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if_we_meet_again_by_vampire_zombieNão tenho dúvida sobre a relatividade do tempo. Ele passa depressa quando estamos felizes e lentamente quando enfrentamos problemas ou simplesmente estamos tristes.

Os últimos cinco dias de minha existência como imortal tem se mostrado, literalmente eternos. Após ser atacada por Virgílio e separada de Misha despertei em outra cela. Não era fria, ou no subsolo de um castelo. Mas era um cárcere privado, sem janelas, uma porta de ferro e algum conforto. Livros, uma mesa de estudos, uma cama, banheiro, roupas e o silêncio. Ele pretendia me deixar ali por muito tempo. Examinei as paredes e percebi que eram bem grossas. Mas onde estava? Perder a consciência e despertar em lugares estranhos havia se tornado uma rotina.

Ouvi sons no corredor e logo parte da porta se abriu. Uma portinhola na parte inferior, que deu passagem a um balde de água morna com uma garrafa. Era sangue. Faminta a peguei e sorvi um gole no gargalo. Não pude me controlar, a fome era intensa. Após o primeiro gole me senti tonta e pesada. Quanto tempo eu fiquei sem alimento? Soltei a garrafa no balde e cai no chão. Foi como se houvesse levado um soco.

A porta se abriu e mãos firmes, mas delicadas me recolheram do chão. Tremia e quando o cálice tocou meus lábios e aos poucos sorvi o sangue me senti mais forte e menos confusa. Recostada nos travesseiros focalizei o rosto de Virgílio. Bonito como sempre, o rosto cheio de vida sorvida direto de um mortal, enquanto eu me servia em uma garrafa. Desviei a vista e me encolhi no leito, quando ele estendeu a mão em minha direção.

Em resposta ele se afastou. Sentado na poltrona próxima à cama, ele apenas me observava readquirir cor e traços mais humanos.

– Por que esta fazendo isso comigo?

O fitei incrédula e sorri quase histérica.

– O que lhe fiz? – questionei incrédula.

– Nós estávamos bem. – a pergunta dele era sentida, mas fora de propósito.

– Como ousa? – disse ficando de pé furiosa sobre a cama.

Ele me fitou sobre o colchão, punhos cerrados, olhos mudados, caninos a mostra a minha pele pálida como mármore.

– Quando me salvou naquele beco e sentiu meu olhar de admiração e gratidão disse que não me apaixonasse, mas eu… E como uma tola eu me apaixonei. Dei-te minha morte, minha vida imortal e com medo me abandonou! – gritei sentindo o som de minha voz penetrar nas paredes. – Sabe o que senti quando despertei naquele quarto e não o vi ao meu lado? – lágrimas quentes escorriam de minha face.

Ele apenas ficou lá quieto me ouvindo.

– Estava sozinha, indefesa, numa cidade estranha e cheia de outras criaturas. Eu podia sentir o coração imortal de Marie, Valdês e Misha. Eles eram bons e distantes e foi tudo que restou, quando perdi você.

– Eu sinto muito. Estava protegendo-a de Galeso…

– Mentira! Você estava se protegendo! Sentiu muito medo e se livrou da fonte dele, eu. Medo de sentir dor, medo de sofrer, de me perder quando na vida perdemos e ganhamos o tempo todo.

Desabei na cama e solucei amarga, sem forças.

– Eu chorei por tanto tempo. Aquela carta… Foi como se me jogasse no lixo. Nada do que dividimos em nossos momentos de intimidade e amor. Sim, porque eu te amava. Dei a você meu coração de vampira e brincou com ele.

– Eu te amo Isa.

– Jeito estranho de demonstrar. Abandono, violência e uma cela. Está me protegendo de quem agora?

– De você mesma.

– Não vai ter paz, não vou ceder. Nada mais vai ser como antes. – disse cheia de ódio.

– Não é minha prisioneira…

– Hipócrita!

– Quando o julgamento terminar a libertarei.

– Julgamento?

– Sim, Misha vai ser julgado. – falou serio e frio.

– O que está dizendo? – quis saber confusa.

– Será daqui dois dias. Espero que saiba se portar diante do rei. – disse ele olhando-me como se fosse uma criança estúpida.

– Fui convidada pelo rei em pessoa para ser parte de sua guarda pessoal. Conclui meu treinamento inicial, conheço as leis. Tive excelentes tutores, todos da casa dos lordes. Por que acha que não saberia me portar diante do rei? – quis saber indignada.

– Sabe o motivo? – perguntou de olhos semicerrados.

– Sim, eu sei, seu sangue e meu mérito. – expliquei sabendo que ele queria me diminuir em sua raiva e ciúme.

– Quando o julgamento terminar, terá de fazer uma escolha. Espero que a faça com sabedoria. – dizendo isso ele saiu do quarto e fechou a pesada porta.

Nos dois dias seguintes me exercitei e tentei me manter lúcida. O quarto me sufocava e qualquer coisa era melhor que ser prisioneira de Virgílio. Ele aparecia com roupas limpas e alimento. Ofereceu-me sua veia e a rejeitei com muito prazer. Preferia virar um maldito pedaço de mármore a ter de viver ao lado dele eternamente.

Na terceira noite me vesti e esperei. Quando a porta se abriu os Pacificadores esperaram que eu saísse do quarto. O fiz pacificamente e percebi que estava no subsolo de uma casa não muito longe da de Marie. Fui posta em um furgão e meus olhos cobertos por um capuz, as mãos algemadas. Era uma prisioneira. O capuz só foi retirado quando chegamos ao nosso destino, o Coucher du Soleil.

Acostumei-me a claridade e me vi na sala de audiências. O trono estava vazio ainda. Vampiros sentavam-se pelos acentos circulares e falavam em voz baixa. Foi colocada em uma cadeira e algemada. O pequeno auditório deveria contar com cinquenta acentos de madeira e veludo. O trono ficava elevado do piso em uma plataforma. Sem saber o que me esperava, apenas deixei-me ficar quieta. Aos poucos os acentos ainda vazios se encheram. Vi Marie, Valdês, Romano sentarem-se e me olharem com carinho, e de certo modo me passaram alguma força.

Um dos auxiliares de Togo tomou a frente e anunciou a entrada do rei:

– Todos de pé, o rei Ariel Simon está presente.

O som de pês e corpos tomando posição se fez ouvir, ao mesmo tempo em que a figura do rei entrava na sala. De pé o vimos se dirigir ao trono e ficar de pé diante dele.

Vestia um terno completo em tom chumbo e era uma visão de beleza e elegância. Os cabelos vermelhos pareciam um pouco maiores, ele os mantinha soltos sobre os ombros. O brilho de uma pequena argola de prata se fez entrever entre as mechas rubras. O olhar esmeraldino encantava e ao mesmo tempo refletia toda sua autoridade.

– Nossa espécie tem sobrevivido ao longo dos séculos desde que o homem primitivo caçava e se reproduzia nos campos e vales. Sempre soubemos que éramos diferentes deles. O abismo que nos separa deles jamais foi transposto. Mas não estamos isentos de manter seus hábitos e de imitá-los no pior. Temos leis, e é pela manutenção delas, que nos mantemos vivos, organizados, civilizados e longe do olhar curioso dos mortais. Quando falhamos, as leis nos trazem de volta ao estado de civilidade. Mas não pensem que as leis só punem e limitam, elas também libertam e trazem dignidade. – dizendo isso ele se sentou e o auditório o seguiu.

Senti seu olhar sobre minha pessoa, ali no banco dos réus e baixei a vista envergonhada. Contudo, não foi um olhar acusador e sim pensativo.

Vários casos foram expostos e julgados. As leis eram duras, mas justas e não beneficiavam culpados. Não haviam advogados, Togo expunha os crimes, as provas, e o rei, os lordes e o conselho julgavam, cabia ao Livro sentenciar. Alguns saiam livres, outros prontos para enfrentar a punição. Uma hora depois o salão estava quase vazio.

Perguntava-me onde estaria Misha? Ele ficou preso na cela? Por quanto tempo? A ansiedade crescia em meu peito. Valdês olhava-me preocupado e piscou para mim duas vezes em sinal de apoio. Eu precisava de informações, estava num mundo estranho e perigoso. Todos aqueles rostos pálidos, eles eram como o meu, mas neles havia algo que não possuía, conhecimento. Eram velhos e poderosos, me senti pequena e insignificante. Sequei uma lágrima e esperei. Fomos os últimos a ser julgados.

– Começam agora as audiências reservadas. – a voz do auxiliar se fez ouvir.

Imediatamente o auditório esvaziou. Só ficaram os interessados no caso. Marie, Valdês e Romano, Virgílio que havia aparecido durante as audiências abertas, mas não me dirigiu o olhar. Por que faria? Era muito poderoso, velho, para admitir que eu o enfraquecerá. Deveria ter morrido naquele beco? Era meu destino como mortal, por que não o cumpri? Nunca fui boa com prazos. Minha cabeça estava em ebulição havia tantas coisas, que poderia muito bem explodir.

Portas foram fechadas e as acusações começaram a ser lidas. Mas não antes que o prisioneiro fosse trazido ao salão.

Misha ainda estava com a mesma roupa da noite que ficamos juntos. Algemado pés e mãos. Parecia abatido, mas alerta. Procurou-me no banco e quando me viu quase sorriu. Fiquei de pé e fui empurrada pelo pacificador. Ele foi posto num banco do lado oposto do salão. Nada nos impediria de nos olharmos buscando alguma paz.

O rei nos olhou e percebeu o amor, o medo e a fragilidade do amor que sem perceber ele incentivou.

– Leiam as acusações.

O rei se pronunciou e chamou a atenção de todos.

– Lorde Misha passa agora a ser acusado de seduzir e tomar para si a pupila de outro. Mantê-la em seu abrigo e dar-lhe de beber de seu sangue, maculando do vinculo estabelecido com seu criador. O pedido de reparação pede sangue, para que os direitos do mestre tornem a ser reconhecidos sobre sua cria e sua dignidade restabelecida.

A voz era clara e límpida de Togo não deixava sentir emoção que definisse sua opinião sobre o assunto.

Virgílio ouviu as acusações e esperou com os olhos cravados no seu rival.

– Virgílio ­ chamou o rei – Venha para diante do trono e explique aos membros dos poderes aqui presentes porque em primeiro lugar abandonou sua cria.

– Majestade. – disse o vampiro diante do trono e fazendo uma mesura. –Acreditei que essa ocorrência já houvesse sido solucionada.

– As leis são claras sobre abandono. – começou Ariel – Você não poderia tê-la de volta. Abri uma exceção e vejo que errei.

– Majestade quer que façamos uma pausa no relato? – Togo sugeriu, já que ele admitia culpa em um julgamento.

– Sim, o faça. Esse julgamento não vai ser julgado de modo mecânico. Vou estabelecer alguns limites aqui. Traga o livro para o salão.

O rei estava decidido a ser justo. Não que geralmente não fosse, mas havia algo o incomodando. Togo o obedeceu e logo o Livro foi trazido. O carrinho de madeira era rebuscado, ancestral, de cor escura e seu ocupante era como um objeto mítico. Um grande livro aberto com páginas amareladas repleto de escritos e símbolos. Imediatamente ouvi sussurros. Algo forte me sacudiu, apertei os braços da cadeira e fitei o rei. Ele me devolveu o olhar e semicerrou os olhos.

– Quando invadiu meu abrigo temporário aquela noite, dei-lhe muito. – comentou o rei pensativo. – Dei-lhe o direito de reconquistá-la, de recuperar seu lugar de mestre e amante. Por uma simples razão, prevenção. – ele se inclinou para frente e deixou os olhos examinarem o vampiro. Temia que Isadora perdesse o controle, afinal ela demonstrou habilidades reconhecidas por seus tutores aqui presentes. – disse mostrando Marie, Valdês e Romano e por fim Misha. – Agora diante da situação exposta aqui o vejo inapto para lidar com Isadora como pupila, amante e até mesmo com seu poder.

– Estou sob julgamento, majestade? – o vampiro perguntou impertinente assim que o rei silenciou.

O rei gargalhou e se recostou no trono e semicerrando os olhos fez um gesto. Imediatamente os pacificadores cercaram Virgílio, não houve surpresa, apenas contemplação dos presentes. O som das correntes e os movimentos deixaram claro o que ocorria. Ele não lutou, mas estava furioso, o corpo rígido, a face feita de uma mascara gelada de ódio. Mas todo ele dirigido a Misha que dardejava com os olhos.

– Isso responde sua pergunta?

– Sim, majestade. – a voz estava presa na garganta. Mas saiu ao ponto de ser audível.

– Tudo isso poderia ter sido evitado, mas você tomou o caminho mais árduo e me colocou numa situação complicada.

A essa altura eu tinha a mão nos ouvidos, os sussurros agora quase me impediam de ouvir o rei falar. Meus olhos falhavam, era como se visse através de uma cortina de sombras e nela rostos começaram a se mostrar. Pálidos, poderosos, avaliativos. Não entendia o que diziam, era uma língua antiga… Egípcio? Parecia a mesma que Virgílio usava algumas vezes.

– Tenho um dos meus lordes mantido como prisioneiro, humilhado, submetido a acusações das quais poderia não ser culpado. E sabe o que sinto, errei como rei e como vampiro.

– Exijo apenas meus direitos de mestre.

– Não é uma simples traição, o roubo de uma cria, Virgílio. Trata-se do sangue dos anciões e ele deve ser protegido e não enfrentado. A está mantendo prisioneira no subsolo de sua casa. O que acha que vai acontecer? – quis saber o rei examinando as alternativas.

– Pretendo libertá-la…

– Sim, vai dar a ela liberdade. – ordenou o rei.

– Não manteremos preso um descendente direto dos anciões. – completou Romano se aproximando do rei com cerimônia.

– De certo que não.

– Deve retirar as acusações. – sugeriu o rei. – Percebe o que faço aqui Virgílio?

– Protege seu lorde, rouba minha cria e tenta corrigir um erro que não houve?

Foi muito rápido para que os vampiros, ou os pacificadores pudessem agir. Ariel se deslocou do trono e agarrou Virgílio e o conteve sob suas mãos. O poder dele era maior, concedido pelos poderes e pouco importava quantos anos a mais o vampiro tivesse, ele era o rei. As unhas estavam enterradas na pele que sangrava, as presas expostas eram ameaçadoras e o olhar verde provocava dor e terror.

– Não ouse me testar. Sou pouco paciente e minha posição me faz incapaz de não responder uma provocação à altura.

Ele o soltou num empurrão que o fez se chocar contra a divisória de madeira sólida que separava o salão do auditório.

– Acredito que deva ter esquecido sua posição em meu mundo. Sim, no meu mundo. Pois sua cabeça deve ser cortada para que não ameace minha posição diante dos poderes. Porque no fim, são eles quem governam através de mim. – esclareceu e fez o vampiro caído no chão baixar a vista ciente de seu erro.

O rei deu-lhe as costas numa demonstração clara de poder e nenhum receio. Virgílio ficou de pé com a ajuda dos pacificadores, que o juntaram do chão e arrastaram para diante do rei, que limpava a mão num lenço úmido oferecido pelo seu criado particular.

– Togo acho que Virgílio pretende tirar as acusações. – disse o rei ameaçador e o viu assentir e depois falar.

– Retiro as acusações que pesam sobre lorde Misha. Mas reclamo meus direitos sobre minha cria.

O rei levou a mão ao rosto numa atitude pensativa e percebeu que ele lutaria até o fim para manter seu poder sobre Isadora. Mas algo aconteceu.

Eu estava com as duas mãos na cabeça e gemia de dor. Pensava gemer baixinho, mas não verdade os sons que emitia já eram ouvidos por todos. Não tinha mais controle sobre minha mente. Ela se encheu deles, suas vozes, doze delas… Mulheres e homens. Compreendi que eles me tocavam, rodeavam, podia senti-los e por fim vi suas faces. Belos e selvagens guerreiros e lindas fêmeas. As fitava e tocava reverente, envolvida por suas mãos. A visão fizera meu corpo se elevar e só ser parado pelas correntes que me prendiam ao chão. Meu corpo flutuava hirto de poder, do meu nariz escorria um fio de sangue. De minha boca saia à língua falada por aqueles seres. O salão estava mergulhando em duvidas e silêncio.

Aquilo durou uns minutos, mas correntes me feriram a carne de meus pulsos. Por fim despenquei no chão, Misha gritou meu nome e tentou me alcançar. Estava tendo uma espécie de ataque, caída no chão me contorcia.

– Não a toquem! – ordenou o rei bem ciente do que ocorria comigo.

Quando tudo acabou, não demorou muito, talvez dois minutos ou menos. Fiquei de pé sozinha. Libertei-me das algemas com um aceno, pois elas incomodavam. Foi quando percebi o olhar fascinado de todos a minha volta.

– Aproxime-se Isadora. – o rei ordenou e o obedeci sem reserva.

Enquanto andava até o rei me senti estranhamente pesada e o olhar dos presentes no salão era revelador. Os pacificadores se curvaram a minha passagem e não compreendi o motivo, recuei e ao ver o rei me chamar prossegui.

– Sinto-me diferente. – murmurei sem pensar e fitei minhas mãos.

Foi quando notei a cor. Estavam da textura e da cor do mármore, meu corpo! Fitei o rei e tentei compreender. Mas ate mesmo ele olhava-me com admiração e carinho.

– Não fique assustada, o pior já passou. Sua natureza assimilou bem um poder antigo, e só demonstrado por nossos anciões. Bem-vinda Isadora filha do Livro, herdeira do quinto poder.

– O que fiz?

– Nada. O livro fez, ele a reconhece como sua herdeira. A partir de hoje é livre para ir e vir. Escolher como e com quem quer viver.

– Como volto ao normal? – perguntei mais preocupada em perder aquele tom de pedra. Podia me mover normalmente, mas sabia que deveria estar digamos assustadora. Era uma estátua viva.

– Quando se acalmar, eu acredito que suas características de imortal voltam a assumir o controle. Agora deve se colocar diante do livro e assiná-lo.

Togo se aproximou e me conduziu até ele. Podia sentir sua força me chamando, era algo de puro e simples. Não havia medo só curiosidade.

Estendi meus dedos e faíscas saltavam do livro para minhas mãos e delas para o livro numa troca de poder únicos. Por fim o toquei e senti-me parte dele. Vi a cor marmórea recuar. Eu voltava a minha forma natural de vampira e sabia, que agora não mais cairia naquele estado sem que tivesse controle sobre ele. Meu nome apareceu na pagina e minha história começou a ser escrita diante de meus olhos.

Quando me afastei do livro fitei Misha livre e corri para seus braços. Ele me recebeu e abraçou forte e soluçou de alegria. O beijo foi como beber agua límpida e pura depois de dias de sede. Faiscava e o vi sentir cócegas quando uma delas tocou seu rosto.

– Amo você. – disse afastando-me de sua boca.

– Eu também.

Escorreguei e o vi me segurar em seus braços fortes, enquanto sorria amorosa. Ele me ergueu nos braços e foi para diante do rei. Estava exausta e lentamente mergulhei num sono profundo.

– Peço permissão para deixar sua presença Majestade. Minha amada precisa de repouso e eu apenas de sua companhia.

– Concedida.

Olhei o rei e o vi sorrir para mim e piscar. Ele sabia o que aconteceria? Que meu poder viria à tona? Tudo tem o tempo certo dizem. E com o tempo certo eu me salvei, me revelei e me tornei a companheira de Misha. À medida que os dias e noite iam passando ficava mais forte e compreendia, que fazia parte dos anciões e eles de mim. Virgílio se afastou completamente. Misha revelou que ele desculpou-se formalmente diante do rei e partiu de Paris. Talvez houvesse saído em busca de sua vingança, talvez apenas esquecer sua derrota e coração feridos.

Dentro de minhas veias agora o sangue de Misha corria vitorioso. Ligamo-nos oficialmente numa cerimônia diante do rei e dos nossos amigos. Vesti um vestido branco, usei véu e tive Kara como minha madrinha, ela ficou na sala ao lado durante o julgamento pronta a entrar e falar em minha defesa, mas não foi necessário. O rei disse que saberia como libertar-me e a Misha. E assim ele o fez.

Valdês como padrinho. Romano e Marie ficaram ao lado de Misha e ele estava lindo vestido de negro. O anel de noivado e casamento foi presente do rei. É foi um casamento. Marie chorou emocionada e no fim sorriu e me abraçou. A lua de mel? Paris, aqui é nosso lugar especial, foi onde nos encontramos. Havia amor e carinho e desejo, muito mesmo.

Nada mais de Virgílio ficou além das lembranças. Às vezes pensava nele e como tudo teria sido diferente se ele não houvesse tomado à decisão de me abandonar. Estaríamos juntos ainda? E meu poder, o que teria acontecido? Meu coração não o lamentava, não o reclamava. Ele só queria paz e a teria ao lado de Misha. Ele não era meu salvador, mas foi o vampiro, que me ensinou a sobreviver, lutar por minha vida e vencer mesmo quando tudo apontava para minha derrota.

– Dora? – era Misha, havia retornado de seu passeio.

– Estou aqui Misha. – disse aparecendo na sala.

Sai da janela e me deparei no corredor com um buquê de flores do campo. As segurei e senti o perfume. O beijei e ele me envolveu nos braços e num gesto lançou o buquê para o alto. As flores se soltaram e caíram sobre nós dois. Sob à chuva de flores ele murmurou:

– Obrigada por me ensinar a amar.

– De nada meu amor.

Fim

 

 

 

 

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