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Para fazer do mês de Outubro um pouco mais especial, um presente para os fãs da série Alma e Sangue. Mais um conto das Crônicas de Alma e Sangue. O conto é Eternamente Só. Ariel Simon, Kara, Jan Kmam e outros vampiros passeiam por esse conto nos dando um pouco do prazer de ser imortal.

Uma hora de chuva ininterrupta. Um temporal havia desabado sobre Paris. Na TV os telejornais pediam cautela e se possível permanecer em casa até que tudo passasse. A maioria dos vampiros que estavam no Château Coucher du Soleil esperando uma audiência preferiram não se molhar. O rei só os atenderia na segunda feira, estavam livres para ir ou ficar. Era sexta feira e Ariel saiu pelos portões com rumo certo.

Quando viu o fosso que circundava a construção imponente, antiga e bela transbordando se preocupou, Kara havia saído nas primeiras horas da noite. Segundo um pacificador, o sol ainda sumia no horizonte quando ela envolta em um manto espesso de veludo cruzou os portões.

Estava em perseguição a um fora da lei, um vampiro que estava matando jovens adolescentes. O crime fora julgado pelos Poderes e a sentença era a morte. Deveria ser encontrado e decapitado. Conseguiu boas pistas trabalhando sozinha. Mas sabia que os Pacificadores a seguiam quando conseguiam.

Ela se voluntariou para caçar o vampiro. Foi durante uma das audiências abertas, ela sabia que naquelas condições o rei não poderia lhe negar o direito de campeã. Apesar de ter provado inúmeras vezes sua capacidade e bravura. Para a pessoa do rei, Ariel Simon, ela jamais seria forte o suficiente. Bem, esquecer seu mestre e grande parte de sua história não foi exatamente benéfico. Esse estado só reforçou uma fragilidade que não sentia, que não possuía.

Lembrava-se daquela primeira noite, quando saíram do Templo da esfinge. Além da construção só havia o deserto e a noite. Conduziram-na para o transporte e por fim para o jatinho do rei. Sentia-se desconectada de tudo e de todos. Os ouvia sussurrando, falando sobre ela e sua condição. Até mesmo sobre aquele vampiro que a olhou e partiu. Aos poucos se lembrava de ser vampira, dos poderes, dos amigos e inimigos. Estava tudo lá, bastava acessar, no entanto tudo estava diferente, longínquo.

A medida que provou estar lúcida e sã a vigilância diminuiu. Mas podia sentir seus olhares sempre sobre ela. A liberdade voltou, mas controlada. A pedido de todos ficou no castelo, ou como chamavam aquela bela construção, Coucher du Soleil. Vagou por ele nas noites que se seguiram e via imagens, ouvia vozes do passado, do seu ou eram o de outra mulher vampira? Descobriu ter opositores. Eles andavam pelos corredores e comentavam que a amante do rei havia voltado, deixado seu mestre para galgar o poder. Sussurros maliciosos, cruéis sobre ela e o rei. Por vezes aparecia a frente deles e os observava em silêncio ameaçador. Muitas vezes apenas se isolava e tentava lembrar quando fora amante daquele belo vampiro ruivo, de corpo atlético.

Radamés tirou muito dela e jamais lhe ofereceu uma boa explicação do porque o fizera. Não adiantou chamá-lo quando dele lembrou. Simplesmente ele não veio. Estava sozinha, o coração mudo dentro do peito. Lembrava-se dele batendo e era consolador.

A resposta era lutar, quando se ofereceu para caçar o vampiro diante da assembleia sentiu-se viva. Ela traria o culpado pelas mortes das adolescentes ou cortaria sua cabeça. O rei diante dos Poderes, dos seus súditos cedeu à petição. Afinal, ela ainda era sua campeã, não iria desmoralizá-la diante da corte. Poucos sabiam do seu real estado.

Togo lhe ofereceu dois pacificadores como apoio, mas ela recusou, enquanto se armava para sair na noite. Sozinha trabalhava melhor. Consegui algumas pistas, mas nenhuma delas levou-a ao vampiro que procurava. Até que ouviu um nome nas ruas, Górki.

– Você é a campeã do rei não é mesmo? – o vampiro de cabelos curtos e negros perguntou a certa distância.

– Sim, sou. O que tem a dizer?

A vampira observou cuidadosamente o vampiro de pouco mais de cem anos e esperou. Ele queria falar, mas pelo visto tinha um preço. Aproximou-se com cautela, deixou clara sua presença e quando tocou sua mente foi com um nome.

– Acho que sei quem procura campeã.

Ele saiu das sombras até que a luz do poste o tocasse. Ela podia vê-lo bem no escuro, sabia com o que lidava. No entanto o jovem parecia disposto a impressioná-la. Vestia jeans, botas, camisa e uma jaqueta surrada. Não tinha selo de herança nas mãos. Ou seja, um anel de linhagem. Seria um desgarrado? Possivelmente. Sabia que se procurasse alguém viria até ela e lhe diria a verdade. Por isso recusou os Pacificadores, eles eram bons em combate, mas afastavam os mais acanhados. Olhos claros, cabelos castanhos. Beleza, uma boca convidativa.

– Fale.

– Tudo tem um preço…

Num piscar de olhos o vampiro se viu erguido no ar, pregado a parede como um inseto. Enquanto os olhos escuros da vampira o examinavam bem de perto. Os caninos dela estavam à mostra, a íris escura como um abismo negro. Aquele olhar era estranho e vazio como o de um demônio seria.

– Escute bem – começou ela suavemente – Sou a campeã do rei, estou caçando um maldito desgarrado, que esta pondo o seu rabo e o meu na luz do sol. – cuspiu gelada – Acha que pode negociar comigo?

– Eu só quero ver o rei…

– Posso espremer você até que sangre, o que acha?

A pressão que exercia sobre o corpo do vampiro era esmagadora. Faltou-lhe ar nos pulmões. O medo o enfraqueceu.

– Sou um desgarrado… Só quero uma chance… De ver o rei…

– Por que deveria acreditar?

O vampiro caiu no chão e tentou se recompor, quando foi deixado livre pela campeã. Tossia e tocava a garganta. Ela era tudo que diziam nas ruas, majestosa e mortal. O aroma de seu perfume estava nele sobre sua pele, jasmim. Sentiu medo. Caído observou suas roupas negras de seda, veludo e couro e tentou pensar com clareza. Trazia a cabeleira negra presa numa trança, que pendia sobre o ombro e colo.

– Fui transformado e abandonado. Aprendi a sobreviver sozinho, tenho cento e vinte cinco anos. Quero ser inscrito no Livro. Sei que existem Poderes… – os olhos negros o avaliavam. – Nem todos tem sorte.

Ela quase o ouvir dizer: sua sorte.

– Como se chama? – falou brincando com sua adaga.

– Samuel, mas me chamam de Samy. – revelou fitando a lâmina nas mãos da vampira.

Dizia a verdade. Kara guardou a lâmina e pegou o telefone. Falou com Togo e consultou as regras. O jovem vampiro seria recolhido, o sangue analisado pelo Livro, se seu criador fosse um inscrito pagaria por seu abandono. Se não ele seria adotado. Teria uma audiência com o rei e caso aceitasse os termos seria inscrito. Conseguiria um mestre tutor e aprenderia a viver no mundo vampiro civilizado. Estaria dali em diante vivendo debaixo de leis, que poderiam levá-lo a morte, caso pisasse em falso. Poderia obrigá-lo a dar-lhe as respostas, mas seria cruel, além disso, Samy não revidou seu ataque como esperava.

Desligou o telefone e lhe passou as regras. Ele pensou por alguns minutos e as aceitou e começou a falar tudo que sabia.

– Górki tem a aparência de um jovem de dezoito anos. Mas possui trezentos, não sabe usar muito bem seus poderes, mas é cruel ao torturar suas vítimas.

Dizendo isso o jovem abriu a camisa e mostrou o peito marcado por riscos. Chicotadas. Mas porque não cicatrizaram e sumiram? Percebendo o olhar da vampira sobre as cicatrizes ele resolveu elucidar suas duvidas.

– Sal, ele me chicoteou e depois jogou sal para que as marcas ficassem para sempre. – disse Samy. – Ele caça adolescentes por prazer. Quer vampiros iguais a ele. Ele frequenta os locais aonde os jovens se encontram. E quando acha o que deseja, os mata ou escraviza.

Samy fechou a camisa e baixou a vista como se soubesse o preço por aquele crime.

– Sabe o que farei com ele quando encontrar, não é mesmo?

– Sim, sei, não sou tão ignorante quanto pareço. Sou apenas um desgarrado. Você vai cortar a cabeça dele. – falou rouco e tenso. – Foi o que ele disse que faria comigo se falasse algo para um vampiro inscrito no livro.

Nada é realmente por acaso, o que moveu Samy até a campeã foi medo.

– Sei que é proibido tocar alguém tão jovem.

– Por que ele o chicoteou? – Kara quis saber sem pressão.

– Queria me recrutar, quando me neguei ele me atacou. A maioria dos desgarrados prefere caminhar sozinho. Quando o pacto entre vocês e os lobos foi quebrado e houve a guerra no deserto, havia um líder a seguir. – ele falava sem reservas – Não gostamos de Justin Bieber. Entende?

Kara pegou seu telefone e ligou para Togo novamente. Ele localizou o vampiro nos arquivos criminais e passou um registro de imagem para Kara. Um desenho antigo de um jovem loiro e com feições de anjo.

– É ele mesmo. – confirmou Samy.

Quando desligou o celular se aproximou de Samy que se forçou a ficar imóvel e calmo. A vampira tirou um cartão do bolso e entregou ao jovem desgarrado.

– Quando estiver pronto para enfrentar o crivo dos Poderes ligue para esse número, diga seu nome e espere. Eles virão te buscar, e o resto é com você.

Ela deu-lhe as costas de partida.

– Kara?

Ela parou e esperou ainda de costas.

– Obrigada.

– De nada Samy.

Dito isso sumiu diante de seus olhos e o impressionou. Aquilo lhe trouxe uma lembrança. Aquele vampiro loiro, o seu mestre, fez isso anos atrás, discutiram e ele saiu pela porta e sumiu diante de seus olhos. Aquilo a impressionou. Jan Kmam, o vampiro que a transformou… A emoção do momento era de que o amava. No entanto, lembrar-se dela não a fez senti-la. Era apenas uma lembrança. O afastou e todo o resto.

Voltou sua mente para Górki. Ele foi procurado, mas havia desaparecido por quase duzentos anos. Bem, ele estava de volta às ruas e ela o encontraria.

Togo fechou o celular e olhou os arquivos de Górki. Devia ter suspeitado, mas a lista de procurados e infratores era extensa. Os progressos de Kara agradavam ao líder da Ordem dos Pacificadores, ela era útil nas ruas lutando, tinha bom faro. Pena seu rei acreditar que ela não era capaz. De vê-la somente como amante e não como sua campeã. E ela tentando superar as expectativas negativas se colocava em risco.

A lista de jovens mortais desaparecidas crescia, a polícia não media esforços para encontrá-las. A merda caiu no ventilador e tomou proporções de filme de terror quando dez dias depois uma das vitimas de Górki voltou para casa e drenou os pais e arrancou a cabeça de dois policiais, que tentaram detê-la. Felizmente nenhuma câmera filmou seu ataque e ela desapareceu na noite sem deixar rastros.

A tenente Yasmim ocultou os detalhes ao máximo, mas a situação estava fora de controle. Kara cruzou com ela saindo da sala onde o rei estava reunido com os poderes. Resolveu não entrar e foi para a cidade, talvez conseguisse encontrar a menina, agora vampira.

Kara tentou pensar com a adolescente. Vagava pelo prédio da escola onde ela estudava e a viu no telhado. Estava vivendo no sótão e saia à noite para se alimentar. O problema é que fazia bastante sujeira. Seguiu o rastro de sangue e sua intuição. Ao ver Kara nos túneis a menina se aproximou e a olhou. Provavelmente era a primeira de sua espécie que via. Estava suja de sangue, magra, a imortalidade visível. Não sabia como se ocultar.

Teve medo a princípio. Mas Kara soube como falar e depois de uma longa conversa conseguiu convencê-la a seguir com ela até o château.

– Não estou sozinha. – a jovem de quatorze anos falou.

– Tudo bem, temos muito espaço. – disse Kara sentindo as outras duas meninas aparecerem.

Estavam sujas, desgrenhadas. A mais nova trazia na mão uma ratazana morta, tinha a boca suja de sangue e nos olhos muita fome. Eram jovens demais para serem tocadas pela imortalidade. Preocupou-se, o que aconteceria com elas? Roubou um carro e as levou para o château. Ligou para Bruce e pediu ajuda, entrou pela ala norte, que estava fechada. Temia que as meninas se assustassem e fugissem.

Quando parou o carro e ela ajudou as meninas a descerem viu Bruce e Ariel na entrada ele sorriu ao vê-las chegar. Por algum motivo desconhecido pareceram respeitar sua presença. Era a voz do sangue? Sim, provavelmente. Elas o seguiram e foram conduzidas a aposentos, enquanto foram servidas de sangue e roupas limpas e até brinquedos para a menor. Sorriam e se não fosse pelo olhar vítreo e os caninos entre os lábios agora rosados, eram meninas normais.

– O que você não consegue Kara?

O rei perguntou ao ver as três meninas adormecidas, calmas e cientes que não poderiam deixar o château. Eram suas hospedes agora e aprenderiam como lidar com seus poderes e a fome de sangue. Duas pacificadoras foram designadas para cuidar delas. Teriam bastante entretenimento e sangue.

– A confiança daqueles que respeito. – disse andando ao seu lado no corredor vazio. – O que vai acontecer com elas?

– Na melhor das hipóteses elas ficam vivas. – falou mentalmente temendo que mesmo ali no corredor elas pudessem ouvi-lo.

– Não podem fazer isso. – disse indignada parando para olhar o rei.

O rei esperou e viu a antiga Kara, aquela que teve de matar homens e mulheres infectados por lobisomens em sua primeira missão como campeã do rei. Ela cumpriu sua incumbência, mas quando retornou veio ter com ele em sua câmara. A conversa não foi boa e ela terminou presa em seus aposentos. Naquela manhã ela dormiu em seus braços e foi maravilhoso despertar sentindo seu corpo nu, mesmo sem tê-la possuído. Ele jamais esqueceu a emoção, a sensação. Mas seu coração estava cheio de tristeza por seu mestre, Jan Kmam, que fora condenado à caixa por cinco anos. Será que ela lembraria? Ou tudo teria sido apagado por Radamés?

– Farei o possível para que sejam mantidas vivas. Mas saiba, a lei é clara nesses casos.

– Não podem executá-las, elas não pediram isso. – disse com calma e buscando racionalidade, justiça.

– Kara… Sei disso, mas compreenda, ser tocado nessa idade é muito mais perturbador e difícil de ser assimilado. Jamais terão controle absoluto. O desejo de sangue será sempre mais forte.

Ela baixou a vista e foi para uma das janelas. Pareceu compreender o que ele tentava lhe dizer, enquanto fitava a noite, as árvores que faziam parte do bosque que circundavam o château. Afinal, mesmo para um adulto a fome de sangue por vezes era incontrolável.

– Como seria feito? – perguntou tocando a pedra fria dos arcos da janela, os olhos brilhando pelas lágrimas que continha.

– De forma indolor e o mais rápido possível. Elas não sentirão ou saberão. Nada de medo para elas.

O olhar escuro da vampira buscou o dele. Ela estendeu a mão e o tocou. Os dedos delicados sobre o anel de rubi imperial. Parecia querer dizer algo, talvez agradecer, ou jurar que mataria Górki, no entanto, se conteve. Afastou-se usando de reverencia curta e sumiu pelo corredor.

– Kara?

– Sim, majestade.

– Eu sinto muito.

Com um aceno de cabeça ela sumiu na galeria e a partir daquela noite Kara desapareceu dentro de Paris. Dormia nos esgotos e procurava Górki incansavelmente. Os pacificadores a perderam de vista, mas estavam encontrando vampiros mortos, os aliados de Górki, ela os estava matando sem julgamento.

O rei ficou furioso e mandou Bruce encontrá-la, se havia alguém capaz de fazê-lo era ele. No entanto, isso levou algum tempo. O vampiro a encontrou na Avenida Samson, no 18o arrondissement. Para ser mais preciso, no cemitério de Montmartre. Estava escondida num velho mausoléu. Foi ali que se esconderam quando fugia de Jan Kmam anos atrás. Ela descobriu que ele possuía uma escrava de sangue. O episódio a levou ao rei e a conhecer parte de seu passado.

O cheiro de sangue tomou o ar do mausoléu. Bruce se preocupou ao ver a vampira. Kara estava ferida, suja de terra e sangue. Parecia ter saído de uma briga com cães.

– O que houve Kara?

– Nada demais. – murmurou tocando a cintura onde havia uma mancha de sangue. – Foi uma luta justa, três contra um… – ela gemeu e ele se aproximou.

Despencou no chão e tossiu sangue. Haviam hematomas no rosto, tinha os nódulos dos dedos feridos. Lutaram com punhos e presas a julgar pelo sangue que manchava seu queixo e garganta. Mordeu o pulso e lhe ofereceu a veia aberta.

Um minuto depois ela sorvia o sangue com ânsia. Bruce era próximo a sua linhagem de sangue e podia alimentá-la. Não rejeitaria sua oferta. Os cortes fecharam, os hematomas sumiram dando-lhe uma melhor aparência. Se Ariel houvesse visto seu estado, a prenderia em cárcere privado.

– O que faz aqui? Como sabia…?

– Vim te levar para casa. – revelou decidido. – Eu a encontrei aqui, nesse esconderijo anos atrás, não lembra? – quis saber ele semicerrando os olhos.

– Vagamente. Havia dor, mas o túmulo era bem seguro. – comentou sem citar Jan Kmam.

– O rei te enviou.

– Você pode continuar sua caçada, mas precisa voltar a um local seguro para passar o dia.

– Aqui é seguro. – explicou empurrando a pesada tampa do túmulo que vinha usando.

O mausoléu era muito antigo. Ficava longe das quadras mais movimentadas onde os túmulos eram mais novos. O que ocupava beirava os trezentos anos e tinha a entrada, o portão obstruído pelo mármore e concreto. Esperta, ela usava um túmulo afastado da entrada. Bruce notou que haviam inscrições no chão e na porta feitas com tinta e vela. Pelo visto ela havia aprendido alguma coisa com Marie, a bruxa. Aquilo afastava mortais, lobisomens, espíritos, bruxas e até demônios.

– Não, não é. – insistiu ele olhando em volta.

– Bem, estou cansada e vou dormir e você? Vai ficar aí fora?

O dia vinha chegando e qualquer vampiro de juízo precisava se esconder ou enfrentar as consequências. Bruce olhou o interior do túmulo e ficou surpreso. Estava limpo, cheirando a lavanda e forrado com um edredom negro e roxo. Havia mesmo um travesseiro.

– Vejo que esta bem instalada.

– Gosto de limpeza. Prefiro a cama em meu quarto no château. Mas estou em missão e isso não importa.

Enquanto falava entrava no túmulo, teve o cuidado de bater as botinhas e exigiu o mesmo de Bruce. Ajeitou-se e puxou a pesada tampa com a ajuda do vampiro. Quando a escuridão os envolveu ela se ajeitou agarrando ao travesseiro.

– Venha Kara pode recostar-se em mim. – disse o vampiro e a viu sorrir na escuridão.

– Isso é bom. – comentou ao aconchegar-se a ele.

– Sim, muito bom.

Ele ligou o celular e mandou uma mensagem ao rei e deixou o celular no silencioso.

– E então? Lembrou-se de mais alguma coisa? – ele perguntou percebendo que ela ainda estava acordada.

– Sim, alguns fragmentos de conversas, brigas, momentos de sexo com aquele vampiro de olhos azuis. – disse sem nenhuma emoção.

– Jan Kmam, minha querida esse é o nome dele.

– Vocês são amigos há muito tempo, não é mesmo?

– Sim.

– Por que ele foi embora? – ela perguntou sem nenhuma emoção na voz.

– Eu não sei minha querida, mas compreenda-o – a voz dele tremeu de emoção – Ele o fez por um bom motivo. Você é a coisa mais importante para aquele vampiro. Ele daria a imortalidade para salvá-la.

– Eu não sinto isso… Não consigo sentir nada por ele… – ela pegou a mão de Bruce e a levou até seu peito. – Escute – pediu – Meu coração está morto e Jan Kmam é… – A voz dela ficou rouca, presa na garganta como se doesse falar seu nome. – Eles morreram juntos em meu peito.

O silencio em seu peito era bem real sob os dedos de Bruce que tocou seu rosto e beijou sua testa de modo consolador.

– Sonhei com ele, fazíamos amor, mas era como se… Não há nada lá, são somente imagens. – disse sincera.

– Entendo. – disse Bruce contendo sua revolta e tristeza. – Acredite em algum momento você vai lembrar e vai sentir essas emoções… Tudo vai voltar, eu apenas espero que seu coração possa aguentar o amor que está ai adormecido, quando ele despertar. – comentou sorrindo tristemente.

– Acha que ele sofre?

– Sim, muito.

– Lamento por ele, mas não posso sentir o que ele sente. – afirmou pensativa.

– Bem, agora durma você precisa se curar completamente.

Dizendo isso a abraçou, acariciava seus cabelos de modo suave, ele sabia como mimar sua amiga. E logo ela adormeceu. Ele ficou pensando por longos minutos e decidiu que falaria com o rei e depois com Jan Kmam. Aquela situação já fora longe demais. Eles precisavam ficar juntos, só assim ela se lembraria. Ariel estava se comportando como um cavalheiro. Mantinha-se distante apenas a protegendo.

Na noite seguinte Bruce despertou se se viu sozinho no túmulo. Ela havia partido e deixado um bilhete.

– Diga ao rei que logo voltarei.

Ariel teria de esperar um pouco mais para vê-la cruzar os batentes do château. Havia se tornado uma arma letal. Esquecer seu mestre deu a ela uma espécie de independência fria e crua. Aparentemente não temia a morte, estava desconectada de seus sentimentos. Lançava-se a luta, aos desafios sem medo.

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