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a7700b53f7d8893dae7a54149779d127O silêncio pode ser assustador. A liberdade sempre me foi muito preciosa. Ser imortal é só acentuou esse sentimento. Poderes, sentidos, a ausência de medo. Medo. Bem, ele ainda nos assalta, mas é diferente, é algo que podemos olhar com frieza. Na mortalidade nossos sentimentos e corpo nos traem, e o medo é um limitador, enquanto na imortalidade é uma mola que nos impulsiona a ação.

Minha liberdade fora roubada. Estava em uma cela quase medieval sob o Coucher du Soleil. A acusação? Traição. Trai meu criador com outro vampiro. Fui pega na cama com meu amante, um flagrante. Diante das leis do mundo dos vampiros, sou menor, uma criança com poucos direitos, muitas obrigações e sujeita a muitas penalidades.

As grades, a ausência de janelas, o corredor, a grossura da porta deixaram clara a impossibilidade de fuga. Aquele lugar era muito antigo e certamente fora projetado para deter criaturas com poderes bem superior aos meus. O lugar era limpo, cheirava a detergente. Pelo menos não era degradante. Havia até mesmo um sanitário. Bem, era inútil, a menos que desejasse vomitar. Isso um vampiro consegue fazer. Todo o resto é improvável.

Desejava minha cama, ou a de Misha, onde nos amamos pela primeira vez. Como minha vida pode mudar tanto em apenas um ano? Um terremoto a cada três meses.

Quando o líder da Ordem dos Pacificadores, Togo, nos deixou cientes das acusações percebi que Virgílio queria vingança. Não sabia o que pensar, o que fiz? O vampiro de descendência oriental nos deixou e eu desabei no chão agarrada as grades e chorei de raiva e fui amparada por meu novo amante. Sim, ele era meu amante e nada que Virgílio fizesse mudaria isso. Meu coração agora pertencia a Misha. Abraçada a ele tendo as grades como um limitador, eu lamentei.

– Eu sinto muito… Não deveria ter ido procurá-lo…

– Dora? Olha para mim. – ordenou Misha fitando meu rosto manchado com lagrimas tintas. – Eu teria ido atrás de você mais cedo ou mais tarde… Eu te amo.

Dizendo isso ele cobriu minha boca num beijo faminto e cálido, que fez meu coração se aquecer, bater tão depressa que acreditei que explodiria. O segurei forte junto a meu corpo e solucei. Ele acariciou meu cabelo e costas. Ele só provou o que verdadeiramente sentia por minha pessoa.

– Demorei muito, deveria tê-la beijado quando entrei em seu quarto e a vi dormindo. – começou ele beijando meu rosto para limpar as lágrimas. – Senti seu perfume e meu coração disparou. – murmurou e acariciou meus lábios com o polegar.

– O coloquei em perigo. – disse tocando seu rosto.

– Já lidei com coisas piores que uma cela, uma acusação. – disse olhando-me nos olhos. – Quando a tomei como minha amante conhecia os riscos. Seremos julgados, mas eu terei vez e voz. Usarei meus direitos como lorde. Ariel é um rei justo, apenas acalme-se, tudo vai acabar bem.

Ele podia sentir meus medos, minha frustração e culpa. Ficamos sentados no chão mantendo contato por entre as grades. Contive as lágrimas, enquanto ele fazia planos para quando saíssemos daquela confusão. Quando o dia nasceu ficou claro, que não receberíamos mais nenhuma visita. Tremi de frio. As celas eram de pedra maciça e não ofereciam conforto. Adormeci agarrada a Misha, mas ele me despertou delicadamente e me fez ir para a cama em minha cela. O colchão era fino, mas era melhor que o chão gelado.

Deitei-me e fiquei insone, queria respostas. O que nos aconteceria? O que Virgílio poderia fazer contra Misha? Não conhecia o suficiente das leis para saber o que aconteceria agora. Ele era um lorde e estava sendo tratado como criminoso.

– Misha?

– Hum? – respondeu atento.

– O que realmente aconteceu depois que desmaiei?

O silêncio que pesou entre as celas falava de algo além de seu poder. Ele respirou alto e aquilo significava problemas. Misha estava deitado no catre, o braço sobre os olhos. Mas sentou, e se recostou na parede e olhando em minha direção começou a falar.

– Os mais próximos sabem que Virgílio amou apenas uma mulher, Zafara. Não a conheci como mortal, ou vampira, mas me disseram que era muito bonita. Uma perola rara, que Virgílio tratava como rainha e Galeso esmagou num gesto de vingança. Eles são inimigos há tanto tempo, que sequer sabemos o que gerou a rivalidade. Mas certamente é algo, que ficou mais sério quando ele caçou e matou Zafara e devolveu aos pedaços para Virgílio.

As palavras de Misha mantinha um tom baixo, profundo. Ele tentava não me alarmar, mas era impossível. Estive nas mãos de Galeso e escapara ilesa. Então fora por isso que ele me abandonou? Medo que fosse feita em pedaços? Abracei os joelhos e fechei os olhos. Misha fazia o caminho mais longo para me revelar à verdade.

– Seu criador descende quase diretamente do sangue dos Anciões. Acho que ainda não ouviu falar deles. Mas sendo cria de quem é, melhor saber a verdade. Os anciões são os mais velhos vampiros do mundo. É deles que todos nós descendemos. Em algum momento nossos mestres receberam seu sangue. Virgílio é o segundo herdeiro do sangue de Ordalia, a líder das anciãs. Isso faz dele um vampiro muito velho e poderoso.

– Mais velho que o rei?

– Sim, mais velho que Ariel. Contudo, Virgílio não anseia por poder. Poucos sabem de sua real idade. Entende?

Balancei a cabeça afirmativamente compreendendo um pouco mais da árvore de onde eu havia caído.

– Porém no que isso me toca? – quis saber com inocência.

– Os anciãos têm alguns poderes diferentes dos que desenvolvemos quando vampiros. Os mortais que herdam seu sangue ao invés dos poderes receberam dons sombrios na grande maioria. – ele se calou. – Eles têm nomes, tais “dons”. A febre do sangue, o sussurro, a visão, a fúria. Você desenvolveu a marmórea.

– Desenvolvi o que? – quis saber realmente confusa.

– Quando é submetida a muita pressão seu organismo se defende. Sua pele, sangue e músculos assumem a textura do mármore. Isso é apenas uma alusão ao seu estado. Seu corpo enrijece assumindo a firmeza, a cor do mármore…

As palavras morreram em seus lábios. Ele baixou a vista, deslizou a mãos pelos cabelos claros. Por fim olhou-me novamente e suspirou.

– O treinamento, os testes, ter de escolher um novo mestre, lidar com o retorno de Virgílio, a fizeram ter seu primeiro episódio. – ele falou frustrado.

Ouvia a descrição da “doença” percebi que realmente sentira-me levemente enrijecida, mais pálida que o normal para um vampiro. A dor no peito, o braço sem controle quando lutava. Acreditei-me tensa devido à presença de Virgílio. Sua presença disparou o ataque. Estava muito bem, mas ao vê-lo cruzar a porta senti a primeira fisgada.

– Existe uma cura? – era bom saber.

– Não. Tudo que pode ser feito é manter-se longe de pressões. Nada de stress para você. Isso a manterá bem e desperta para nosso mundo. – completou sem muita confiança.

– Mas não faz sentido, se sabiam disso, por que o rei me chamou para ser sua guarda costas? Os testes? – aquelas perguntas mereciam respostas.

– Acreditávamos que desenvolveria o mesmo “dom” que Zafara manifestou. – explicou Misha de imediato.

– E qual seria?

– A fúria. Ela perdia a consciência e tornava-se extremamente violenta pelo que soube. Quando tudo passava não se lembrava das matanças que promovia com lobisomens, mortais, vampiros. Virgílio não conseguia dominá-la. Seu sangue não lhe dava a paz perdida. Por fim descobriram, que se ela se desgastasse treinando, os episódios ficavam controlados.

– Por isso me afizeram treinar. E todo o resto. – falei compreendendo tudo.

– Sim, seria melhor provocar a crise e estar pronto para lidar com ela. Do que ser pego de surpresa. Infelizmente nada aconteceu e você desenvolveu um dom diferente. – lamentou Misha.

– O que acontece se eu não tiver o sangue dele?

– Pode não voltar à consciência. – ele disse desgostoso. – Ficará presa nesse estado indeterminadamente.

– Isso é loucura, não pode ser. Sou feita de carne e sangue. – tentei racionalizar as boas notícias que recebera.

– Acredite-me, é possível. Quando desmaiou seu corpo se enrijeceu. Não consegui fazê-la despertar. Virgílio quase não conseguia abrir seus lábios para que sorvesse seu sangue.

Dizer aquilo lhe custou muito. Outro homem, outro vampiro conseguiu ajudá-la, ele apenas teve de observar e perceber, que ela não lhe pertencia. Aquelas palavra calaram fundo nele e por algum tempo apenas ficou em silêncio. Mergulhado nos acontecimentos que presenciou.

– Você precisa dele.

– Preciso apenas do sangue dele. – o corrigi com carinho.

– Meu sangue não pode ajudá-la Dora. – completou cansado.

– Foi por isso que o rei me devolveu a ele?

– Sim. É nova demais, mas também preciosa para que sua existência seja perdida. Somos poucos, os antigos. Cada nova cria representa nossa sobrevivência como espécie.

– Estamos em extinção? – perguntei confusa.

– Somos poucos e não estamos nos reproduzindo. – completou Misha.

– Não preciso de Virgílio. Ele só me trouxe tristeza, seu abandono me feriu mortalmente. Tudo morreu dentro de meu coração e renasceu por você, Misha.

Fui até as grades e o fitei suplicante. Malditas grades! Eu o queria tanto. Um minuto depois nos beijávamos apaixonadamente. Cansada e sonolenta fui para a cama e dormi durante quase todo o dia. Tive a impressão de ouvir conversas, sons de passos, mas estava sonolenta demais para entender o que ocorria. Mas pude perceber que Misha falava com alguém.

Quando a noite chegou despertei e estava faminta. Tentei esconder minha necessidade gritante por sangue. Mas era visível, estava muito pálida, agitada andando na cela de um lado a outro. Quando se é jovem sangue é uma urgência. Minutos depois ouvimos passos no corredor e logo Togo apareceu. Tive a esperança que ele trouxesse sangue consigo, mas ela morreu ao vê-lo de mãos vazias e acompanhado por meu antigo mestre.

Ver Virgílio me encheu de uma sensação estranha de medo e raiva. Recuei para o fundo da cela onde as sombras me esconderiam. Foi um instinto animal de sobrevivência e pouca lucidez. A vampira estava bem desperta e faminta. Pronta para o ataque.

Havia também um Pacificador, que fez menção de abrir a minha cela.

– Se fosse você não faria isso, é perigoso.

Togo que estava atento a minha atitude deteve o pacificador. Minha herança sanguínea tinha peso realmente. Ele fitou Virgílio e esse entendeu o recado.

– Vim buscá-la Isadora. – ele avisou com suavidade e altivez.

– Não vou a lugar algum em sua companhia. – minha voz estava calma e segura. – Peço que retire as acusações que nos fez. Eu sou livre desde o dia que me abandonou aos cuidados de uma bruxa. Lembra?

– Tem conhecimento das ordens do rei?

O líder da ordem dos Pacificadores me perguntou. Ele trazia nas mãos uma pasta antiga. Em sua face estava estampada imparcialidade, que costumava usar para resolver do mais simples, ao mais complexo caso dentro do mundo vampiro.

– Sim. Fui avisada, mas não vou acatá-las.

– Tem consciência de que pode ser punida por isso?

– Por quem? Pelo rei ou por esse ai que se diz meu mestre? – debochei e o vi semicerrar os olhos perigosamente.

– Por seu mestre primeiramente. – disse Virgílio do lado de fora da cela.

– Fiz minha escolha. Misha é meu novo mestre e amante.

Dizendo isso sai das sombras onde havia me ocultado e estendi a mão pelas grades. Imediatamente Misha a segurou me passando apoio.

– Podemos resolver isso pacificamente, Virgílio. – começou Misha dando um passo a frente para o olhar nos olhos. – Cuidei de Isadora e nos afeiçoamos. Não havia impedimento ou crime. Apenas deixe-me ficar com a guarda dela. O rei não fará objeções. – ele falou e olhou Togo.

– Não. O rei não faria nenhuma objeção. Na verdade tenho ainda os papeis comigo. Mas é claro, que Virgílio teria de dar seu sangue para protegê-la. Isso é simples. – Togo organizou tudo.

O vampiro olhou nossas mãos unidas e o seu desprezo era evidente.

– Vai protegê-la de Galeso? – ele quis saber com frieza.

– De qualquer um que a toque. – respondeu Misha seguro.

– Pensei que fosse mais realista lorde Misha – começou ele – Galeso sempre vai ver em Isadora uma forma de me ferir. Sem falar na herança sanguínea que ela carrega. – falava como se eu não estivesse presente.

– Posso viver sem seu sangue. O fiz por seis meses.

– Deveria deixá-la tentar. Mas não vou, Togo, faça cumprir meus direitos.

O líder dos Pacificadores suspirou de modo cansado, previa problemas. Deu um sinal e o pacificador se aproximou da cela abrindo-a. Tremi junto a Misha. O fitei em desespero.

– Virgílio seja razoável. – pediu ainda apelando. – Não a toque! – rugiu Misha furioso percebendo que ele não cederia.

– Não se aproxime! – falei me afastando de Misha para me esconder no fundo da cela.

– Isso pode ser feito de modo civilizado Isa. – começou ele há alguns passos de distância. – Você banca a pupila inteligente, esquece toda essa tolice e me segue. O que acha?

– Não me faça sua inimiga, apenas deixe-me ir. – pedi e fitei Misha.

Ele andava de um lado a outro da cela. Era um animal enjaulado e perigoso. Togo tentava acalmá-lo, mas era impossível. Ele tinha os caninos a mostra e os olhos dilatados. Sua face de vampiro estava a mostra sem retoques.

– Você é minha Isadora.

Dizendo isso Virgílio se deslocou na cela e me atacou. Um segundo estava livre e no outro, presa entre seus braços. Lutei e gritei, chutei. Mas ele me deteve facilmente, era meu mestre, tinha poder sobre meu sangue. Arrastou-me com ele para a luz e numa espécie de vingança puxou minha blusa e mordeu minha garganta. Gritei e o esmurrei, enquanto era drenada. Ele o fazia com os olhos presos em Misha. Ele exibia seus poderes sobre mim e afrontava seu rival. Um urro furioso ergueu-se da garganta do vampiro, que segurou as grades e as fez tremer sob seus golpes furiosos.

Sem forças me vi suspensa no ar, estava nos braços de meu antigo mestre e salvador. Lágrimas escorriam por minha face, queria estender a mão e tocar a de Misha estendida pelas grades. Mas não tinha forças, fechei os olhos e me entreguei à escuridão.

 

 

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