrar. Ver Isadora lutar o fez sorrir suavemente admirado.A viu matar seus agressores na noite que a imortalizou.No entanto, aquilo era poesia! Ela era muito boa e lutava com uma das vampiras mais fortes e poderosas daquele século, a campeã do rei. O seu olhar buscou o dela, o que a fez perder a concentração. Isadora recebeu um golpe de raspão e gemeu de dor de modo involuntário.

Kara recuou e a viu Isadora acenar dizendo que tudo estava bem. Mas não estava, a presença de Virgílio a incomodava e feria. Voltaram a lutar, mas ficou claro que ela perdera o foco. No meio de um movimento ela sentiu um repuxam no peito, o braço pesou, a espada caiu. Kara fitou a vampira cair sobre o tablado e correu para ajudá-la. Estava pálida e seu corpo enrijecia. Kara conhecia aquele estado, se colocou nele quando fora capturada pelo meio vampiro filho de Otávio. As lembranças a fizeram tremer e antes que pudesse entender o que ocorria desmaiou. A sala se tornou um caos.

Ariel Simon se aproximou de Kara e a tomou nos braços e viu sinais preocupantes. Manteve a calma e a tirou da sala. Levou consigo rumo ao seus aposentos naquela casa. Isadora estava nos braços de Misha, mas ele teve de recuar para que Virgílio cuidasse de sua cria. Aquele era seu primeiro episódio. O que mostrava que ela não estava livre da maldição de seu mestre. Ele cortou o pulso e a alimentou. As gotas de sangue rubro coloriram os lábios carnudos. O estado de palidez marmórea se desfez lentamente e logo ela pode ser tomada nos braços e levada para seus aposentos. Mas quem o fez foi Valdés. Ele passou a frente dos dois vampiros e evitou um confronto eminente pelo ciúme e pelo amor.

 

 

O Salvador – Capítulo VI – A Escolha

any_passig_gemacht_by_enaston-d7mwupyQuando Isadora saiu da sala Misha e Valdés discutiram. Ariel Simon sentou e o criado o serviu de mais um cálice de sangue, enquanto ele observava os dois amigos colocarem a raiva para fora com uma calma invejável e desconcertante. Aquele era o rei.

– O rei o mandou testá-la, não mata-la. Você sequer a preparou para o que ia acontecer. Foi cruel, irresponsável.

– Era um maldito teste, se lhe desse as respostas como saberíamos se ela realmente tem poder? – o Russo defendia sua atitude mais uma vez.

– Misha já foi punido por sua falta de habilidade em executar o teste Valdés.

Comentou Togo passando aos três vampiros seus pedidos oficiais de guarda para que assinassem. Assim quando a vampira decidisse um deles teria a assinatura dela e de seu novo mestre. Eles assinaram na mesinha mais próxima e devolveram ao vampiro.

– Ela conseguiu… – começou Misha.

– Poderia estar em pedaços… Correção ela ficou em pedaços. Maldito seja Misha, eu pedi que cuidasse dela. – o vampiro ainda estava indignado.

– Ele recebeu ordens do rei. – falou Marie defendendo o amigo, enquanto tocava seus ombros e se colocava entre ele e Valdés apaziguadora.

– Não mandei que a matasse. – defendeu-se Ariel sorrindo misterioso para Misha.

– Ela é muito forte e capaz. – disse sem saber como explicar sua atitude.

O que Misha não revelou é que ao entrar no quarto da vampira aquela primeira noite e vê-la dormindo sentiu-se tocado por sua beleza. A desejou de imediato. Ela estava tão vulnerável entre os lençóis, seu cheiro no ar do quarto. No meio da imortalidade e da humanidade. A admirou por incontáveis minutos e chegou mesmo a tocar seus cabelos e a quis. Por que ela o tocou? O que ela tinha de tão especial? Uma recém-nascida abandonada, sem instrução, tão humana que ainda cheirava a sangue e vida!

Depois de amar Beliza e perdê-la se prometeu viver sem amor. Mas não fora covarde como Virgílio, jamais abandonaria sua cria. Ainda mais uma tão bela. Desejo? Sim, o mais puro desejo. A raiva o dominou e antes que percebesse a atacou. Saiu de suas lembranças e ouviu Valdés ainda enraivecido.

– Ela abriu uma reclamação? – Valdés quis saber.

– Isadora recusou esse direito. – respondeu o fitando com aborrecimento. Estava cansado de suas acusações.

– Ela não sabe o que faz, é muito jovem para compreender o que lhe foi feito. – replicou andando pela sala.

– Ai está seu engano. – começou o rei. – Aquela jovem vampira pode ser inocente em alguns aspectos, mas tem bastante juízo. Ela sente, compreende que está sendo testada e observada, apesar de sua insegurança.

– Quem não ficaria? – começou Marie entrando no dialogo. – Virgílio agiu como um idiota a abandonando. Tudo que ela tem feito é passar de mão em mão. Sente-se rejeitada, achou que a mandaríamos embora. Pobre criança. – comentou a bruxa na mesma língua, afinal Isadora não podia ouvir aquela conversa.

– Por que aceitou ficar com ela? – quis saber Romano.

– Virgílio chegou com ela desacordada e me implorou que tomasse conta dela. Galeso o chantageou, não pude me negar. Jamais o tinha visto tão transtornado.

– Você agiu bem Marie. – comentou o rei tocando sua mão. Ela havia se sentado ao seu lado. – Ele me ligou na noite seguinte e explicou os acontecimentos. Só não compreendo porque não a deixou sob custodia. Por que a abandonar?

– Ele sempre foi avesso a crias. – disse Togo organizando os pergaminhos assinados. Agora sabemos o motivo.

– De fato. – comentou Romano. – Ela tem muito poder nas veias. Pergunto-me se saberá lidar com ele. Estar-se-á livre do mal de sua herança sanguínea.

– Se Virgílio conseguiu ela conseguirá. – disse Valdés esperançoso.

– Ame com cautela meu querido Dom Valdés. – começou Ariel. – Sua irmãzinha terá de enfrentar grandes inimigos. Não quero que perca sua estabilidade se ela…

– Ela vai conseguir meu rei. – disse tomando a mão de Marie para beijar. Estava de partida.

– Valdés, quando vai me perdoar?

Misha quis saber o olhando com esperança contida.

– Então existe culpa? – o vampiro moreno e valoroso disse se retirando com um cumprimento cavalheiresco para seu rei.

– De um pouco de tempo a ele – disse Ariel – Sabe como é susceptível a jovens vampiras. Valdés precisa encontrar companhia. – disse o rei pensativo.

– Sim, e bem depressa. Aquelas facas não são boas companhias. – comentou Romano. – Mas o que toca seu coração? – se perguntou o vampiro.

– Facas? – brincou Ariel.

A reunião chegou ao fim e Ariel Simon ficou sob o teto de Marie aquela noite. Romano também, na noite seguinte daria aulas para Isadora e faria sua proposta oficial a ela. Seria bom tê-la como pupila, mas não teria chance, a julgar pelo modo como fitava Misha, ela logo cederia. Havia muita tensão entre eles. Era visível. Ela parecia confusa, até mesmo assustada, dividida por sentimentos conflitantes. Preparava-se para dormir quando seu celular tocou. Fitou a tela e se preocupou, atendeu e começou a falar em árabe.

– Como vai velho amigo?

– Não muito bem. – respondeu Virgílio. – Poderia me encontrar aqui fora?

Minutos depois Romano saiu pela janela e foi para o telhado. Virgílio o esperava junto ao parapeito. Romano se aproximou e eles se cumprimentaram com um abraço.

– Muito tempo.

– Sim, cinquenta anos?

– Exatamente.

– Mas porque não entrou?

– Não lhe parece óbvio?

– Não. – disse o vampiro sentando na borda do telhado. – Você criou uma vampira, a fez sua amante e a abandonou. Isadora tem beleza, potencial e poder nas veias. Ainda não exibiu os sintomas, se é o que veio saber. – comentou o vampiro.

– Cometi um erro criando-a. – falou baixando a vista.

– Não creio, ela é magnifica, inteligente e forte.

– Sim, e pode enlouquecer. E sim, novamente, eu soube do teste. – explicou ele num suspiro.

– O que o trouxe de volta? – questionou Romano.

– Quero que tome a tutela dela em definitivo. – disse seguro.

– Você não pode sequer vê-la agora, quanto mais escolher seu tutor. Você abandonou-a, quando a entregou a Marie a fez menos que um mortal. – acusou Romano.

– Estava desesperado. Galeso a raptou e foi por muito pouco, acredite-me. – a voz dele tremeu e Romano achou já ter visto aquele ar de louco na face de Misha.

Quando Isadora caiu na arena de terra feita em tiras pelo lobisomem, Misha percebeu o que fez, o que vinha fazendo. Uma noite depois do ocorrido foi chamado por Marie. Misha não saiu do lado do leito da vampira, que mais parecia feita de papel. Estava sujo de sangue com ar de louco. Entrou no quarto e foi recebido pelo vampiro que tinha uma adaga nas mãos. A mesma que ela usou para se defender do lobisomem.

– Como ela está?

– Ela vai ficar bem, vai ficar. – disse numa segurança trêmula e duvidosa.

– Sim. Ariel está vindo de Las Vegas para oferecer sangue para ela.

– O meu está sendo testado, vou dar tudo a ela. – explicou certo de que seu sangue a curaria.

– Misha, precisa se cuidar, não comeu ou dormiu. Quando ela despertar precisa…

– Ela precisa de mim. – foi frio e seguro. – Sou seu tutor. – explicou feroz.

– Sim. Vai deixar que ela o veja nesse estado?

O vampiro se olhou, as mãos primeiramente. O sangue seco, a adaga, por fim as roupas. Era o sangue de Isadora. Pareceu despertar do transe, do choque.

– Ela estava com muito medo. – começou ele falando muito baixo. – O rei me pediu que a testasse, mas não disse como. Ela precisava ir ao limite… Foi quando pensei nos lobos, seu sangue, a porção. – ele parou. – Desirée e eu os caçávamos antes do pacto. Ela usava uma faca, somente uma faca. – ele cobriu o rosto com as mãos.

– Achou que ela conseguiria o mesmo? – quis saber Romano tentando entender porque ele fora tão duro com aquela vampira. Compará-la a sua mestra Desirée era algo temerário.

Todos tinham seus traumas e lembranças do passado. Mas ao que parecia Isadora tocou fundo nos de Misha. Certamente ela o desafiou, isso era bem certo. Enquanto dava-lhe aulas sobre as leis notou sua inclinação a rebeldia, sua força de caráter.

– Sim, ela é muito forte. Mas foi muito cedo. – lamentou com os olhos febris presos na vampira inconsciente no leito.

– É, mas é uma criança e estava sob nossa responsabilidade.

Romano o lembrou tentando trazê-lo de volta a superfície. Ele estava em um abismo negro de dor e culpa. Era perigoso para um vampiro velho se deixar sucumbir assim.

– Quase a matei. Como pude achar que ela seria como Desirée? Era diferente, sua natureza não era nada que conhecêssemos bem. Isadora é… Delicada e eu a machuquei… – ele segurou sua mão sobre o leito e a levou aos lábios de modo reverente.

O que houve com o velho e frio Misha? Estaria apaixonado? O amor era uma armadilha sinistra e de grande poder.

– Ela vai ficar bem. Mas você precisa reagir Misha.

Ele se curvou sobre a cama e beijou sua testa e saiu do quarto sem dizer uma palavra.

Romano voltou sua atenção para Virgílio e resolveu falar o que estava engasgado em sua garganta.

– Ela é uma vampira doce e espantosamente inocente. Sabe quantas vezes a vi esconder lágrimas, que certamente foram por sua ausência? Inúmeras vezes.

– A estou protegendo. – ele tentou se justificar.

– É um modo estranho. Felizmente ela se recuperou e vai seguir em frente. O rei vai lhe dar a chance de tomar parte de sua guarda pessoal. Ela vai escolher um mestre em um mês.

– Não, isso não! É muito perigoso. – reclamou Virgílio em alerta.

– É um bom modo para ela usar seu poder. – explicou Romano observando o vampiro preocupar-se com os rumos dos acontecimentos.

– Peço-lhe, tome a guarda de Isa e não permita que ela aceite o convite do rei ou o de Misha. – exigiu Virgílio.

– Ela já aceitou, Virgílio. Já me ofereci, mas acho que ela não me escolherá. Misha fez o convite e a quer como pupila e amante. Nada mais os liga, afaste-se e deixe-a viver o presente da imortalidade que lhe deu.

O olhar do vampiro escureceu e aquilo certamente era ciúme e raiva. É, Ariel muito em breve teria de lidar com um duelo. Pois era o único modo de Virgílio ter sua pupila de volta. Pediria aos seus pretendentes que declinassem e enfrentaria aquele que não recuasse.

– Então veio aqui pedir que proteja sua amante? – perguntou Romano.

– Ela não é mais minha amante. – disse resignado.

– Você a ama, por que mantém esse orgulho? Por que a machucou tanto?

– Eu não… Não suportei a dor. – a voz dele estava presa na garganta. – Quando percebi que a perderia eu senti meu coração se contrair e sangrar… Ela era mais importante que minha vingança contra Galeso, nada mais importava. Não posso lidar com isso, vai me destruir. Tenho de matar Galeso.

– Você deu a ele trégua em troca da vida de Isadora e o está caçando? – perguntou surpreso com sua atitude. Ele mantinha sua palavra e seguia as leis. Aquilo era novo.

– Ele não pode continuar vivo, não depois de tocar em Isadora. Ela se transformou em um alvo, em minha fraqueza. – tentava justificar sua quebra de conduta.

– Ela tem um tutor valoroso e que odeia Galeso tanto quanto você. Apenas vá embora. Deixa crescer em paz, deixa escolher um novo amante.

– Tome-a como sua pupila. – ele pediu ansioso.

– Caro amigo, nada vou lhe prometer, Isadora pode e vai escolher sozinha. E você trate de se afastar e engolir seu ciúme.

Dito isso Romano voltou para dentro do prédio e deixou Virgílio a mercê de seus pensamentos nada organizados. Um pouco de confusão lhe faria bem. Isadora ficaria melhor sob a proteção do amor de Misha. Nem sempre aquele que gera é a melhor escolha.

Como uma sombra Virgílio entrou nos aposentos de Isadora. Usou uma passagem secreta que Marie lhe mostrou anos atrás, caso precisasse de um esconderijo, esgueirou-se pela casa e entrou no quarto. Os Pacificadores não o viram ou sentiram.

Isadora dormia no leito tento um livro sobre o peito. Depois da separação só a viu mais uma vez, ela estava em companhia de Valdés caçando. Observou-a por alguns minutos e partiu da cidade. Revê-la depois de tanto tempo foi doloroso. Havia mudado, estava mais forte, seu sangue a fazia amadurecer como vampira. As características tornavam-se mais evidentes, seu cheiro estava diferente, mais forte e embriagador. Aproximou-se do leito, se mantinha praticamente invisível para ela. Sua faradisa dormia lindamente. Desejou tomá-la nos braços e a possuir, cobrir seu corpo com beijos, ouvir sua voz sussurrando seu nome quando atingisse o êxtase.

A camisola de linho e renda era magnifica e recatada. Tocou o tecido suavemente, precisava dela nua sob seu corpo, sob seus dedos… Sem se conter nem mais um momento avançou no leito e a beijou.

Despertei sob a carícia da boca de um vampiro. As mãos exigentes tomando meu corpo. Recuei na semi-escuridão  e vi Virgílio.

– Escolha Romano, minha faradisa. – o tom era de ordem.

Não era justo! Não agora que ansiava por uma nova vida longe das lembranças do amor frágil e cruel, que ele lhe ofereceu. O empurrou e o surpreendeu. Pegou a espada que repousava sobre a cama onde antes ele estaria e a apontou para o vampiro.

– Saia! – ordenei segura, mas ferida em meus sentimentos.

– Não ouse me enfrentar minha Isa. – ele tentou dar-me ordens?

– Não ouse você. – disse-lhe furiosa e de espada em punho.

– Isa… – pude ver em seus olhos a incredulidade.

– Fora!– gritei sem me importar com todos que poderiam ouvir na casa.

Não podia fraquejar, não depois de ser abandonada, entregue a outra pessoa como um trapo velho. Não depois de tantas promessas quebradas. Ele fora cruel e eu lhe devolveria na mesma proporção. Apontava a espada para ele.

A porta se abriu e Misha apareceu. Estava de camiseta e jeans negros, descalço, cabelos em desalinho. Ele sentiu o medo de Isadora agora que seu sangue corria em suas veias. Seus sentimentos para ele eram tão reais quanto o toque de suas mãos. Reconheceu Virgílio e ficou surpreso por vê-lo.

– Sua presença não é bem vinda, na verdade, proibida. – começou Misha. – Devo mostrar-lhe a saída? – perguntou o russo baixando a espada que trazia nas mãos.

– Pretendo, antes de sair, conversar com a vampira. – disse Virgílio sugerindo com o olhar que devia aceitar.

– Não temos nada para tratar monsieur. – falei friamente contendo minhas emoções.

– Peço que repense sua decisão. – pediu confiante.

– Melhor que vá embora monsieur, como já lhe disse nada temos para falar. – ele precisava sentir minha dor através de minha determinação.

– Não banque a criança. – começou ele impaciente.

– Fui drogada e abandonada pelo meu criador. Apesar de ter o sangue dele nas veias, em meu coração alimentando minha imortalidade, não pertenço mais a ele. – falou guardando a espada. – Deixe que lhe apresente meu tutor e mestre.

Dito isso olhei para Misha que com um aceno de cabeça deixou claro que concordava com minha posição.

– Voltarei amanhã, nós precisamos conversar. – disse Virgílio no meio do caminho para a saída.

– Mestre ­– começou Isadora – Peço-lhe que me permita recusar tal visita. – ela falou e sua voz quase tremeu.

– Concedido. – Misha respondeu de imediato. – Peço que não insista Virgílio ou terei de proteger minha pupila.

– Pedirei permissão ao rei. Somente ele me impedirá de lhe falar Isa.

– Conhece as leis. Se o mestre não permitir, nem mesmo o rei terá o direito de intervir. – o russo disse dando um passo a frente de modo a proteger sua pupila.

Os ânimos se alteraram no quarto.

– Não deixe a sensação de um prazer jamais provado subir-lhe a cabeça Misha. – debochou o vampiro semicerrando os olhos.

O vampiro avançou tão depressa que sacudiu os meus cabelos soltos. Virgílio estava grudado à parede, contido por Misha que tinha sobre sua garganta a espada.

– Quem começou esse jogo foi você. Mas quem vai terminar ele será Isadora quando ela decidir quem será seu mestre. – dito isso ele o soltou e abriu a porta chamando os Pacificadores no corredor lateral.

– Eu preciso me explicar Isa.

Virgílio estava a minha frente, os olhos nos meus. Podia sentir o toque de sua boca, de suas mãos sobre minha pele. Recuei e fui até a mesinha de cabeceira e ele confiou esperançoso.

Quando voltei com um pedaço de papel o entreguei a meu antigo mestre e amante, meu coração batia descompassado, ferido.

– Acho que isso vai refrescar sua memória e evitar que perca seu tempo.

O vampiro olhou o papel e o reconheceu um minuto depois. Era a carta onde se despediu dela com tanta frieza. Não precisou ler, sabia o que estava escrito, cada palavra. Guardou o papel consigo e saiu do quarto. Os pacificadores o esperavam no corredor assim como Romano e Marie.

Ele foi levado certamente para a presença do rei. A porta se fechou e Misha se aproximou pronto a me tocar.

– Você está bem?

– Saia, por favor. – pedi a Misha que tinha a mão estendida para meu ombro.

– Ele não vai lhe ferir outra vez. Não permitirei…

– Deixe-me sozinha.

Pedi com a voz presa na garganta, continha as lágrimas a muito custo. Não queria chorar em sua presença. Fraquejar diante dele seria humilhante. Ele não se moveu por mais um minuto. Podia sentir minha dor? A agonia que experimentava? Deu a volta e saiu fechando a porta atrás de si. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro e sentada na banheira sob o jato de água quente chorei e lamentei por meu coração partido. Chorei por tudo que não mais podia ser.

Para Isadora

Enquanto escrevia o sexto capítulo do conto O Salvador, das crônicas da Alma e Sangue, ouvi essa música e a achei bem parecida com a personagem Isadora. Quarta feira tem novo Episódio – A Escolha.

Tradução

A Última dança

Oh, meu doce sofrimento

não adianta lutar, você começa outra vez

Eu sou um ser sem importancia

Sem ele eu sou um pouco pertubada

Eu vago sozinha no metrô

Uma última dança

Para esquecer minha dor enorme

Eu quero fugir e tudo recomeça

Oh, meu doce sofrimento

Eu movo o céu, o dia, a noite

Eu danço com o vento, a chuva

Um pouco de amor, um toque de mel

E eu danço, danço, danço, danço, danço

E no barulho, eu corro e tenho medo

É minha vez?

Vem a dor

Em toda Paris, Eu me abandono

E eu voo, voo, voo, voo, voo

Só esperança

Neste caminho em sua ausência

Eu trabalhei duro

Mas sem você minha vida é só uma decoração

Que brilha sem sentido

Eu movo o céu, o dia, a noite

Eu danço com a chuva de vento

Um pouco de amor, um toque de mel

E eu danço, danço, danço, danço, danço

E no barulho, eu corro e tenho medo

É minha vez?

Vem a dor

Em toda Paris, Eu me abandono

E eu voo, voo, voo, voo, voo

Neste doce sofrimento

Paguei por todas as ofensas

Escuta como meu coração é imenso

Eu sou uma criança do mundo

Eu movo o céu, o dia, a noite

Eu danço com a chuva de vento

Um pouco de amor, um toque de mel

E eu danço, danço, danço, danço, danço

E no barulho, eu corro e tenho medo

É minha vez?

Vem a dor

Em toda Paris, Eu me abandono

E eu voo, voo, voo, voo, voo

O Salvador – Capítulo V – A Revelação

vampira.bmpA reunião na sala de visitas estava singular. Nunca tinha visto tantos vampiros reunidos. Bem, no Coucher du Soleil haviam muitos, mas não numa mesma sala, como agora. Eram tão belos ali reunidos. O rei, sentado na poltrona junto ao fogo numa posição de destaque, Romano a sua direita, Marie estava a esquerda do rei. Misha estava próximo a porta, enquanto Valdés estava no sofá ao lado de Togo. O clima entre ele e Misha ainda não havia melhorado. Lamentei por isso.

– Seja bem-vinda Isadora – disse o rei com amabilidade.

Entrei na sala e vi o criado do rei fechar a porta atrás de mim. No corredor os dois Pacificadores estavam de prontidão.

– Boa noite Majestade.

Todos sorriram, os caninos aparecendo entre lábios sedosos, pálidos. O único que não sorriu foi Togo. Ele era difícil de contaminar mesmo com ebola, se me entendem.

– Para nós é bom dia. – esclareceu Ariel Simon.

– Eu não sabia… Bom dia. – disse e eles sorriram um pouco mais.

– Vamos rapazes, ela está virando um tomate. – disse Marie que veio para meu lado. – Isadora, quero lhe apresentar o rei dos vampiros, Ariel Simon. Os demais você já conhece. Venha sente-se aqui. – ela me conduziu e sentei no sofá.

Agora estava de frente para todos eles.

– Sabe temos uma grande amiga chamada Isadora, ela é companheira de Tiago, nosso comediante. – lembrou o rei observando a jovem vampira, enquanto recebia um cálice de sangue das mãos do criado. – Então vou te chamar de Isa.

Era como Virgílio me chamava e não queria me lembrar dele.

– Ela prefere Dora – disse Misha antes que eu falasse.

– Dora então. – comentou Ariel observando o vampiro de modo misterioso.

– Sim majestade, eu prefiro Dora. – murmurei e vi um olhar de repreensão de Togo. Acho que não devia ter me dirigido ao rei.

– É perfeito. Agora temos que conversar. Hoje é uma noite muito importante.

Eles bebiam sangue em taças escuras e pareciam bem à vontade. Misha parecia distante, até tenso, algo novo para observar em sua postura visto, que agia como um bloco de gelo diante de minha pessoa.

– Filha de Virgílio – disse o rei analisando minha figura. – Ele sempre foi muito cuidadoso quando se tratou de gerar herdeiros de seu sangue e agora vejo o motivo.

Olhei em volta sem entender bem e como o rei esperava uma resposta falei:

– Diz isso por ter sobrevivido à prova do lobisomem?

Recusei um cálice de sangue. Estava ansiosa, não queria vomitar. O criado do rei era um jovem de cabelos loiros e presos num rabo de cavalo. Silencioso e atento a cada movimento de seu senhor e sempre pronto a sair da sala, para só voltar no momento exato.

– Considerou uma prova? – perguntou Romano.

– Desde o primeiro momento… Pareceu que estava sendo testada. Ele foi muito… Exigente. – baixei a vista.

– Precisávamos saber até onde poderia suportar. – disse Misha quase se sentindo culpado.

– Agora sabemos que exagerou. – respondeu Valdés.

– Estou muito bem, venci o lobisomem… Posso me defender. Isso foi bom para minha confiança.

Enquanto falava calei todos. O rei me fitava atento, calmo, como se já esperasse minha reação.

– Poderia ter morrido. – insistiu Valdés.

– Sim. Mas sobrevivi e estou pronta para partir.

– Parti? – o rei perguntou.

– Não é o que querem me dizer, que devo partir. – expliquei sincera.

– Modere-se. – o líder dos Pacificadores avisou frio.

– Desculpem-me.

– Não há porque se desculpar.

A sala ficou silenciosa e sem querer toquei a cicatriz em minha mão. Um risco branco sobre minha pele. Podia sentir as presas da fera dilacerando minha carne, enquanto o apunhalava. O sangue quente pingando sobre meu rosto. Afastei as lembranças e percebi que eles olhavam-me como se fosse uma tela onde podiam ler minhas menores emoções. Ouvia meu coração agitado. Sim, estava batendo outra vez.

– Misha foi enviado para testá-la. – disse o rei sem nenhuma emoção na voz. – Virgílio é um dos mais velhos entre nós.

– Sabe o que significa? – perguntou Togo testando meus conhecimentos e as aulas de Misha e Romano.

– Para receber a alcunha de mais velho é necessário ter oitocentos anos ou mais. Ele possui nas veias o sangue mais puro, mais antigo. Dos primeiros vampiros. – fiz uma pausa. – Daqueles que estavam mais próximos a nossa criação.

– Vejo que é uma excelente aluna. Não me admira Misha tê-la elogiado, ele faz isso a poucos.

A oferta de Misha voltou a minha mente. Nossos olhos se encontraram. Um lago frio, congelado, mas capaz de fazer meu corpo se aquecer, virar cinzas. Fechei os olhos e lembrei-me de sua visita, uma semana depois que despertei do ataque.

Estava lendo um dos livros para minha educação, quando ele pediu para entrar. Andou pelo quarto, observando-me no leito em repouso. Minha perna ainda doía, os músculos se reconstruiam.

– Como se sente? – perguntou analisando meu rosto.

– Melhor. – resumi tudo me sentindo desconfortável com sua presença.

– Precisa de alguma coisa? – quis saber olhando os livros, minhas anotações.

– Não. – disse passando a página mesmo sem conseguir terminar de ler.

– Trouxe algo especial para você. – anunciou e deu um passo em direção ao leito.

Ergui os olhos para ele e esperei. Olhei suas mãos vazias, eram bonitas, longas, fortes. As unhas estavam bem aparadas. Vestia uma malha cinza, calças negras, sapatos de cadarço. Não tinha trazido nada.

– Togo fez uns testes. Seu sangue, o meu. Posso cuidar de você plenamente. – uma frase estranha.

– Desculpe-me, não compreendi. – disse quase ciente do que ele tentava dolorosamente explicar. Não ia facilitar para ele, não era merecedor.

– Posso curá-la mais rapidamente se beber de minhas veias.

– Não é necessário. Estou muito bem.

Respondi seca. Depois de ouvi-lo falar e olhar para meus lábios como se já os sentisse sobre sua carne. Meu coração disparou no peito. O livro em minhas mãos era um bote salva-vidas onde me segurava.

– Peço que aceite. – mais um passo.

Estava ao lado da cama e me observava fixamente.

– Está muito pálida, precisa beber do sangue mais antigo. Sou o mais próximo a sua linhagem, tenho mais de cinco séculos.

Ergui a vista e seus olhos me colheram, envolveram numa carícia delicada. Desviei a vista e fitei as letras do livro e por fim o fechei. Era mais fácil quando ele bancava o mestre e me atacava.

– Sei que lhe devo obediência e respeito. Então não me castigue pelo que vou dizer. – comecei. – Não quero sua pena, seus favores, seu sangue. Você fez o que um mestre faria…

– Virgílio jamais a machucaria. – soltou secamente.

– É o que acredita? Por que acha que ele não me machucou?

– Tenho certeza que ele não a fez enfrentar um lobisomem apenas com uma faca.

– Ele me abandonou e sequer me deu uma faca. – disse o enfrentando. – Estou bem e vou me curar, não preciso que tenha pena de mim.

– Não tenho pena de você.

Ele se aproximou depressa demais. Sentou na cama e tocou meu rosto com os dedos longos, tépidos.

– A admiro e vim aqui alimentá-la. Não sairei ate que o faça.

A situação era nova e inquietante tentei sair do leito mais ele me deteve com um beijo. As duas mãos em meu rosto, os lábios pressionados contra os meus. Soltei um som sufocado de surpresa e segurei sua mão. Um movimento depois e ele devorava minha boca. Confusa, senti o sangue correr mais depressa por minhas veias. Ardia num fogo lento e abrasador. Sua boca sobre a minha era uma tempestade de desejo.

– Quero que me aceite como seu mestre de forma permanente. – murmurou junto aos meus lábios.

– Eu…

– Venha, beba. – dito isso cortou o pulso e levou aos meus lábios.

Segurei seu braço forte entre as mãos e suguei com fome. Houve uma onda de eletricidade, o sabor era rico e doce. Fechei os olhos, estava imersa, envolvida pelo gosto. Mas Misha me olhava seduzido e a cada gole e puxão ele sorria. Mas a lembrança de suas ordens, do modo frio como me tratava… Recuei e foi como saltar de um prédio. O choque nos sentidos foi intenso.

O vi de longe e apenas me recostei nos travesseiros e um minuto depois apaguei.

Misha ficou ao meu lado, seu sangue corria por minhas veias de forma dominadora, varrendo minha ligação com Virgílio, destruindo laços, construindo novos, enquanto ele acariciava meus cabelos e rosto. Despertei somente na noite seguinte e estava completamente recuperada, podia andar normalmente, até correr se quisesse. Sorri sozinha na sala de treinamento e percebi, que não me sentia mais tão triste, nem tão gelada.

– Vai pensar no que lhe propus?

Misha apareceu as minhas costas e quando me virei ele estava com roupas antigas. Calças, justas de montaria, botas, camisa de linho negro. O que ele queria? Bancar o príncipe encantado comigo?

– Eu não sei bem o que deseja. Já é meu tutor. – expliquei me secando com a toalha.

– Sim, sou, mas de modo provisório. Quero ser seu mestre e amante. – disse sem rodeios aproximando-se, enquanto eu recuava.

– Amante. – a palavra quase me engasgou.

– Sim, seu amante. – falou me encurralando junto à mesa onde as armas ficavam dispostas. Tocou meu rosto e tentou me beijar, mas escorreguei e fugi de sua proximidade.

– Vai pensar? – ­insistiu ele.

– Sim.

– Ótimo, agora venha tenho algo a lhe ensinar hoje.

– Não me sinto tão bem ainda.

– Sim, sei que ainda precisa de tempo. Mas isso não vai doer, na verdade acho que serei eu a sair machucado da aula de hoje.

Ele foi até o canto da sala e ligou o aparelho de som. Era uma valsa, não as antigas, consagradas. Era de Evgeny Grinko, o som do piano era uma melodia suave, bela e triste, mas cheia de emoção genuína. A minha frente estendeu-me a mão e reticente aceitei.

Não estava vestida a caráter, a calça colada ao meu corpo, a camiseta negra sobre meu top de lycra azul. Fora ali treinar com a espada diante do espelho, não dançar valsa.

– Apenas me siga, e deixe a música a guiar.

Uma das mãos grudada a minha, a outra sobre minha cintura levando-me, girando-me. Enquanto me movia ele corrigiu minha postura e queixo, os ombros. Olhava para baixo e o pisei, ele não ligou e me impediu de fugir segurando-me. Não ouvia meus protestos e continuava me levando ao som da música.

Logo me movia com leveza sentindo-me parte do ritmo. Podia nos ver pelo espelho girando. Minha mão sobre seu ombro mantinha-me presa ao mundo, pois o que sentia era desligamento absoluto. Estava livre, leve, meus pés tinham vida própria e senti-me ligada a ele, a sua mente. Sorria feliz quando a música chegou ao fim. Ele sorria também, seus olhos brilhavam com uma emoção desconhecida, mas bem real.

O silêncio era constrangedor e tentei me afastar, ele me segurou firme e me trouxe para junto de si. O peito largo me recebeu, os braços me envolveram e sua boca tomou a minha. As mãos dele em minha cintura me detinham, meus empurrões suaves. A cada movimento de sua boca sentia-me ceder e quando minhas mãos seguraram seus ombros, retribuiu ao beijo e ansiei por mais. Quando ele se afastou, sabia que estava ruborizada, com cara de boba. Ele disse algo em meu ouvido:

– Ты нужна мне.

– Hum? – disse confusa.

Antes de me soltar em definitivo sussurrou olhando-me nos olhos.

– Seja minha.

Ele queria me destruir certamente. Como podia sentir tanto e sofrer pela ausência de Virgílio? Soltou-me e saiu da sala.

Sai de minhas lembranças e evitei olhar em sua direção. Fiquei muda esperando as palavras do rei.

– Quero que faça parte de minha guarda pessoal, quando seu treinamento chegar ao fim. – disse o rei ignorando o quanto sua proposta era importante.

– Sou muito nova…

– Seu sangue é velho o suficiente. – disse Romano sorrindo-lhe suavemente. – Vai aprender com os melhores. Continuará tendo aulas com Misha, sem lobos dessa vez. – brincou ele e todos riram, menos Valdés. – Nós a ajudaremos a preparar-se.

– Minha campeã vai lhe ajudar também. Ela está em missão, mas quando retornar faremos as apresentações.

– Eu gostaria muito e aceito.

– Existe uma condição. – disse Valdés olhando-me como se quisesse me prevenir.

– Qual? – quis saber vendo que o rei e Misha o olhavam com certo aborrecimento.

– Terá de ter um mestre em definitivo. – falou como se fosse uma sentença.

– Será inscrita no Livro, e herdará os laços sanguíneos de seu novo mestre. Já lhe fizeram uma proposta? – Togo explicou e observou os vampiros presentes.

– Sim. Eu fiz a proposta.

O vampiro se levantou de modo formal e se colocou ao meu lado, esperava uma resposta. Novamente no centro do palco, todas as luzes ligadas sobre minha cabeça. Valdés olhava-me e não acreditava.

– Dois podem fazer o pedido. – disse Valdés ficando de pé e vindo ficar do meu lado.

– Eu…

O clima ficou tenso e os dois vampiros se encararam como inimigos. Podia sentir a animosidade crescendo. E quando Valdés tocou suas amigas eu resolvi falar.

– Não tomei nenhuma decisão. Posso pensar?

– Sim, claro que pode. – Togo afirmou. Tem um mês a contar dessa noite para decidir.

– Vou apresentar meu pedido também – disse Romano.

– Sinto-me envaidecida, obrigada. Eu não mereço. – disse agindo como a educação humana mandava.

– Dora você é adorável. – disse o rei ficando de pé para beijar minha testa como se eu fosse uma menina. – Tem muita sorte, esses três não disputam nada há séculos. E só o fazem quando realmente estão interessados. – falou segurando meu rosto e fitando meus olhos. – Agora pode se retira. Togo vai lhe passar os detalhes nas próximas noites e os pedidos formais dos três cavalheiros aqui.

Dizendo isso o rei ficou entre Misha e Valdés e Romano. Tentava evitar que se matassem na sala de Marie.

Desejei bom dia a todos e sai da sala. Enquanto subia as escadas ouvi a voz de Misha e Valdés exaltadas e em uma língua desconhecida. Horas Russo, noutras talvez espanhol. Fui para meu quarto e fiquei me perguntando o que faria agora.

Expressão em russo: “Eu preciso de você.”

O Salvador – Capítulo IV– Seu Mestre e Pesadelo

my_sweet_vampire_by_anndr-d4rsa46Então aquele era o rei. O rei dos vampiros, meu rei. – pensava Isadora no alto das escadas da casa de Marie.

A maioria de nós tem a beleza ressaltada pelo sangue de seus mestres. Mas alguns são elevados à grandeza, talvez tenha sido isso que aconteceu com o status do rei Ariel Simon. Ele foi elevado a grandeza. Não conseguia afastar os olhos dele. E agradeci por esta às escondidas e poder observá-lo livremente do meu esconderijo.

Alto, talvez um metro e oitenta de altura corpo bem definido, forte, rosto perfeito em cada linha. Alguma deusa o desenhara. Não existiam mais homens como aquele nascendo em nosso século. Os cabelos ruivos e cacheados caiam em mechas sedosas pela testa, orelhas, ombros. Não era afetado, pelo menos, não nesse século. Mas quase podia vê-lo empunhando uma espada ou lencinho. Vestido com uma bela camisa de linho e calças negras. Nossa! Eu estava tento fantasias com o rei dos vampiros. Mas como não fazê-lo? Ele era soberbo! Seus olhos eram tão verdes quanto o musgo da Irlanda. Mas ali estava ele em trajes modernos. O jeans negro assim como a malha de lã fina, moldavam-se ao seu corpo como uma segunda pele. Havia tirado o blazer de couro. Falava segurando a mão de Marie, enquanto brincava com seus dedos.

Ocultei-me um pouco mais nas sombras. A presença daquele vampiro me trouxe sensações estranhas. E sequer havia estado a sua presença. Sentia-me desprotegida, no entanto, ligada a ele por sangue, ou algum poder invisível. Acho que era o sangue, ele nos unia a todos. Parte dele estava em meu antigo mestre. Agora em minhas veias. Apesar do título, mantinha uma aparência despojada. A primeira vista se passaria fácil por qualquer habitante da cidade. Numa segunda, sua beleza atrairia olhares, depois suspeitas. Afinal o rei possuía um pouco mais de dois mil anos.

Devia camuflar-se bem nas ruas. Através das portas ouvi a conversa que mantinha com Marie. Ao que parecia ela estava lhe censurando por sair todas as noites para vigiar uma vampira chamada Kara. Como rei devia se preservar e não se arriscar por uma vampira que sabia se cuidar muito bem sozinha e ainda por cima era sua campeã. Ele protestou com paciência e carinho e pelo visto faria o que desejava. Subitamente não consegui mais ouvi-los, por mais que tentasse, era como se houvesse uma barreira invisível bloqueando todo o resto, enquanto estavam presos naquela bolha protetora de som. Teria sido descoberta? Provavelmente, ou apenas queriam privacidade para conversar.

Aquela era a primeira vez que o via. Ele visitava Marie esporadicamente, mas nunca foi permitido ficar a sua presença. Às vezes dormia na casa. Quando isso acontecia dois grandes soldados, ou Pacificadores, vigiavam a casa. E havia mais deles do lado de fora, ou nos quartos. Quando ele partia, eles o seguiam.

Ele sorriu e seus caninos apareceram. O anel de rubi brilhou em sua mão quando tocou de leve o rosto de Marie, que sorria junto com ele. Ela sempre ficava mais feliz quando ele a visitava. Teria ela uma relação com o rei? Bem, ele não tinha rainha, e tão belo quanto era seria difícil ficar só. Aquela noite seria apresentada a ele, mas não lhe disseram o motivo. Subiu as escadas, não queria ser surpreendida bisbilhotando o rei. Ele chegou bem cedo, como evitara o sol?

Aquela pequena reunião com o rei, e seus mestres, estava mexendo com seus nervos. Mas não ao ponto de verdadeiramente se importar. Colocaram-na muito longe do limite há um ano. Teve vários tutores Marie, Valdés e Misha. Romano não a tutelava, mas dava-lhe aulas sobre as leis do mundo vampiro. Nenhum deles havia chegado. No inicio sentia-se desconfortável com a situação, contudo, eles disseram que era comum ter vários tutores quando se é filha dos Poderes. Esse era o nome dado a um vampiro sem mestre. Os abandonados. Não havia outra verdade, fora abandonada por Virgílio.

Por um momento Isadora se lembrou do beco, o sabor de seu sangue, toque de suas mãos. Tudo parecia muito, muito longe. Assim como a lembrança de seus carinhos, a promessa de não ser abandonada. O teve por tão pouco tempo. – lamentou silenciosamente. – Enquanto escondia a cabeça nos joelhos. – Uma bruxa. Deixou-a com uma bruxa tamanha a pressa em livrar-se dela. Algumas noites depois de perceber que Virgílio não voltaria, Isadora aceitou o abraço consolador de Marie, pois estava vivendo em silêncio, abatimento e lágrimas. Ela ouviu suas perguntas, culpas e a consolou, deu-lhe um rumo. A levou a Coucher du Soleil, mostrou-lhe a corte, a Togo, que a examinou com um olhar demorado e fez algumas sugestões a Marie em francês, língua que ela não conhecia. Sempre que queriam falar dela usavam outro idioma. Limitava-se a baixar a vista e engolir suas dúvidas e angustias. Mas daquele vampiro de olhos frios e orientais veio uma luz.

Ganhou um novo tutor, Valdés. Segundo soube, ele não tinha herdeiros de sangue, mas possuía horas livres para lhe ensinar a ser imortal e letal. Como ele gostava de dizer. O tempo passou e curou muitas dores, deu novos caminhos. Aprendia todos os dias com Valdés e suas “amantes” como ele costumava chamar suas pistolas e facas. Todas com nomes femininos. Era excêntrico e aventureiro, contava-lhe suas bravatas e tentava fazê-la sorrir com sua jovialidade. Tratava-a como um moleque, mas era um bom professor, até bondoso demais para o gosto de Marie, que vez, ou outra, supervisionava as aulas de tiro e luta…

Misha chegou. – antessentiu Isadora com seu coração, o rosto quente. Minutos depois ouvir sua voz. Ele a deixou com uma escolha por fazer algumas noites atrás. No entanto, não conseguiu sequer compreender seus motivos, quanto mais aceitar pensar em sua proposta.

Meses atrás quando Valdés disse que teria de partir em uma missão, Isadora sentiu o coração doer, se apegara a ele, era seu amigo, professor. Misha o substituiria. Mais um tutor? Quantos ela teria? Era como um saco de roupa suja passando de mão, em mão. Pensou se afastado.

– É a roupa suja mais bonita que conheço Dora. – disse chamando-a pelo apelido e lendo seus pensamentos. – O rei me deu uma missão, devo ficar fora por dois meses, talvez mais, você não pode tirar ferias. –brincou – Voltaremos com nossas aulas quando eu retornar. – disse empurrando sua testa com o dedo indicador. – Misha é como um irmão para mim, ele vai cuidar bem de você, minha irmãzinha mais nova. – dito isso a abraçou carinhoso.

Tinha sorte de tê-lo como tutor, ele aplacou muito de sua dor. Treinaram por algumas horas e depois saíram para caçar. Valdés a deixou em casa e partiu. Sentiria sua falta.

As apresentações foram diferentes com Misha.

Isadora acordou e a primeira coisa que fez foi se debater. Alguém apertava-lhe a garganta. No quarto escuro desferiu golpes e tentou compreender porque estava sendo atacada. Quando o brilho da lâmina ficou visível aos seus olhos soube que seu atacante pretendia matá-la. A seda da camisola sedia sob o fio da adaga. Rugia e num gesto aprendido com Valdés chutou e se livrou de seu agressor momentaneamente. Saiu da cama, mas foi recapturada, junto à porta. Seus cabelos estavam nas mãos de seu agressor e quando foi empurrada contra a porta o gosto de sangue invadiu sua boca.

Caiu no chão pesadamente e foi arrastada, enquanto lutava pateticamente para se libertar. Foi quando lembrou que podia saltar. O pulo a colocou sobre seu agressor. Mordeu seu ombro com força, e foi puxada com violência pelo braço, que certamente quebrou. Sentia o gosto do sangue do vampiro ele era tão forte e antigo quanto o de Virgílio. Tremia, estava seminua e descabelada. Nunca deixaria de ser a vítima? Precisava lutar melhor que isso. O vampiro se deteve esperando seus movimentos, a fitava das sombras onde não podia vê-lo.

– O que quer de mim…? – perguntou segurando o braço dolorosamente fora do lugar.

– Quero que lute. – a voz veio das sombras num timbre forte e exigente, frustrado.

– Quem é você?

– Importa saber quem ia cortar sua garganta?

Dito isso seu corpo se colou ao dela e adaga estava sobre sua pele fria e mortal. Ela se encolheu sob seu toque áspero. Um gemido saiu de sua garganta de forma involuntária.

– Vejo que tio Valdés a mimou demais.

Comentou o invasor tocando seus cabelos entre os dedos sentindo a textura suave. Fitou sua boca suja de sangue, a camisola cortada, o ombro ferido, as contusões que lhe provocou.

– Quem é você? Por que me atacou? – ela quis saber enfrentando seu olhar verde e dilatado.

– Seu novo tutor. Agora que acordou, bela adormecida, vamos treinar.

As luzes se ascenderam e Isabela viu o quarto revirado. Ficou de pé e tentou se cobrir, mas o braço doeu.

– Espere. – ordenou ele – Aproxime-se.

– Fique longe de mim. – rosnou ela apoquentada.

Os ferimentos dela não estavam cicatrizando, mas por quê?

– Sou seu mestre, deve-me obediência. – avisou sombrio.

– Vai à merda! Sai do meu quarto seu maníaco.

Um segundo depois estava colada na parede. Misha a mantinha presa e segurava seu braço dolorido.

– Apenas relaxe agora. – disse e estendeu o membro ferido.

Isadora gritou de dor quando ele posicionou o osso no lugar. Imediatamente seu organismo começou o processo de cura. Pode ver nos olhos do vampiro a surpresa com sua condição. As marcas roxas em sua garganta, os cortes nos lábios tudo sumia, bastou cuidar de um ferimento maior, e os menores cederam.

– Obrigada. – disse-lhe num sussurro, os olhos presos nos dele.

– Não me agradeça, apenas obedeça, e sim, será punida por me enfrentar e insultar. Você está diante de seu novo mestre, professor e pesadelo. – dizendo isso a deixou no quarto.

Naquela mesma noite quando desceu para sala de treinamento, encontrou o seu novo tutor, ou mestre, Misha. Valdés sempre falava dele, ou melhor, ele estava em suas aventuras de modo constante. Mas lá ele era bom e gentil, forte e letal, um maldito fodão com presas, que atacava jovens vampiras inexperientes.

Seus olhares se encontraram e ele a examinou. Lançou uma faca para que pegasse. Jogou-se sobre ela em luta e teve de se defender. Vinte minutos depois estava no chão e sangrando. Cortes marcavam sua pele e roupas.

– Levanta bonequinha. – debochou de costas para ela junto à mesa onde varias armas ficavam dispostas para o uso nos treinamentos. – Preciso lhe passar as regras agora que já analisei suas possibilidades.

Dolorida e com fome a vampira ficou de pé e mancou até ele. Estava muito pálida, o cabelo solto, ele puxara seu rabo de cavalo. Os olhos pareciam enormes. O cheiro de seu sangue no ar. Ele intacto, belo e a fitando como um maldito filho da puta. Odiou que ele fosse tão bonito, aqueles olhos verdes, os cabelos castanhos eram meio longos. Aqueles fortes dos ossos da face o deixavam com uma aparência gélida. Mais um maldito guerreiro.

– Quer me dizer alguma coisa? – perguntou ele certamente captando seus pensamentos furiosos.

– Por que esta me machucando?

– Você é fraca, por isso esta se machucando.

– Não é verdade… Está me surrando gratuitamente. Quebrou meu braço. Cortou-me inteira…

– É fraca, não consegue se defender, age como uma mortal.

– Valdés me ensinou…

– Ele mimou você!

O grito me fez recuar. Segurei o braço cortado, agora cortado e baixei a vista.

– Terminamos?

Não respondi. Percebendo que não falaria prosseguiu.

– Treinamos todas as noites, dentro e fora da casa. Armas, facas, espadas e tudo mais. Luta corporal será toda quinta feira. Marie lhe conseguirá roupas apropriadas. Deixei alguns livros que precisa ler na biblioteca. Quero um resumo de cada um deles para amanhã.

– Misha…

– Para você sou mestre. Entendeu?

– Você tem problemas, ou é só muito arrogante?

Imediatamente Misha pegou sobre a mesa um bastão fino de borracha e se aproximou dela. Ela recuou e por fim parou para enfrentar seu olhar gélido.

– Estenda as mãos.

– Não! Isso é ridículo…

– Se não estender as mãos vou usar o chicote nas suas costas. – a ameaça era verdadeira.

Fui tocada por minha realidade. O aviso de Virgílio em meus ouvidos:

“– Quero que a obedeça, ou será punida. Essas foram minhas ordens, e ela as fará cumprir. Não duvide. Nossas leis são cruéis e não merece senti-las em sua pele”.

– É a segunda vez que me desrespeita. – disse tirando-a de suas lembranças. – Virgílio não lhe ensinou nada? Sou seu mestre agora e me deve respeito e obediência, levo isso muito a sério.

– Eu só…

– As mãos. – exigiu sem dar espaço para explicações.

Fechei os olhos e engoli meu orgulho. Estendi as mãos e esperei com a vista baixa.

– Palmas para cima, e olhe para mim. – ordenou seco.

A vampira fitou o rosto sério de Misha e desejou ter poder para revidar em uma luta justa.

– Está sendo punida por desobedecer seu mestre e insultá-lo.

Os golpes desciam com força. A dor era bem real, os vergões uma marca de sua vergonha. Quando o vampiro se afastou não conseguia mover os dedos.

– Como deve me chamar? – ele exigiu fitando seu rosto, as lágrimas escorrendo pela face pálida. – Vamos ter mais problemas Isadora? – ele perguntou quando ela demorou a responder.

– Não. – a voz era um murmúrio rouco.

– Como deve me chamar Isadora? – ele insistiu rodeando-me como um tigre pronto a atacar.

– M… Mestre. – consegui dizer engolindo minha raiva.

– Ótimo. Vejo você amanhã. Agora pode se retirar.

Fitava as mãos quando ouvi a voz de Romano e sai momentaneamente de minhas lembranças. Mas ainda não podia descer. Ele me chamaria, quando fosse o momento.

Não saberia descrever a dor nas mãos. Os ossos doíam e os hematomas roxos pareciam sanguinolentos sob a pele. Ardia, ficavam dormentes e por fim doíam. Voltei para meu quarto naquela casa e percebi minha cruel situação. O quarto fora arrumado, moveis substituídos, tudo nos lugares. Dentro da banheira, imersa em água quente observava o sangue tingir a água. A olhava hipnotizada. Os cortes se fechavam, enquanto as lágrimas escorriam por minha face. Aquela era a única prova que Virgílio esteve em minha vida. Seu sangue, seu poder sobre meu corpo.

O tempo passou, mas não diminuiu a força da minha raiva, do ódio que sentia por Misha. As primeiras aulas foram de machucados e lágrimas que vertia sozinha na escuridão do meu quarto. Era cruel, exigente e não hesitava em castigar-me por meus erros. Com meses de treino e machucados consegui desenvolver técnica e golpes. Quando ele se recolhia, e eu não tinha livros para ler, ou tarefas para cumprir, voltava ao estúdio e treinava até o dia amanhecer e me fazer fugir para meu quarto.

Lutava para não ser massacrada por ele e à medida que evoluía, ele tornava tudo mais difícil. Certa noite fui levada por um pacificador para um local desconhecido. Quando tiraram o capuz de minha cabeça me vi em uma arena vazia. Acentos de madeira circulares. Chão de barro e grades altas. Uma porta de metal ainda fechada. Luzes focadas no centro do espaço, Senti cheiro de sangue de vampiro e suor de um animal.

Micha apareceu e sentou na quarta fileira e lançou sobre mim um frasco que aparei no ar.

– Se quiser ficar viva, beba.

Imediatamente sorvi a bebida amarga e pegajosa. Com ele não era permitido hesitações. Foi quando ouvi um rosnado. Havia um animal do outro lado da grade de ferro. Um lobo! Mas não um comum. Era um lobisomem. Ele lançou uma faca e uma espada aos meus pés.

– Boa sorte.

O animal foi solto e entrou na arena com fome de sangue. Meu sangue imortal. Lutei com unhas e dentes para ficar viva. Tive o braço mordido, a mão quase arrancada, mas matei o lobisomem. De pé sangrando e muito ferida, vi as minhas veias enegrecendo. O ar faltou em meus pulmões e antes que pudesse entender o que acontecia cai no chão.

Despertei, ou quase, um dia depois, meus ferimentos envoltos em gaze, sentia-me febril. Vi um homem vestido de branco, que me ponteou o ombro dilacerado, a mão. Ao lado dele Marie. Ela estava furiosa com Misha ela o expulsou do quarto. Vi Romano, Togo ao lado da minha cama. Olhavam-me com preocupação. Bebi líquidos quentes, amargos. Balbuciava palavras que não entendia, era consolada, mantida na cama. Tentava levantar, falar, mas por fim apaguei.

Quando a lucidez voltou vi Misha, ele estava com a cabeça apoiada na cama ao meu lado. Os cabelos tocando meus dedos, os olhos fechados.

Acariciei as mechas e por um segundo me perguntei o que fazia? Ele quase me matara. Afastei a mão e virei o rosto.

Um minuto depois o vi despertar e me olhar com seus belos olhos verdes. Havia alegria contida, uma pontada de culpa e alivio.

– Como se sente? – quis saber tocando minha mão.

Puxei a mão e vi sua vergonha por ter me tocado, e respondi como bem sabia.

– Mastigada.

Ele sorriu, algo raro. Mas que iluminava seu rosto e dava-lhe vida. Algo que não mostrara para mim em todos aqueles meses de treinamento rigoroso que quase matou-me.

– Sinto muito. – começou ele num surpreendente pedido de desculpas.

– Por quê? Por quebrar meu braço, me cortar, punir, por ser meu pesadelo? Ou me colocar em uma arena com um lobisomem?

– Deixei-me levar pelos poderes de sua herança sanguínea. Esqueci que é apenas uma recém-nascida. – disse envergonhado. – Você quase foi morta. Não estava pronta…

– Eu venci. – o cortei – Estou viva, estou pronta. Admita.

O vampiro olhou-me surpreso e ciente de que estava reivindicando um reconhecimento justo.

– Sim. Verdade, você venceu.

– Aprendi muito no último ano. Inclusive a perceber que é o que lhe fizeram. Vou ficar apenas com o que me ensinou, não pretendo me tornar o que é. – disse friamente. – Não existe necessidade de se sentir culpado. Estou pronta, sei me defender sozinha. Sua missão chega ao fim.

Misha olhou-me e sem dizer nenhuma palavra, deixou o quarto. Foram necessárias mais duas semanas para que ficasse completamente curada. Mas havia as cicatrizes. Com lobisomens as coisas eram mais demoradas, difíceis. Misha continuava na casa, apesar de não mais treinarmos. Recebi visitas, Romano, Togo, que deixou claro que podia abrir uma espécie de processo contra Misha. Recusei e ele partiu. Valdés, sim, ele voltou e depois de me visitar e constatar que estava bem, teve uma acalorada briga com seu melhor amigo. Virei motivo de discórdia de uma amizade de séculos.

– Isadora? – era Romano me chamando.

Sai em definitivo de minhas lembranças e fiquei de pé. Revisei a roupa. E respirando fundo comecei a descer as escadas. Chegara a hora de conhecer o rei, Ariel Simon.

Continua…

 

O Salvador – Capítulo III – A Fuga

193d55699d75d68c2bad1538ad1bdd76Algo me atingiu no ombro. O metal em minha carne tinha gosto amargo… Fraquejei, cai de joelhos. Um narcótico! Tentei puxar a flecha, mas a posição não ajudava e a carne reclamou. Trinquei os dentes e rugi de dor. Fiquei de pé, cambaleei e me segurei na parede próxima para não cair de cara no chão.

Corri o mais rápido que pude, mas a essa altura minha visão e poderes estavam comprometidos. Podia senti-los atrás de mim, quatro vampiros. Caçando-me, cercando, quando cai no chão tudo que pensava era em Virgílio. Não conseguia mais me mover. Fitei o céu escuro, vi as estrelas, as nuvens e tentei gritar. Estava consciente, todavia incapaz de mover-me. Chamei meu mestre, pedi ajuda e ouvi sua resposta:

– Estou indo Isa.

– Quatro vampiros, eles estão se aproximando…Não consigo me mover.

Era tarde para mim, fora detida. Rostos mascarados, mãos enluvadas, quem eram eles? Queria lutar, fazer todos em pedaços, mas só conseguia sentir as lágrimas escorrendo pela minha face.

Uma caixa de metal… Iam me colocar em uma caixa! Não! Gritava, tentava mover minhas mãos. Quando o metal me rodeou gritava alto, mas meus gritos estavam apenas em minha cabeça. Podia sentir a raiva de Virgílio, sua pressa. Não devia ter me afastado tanto dele. – pensei sentindo-me culpada. Vão me usar contra ele.

Virgílio não estava longe, mas não pode deter o rapto de Isadora. Furioso, aflito chegou ao prédio onde ela fora capturada. Pode sentir sua presença se esvaindo como seu perfume, seu sangue, algumas gotas, o cheiro da droga.

Quando seu telefone tocou, ele o tirou do bolso e viu o nome de sua pupila. Teria conseguido fugir? Uma tola esperança…

– Isadora…

– Como vai Virgílio?

A voz de Galeso trouxe um estremecimento de ódio ao corpo de Virgílio. As coisas eram bem pior do que supunha. Três meses atrás se afastou de sua casa, de sua pupila recém-nascida, para lidar com um inimigo. O caçou e matou ao velho estilo, adaga no coração, e logo depois decapitação. Queimou seus restos e avisou ao rei. Quitava uma divida antiga e possuía liberdade para matar todos, que lhe feriram a carne, e a daqueles que amou. Todavia, a presença de Galeso indicava que seu plano fora bem sucedido, mas trouxe consigo um perigo ainda maior. A hora do ajuste de contas havia chegado, e o que mais temeu aconteceu, havia quem ferir. Isadora e seu coração.

– Ficarei melhor quando cortar sua cabeça. – comentou suavemente.

– Que tal adiarmos isso? – sugeriu Galeso em tom de negociação.

– É um pedido? – debochou Virgílio com impassibilidade.

– Tenho algo em meu poder, como deve ter percebido. Pelo que vi, ela lhe é preciosa, além de bela.

– Solte-a. Está apenas aumentando seus crimes diante dos poderes.

– Estou lhe provocando, velho amigo. – disse Galeso. – Ela é diferente de suas antigas amantes. Pequena, frágil, mas é bonita.

Virgílio precisava manter as coisas sob-controle. Isso manteria Isadora viva. Galeso não mantinha promessas, ou era do tipo que soubesse lidar com reféns.

– O que quer, uma trégua? Cheguei perto demais? – provocou Virgílio sabendo que ele estava se sentindo ameaçado.

– A mantenho viva e você se afasta de meus negócios. – era uma troca.

– Isso não é uma hipótese. Você foi condenado, seus negócios não podem mais existir. Tente outra vez. Mas use a lógica.

Queimar seu cassino, matar seus comandados e clientes o abalou. Bem, tinha ordens expressas de Ariel Simon de destruir seus negócios de jogo e sangue. Estava na lista negra do mundo vampírico, mas quem teria a honra de cortar seu pescoço era Virgílio. A dívida de sangue era grande.

– Quero negociar. – o vampiro falou aproximando-se da caixa para olhar Isadora de olhos arregalados.

– Não vamos negociar. Você vai soltar minha cria e talvez lhe dê dois dias para correr. O que acha? – sugeriu caminhando pelo telhado.

– A coloquei em uma caixa de metal. As coisas vão esquentar para ela quando o dia nascer.

O vampiro do outro lado da linha fechou os olhos e não emitiu nenhum ruído. Mas ouviu o riso de Galeso.

– O que quer?

– Tempo, afaste os Pacificadores e os Caçadores.

Nesse momento Virgílio riu alto, gargalhou. Galeso do outro lado da linha apertou entre os dedos o aparelho em sua capa negra repleto de pequenos cristais. Algo feminino e clássico bem ao gosto de sua dona. Mas nas mãos do vampiro algo fora de prumo.

– Você me supõe muito poderoso. Ninguém controla os Caçadores, conhece as regras. – disse Virgílio olhando a noite a sua volta. Tinha apenas quatro horas para encontrar Isadora.

– Achei que tivesse alguma estima por suas crias. – começou Galeso – Lembro-me de vê-lo chorar da última vez que lhe tirei uma delas. A pequena Isadora não merece sua atenção?

– Três dias lhe bastam? – o vampiro perguntou pronto a ceder.

Não queria perder Isadora, mas também não pareceria frágil diante de Galeso. Ele já lhe tomara muito, não permitiria que a história se repetisse.

– É o suficiente. – o vampiro aceitou e tocou o rosto da vampira.

– Onde ela está?

Tentou não parecer impaciente, mas seu coração estava aflito. O sangue de Isadora em seus dedos o chocou bem mais do que poderia imaginar.

– Vai conseguir encontrá-la, eu prometo. Sabe, ela o chamou. É amor Virgílio. Ela o ama. – ele fez uma pausa maldosa – Como se sente?

O vampiro apertou o telefone e fechou os olhos. Ele a ouviu e sentiu seu medo, o desespero e isso quase o enlouqueceu. Não estava acostumado a lidar com tais sentimentos. Os havia enterrado muito fundo na alma. Ter que lidar com eles agora era algo perturbador. O mais estranho é que só agora percebia o quanto se ligara a Isadora.

– Como é ser amado depois de seiscentos anos? Como pode se permitir tal luxo? – o deboche de Galeso o atingiu como um soco. – Acreditou que não estaria vigiando, esperando?

O vampiro gargalhou cruel e sabia que Virgílio estava mergulhado em ódio e temor. Isadora não precise ser exposta a seu passado, ou seus inimigos.

– Maldito. – rugiu o vampiro perdendo parte de seu autocontrole.

– Vamos esquecer o passado. – começou ele – Serei bondoso e a pouparei. Mas sabe? Seria doce entregá-la aos pedaços para você, ou pelo menos, a cabeça. – o vampiro jogava cruelmente.

– Nada vai conseguir me impedir de matá-lo Galeso. Pode não ser hoje, ou amanhã, mas certamente o farei. Você vai implorar para que o mate.

A promessa de morte já existia, mas ela agora se repetia com mais intensidade e sanha. O rosto de Virgílio mudou, caninos expostos, olhos como cristais. Fora tomado por uma fúria esquecida e perigosa. Vinha caçando Galeso ao longo dos séculos, e isso pareceu petrificar seu ódio. No entanto, ouvir suas ameaças quebraram a crosta de sua frieza e o tornaram letal.

– O tempo fara as circunstâncias, não é mesmo? – ele sorriu. – Vou deixar sua cria entre a água e o fogo, diante do senhor que rege todos nós e diante dos olhos do Deus dos mortais. Sendo ela tão jovem, deve querer pedir perdão pelo sangue que vem sorvendo. Espero que consiga, ou vai encontrar somente cinzas.

Dito isso Galeso desligou o telefone de Isadora, ou melhor, o destroçou entre os dedos. Estava furioso. Fitou a caixa de metal onde a vampira jazia imobilizada e com um gesto mandou que fechassem a tampa.

A caixa foi movida e Isadora lutava contra a droga que a dominava. Foi quando lembrou que talvez se sangrasse, o narcótico usado pudesse sair de suas veias. Mas isso significava enfraquecer ou morrer. Precisava levar o pulso à boca… Ou… Fitou o interior da caixa e viu a ponta de um parafuso.

Virgílio guardou o celular e tocou o cimento do telhado. Tentava encontrar o rumo seguido pelos raptores de sua cria. Captou centelhas de pensamentos, vozes. Saltou do prédio e correu pela noite, seguindo o que acreditava ser o caminho seguido pelos homens de Galeso. Faltava uma hora para o amanhecer, Virgílio havia procurado por fontes e igrejas. Mas em nenhuma encontrou a combinação sugerida. Tentou se comunicar com Isadora, mas só havia confusão. Era o narcótico em seus sentidos, mas havia mais. Duas horas atrás algo mudou, ela enfraquecia, como se sumisse. Algo estava errado, ferida? Talvez.

Podia sentir o sol se anunciar sobre seus sentidos quando chegou a uma praça, a última que sabia ter uma fonte. A fonte jorrava água e diante dela havia uma igreja, não muito longe um relógio de sol.

Água da fonte, fogo do sol no horizonte, o poder de Deus, e o tempo. Mas onde estava a caixa?

Olhou a torre e a escalou. A luz aumentava, a madrugada sumia, enquanto galgava a construção de pedra. No alto viu a caixa de metal, ao seu redor o sangue manchava o piso empoeirado de pedra. Ajoelhou-se junto à caixa, fechou os olhos e esperando pelo pior, arrancou a tampa num único puxão. O metal gemeu rasgando-se sob sua força e raiva.

Sua Isa, sua Faradisa estava desmaiada em um mar de sangue, os cabelos manchados, a pele da cor do mármore. O pulso ferido… A retirou da caixa e tocou sua testa com a dele. Aspirou o aroma de seus cabelos e conteve um grito de ódio na garganta. Fitou o sol despontando no horizonte. Empurrou a porta de acesso a torre e se escondeu. A pedra fria, as sombras os envolveram. Tocou seu rosto e mordeu pulso para alimentá-la.

Isadora despertou com o toque suave das mãos de Virgílio sobre seus cabelos. Agarrou-se a ele num abraço apertado. Fitou o quarto escuro, o sol sob as frestas da porta a fez encolher-se com medo.

– Estamos em segurança. A porta está trancada.

Eram duas da tarde, o que teria acontecido?

– Você está bem?

O sussurro de seu mestre e amante a fez olhar seu rosto com amor e adoração. Ela soluçou e escondeu o rosto em seu peito.

– Não consegui fugir…

– Está tudo bem. Mas por que se cortou?

Isadora o olhou envergonhada e explicou o que pretendia fazer e viu nos olhos de Virgílio preocupação genuína. Seu esforço era para fugir, ou morrer? Ele se perguntou. Não importava, ela se colocou a beira da morte para fugir. Quando tirou o cordão de prata da carne de seu pulso praguejou e lambeu o corte para que se fechasse. Ela demorou muito a despertar, era jovem, e o dia não ajudava. Apenas a manteve em seus braços e a admirou dormir como fazia nos últimos meses. Desenhava-a com os dedos, os olhos, os lábios. Ela vinha o consumindo como o próprio sol. Amor? Desejo? Ele disse que não se apaixonava, mas ali estava rendido, preso aquela criatura feita de carne e sangue, seu sangue imortal. O perigo a que foi exposta o enlouqueceu. Não suportaria perdê-la. Imaginar o mundo sem sua presença era impossível. Como mantê-la protegida, segura?

Num arroubo de desejo a beijou, mas mãos a despiam, enquanto ela o ajudava. Sua pele luzia no quarto escuro, tomou-a no chão com paixão e amor. Dócil, ela cedia a cada carícia, guiada por suas mãos, sucumbindo a sua fome. Lambia e mordia, enquanto ela cravava as unhas em seus ombros abrindo cortes em sua pele. Gemendo, arfando sob sua fome de vampiro. Isadora só assumia o controle quando ele lhe oferecia sua veia. Nesse momento ela o dominava, o prendia com os dentes, com as pernas. O fazia seu e frágil. O sugava com força, aos puxões, quase como uma loba faminta, apertando-se contra ele, atingindo o gozo. Ao se afastar levava parte de sua alma consigo. Lambia os lábios sujos de sangue e fitava seu rosto sabendo-se selvagem e perigosa.

Quando a noite chegou saíram de seu esconderijo e voltaram para casa. As malas já estavam prontas, Antônio havia preparado tudo. Iam para Paris aquela noite. Não era seguro ficar em Barcelona. Virgílio deu ordens, ficou pelo menos uma hora no escritório ao telefone. Falava em árabe ou egípcio com alguém. Tomou banho e se vestiu, quando desceu Virgílio a esperava vestido em terno completo. Tomou sua mão e foram para o carro. No aeroporto tomaram um jatinho particular. Ele não falou muito, pelo menos não com ela. Aquilo a isolou estava distante, sempre ao telefone dando ordens naquele idioma antigo e inacessível.

Ainda podia sentir a carícia de sua boca, dos caninos sobre sua carne. Ele fora mais selvagem do que de costume, como se quisesse devorá-la, prendê-la dentro dele. Quando encontrou o gozo a prendeu junto a si. Tentou falar, mas ele cobriu sua boca com dois dedos e pediu silêncio com um: shhh!

Fechou os olhos e deixou que ele mais uma vez vencesse aquele jogo. O rosto em seu peito, as mãos o envolvendo, sentindo as pernas, seu sexo junto a ela. Ele era seu. Ninguém mudaria isso, nem mesmo o maldito, que tentou tomá-la dele. O envolveu e dormiu. Mas ali estava seu mestre, não o amante. Foram servidos de sangue, ele insistiu que ela bebesse mais de um cálice. Obedeceu, era melhor, mas quando terminou se sentiu pesada e sonolenta.

– Virgílio tem algo errado…

– Não, não tem Isa, apenas relaxe. – disse tocando seu rosto e beijando sua testa.

Despertei em um quarto amplo luxuoso. Lá fora Paris, o som dos carros, o cheiro da noite. Ergui-me do leito e tive certeza que fora drogada, mas por quê? Sentei na cama e senti o corpo reagir, formigar. Vi as flores, senti o cheiro de meu mestre nos lençóis, no quarto. Mas onde ele estava…? Nesse momento a porta se abriu e uma mulher entrou no quarto.

– Olá Isadora, que bom que acordou. – comentou aproximando-se do leito sem medo. – Meu nome é Marie, seja benvinda a minha casa. –

– Onde está Virgílio?

A mulher era um pouco mais alta do que eu, cabelos e olhos escuros. Imortal, mas não vampira. Bruxa? Sim, a julgar pelo anel de prata com a estrela de cinco pontas em seu dedo.

– Ele ficou conosco pela última hora, mas precisou partir. Bem, ele me pediu que lhe entregasse essa carta. Acho que vai encontrar as respostas que busca. – disse entregando-lhe o envelope. – Quando se sentir pronta desça, vou lhe mostrar a casa.

Dito isso a mulher vestida completamente de negro a deixou sozinha. Isadora abriu o envelope e se deparou com a caligrafia de Virgílio.

“Minha Faradisa é com grande tristeza que a deixo. Não posso mantê-la. Tenho inimigos e eles não têm escrúpulos, ou piedade. Considere-se com sorte de ter saído ilesa das mãos de Galeso. Acho que ele amoleceu com o tempo. Em outros tempos a teria feito em pedaços. Acredite-me. Marie é uma amiga inestimável e vai cuidar de você. Temos amigos e alguns deles vão lhe ensinar a sobreviver no nosso mundo. Apesar de não ser vampira, ela agora é sua mestra, dei a ela sua tutela. Quero que a obedeça, ou será punida. Essas foram minhas ordens, e ela as fará cumprir. Não duvide. Nossas leis são cruéis e não merece senti-las em sua pele. Dei-lhe a imortalidade para que fosse livre, e assim será quando aprender nossas leis.

O que tivemos foi maravilhoso e único. Os guardarei sempre comigo com muito carinho. Espero que faça o mesmo, mas não espere meu retorno, não voltarei aos seus braços. Busque um amante se assim quiser, como disse é livre.

Do seu salvador, Virgílio”.

O coração bateu dolorosamente, acho que sangrava dentro de meu peito, pois senti sangue escorrer do meu nariz. Fora abandonada por meu mestre e amante. Lágrimas brotaram de meus olhos e elas eram rubras, feitas de sangue. Ele partiu. Não ele fugiu.