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ec58dde53cb2ca12eb07ad170beb8164O quarto estava às escuras, as cortinas semicerradas, a janela que dava para a rua aberta. A brisa fria empurrava as cortinas deixando um pouco da noite de Paris entrar. Ele estava dentro do quarto, podia sentir sua presença, a força de seu sangue gritando ao meu. Meu mestre estava ali me vigiando como não fazia há meses. Como desejei por tantas noites. Meu coração não batia agitado de emoção, paixão ou amor. Só havia frieza em meu corpo, o queria longe, fora do quarto de minha vida, de Paris.

Busquei o cheiro, a força de meu tutor e não a encontrei. Seu sangue ainda estava em minhas veias, fraco, mas presente. Era ele que desejava que estivesse naquela vigília silenciosa ao meu lado. Meu coração havia abandonado-se a ele, ao desejo de pertencer-lhe.

Movi o corpo e senti dor. Parecia ter levado uma surra. Não queria que ele me percebesse desperta, não ainda. Mas era tarde ele me notou e

– Não se levante, precisa descansar.

A voz de Virgílio foi um comando que faria questão de rejeitar. Fitei seu rosto dentro da semi-escuridão e percebi que continuava o achando muito bonito. Talvez fosse a saudade, que senti por tantos meses, dando sabor a algo que se tornou amargo. Sentei no leito e ele se aproximou preocupado olhando meu estado. Em seus olhos era como se fosse de vidro.

– Eu estou bem. Apenas saia do meu quarto, por favor. – pedi secamente, não suportava sua presença.

– Vou ficar Isa. – ele avisou calmamente.

– Meu nome é Isadora.

– Sim, é, mas para mim é Isa, ou a minha faradisa. – argumentou seriamente, sem se importar com o quanto aquilo era tolo e me importunava.

– Não tem mais direitos sobre minha pessoa… Nem de me chamar como sua amante.

– Tenho. – anunciou seguro. – Diante de seu estado o rei anulou os pedidos por sua custodia e devolveu-me os direitos de mestre.

– Não, isso é mentira. – disse indignada, incrédula.

– Peço que descanse, deixe as perguntas para depois. – sugeriu suavemente.

– O que aconteceu? – quis saber me sentindo tonta e faminta.

– Você teve um episódio. – começou ele cuidadoso.

– Como? Episódio?

– Quando estiver menos agitada falaremos. Agora só precisa saber que pode controlar e que está em nossa linhagem de sangue.

– Quanto tempo estive desacordada?

– Esteve desacordada por uma semana. – disse como se aquilo falasse por si só.

– Não pode ser… Eu só me lembro de sentir dor e meu braço ficou rígido… – vasculhei minha mente e vi Misha correndo ao meu encontro. – Onde está Misha?

– Foi embora. – disse com uma ponta de satisfação e alivio.

– Ele não me deixaria. – disse me lembrando de suas palavras. – Ele… – ainda podia sentir seu coração. Fechei os olhos, toquei o peito. Ele estava longe, o sangue que me ligou a ele enfraquecia. Concentrei-me e pude sentir sua presença.

– Ele a alimentou?

Puxei o braço com força, Virgílio havia segurado minha mão, quando a coloquei perto do peito tentando sentir a presença de Misha. Estava com cara de poucos amigos.

– Sim, ele me alimentou – o olhava nos olhos. – Quando o meu mestre não estava aqui para fazê-lo. Ele me deu de suas veias e me curou…

– Ele quase a matou!

– Acreditou que pudesse vencer e venci. Ele me ensinou muito mais do que você. Saia!

– Não quero puni-la, ainda está fraca…

– Me punir? Por quê? Por dizer verdades e não mais aceita-lo como mestre e amante? – rugia. – O que acha que sou afinal, um objeto para passar de mão em mão?

– Você é minha cria e eu a quero comigo.

As palavras tinha sentido para ele? Para mim nada significavam. Ainda haviam laços de sangue, mas havia somente um grande buraco em meu peito e ele exigia outro como alimento.

– Estou com fome. – disse sem pensar.

– A alimentarei de minhas veias. É tempo de nos unirmos novamente.

Enquanto falava aproximava-se do leito de modo confiante. Recuei para o espelho da cama e me encolhi. Ele notou minha fuga e sentiu minha rejeição. Não o queria, nem ao seu sangue. Levantei da cama e fui para o banheiro. Lá me tranquei, ele bateu na porta por algum tempo e depois desistiu. Quando saiu do quarto percebi que tinha pouco tempo e precisava agir depressa. Vesti-me e peguei minhas coisas e as coloquei em uma valise, vesti o casaco, coloquei a espada no suporte que ganhei de Kara e saltei pela janela.

À noite me recebeu e deixou que me misturasse com as pessoas na rua. Levantei o capuz de meu casaco e depois de algum tempo andando pela cidade parei. Precisava usar meus sentidos, encontrar Misha e foi o que fiz, deixei meus passos me guiarem até ele. Andei sem rumo por uma hora e me deparei com ruelas sinuosas e pequenas moradias. Aquele pequeno pedaço de Paris era como um vilarejo. Busquei descobrir onde estava e vi uma placa, Butte-aux-Cailles, ou colina das codornizes. Estava no centro histórico do 13º arrondissement. Era como esta no campo, o som dos carros ficou para trás nas ruas mais movimentadas. Ali só havia paz, uma paz que buscava ansiosamente.

Parei diante de uma das casas de três pisos com um jardim bem cuidado e repleto de rosas em grande parte vermelhas. O aroma me atraiu enormemente. Estendi a mão entre as grades do muro e toquei uma delas. A suavidade me encantou, eu a queria e num puxão a arranquei. O puxão trouxe-me dor. Fitei a mão e o talo da roseira e vi os espinhos, o sangue. Nada mais profético – pensei e fitei o portão. Foi quando o senti. Era Misha! Na porta de entrada da casa.

Eu o havia encontrado. Ele veio em minha direção e observou minha fuga óbvia. Abriu o portão de ferro e abriu caminho me deixando entrar em sua casa. No hall de entrada era pequeno, mas bem decorado e acolhedor. Pegou minha a capa, a espada e colocou dentro do armário embutido na entrada.

– Siga-me. – pediu carregando minha valise pelo corredor.

Quando chegamos à sala não pude evitar a sensação de que estava em casa. A lareira estava acesa e o fogo crepitava envolvendo a sala em uma atmosfera acolhedora. Os móveis de madeira até meio rústicos reforçavam a ideia de que havíamos entrado em uma cabana nas montanhas, próximo a um lago. Sentei em um dos sofás confortáveis e olhei a manta de tricô, o tapete delicado. Há muito não me sentia tão á vontade em um ambiente. As roupas informais chamaram minha atenção. Estava de jeans, camiseta de manga longa, azul e negro. Só então notei que estava descalço.

Sentei na poltrona mais próxima e fitei as mãos sujas de sangue, a rosa.

– Minhas rosas sabem se defender. – comentou tirando-a a rosa de minha mão com cuidado.

– Sinto muito, eu… Não consegui resistir.

– Compreendo.

Ele fitou a rosa e saiu da sala, quando retornou a trazia em um cálice com água. E colocou na mesinha próxima a poltrona onde estava sentada. Sentou e me fitou demoradamente, suspirou e perguntou:

– O que esta fazendo?

– Não vou voltar para Virgílio. – disse olhando as mãos cicatrizadas, mas ainda sujas de sangue.

– Você fugiu?

– Sim. – respondi sem medo e sustentando seu olhar.

Recebi o lenço úmido e limpei o sangue dos dedos.

– Você… Disse que não me abandonaria. – as palavras saltaram de meus lábios de uma vez, enquanto o fitava buscando um fio de esperança.

– Não a abandonei. O rei revogou o meu pedido, retirou o convite para que seja parte de sua guarda e devolveu sua custodia a Virgílio. – ele explicou de modo sério e se mantendo distante das palavras.

– Por quê? O que fiz de errado? Eu estava lutando quando senti algo. Despertei e tudo que conquistei havia desaparecido. – lamentei. – Não posso passar por algo assim novamente…

O soluço escapou de minha garganta e cobri o rosto e chorei aflita. As lágrimas molhavam minha face. Meu corpo tremia quando Misha me tomou em seu abraço e me consolou. Agarrei-me a ele e solucei infeliz. Ele murmurava suavemente que me acalma-se, que tudo ia dar certo. Não queria perdê-lo. Ergui o rosto e meus olhos encontraram os dele. Foi o encontro de duas almas que se desejavam.

O beijo foi apaixonado e faminto. Vi-me envolvida por seus braços e correspondi como ardor. Havia feito minha escolha e nada nem ninguém me faria desistir dele. Entre beijos e carícias Misha me levou para seu quarto e lá nos despimos e amamos. Tomou-me com paixão e carinho. Tocou meu corpo de modo reverente, lento, faminto. Seu corpo nu confirmou o que imaginava. Músculos perfeitos, definidos, que me deliciei beijando, tocando. Quando ele me tomou junto ao peito senti que desejava provar de meu sangue. O corpo estava tenso, os caninos a mostra, o olhar mudado. Mas ainda havia carinho e os beijos me faziam tremer de prazer. A tortura de suas caricias me levou ao gozo por três vezes. Suas mãos habilidosas me fizeram dizer seu nome em sussurros e gemidos. O beijei e ali em seu colo ofereci lânguida a garganta para que ele me tomasse por inteiro. Os lábios, a língua, a sucção suave na carne antecedendo as presas. Segurava-me em seus ombros e não esperei muito. A mordida foi deliciosa e me levou ao êxtase. Flutuava numa nuvem de prazer e quando ele afastou os caninos e sugou com força, soltei um arquejo. Estava ancorada a ele, enquanto meu sangue era sorvido e meu corpo tomado. Era ele que amava e desejava, meu criador ou não, eu amava Misha.

– Tome de minha veia. – ele murmurou junto a minha boca.

Os lábios rubros com meu sangue. Amparada por seus braços o vi oferecer-me o pescoço forte. Beijei delicadamente e senti seu corpo arrepiar-se de prazer. Lambi numa tortura lenta que o deixou um pouco mais excitado. O levava ao limite, pois era lá que estávamos no limite, na beirada do precipício. Mordi e o ouvi rugir de prazer. Era um ronronar baixo, algum másculo e poderoso. Havia tanto prazer e quando ele me apertou em seus braços senti meu corpo se encher dele, de sua força numa união poderosa e única. Meu coração e o dele. Éramos um único ser. Afastei-me e desfrutei de seu sabor dominando meu corpo. Abraçamo-nos e ficamos assim no leito. Por longos minutos ficamos em silêncio, apenas ouvindo nossos corações. Estava completa, a fome saciada. Aconcheguei-me no peito de meu amante e assim adormeci.

Despertei com o som da porta sendo arrombada. Fomos surpreendidos ainda na cama. Os pacificadores nos cercaram, Misha tinha a espada na mão e me protegia com seu corpo. Cobri-me com o lençol e tentei entender o que acontecia.

– O que está acontecendo? – cobrou Misha aborrecido com a invasão.

O pacificador líder do grupo não estava para dialogo e ao falar deu ordens.

– Levantem, estão sendo detidos por traição.

– Traição?

– Está na cama com a pupila de outro vampiro. As leis são claras e você as violou ao possuí-la. – o Pacificador explicou pronto a fazer valer a lei.

– O que está acontecendo? – quis saber as suas costas.

– Seu criador nos mandou caçar.

Misha ergueu-se do leito sem constrangimento e ergueu o lençol para que me vestisse com privacidade. Feito isso, pegou suas roupas e fez o mesmo. Fomos algemados, retirados da casa e conduzidos para um carro. O destino, Coucher du Soleil, entramos por corredores longe dos salões e fomos conduzidos para o subsolo. Corredores de pedras, celas com grades. Não podia acreditar! Quando a grade de ferro se abriu e fomos conduzidos para seu interior pensei: é um pesadelo. Mas não era um sonho ruim. Era bem real. Fomos pegos nus na cama em plena traição ao meu mestre.

– Vai ficar tudo bem. – disse Misha pondo à mão entre as grades para me tocar.

Fomos colocados em selas separadas e ali esquecidos por duas horas. Quando Togo apareceu no corredor, Misha se colocou de pé e foi para perto das grades. A postura do vampiro líder da ordem dos pacificadores era a mesma de que me lembrava. Altiva e concentrada.

– Quão ruim estão as coisas?

– A vampira e recém criada, fugiu de seu mestre. Ele alega que deu-lhe seu sangue, é verdade?

– Fomos mais longe que isso Togo. – disse Misha com coragem e sem nenhum constrangimento.

Togo olhou-me como seu olhar estilo radiografia e senti-me congelar. Ele me culpava.

– Será libertado ao anoitecer para respondeu ao rei em liberdade. Isadora deve permanecer presa até que seu mestre venha requisitá-la.

– Não vou voltar para ele. – assegurei indo para o fundo da cela.

– Se não o fizer ele pode mantê-la presa aqui ou em seu território o tempo que quiser. – explicou como se saber daquilo bastasse. – Escute-me Isadora. Virgílio é um vampiro muito velho e poderoso. Quando fugiu deu a ele direitos para puni-la.

­ – Quero um defensor. – pedi sabendo o quanto aquilo era difícil de ser conseguido, mas não impossível.

– Nenhum vampiro vai querer defendê-la de tal crime. – Togo explicou os olhando.

– Kara, a campeã do rei, a quero como minha defensora.

Continua…

 

 

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