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marceline_by_huyen_n00b-d5rk46s– Deveria sorrir mais, fica muito sombrio quando fica melancólico.

A voz feminina fez Jan Kmam erguer a cabeça e olhar ao redor. Estava na pequena sacada do apartamento em Paris. Em uma das mãos um cálice vazio aonde se via uma mancha de sangue. Os cabelos estavam soltos, ainda um pouco úmidos do banho recém-tomado. O roupão negro de seda semiaberto exibia o peito firme, de músculos bem definidos. Refugiou-se na pequena sacada, enquanto sorvia um cálice de sangue.

Não sentou na poltrona, não ocupou a rede, que Kara tanto gostava para deitar e ler. Apenas ficou apreciando mais um recanto criado para que desfrutassem de sua intimidade com conforto. As plantas, os detalhes da decoração, ela pensara em tudo para que eles se sentissem em casa.

A voz que chegou aos seus ouvidos foi como o estilhaçar de vidro, interrompendo suas lembranças mais doces daquele recanto.

– O que faz aqui? – a pergunta foi direta, seca.

– Bom dia Jan Kmam. – a vampira provocou e recebeu dele um olhar no mínimo gelado.

– Boa noite Alma. Achei que estava em Viena.

– O rei mandou me chamar, preciso assinar alguns papeis, como sabe sou “cria” dos Poderes. Meu tutor está ausente… Na verdade Edgar me deixou aqui em Paris sob os cuidados do rei em sua ausência. – ela se calou parecendo o maxilar do vampiro enrijecer de tensão.

– Está um pouco longe do Château Coucher du Soleil? – lançando um olhar pouco interessado em sua direção.

– Vim lhe ver. – disse timidamente e com um sorriso no rosto pálido.

– Por que Alma? Encerramos nossos assuntos anos atrás. Salvei sua vida e a coloquei em segurança. Nada me deve. – ele viu o sorriso morrer no rosto delicado da vampira.

– Só queria vê-lo…

Jan Kmam se aproximou dela e abriu os braços, ficou de costa e depois de frente novamente. Mostrava-se a ela, agia com frieza e crueldade. Estava no limite de sua revolta e saudade. Não poderia ser diferente com ela. Não quando se parecia tanto com Valeria, com Thais e com Kara. Ela havia escolhido o pior momento para fazer-lhe uma visita. Na verdade ela deveria evitá-lo. Kara não lidava bem com ciúmes.

– Satisfeita? – quis saber sem alterar a voz suave e bonita – Agora vá, esse é o abrigo que divido com a vampira que amo. Não quero magoá-la novamente.

– O rei… – ela engoliu em seco ao ter sobre si os olhos azuis do vampiro. – Ele mandou que lhe entregasse isso. – ela estendeu a carta e esperou.

O vampiro fitou o envelope ainda nas mãos da vampira por um segundo. Não era oficial, apesar de ter o selo do rei. Mas a cor parda do envelope dizia que era algo extraoficial. Pegou a carta, quebrou o selo e a leu em silêncio.

“Boa noite Jan Kmam,

Temos como imortais responsabilidades, e nenhuma delas é paciente, ou piedosa. O passado é o que nos condena e acorrenta. Mas mudemos aqui o tom dessa missiva. Venho lhe fazer um solicitação. Não achei apropriado um pedido formal. Tenho certeza que podemos resolver a questão de forma extraoficial.

Alma é uma criança em nosso mundo e carece de atenção. Seu tutor, Edgar, teve de se afastar, com pesar, devo dizer, de sua companhia. Ele voltará dentro de alguns meses pronto a reaver sua pupila. Dei-lhe minha palavra, que ela ficaria em segurança. Estamos sobrecarregados, Kara, Isadora, estou sem opções para “babas”. E Alma é um caso muito, muito, especial.

Como rei e amigo peço, que receba minhas palavras como um pedido. Não vou entrar nos detalhes de sua relação passada com ela, quando ainda mortal. Sei que é capaz de cuidar de um recém-nascido. Então espero que o faça com carinho e atenção. Alma é uma criatura tranquila, delicada e doce. Seja paciente e a oriente o melhor possível na ausência de Edgar. Espero que possa lembrá-la que isso é apenas um arranjo. Ele a ama, tem planos, você é comprometido. Faça disso um exercício, não uma missão. Se tiver alguma dúvida, procure-me. Ariel Simon”.

– Filho da Mãe!

Dizendo isso Jan Kmam fechou o punho sobre a carta, entrou e fechou a porta da sacada.

– Fique aí. – a ordem fez a vampira recuar. – Apenas me espere. – disse através do vidro.

O vampiro pegou o telefone e fez uma chamada. Esperou alguns minutos, insistiu e por fim foi atendido.

– Imaginei que me ligaria. – disse Ariel após o quinto toque.

– Não pode me pedir tal coisa. – Jan disse dispensando o protocolo.

Naquele caso havia muito envolvido, e de forma pessoal.

– Claro que posso. Estamos cuidando de várias órfãs. Como sabe os Poderes estão promovendo um perdão coletivo. Trazendo os órfãos a luz e a proteção dos Poderes. Isso evita muitos problemas futuros…

– Ariel… Eu não posso ficar com Alma no apartamento.

– Você tem sua parcela de responsabilidade para com ela. – Ariel o lembrou firme.

– Você me pediu um favor, eu posso recusá-lo. – fez uma pausa e afirmou. – Como deveria ter recusado anos atrás.

– É, mas não podia e foi esperto em perceber isso. Deixemos o passado onde está. Reconheça novamente sua responsabilidade para com ela. Deu-lhe seu sangue, deu-lhe a imortalidade.

Jan Kmam ficou calado, e evitou olhar a vampira na varando olhando-o através do vidro.

– Deve ajudar-me com essa criança. No momento ela precisa de proteção, não podemos deixa-la a mercê de nossos inimigos. Nunca descobrimos quem a mandou, sequer chegamos perto de desvendar tal mistério. Está sozinho agora, pode ocupar-se com essa tarefa.

– Gostaria de assim permanecer.

– Deveria ter saído de Paris. Mas sabe, eu a teria mando deixar sob sua responsabilidade. Ela faz parte da nova geração e devemos preservá-la. Se quiser posso providenciar outro lugar, se lhe incomoda tanto.

– Eu mesmo farei isso. – dizendo isso desligou o celular.

O rei colocou o aparelho sobre a mesinha próxima. Fitou o pergaminho a sua frente. E ficou se perguntando o que Radamés estaria tramando. Ele apareceu diante de Togo e o incumbiu da tarefa de entregar-lhe o pergaminho e logo depois desapareceu. As instruções eram claras e diretas, afastar Edgar temporariamente, colocar Alma sob a responsabilidade de Jan Kmam. Ariel Simon pensou com cuidado sobre aquelas medidas. E só as colocou em andamento cinco dias depois de falar com Radamés, em sonho. Suas explicações e os argumentos eram irrepreensíveis. Contudo o rei não aprovou, achou cruel e arriscado.

– Algum problema majestade? – Togo perguntou ao ver o rei fitar o vazio de modo pensativo.

– O favorito assumiu a responsabilidade. Aumente a vigilância em torno da jovem vampira, Alma. Quero que me mantenha informado de cada movimentos. – falou trancando o baú onde depositou o pergaminho.

Teria de acompanhar aquele pequeno “experimento” de Radamés bem de perto, as coisas poderiam não sair como esperado. O que aconteceria se as memorias de Kara voltassem? Como ela iria encarar aquela nova situação. Era um jogo perigoso e que poderia trazer consequências desastrosas e dolorosas para todos os envolvidos.

– Assim será feito. – Togo garantiu.

Jan Kmam abriu as portas de vidro e madeira e convidou a jovem vampira a entrar. Ela o fez timidamente e esperou em silêncio, os olhos vagaram pela sala, mas se fixaram no vampiro a sua frente.

– Sabe o motivo da carta do rei?

Ela se limitou a balançar a cabeça negativamente.

– Pedi permissão para visitá-lo, me foi concedida, contudo o rei me fez portadora da carta. – explicou delicadamente.

– Veio sozinha? – ele perguntou andando a sua volta.

Observava-lhe as roupas casuais, o batom leve que usava, um pouco de maquiagem. Uma vampira vestida como uma mortal. O que Edgar estava criando afinal? Uma boneca de porcelana?

– Não tenho permissão para sair sozinha. – disse sem aborrecimento.

– Como se alimenta então? – quis saber Jan Kmam sem demonstrar sua surpresa e desagrado.

– Meu tutor me alimenta… E também tenho um servo de sangue.

– Venha comigo.

O vampiro a levou pelo apartamento e através de um corredor. A escada era estreita e levava a uma porta no andar superior. Ele abriu a porta e a fez entrar. O lugar era amplo e um misto de meio ginásio, meio sala, meio quarto e escritório. As cores, os objetos e moveis tinham toque masculino. Aquele era o recanto de um homem, de Jan Kmam.

– Comprei o estúdio há uns cinco anos e fiz dele meu espaço. Aqui quem manda sou eu.

– Eu não estou compreendendo. – disse Alma olhando o espaço e depois o vampiro.

– O rei me fez seu tutor temporário. – disse mostrando o papel amassado – A partir de agora está sob minha tutela. As regras são simples. Eu mando você obedece. Vai viver aqui em cima, a porta de saída é ali. O apartamento está fora de seus limites. Durma bem.

– Eu não comi. – falou quando ele lhe deu as costas

– Vou lhe trazer algo.

Um minuto depois o balde com a garrafa de sangue e um cálice foi deixado sobre a mesinha. Alma o olhou e não gostou, mas ao ver o vampiro partir sem nada dizer compreendeu que não haviam opções.

 

 

 

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