e4fb6966dfbe158065fdc15182c9f6beCapitulo 1 – O Salvador

O homem caminhou pelo beco úmido e sujo e se aproximou do meu corpo caído no chão.

O vi através da cortina de sangue e lágrimas, que agora eram meus olhos. Naquele pedaço de inferno aonde o desespero e a violência haviam se enfrentado. A violência ganhou. Ele se agachou e me tomou nos seus braços. Não se importou com meu estado. Estava suja de lama, sangue e sêmen dos meus agressores. Minhas roupas eram trapos, o rosto ferido deixava pouco a se ver.

Tentava focalizar seu rosto, mas isso representava gastar energia que não dispunha. Receava mais violência. Mas ele não parecia disposto a me machucar. Na verdade parecia ter caído do céu, mas nada de angelical havia em sua face.

Mesmo alquebrada, e a beira da morte podia sentir que ele não era humano. A pele incrivelmente pálida, suave como se tempo jamais pudesse tocá-la deixava óbvia sua natureza sobrenatural.

Possuía tanta beleza dentro de seus olhos, que poderia ficar durante horas observando o brilho de sua retina.

Naquele olhar havia desejo, não o físico, afinal restou pouco da beleza que eu possuía. Contudo, podia sentir toda a extensão de seu desejo. Cada músculo de seu corpo me desejava, vi o movimento dos lábios cheios convidativos. Desejei beijá-lo, mas isso só me traria dor…

Os dedos longos e pálidos acariciavam meu cabelo desgrenhado tentando dar a ele alguma ordem.

Por fim os caninos apareceram e por uma fração de segundos desejei recuar, mas o toque de sua pele sobre a minha adiou a fuga. Estava disposto a lhe dar minha vida, meu sangue…

A mordida trouxe-me a consciência física de que mais uma vez fora atacada.

O corpo estirou-se, cada músculo e tendão parecia lutar. Sua mão poderosa segurava meu ombro apertando minha carne. Seus dentes estavam cravados sobre minha garganta. Tentei empurrá-lo, mas foi um gesto débil, sequer toquei seu belo casaco negro. O cabelo sedoso tocava minha face, podia sentir seu cheiro másculo de sândalo.

Arquejei e relaxei, ele sugava. E de uma forma atemorizante percebi-me drenada. Minhas veias, meu corpo enfraquecia sob a pressão do beijo. Movia os lábios e era tomada pelo enfraquecimento, mas a consciência não perdia. Seus lábios, sim, eram eles que me ligavam ao mundo, sua força sobre minha carne.

O peso de sua força sobre a minha. O corpo estava paralisado e somente o coração e os olhos se moviam. O vampiro recuou e como reflexo arquejei dolorosamente. Uma gota de sangue. Sim, ele caia de sua boca, meu sangue. Despencou dos caninos, escorregou sobre o queixo e mergulhou no vazio para cair sobre minha boca. E no que pareceu uma eternidade, despreguei os lábios que pareciam colados e provei do meu próprio sangue.

A face do vampiro era um mistério perdido no cabelo escuro e liso. Mas eu podia ver sua boca carmim, sua carne se alimentando do meu sangue. Sua mão deslizou por minha face agora fria.

– Você quer viver?

Como podia ser tão belo?

– Não se apaixone por mim, pois isso só vai fazê-la sofrer eternamente, minha querida amiga – o vampiro murmurou – Não sou do tipo que se apaixona. Diga-me, quer viver?

– Sim…

– Então deixe que lhe mostre o que é viver plenamente. – sussurrou.

Não houve lugar para dúvida, nojo, asco, somente para a fome que dominou meus sentidos, o pensamento lúcido evaporou como água em um incêndio.

Abandonava a vida como conhecia. Renascia através do sangue do vampiro.

Quando consegui ficar de pé ele segurou minha mão e me conduziu para o fim do beco. Com um puxão arrancou um cano na parede e o fez jorrar água sobre minha cabeça.

– Lave-se, volto em um minuto.

Não o vi seguir pelo beco, ele apenas sumiu. Fiquei debaixo da água sem forças para me mover. Meu salvador retornou com uma sacola plástica na mão. Roupas e um par de sapatos.

– Mandei lavar-se. – disse impaciente.

Suas mãos puxaram os trapos que cobriam minha nudez. Lavou-me como se fora uma criança. Por fim me puxou de debaixo da água e pressionou uma toalha sobre meus ombros.

– Eu… Eu vou vomitar.

– É, eu sei. – disse ele me segurando para que não caísse no chão.

Vomitei e tremi em seus braços, enquanto ele segurava minha testa. E subitamente tudo parou, nada mais sentia além de fome. Fitei seu rosto e me senti ligada a ele, a seu corpo e mente.

– Sim, eu sei pequena. Está faminta. Isso é perfeitamente normal.

Ele entregou-me roupas limpas. Pouco depois vestida percebi seu olhar avaliativo.

– Vai servir por enquanto.

Era seu modo de dizer que não gostou do resultado. Camisa de mangas e uma calça azul de brim.

– Hora de comer e resolver assuntos pendentes.

Ele me levou consigo. Saímos do beco e caminhamos algumas quadras por ruas que se alternavam entre desertas e pouco movimentadas. Até chegarmos a um velho galpão. Reconheci o carro dos homens que me atacaram e paralisei.

– Você precisa comer e essa primeira refeição deve ser especial.

Dizendo isso o vampiro me beijou longamente. Podia sentir sua mão apertando-me de encontro a seu corpo forte. Meus seios comprimidos junto ao seu peito. Meu coração batia enlouquecido, feroz, agarrei-me a ele e retribui e quando finalmente nos afastamos ele murmurou:

– O salvamento acabou. – disse friamente.

– Como…?

– É livre para partir. Mas pode ficar comigo se quiser. No entanto, se fizer isso quero que se prove merecedora. – disse tocando meu rosto.

– Eu… Como faço isso?

– Eles estão ai dentro. Os homens que a atacaram, que a feriram e esfaquearam. – ele falava carinhosamente. – Mate-os como quiser, beba seu sangue e prove que merece meu sangue em suas veias.

– Eles… Eles vão me ferir novamente… – disse aterrorizada.

– Não, não vão.

Ele me arrastou até o carro e colocou minha mão sobre o retrovisor.

– Aperte.

Obedeci e vi o retrovisor se amassar sob meus dedos como se fosse feito de papel.

– Compreende o presente que lhe dei?

Balancei a cabeça e fitei o galpão, podia ouvir seus risos, o cheiro nauseante deles. Lembranças da violência sofrida me assaltaram. A raiva cresceu dentro do meu peito de modo frio e controlado.

– Estarei por perto. – murmurou junto ao meu ouvido.

Ele disse e me empurrou levemente, num incentivo.

Caminhei sem me deter e quando toquei as portas do galpão as empurrei para dentro arrancando-as da parede.

Tudo aconteceu num turbilhão de sons e imagens. Gritos, sangue, ossos se partindo sob meus dedos. O sangue em minha boca, alimentando minha fome. Fiz muita sujeira e aprendi muito sobre meu novo eu. Quando aquela tempestade de ódio chegou ao fim. Percebi que havia levado alguns tiros, que em nada me feriram.

Meu salvador caminhou até meu lado e me fitou com orgulho e estendeu a mão em minha direção.

– Passou com louvor.

– O que sou agora?

– Minha pupila, minha amante se quiser…

Pulei em seus braços e o beijei numa entrega apaixonada.

– É, você quer. – comentou ele sorrindo. – Vampira, imortal, assim como eu sou, é o que é agora. – ele falou, enquanto saiamos do galpão.

– Devo temer algo ou alguém?

– O sol. – disse ele apontando o céu. – Ele está ali, oculto pela sombra da terra, em mais quatro horas reaparecerá e pode nos transformar em tochas, cinzas.

O seguia e ouvia suas recomendações e conselhos, cheia de uma calma única.

– Revele sua face tão-somente para suas vitimas, beba somente sangue.

– Sinto medo. – murmurei com a cabeça recostada ao seu ombro.

– Impossível, eu o sorvi de suas veias, Isadora. – argumentou dizendo meu nome pela primeira vez.

– Quem é você?

– Seu salvador, nada mais. – disse cobrindo meus ombros com seu braço protetor.

– Qual seu nome?

– Virgílio.

– Para onde vamos?

– Para casa, você precisa de roupas limpas. – ele riu. E só então eu vi o sangue manchando a blusa e a calça.

– Antes, é claro, quero vê-la mais uma vez completamente nua. – disse num murmúrio sensual, enquanto a mão tocava minha cintura estreita.

Virgílio caminhava lentamente me levando com ele para seu mundo. Meu coração batia agitado, faminto. Pois agora ele pertencia a criatura que me salvou, um vampiro.

O Salvador – Capitulo II – Faradisa.

Virgílio vivia em uma casa no centro da cidade cercada por muros altos, que ele me ajudou a transpor. Passou a mão sobre minha cintura e me elevou no ar junto com ele. Quando pisei na grama fiquei encantada com a construção em estilo marroquino. Ele vivia em um riads. Um prédio repleto de pátios internos com janelas de madeira apelidadas de muxarabi. O resultado é privacidade e contato com jardins, que são obrigatórios em prédios desse estilo.

Dois pisos pintados de branco e azul, portas e janelas de madeira marrom avermelhada. O som do murmúrio das fontes, três delas espalhadas pela casa e jardim seduzia, convidava ao relaxamento.

A primeira que vi estava na frente da casa. Pedra, ladrilhos azuis, verdes e negros, peixes sob o fluxo constante e límpido. Ele percebeu minha aprovação, quando tirei os tênis e passei a caminhar descalça pela grama. Sorriu e me viu tocar flores e plantas fascinada com o que meus olhos humanos não viam. O verde, as linhas de energia que fluíam de cada uma delas, o pulsar da vida em meus dedos. Por que somos tão cegos? Incapazes de ver a vida, a morte?

Ele tocou meu ombro e me convidou a entrar. Sabia que podia me perder no jardim fitando a vida ao meu redor.

Dentro da mansão o que se via eram tapetes, luminárias de latão de cobre penduradas do teto abobadado, repleta de arcos em tons brancos, ou da cor de barro vermelho. Os móveis e mesas seguiam o mesmo estilo. Cortinas de linho branco bordado flutuavam na brisa noturna. O piso de lajota verde, azul e até vermelha combinava com o ambiente. Pude ver paredes com azulejos pintados com desenhos rebuscados.

No ar pairava o perfume de incenso de rosas. No corredor haviam bancos de madeira trabalhada com almofadas em tons coloridos, bordadas. Nas paredes quadros exibiam cenas de homens do deserto, oásis e belos animais. No átrio estava a terceira e certamente a maior fonte. Ela era em desenho octogonal e exibia flores aquáticas em sua bacia. Em seu redor sofás que seguiam o contorno da parede. As luzes estavam acesas e era um recanto incrível para ler ou simplesmente ficar e admirar. O piso era repleto de desenhos rebuscados. Algumas inscrições que meus pês descalços riscaram distraidamente.

– Sua casa é magnífica.

– Muito obrigada. Esse é meu oásis, te trouxe para ele porque sei que tem sede. Espero poder saciá-la. – disse vendo-me estender a mão para o jorro de água na fonte no centro da casa.

Andei por todo o átrio e olhei para cima vendo o céu, as estrelas. Os ambientes do segundo andar abriam suas portas para aquele espaço de beleza exótica.

– Venha, deixe-me levá-la para seu quarto.

Dizendo isso me tomou pela mão e me conduziu a escada pintada de branco. Em cada degrau havia uma lamparina azul a óleo. Seguimos pelo corredor e quando ele abriu a pesada porta de madeira escura, fiquei diante do quarto mais bonito que já vira.

A cama ficava junto à parede, na cabeceira havia um nicho onde estavam resguardados um abajur e livros. O colchão ficava sobre uma plataforma de pedra. Os lençóis e fronhas eram bordados. Junto ao leito uma penteadeira antiga de madeira esculpida em arabescos intrincados resguardava objetos de toucador. Aos pês da cama e pelo quarto tapetes em tons claros e quase rosados. No banheiro havia uma banheira feita de pedra e ladrilhos. Sobre ela pendia um candelabro, e ao seu lado um sofá de seda de listras douradas e marrons. Um armário repleto com roupões, toalhas e produtos de uso pessoal dos mais diversos.

– Gostou? – quis saber tocando meu rosto com a ponta dos dedos frios.

– Sim.

– Ótimo. Desfrute de tudo e relaxe. Antônio vai lhe ajudar com o que precisar. – dizendo isso se afastou.

Segurei sua mão e o detive. Fui para seu abraço e o beijei, ele não retribuiu de imediato, mas por fim cedeu as minhas carícias. Retribuiu ao beijo com fome e desejo e quando me soltou falou:

– Teremos tempo para tudo. Quando me quiser ver, basta chamar. – dizendo isso beijou minha testa e sumiu diante dos meus olhos.

Tudo mudou. Minha percepção do tempo, do ar entrando e saindo dos meus pulmões. Os músculos em meu corpo, eu podia ouvir meu coração bater. Na verdade podia controlar seus batimentos, ou simplesmente fazê-lo parar.

A imortalidade me deu consciência sobre a matéria. Houve uma divisão, alma e corpo. Conhecia o limite de ambos agora. Podia sentir cada célula de meu corpo pulsando. A consciência aguçada do meu eu, começou a me sufocar. Os sentidos, as sensações me dominaram e eu desabei no chão segurando a cabeça confusa. A dor era demasiada grande para me afastar das sensações, que agora deveria administrar. Foi quando o ouvi, Virgílio.

– Feche os olhos. – foi uma ordem. – Apenas feche os olhos e respire o mais profundamente que conseguir.

– Não consigo…

– Isso é inaceitável. Respire!

A ordem foi gritada aos meus sentidos e vinda de lugar nenhum de minha mente. A ordem agitou meu corpo e antes que percebesse fechara os olhos e respirava o mais fundo que conseguia, evitando o colapso que me faria aniquilar meu cérebro.

Minutos depois a dor, os ruídos, as sensações estavam sob controle, pelo menos, por enquanto.

Onde ele estava? Meu mestre e salvador? Na biblioteca, ou em seu estúdio. Desde que cheguei ao oásis, como Virgílio chamava a casa. Só o vi mais duas vezes. Passados trinta dias sentia-me sozinha, carente de sua presença, e até de sua voz em seus pensamentos. Mas só recebia silêncio. Talvez ele tenha me levado aquele pequeno incidente com meus sentidos, solidão.

– Já o chamei inúmeras vezes, por que não vem?

O silêncio como resposta. Cansada de sua ausência, resolvi partir. Talvez não fosse bem vinda. O criado, Antônio, não respondia perguntas e era muito pouco amistoso. Resolvi partir como cheguei com a roupa do corpo. Certamente já fora dada como morta por minha colega de quarto. Mas poderia me esconder em um velho sótão, ou porão. Fui em direção à porta, mas antes que tocasse o trinco ele apareceu na varanda do quarto.

– Para onde vai? – perguntou sem entrar no quarto.

– Embora. – respondi olhando sua silhueta por entre as cortinas.

– Por quê?

Ele estava mesmo surpreso?

– Já usufrui o suficiente da sua hospitalidade e caridade. – disse amarga.

– Minha hospitalidade não tem fim, fique. – pediu gentilmente.

Andei até a varanda e me aproximei de Virgílio, ele olhava a noite, o jardim. Quando por fim voltou seus olhos a minha pessoa, senti meu coração saltar no peito. Belo demais para que pudesse reagir de outro modo. Os olhos claros, dourados, o cabelo negro e liso, exótico. Desviei a vista e esperei em silêncio.

– Tenho sido relapso com sua educação. Lamento muito por isso. – disse gentilmente. – Estive ocupado com alguns assuntos e você quase entrou em colapso.

– Eu… Fui muito tola…

– Não – ele me corrigiu – Não a ensinei a conter seus sentidos, normal que acontecesse.

Ele tocava meu rosto agora e por fim pegou minha mão e me puxou para dentro do quarto. Não parou até que estivéssemos em seu estúdio. Um lugar que estava sempre de porta trancada, até aquela noite quando ele tocou o trinco e o abriu. A sala era ampla e resguardava o mesmo estilo exótico dos demais ambientes. Ele sentou no sofá e me colocou ao seu lado.

– Vou lhe ensinar alguns truques.

Daí em diante aprendi tocar sua mente, ler alguns de seus pensamentos, pelo menos até onde ele permitiu. Ligar as luzes, a chama de uma vela, abrir uma porta fechada começando por destrancar a chave. Chamar Antônio, bem isso foi mais difícil, mas ele veio. Ficou um pouco irritado, mas disfarçou. Antes que saísse Virgílio lhe falou algo em árabe pelo que pude notar.

Vinte minutos depois alguém bateu na porta do escritório. Era um mortal. O senti ainda no corredor. Ele entrou quando permitido e esperou no canto da sala. Devia ter vinte e cinco anos, era forte, pele morena. Ouvi seu coração, senti o gosto de sua pele.

– Isadora esse é Filipe. Ele nos presta um serviço muito especial.

Dito isso ele se aproximou de minha poltrona e sentou. Recuei um pouco assustada. Levantei rapidamente e sai porta fora.

– Isadora?

Virgílio me deteve no corredor. Escondi o rosto contra a parede e fechei os olhos. Ele buscou meu queixo e viu os olhos mudados quando os abri para fitá-lo. Os caninos a mostra eram um aviso de minha fome.

– Você é tão linda… Mas por que fugiu? Por que se esconde?

– Não, não sou… Eu estou feroz e horrível. – cobri o rosto com as mãos.

– Seus pais lhe deram a vida. – disse, enquanto fitava meus caninos – Eu lhe dei o dom da morte. E pelo que vejo ele cai muito bem em você. –o polegar acariciava meu lábio inferior. – Você é linda.

Dito isso tomou minha boca num beijo esfomeado. Encostada na parede eu senti a pressão de seu corpo, das mãos firmes. Toquei seu peito, quase o empurrando, afinal me esmagava contra a parede. O desejo era óbvio.

– Não fuja de seus desejos. – disse com os olhos nos meus e eles estavam tão mudados quanto os meus.

– Não quero matar ele…

– Não vou deixar, quero apenas que aprenda a se conter diante de um servo de sangue. – sussurrava junto a minha boca.

Conduziu-me de volta a sala. Colocou-se na poltrona e o mortal se aproximou, ajoelhou-se a minha frente e abriu a camisa.

– Não seja tímida aproveite o momento. Isso deve ser prazeroso.

Toquei o rosto do mortal e seu pescoço, os ombros nus. Podia ver a veia me convidando. O coração irrigando o corpo de sangue e vida. Estava com fome, me inclinei e ele se curvou para que me servisse. Meus lábios tocaram a pele quente e gemi sem perceber. A língua sugou a carne firme, o coração do mortal acelerou. Pude sentir que desejava aquilo, a mordida. De olhos fechados o mordi. O mortal segurou-se nos braços da poltrona e aguentou firme. Suguei com força, enquanto segurava os ombros fortes. O sabor era rico e forte. Pude jurar que ele se alimentava e cuidava bem de seu corpo. Nada de cigarro, álcool. Doce, forte e limpo. Um toque em meu ombro desfez o transe e me afastei.

Fitei o mortal sorrir e receber uma pequena toalha para cobrir o ferimento. Lambi os lábios os limpando. A porta se fechou e só então percebi que ele havia partido.

– O que achou?

– Bom… Muito bom.

– Nem sempre precisamos matar. Temos como conseguir o que desejamos sem chamar atenção.

Antônio entrou na sala trazendo uma bandeja, nela uma garrafa de vinho e dois cálices. O vinho certamente francês tinha gravado na garrafa o nome Petrus. Virgílio a abriu com elegância de um conhecedor de vinhos. Quando me entregou o cálice sorriu e falou:

– Bem vinda ao mundo civilizado.

O sabor do vinho agradou-me profundamente. Pude sentir o sabor da uva, da madeira do barril em que envelheceu. Fechei os olhos por um instante e senti o sabor, o cheiro da terra. As raízes da parreira. Aquilo era uma viajem. Virgílio olhava-me satisfeito e até convencido, ele sabia de meus estranhos dons. Podia praticamente atravessar o tempo agora. Bastava desejar, tocar um objeto ou provar algo.

– Você é muito especial Isadora. Quero que acredite em mim quando digo isso. – comentou sorvendo o vinho em mais um gole.

– Vai me deixar sozinha novamente? – quis saber decidida a partir se ele o fizesse.

– Você não esteve sozinha nem por uma noite. – começou ele diminuindo a distância que nos separava. – Sempre que voltava para casa visitava seus aposentos. Sempre a encontrava dormindo e fiquei o tempo que pude admirando nossa criação.

O sangue recém-sorvido me fez corar. Ele gostou disso e tocou meu rosto. Os dedos sentindo o calor da vida em minha pele pálida.

– Devia ter me despertado…

– Teria sido indelicado. Além disso, queria dar algum tempo para que se acostumasse a sua nova condição… E não queria apressar as coisas. Você foi tocada com muita rudeza.

– Não sinto mais nada sobre isso. Na verdade, quando os matei, tudo silenciou.

– Aprenda, minha cria. O tempo é nosso maior aliado e inimigo. Ele cura até mesmo o que não sentimos, nos dá paz. Enlouquece-nos com a solidão, nos tortura com sua lentidão. Desejo você, mas esperei que o tempo a tocasse primeiro. Ele a cobriria de paz, limparia sua mente de lembranças, para que meu toque fosse novo, o início de algo profundo e duradouro.

O beijo veio como todos os outros arrebatador e faminto. Entreguei-me a ele sem reservas, por que as teria? Eu o queria com tanto desespero. Quando separou os lábios dos meus me puxou com ele pela casa rumo ao seus aposentos. O quarto era grande e decorado em tons escuros. A cama de madeira tinha um cortinado feito de seda adamascada.

Entre beijos e carícia ele me despiu. Nua a sua frente senti o toque de suas roupas sobre minha pele. Afastou-se um passo e tirou o colete, a camisa e expôs o peito largo, músculos firmes, cintura fina. Haviam tatuagens intrincadas sobre os braços e pulsos, nas costas. Pernas firmes. Magnífico e ansioso por meu corpo.

No leito nossos corpos encontraram o ritmo, o tom. Uma melodia nova foi composta pelo prazer. Amante atencioso, suave quando preciso e exigente quando provocado. Nossos corpos pálidos e imortais absorviam prazer e sangue na medida exata. As marcas nos meus seios, em seus ombros sumiram, mas as mordidas existiram e deixaram um rastro de fogo e êxtase. Aconchegada a ele me senti plena. Estava ao lado do meu mestre e ele parecia completamente satisfeito, seduzido. A mão em minha cintura, o modo como escondeu o rosto em meu pescoço, sob meus cabelos me fez crer que não sairia do leito por algum tempo.

As janelas se fecharam, as cortinas deslizaram sobre elas lentamente. Um zumbido elétrico que Virgílio controlou com sua mente. O quarto ficou escuro, o dia chegava, hora de dormir.

Segurei suas mãos sobre minha cintura e fechei os olhos e o ouvi murmurar:

– Não vai mais ficar sozinha, minha Faradisa.

 O Salvador – Capítulo III – A Fuga

Algo me atingiu no ombro. O metal em minha carne tinha gosto amargo… Fraquejei, cai de joelhos. Um narcótico! Tentei puxar a flecha, mas a posição não ajudava e a carne reclamou. Trinquei os dentes e rugi de dor. Fiquei de pé, cambaleei e me segurei na parede próxima para não cair de cara no chão.

Corri o mais rápido que pude, mas a essa altura minha visão e poderes estavam comprometidos. Podia senti-los atrás de mim, quatro vampiros. Caçando-me, cercando, quando cai no chão tudo que pensava era em Virgílio. Não conseguia mais me mover. Fitei o céu escuro, vi as estrelas, as nuvens e tentei gritar. Estava consciente, todavia incapaz de mover-me. Chamei meu mestre, pedi ajuda e ouvi sua resposta:

– Estou indo Isa.

– Quatro vampiros, eles estão se aproximando…Não consigo me mover.

Era tarde para mim, fora detida. Rostos mascarados, mãos enluvadas, quem eram eles? Queria lutar, fazer todos em pedaços, mas só conseguia sentir as lágrimas escorrendo pela minha face.

Uma caixa de metal… Iam me colocar em uma caixa! Não! Gritava, tentava mover minhas mãos. Quando o metal me rodeou gritava alto, mas meus gritos estavam apenas em minha cabeça. Podia sentir a raiva de Virgílio, sua pressa. Não devia ter me afastado tanto dele. – pensei sentindo-me culpada. Vão me usar contra ele.

Virgílio não estava longe, mas não pode deter o rapto de Isadora. Furioso, aflito chegou ao prédio onde ela fora capturada. Pode sentir sua presença se esvaindo como seu perfume, seu sangue, algumas gotas, o cheiro da droga.

Quando seu telefone tocou, ele o tirou do bolso e viu o nome de sua pupila. Teria conseguido fugir? Uma tola esperança…

– Isadora…

– Como vai Virgílio?

A voz de Galeso trouxe um estremecimento de ódio ao corpo de Virgílio. As coisas eram bem pior do que supunha. Três meses atrás se afastou de sua casa, de sua pupila recém-nascida, para lidar com um inimigo. O caçou e matou ao velho estilo, adaga no coração, e logo depois decapitação. Queimou seus restos e avisou ao rei. Quitava uma divida antiga e possuía liberdade para matar todos, que lhe feriram a carne, e a daqueles que amou. Todavia, a presença de Galeso indicava que seu plano fora bem sucedido, mas trouxe consigo um perigo ainda maior. A hora do ajuste de contas havia chegado, e o que mais temeu aconteceu, havia quem ferir. Isadora e seu coração.

– Ficarei melhor quando cortar sua cabeça. – comentou suavemente.

– Que tal adiarmos isso? – sugeriu Galeso em tom de negociação.

– É um pedido? – debochou Virgílio com impassibilidade.

– Tenho algo em meu poder, como deve ter percebido. Pelo que vi, ela lhe é preciosa, além de bela.

– Solte-a. Está apenas aumentando seus crimes diante dos poderes.

– Estou lhe provocando, velho amigo. – disse Galeso. – Ela é diferente de suas antigas amantes. Pequena, frágil, mas é bonita.

Virgílio precisava manter as coisas sob controle. Isso manteria Isadora viva. Galeso não mantinha promessas, ou era do tipo que soubesse lidar com reféns.

– O que quer, uma trégua? Cheguei perto demais? – provocou Virgílio sabendo que ele estava se sentindo ameaçado.

– A mantenho viva e você se afasta de meus negócios. – era uma troca.

– Isso não é uma hipótese. Você foi condenado, seus negócios não podem mais existir. Tente outra vez. Mas use a lógica.

Queimar seu cassino, matar seus comandados e clientes o abalou. Bem, tinha ordens expressas de Ariel Simon de destruir seus negócios de jogo e sangue. Estava na lista negra do mundo vampírico, mas quem teria a honra de cortar seu pescoço era Virgílio. A dívida de sangue era grande.

– Quero negociar. – o vampiro falou aproximando-se da caixa para olhar Isadora de olhos arregalados.

– Não vamos negociar. Você vai soltar minha cria e talvez lhe dê dois dias para correr. O que acha? – sugeriu caminhando pelo telhado.

– A coloquei em uma caixa de metal. As coisas vão esquentar para ela quando o dia nascer.

O vampiro do outro lado da linha fechou os olhos e não emitiu nenhum ruído. Mas ouviu o riso de Galeso.

– O que quer?

– Tempo, afaste os Pacificadores e os Caçadores.

Nesse momento Virgílio riu alto, gargalhou. Galeso do outro lado da linha apertou entre os dedos o aparelho em sua capa negra repleto de pequenos cristais. Algo feminino e clássico bem ao gosto de sua dona. Mas nas mãos do vampiro algo fora de prumo.

– Você me supõe muito poderoso. Ninguém controla os Caçadores, conhece as regras. – disse Virgílio olhando a noite a sua volta. Tinha apenas quatro horas para encontrar Isadora.

– Achei que tivesse alguma estima por suas crias. – começou Galeso – Lembro-me de vê-lo chorar da última vez que lhe tirei uma delas. A pequena Isadora não merece sua atenção?

– Três dias lhe bastam? – o vampiro perguntou pronto a ceder.

Não queria perder Isadora, mas também não pareceria frágil diante de Galeso. Ele já lhe tomara muito, não permitiria que a história se repetisse.

– É o suficiente. – o vampiro aceitou e tocou o rosto da vampira.

– Onde ela está?

Tentou não parecer impaciente, mas seu coração estava aflito. O sangue de Isadora em seus dedos o chocou bem mais do que poderia imaginar.

– Vai conseguir encontrá-la, eu prometo. Sabe, ela o chamou. É amor Virgílio. Ela o ama. – ele fez uma pausa maldosa – Como se sente?

O vampiro apertou o telefone e fechou os olhos. Ele a ouviu e sentiu seu medo, o desespero e isso quase o enlouqueceu. Não estava acostumado a lidar com tais sentimentos. Os havia enterrado muito fundo na alma. Ter que lidar com eles agora era algo perturbador. O mais estranho é que só agora percebia o quanto se ligara a Isadora.

– Como é ser amado depois de seiscentos anos? Como pode se permitir tal luxo? – o deboche de Galeso o atingiu como um soco. – Acreditou que não estaria vigiando, esperando?

O vampiro gargalhou cruel e sabia que Virgílio estava mergulhado em ódio e temor. Isadora não precise ser exposta a seu passado, ou seus inimigos.

– Maldito. – rugiu o vampiro perdendo parte de seu autocontrole.

– Vamos esquecer o passado. – começou ele – Serei bondoso e a pouparei. Mas sabe? Seria doce entregá-la aos pedaços para você, ou pelo menos, a cabeça. – o vampiro jogava cruelmente.

– Nada vai conseguir me impedir de matá-lo Galeso. Pode não ser hoje, ou amanhã, mas certamente o farei. Você vai implorar para que o mate.

A promessa de morte já existia, mas ela agora se repetia com mais intensidade e sanha. O rosto de Virgílio mudou, caninos expostos, olhos como cristais. Fora tomado por uma fúria esquecida e perigosa. Vinha caçando Galeso ao longo dos séculos, e isso pareceu petrificar seu ódio. No entanto, ouvir suas ameaças quebraram a crosta de sua frieza e o tornaram letal.

– O tempo fará as circunstâncias, não é mesmo? – ele sorriu. – Vou deixar sua cria entre a água e o fogo, diante do senhor que rege todos nós e diante dos olhos do Deus dos mortais. Sendo ela tão jovem, deve querer pedir perdão pelo sangue que vem sorvendo. Espero que consiga, ou vai encontrar somente cinzas.

Dito isso Galeso desligou o telefone de Isadora, ou melhor, o destroçou entre os dedos. Estava furioso. Fitou a caixa de metal onde a vampira jazia imobilizada e com um gesto mandou que fechassem a tampa.

A caixa foi movida e Isadora lutava contra a droga que a dominava. Foi quando lembrou que talvez se sangrasse, o narcótico usado pudesse sair de suas veias. Mas isso significava enfraquecer ou morrer. Precisava levar o pulso à boca… Ou… Fitou o interior da caixa e viu a ponta de um parafuso.

Virgílio guardou o celular e tocou o cimento do telhado. Tentava encontrar o rumo seguido pelos raptores de sua cria. Captou centelhas de pensamentos, vozes. Saltou do prédio e correu pela noite, seguindo o que acreditava ser o caminho seguido pelos homens de Galeso. Faltava uma hora para o amanhecer, Virgílio havia procurado por fontes e igrejas. Mas em nenhuma encontrou a combinação sugerida. Tentou se comunicar com Isadora, mas só havia confusão. Era o narcótico em seus sentidos, mas havia mais. Duas horas atrás algo mudou, ela enfraquecia, como se sumisse. Algo estava errado, ferida? Talvez.

Podia sentir o sol se anunciar sobre seus sentidos quando chegou a uma praça, a última que sabia ter uma fonte. A fonte jorrava água e diante dela havia uma igreja, não muito longe um relógio de sol.

Água da fonte, fogo do sol no horizonte, o poder de Deus, e o tempo. Mas onde estava a caixa?

Olhou a torre e a escalou. A luz aumentava, a madrugada sumia, enquanto galgava a construção de pedra. No alto viu a caixa de metal, ao seu redor o sangue manchava o piso empoeirado de pedra. Ajoelhou-se junto à caixa, fechou os olhos e esperando pelo pior, arrancou a tampa num único puxão. O metal gemeu rasgando-se sob sua força e raiva.

Sua Isa, sua Faradisa estava desmaiada em um mar de sangue, os cabelos manchados, a pele da cor do mármore. O pulso ferido… A retirou da caixa e tocou sua testa com a dele. Aspirou o aroma de seus cabelos e conteve um grito de ódio na garganta. Fitou o sol despontando no horizonte. Empurrou a porta de acesso a torre e se escondeu. A pedra fria, as sombras os envolveram. Tocou seu rosto e mordeu pulso para alimentá-la.

Isadora despertou com o toque suave das mãos de Virgílio sobre seus cabelos. Agarrou-se a ele num abraço apertado. Fitou o quarto escuro, o sol sob as frestas da porta a fez encolher-se com medo.

– Estamos em segurança. A porta está trancada.

Eram duas da tarde, o que teria acontecido?

– Você está bem?

O sussurro de seu mestre e amante a fez olhar seu rosto com amor e adoração. Ela soluçou e escondeu o rosto em seu peito.

– Não consegui fugir…

– Está tudo bem. Mas por que se cortou?

Isadora o olhou envergonhada e explicou o que pretendia fazer e viu nos olhos de Virgílio preocupação genuína. Seu esforço era para fugir, ou morrer? Ele se perguntou. Não importava, ela se colocou a beira da morte para fugir. Quando tirou o cordão de prata da carne de seu pulso praguejou e lambeu o corte para que se fechasse. Ela demorou muito a despertar, era jovem, e o dia não ajudava. Apenas a manteve em seus braços e a admirou dormir como fazia nos últimos meses. Desenhava-a com os dedos, os olhos, os lábios. Ela vinha o consumindo como o próprio sol. Amor? Desejo? Ele disse que não se apaixonava, mas ali estava rendido, preso aquela criatura feita de carne e sangue, seu sangue imortal. O perigo a que foi exposta o enlouqueceu. Não suportaria perdê-la. Imaginar o mundo sem sua presença era impossível. Como mantê-la protegida, segura?

Num arroubo de desejo a beijou, mas mãos a despiam, enquanto ela o ajudava. Sua pele luzia no quarto escuro, tomou-a no chão com paixão e amor. Dócil, ela cedia a cada carícia, guiada por suas mãos, sucumbindo a sua fome. Lambia e mordia, enquanto ela cravava as unhas em seus ombros abrindo cortes em sua pele. Gemendo, arfando sob sua fome de vampiro. Isadora só assumia o controle quando ele lhe oferecia sua veia. Nesse momento ela o dominava, o prendia com os dentes, com as pernas. O fazia seu e frágil. O sugava com força, aos puxões, quase como uma loba faminta, apertando-se contra ele, atingindo o gozo. Ao se afastar levava parte de sua alma consigo. Lambia os lábios sujos de sangue e fitava seu rosto sabendo-se selvagem e perigosa.

Quando a noite chegou saíram de seu esconderijo e voltaram para casa. As malas já estavam prontas, Antônio havia preparado tudo. Iam para Paris aquela noite. Não era seguro ficar em Barcelona. Virgílio deu ordens, ficou pelo menos uma hora no escritório ao telefone. Falava em árabe ou egípcio com alguém. Tomou banho e se vestiu, quando desceu Virgílio a esperava vestido em terno completo. Tomou sua mão e foram para o carro. No aeroporto tomaram um jatinho particular. Ele não falou muito, pelo menos não com ela. Aquilo a isolou estava distante, sempre ao telefone dando ordens naquele idioma antigo e inacessível.

Ainda podia sentir a carícia de sua boca, dos caninos sobre sua carne. Ele fora mais selvagem do que de costume, como se quisesse devorá-la, prendê-la dentro dele. Quando encontrou o gozo a prendeu junto a si. Tentou falar, mas ele cobriu sua boca com dois dedos e pediu silêncio com um: shhh!

Fechou os olhos e deixou que ele mais uma vez vencesse aquele jogo. O rosto em seu peito, as mãos o envolvendo, sentindo as pernas, seu sexo junto a ela. Ele era seu. Ninguém mudaria isso, nem mesmo o maldito, que tentou tomá-la dele. O envolveu e dormiu. Mas ali estava seu mestre, não o amante. Foram servidos de sangue, ele insistiu que ela bebesse mais de um cálice. Obedeceu, era melhor, mas quando terminou se sentiu pesada e sonolenta.

– Virgílio tem algo errado…

– Não, não tem Isa, apenas relaxe. – disse tocando seu rosto e beijando sua testa.

Despertei em um quarto amplo luxuoso. Lá fora Paris, o som dos carros, o cheiro da noite. Ergui-me do leito e tive certeza que fora drogada, mas por quê? Sentei na cama e senti o corpo reagir, formigar. Vi as flores, senti o cheiro de meu mestre nos lençóis, no quarto. Mas onde ele estava…? Nesse momento a porta se abriu e uma mulher entrou no quarto.

– Olá Isadora, que bom que acordou. – comentou aproximando-se do leito sem medo. – Meu nome é Marie, seja bem-vinda a minha casa.

– Onde está Virgílio?

A mulher era um pouco mais alta do que eu, cabelos e olhos escuros. Imortal, mas não vampira. Bruxa? Sim, a julgar pelo anel de prata com a estrela de cinco pontas em seu dedo.

– Ele ficou conosco pela última hora, mas precisou partir. Bem, ele me pediu que lhe entregasse essa carta. Acho que vai encontrar as respostas que busca. – disse entregando-lhe o envelope. – Quando se sentir pronta desça, vou lhe mostrar a casa.

Dito isso a mulher vestida completamente de negro a deixou sozinha. Isadora abriu o envelope e se deparou com a caligrafia de Virgílio.

“Minha Faradisa é com grande tristeza que a deixo. Não posso mantê-la. Tenho inimigos e eles não têm escrúpulos, ou piedade. Considere-se com sorte de ter saído ilesa das mãos de Galeso. Acho que ele amoleceu com o tempo. Em outros tempos a teria feito em pedaços. Acredite-me. Marie é uma amiga inestimável e vai cuidar de você. Temos amigos e alguns deles vão lhe ensinar a sobreviver no nosso mundo. Apesar de não ser vampira, ela agora é sua mestra, dei a ela sua tutela. Quero que a obedeça, ou será punida. Essas foram minhas ordens, e ela as fará cumprir. Não duvide. Nossas leis são cruéis e não merece senti-las em sua pele. Dei-lhe a imortalidade para que fosse livre, e assim será quando aprender nossas leis.

O que tivemos foi maravilhoso e único. Os guardarei sempre comigo com muito carinho. Espero que faça o mesmo, mas não espere meu retorno, não voltarei aos seus braços. Busque um amante se assim quiser, como disse é livre.

Do seu salvador, Virgílio”.

O coração bateu dolorosamente, acho que sangrava dentro de meu peito, pois senti sangue escorrer do meu nariz. Fora abandonada por meu mestre e amante. Lágrimas brotaram de meus olhos e elas eram rubras, feitas de sangue. Ele partiu. Não ele fugiu.

O Salvador – Capítulo IV– Um Mundo Feito de Escolhas

Então aquele era o rei. O rei dos vampiros, meu rei. – pensava Isadora no alto das escadas da casa de Marie.

A maioria de nós tem a beleza ressaltada pelo sangue de seus mestres. Mas alguns são elevados à grandeza, talvez tenha sido isso que aconteceu com o status do rei Ariel Simon. Ele foi elevado a grandeza. Não conseguia afastar os olhos dele. E agradeci por esta às escondidas e poder observá-lo livremente do meu esconderijo.

Alto, talvez um metro e oitenta de altura corpo bem definido, forte, rosto perfeito em cada linha. Alguma deusa o desenhara. Não existiam mais homens como aquele nascendo em nosso século. Os cabelos ruivos e cacheados caiam em mechas sedosas pela testa, orelhas, ombros. Não era afetado, pelo menos, não nesse século. Mas quase podia vê-lo empunhando uma espada ou lencinho. Vestido com uma bela camisa de linho e calças negras. Nossa! Eu estava tento fantasias com o rei dos vampiros. Mas como não fazê-lo? Ele era soberbo! Seus olhos eram tão verdes quanto o musgo da Irlanda. Mas ali estava ele em trajes modernos. O jeans negro assim como a malha de lã fina, moldavam-se ao seu corpo como uma segunda pele. Havia tirado o blazer de couro. Falava segurando a mão de Marie, enquanto brincava com seus dedos.

Ocultei-me um pouco mais nas sombras. A presença daquele vampiro me trouxe sensações estranhas. E sequer havia estado a sua presença. Sentia-me desprotegida, no entanto, ligada a ele por sangue, ou algum poder invisível. Acho que era o sangue, ele nos unia a todos. Parte dele estava em meu antigo mestre. Agora em minhas veias. Apesar do título, mantinha uma aparência despojada. A primeira vista se passaria fácil por qualquer habitante da cidade. Numa segunda, sua beleza atrairia olhares, depois suspeitas. Afinal o rei possuía um pouco mais de dois mil anos.

Devia camuflar-se bem nas ruas. Através das portas ouvi a conversa que mantinha com Marie. Ao que parecia ela estava lhe censurando por sair todas as noites para vigiar uma vampira chamada Kara. Como rei devia se preservar e não se arriscar por uma vampira que sabia se cuidar muito bem sozinha e ainda por cima era sua campeã. Ele protestou com paciência e carinho e pelo visto faria o que desejava. Subitamente não consegui mais ouvi-los, por mais que tentasse, era como se houvesse uma barreira invisível bloqueando todo o resto, enquanto estavam presos naquela bolha protetora de som. Teria sido descoberta? Provavelmente, ou apenas queriam privacidade para conversar.

Aquela era a primeira vez que o via. Ele visitava Marie esporadicamente, mas nunca foi permitido ficar a sua presença. Às vezes dormia na casa. Quando isso acontecia dois grandes soldados, ou Pacificadores, vigiavam a casa. E havia mais deles do lado de fora, ou nos quartos. Quando ele partia, eles o seguiam.

Ele sorriu e seus caninos apareceram. O anel de rubi brilhou em sua mão quando tocou de leve o rosto de Marie, que sorria junto com ele. Ela sempre ficava mais feliz quando ele a visitava. Teria ela uma relação com o rei? Bem, ele não tinha rainha, e tão belo quanto era seria difícil ficar só. Aquela noite seria apresentada a ele, mas não lhe disseram o motivo. Subiu as escadas, não queria ser surpreendida bisbilhotando o rei. Ele chegou bem cedo, como evitara o sol?

Aquela pequena reunião com o rei, e seus mestres, estava mexendo com seus nervos. Mas não ao ponto de verdadeiramente se importar. Colocaram-na muito longe do limite há um ano. Teve vários tutores Marie, Valdés e Misha. Romano não a tutelava, mas dava-lhe aulas sobre as leis do mundo vampiro. Nenhum deles havia chegado. No inicio sentia-se desconfortável com a situação, contudo, eles disseram que era comum ter vários tutores quando se é filha dos Poderes. Esse era o nome dado a um vampiro sem mestre. Os abandonados. Não havia outra verdade, fora abandonada por Virgílio.

Por um momento Isadora se lembrou do beco, o sabor de seu sangue, toque de suas mãos. Tudo parecia muito, muito longe. Assim como a lembrança de seus carinhos, a promessa de não ser abandonada. O teve por tão pouco tempo. – lamentou silenciosamente. – Enquanto escondia a cabeça nos joelhos. – Uma bruxa. Deixou-a com uma bruxa tamanha a pressa em livrar-se dela. Algumas noites depois de perceber que Virgílio não voltaria, Isadora aceitou o abraço consolador de Marie, pois estava vivendo em silêncio, abatimento e lágrimas. Ela ouviu suas perguntas, culpas e a consolou, deu-lhe um rumo. A levou a Coucher du Soleil, mostrou-lhe a corte, a Togo, que a examinou com um olhar demorado e fez algumas sugestões a Marie em francês, língua que ela não conhecia. Sempre que queriam falar dela usavam outro idioma. Limitava-se a baixar a vista e engolir suas dúvidas e angustias. Mas daquele vampiro de olhos frios e orientais veio uma luz.

Ganhou um novo tutor, Valdés. Segundo soube, ele não tinha herdeiros de sangue, mas possuía horas livres para lhe ensinar a ser imortal e letal. Como ele gostava de dizer. O tempo passou e curou muitas dores, deu novos caminhos. Aprendia todos os dias com Valdés e suas “amantes” como ele costumava chamar suas pistolas e facas. Todas com nomes femininos. Era excêntrico e aventureiro, contava-lhe suas bravatas e tentava fazê-la sorrir com sua jovialidade. Tratava-a como um moleque, mas era um bom professor, até bondoso demais para o gosto de Marie, que vez, ou outra, supervisionava as aulas de tiro e luta…

Misha chegou. – antes sentiu Isadora com seu coração, o rosto quente. Minutos depois ouvir sua voz. Ele a deixou com uma escolha por fazer algumas noites atrás. No entanto, não conseguiu sequer compreender seus motivos, quanto mais aceitar pensar em sua proposta.

Meses atrás quando Valdés disse que teria de partir em uma missão, Isadora sentiu o coração doer, se apegara a ele, era seu amigo, professor. Misha o substituiria. Mais um tutor? Quantos ela teria? Era como um saco de roupa suja passando de mão, em mão. Pensou se afastado.

– É a roupa suja mais bonita que conheço Dora. – disse chamando-a pelo apelido e lendo seus pensamentos. – O rei me deu uma missão, devo ficar fora por dois meses, talvez mais, você não pode tirar ferias. –brincou – Voltaremos com nossas aulas quando eu retornar. – disse empurrando sua testa com o dedo indicador. – Misha é como um irmão para mim, ele vai cuidar bem de você, minha irmãzinha mais nova. – dito isso a abraçou carinhoso.

Tinha sorte de tê-lo como tutor, ele aplacou muito de sua dor. Treinaram por algumas horas e depois saíram para caçar. Valdés a deixou em casa e partiu. Sentiria sua falta.

As apresentações foram diferentes com Misha.

Isadora acordou e a primeira coisa que fez foi se debater. Alguém apertava-lhe a garganta. No quarto escuro desferiu golpes e tentou compreender porque estava sendo atacada. Quando o brilho da lâmina ficou visível aos seus olhos soube que seu atacante pretendia matá-la. A seda da camisola sedia sob o fio da adaga. Rugia e num gesto aprendido com Valdés chutou e se livrou de seu agressor momentaneamente. Saiu da cama, mas foi recapturada, junto à porta. Seus cabelos estavam nas mãos de seu agressor e quando foi empurrada contra a porta o gosto de sangue invadiu sua boca.

Caiu no chão pesadamente e foi arrastada, enquanto lutava pateticamente para se libertar. Foi quando lembrou que podia saltar. O pulo a colocou sobre seu agressor. Mordeu seu ombro com força, e foi puxada com violência pelo braço, que certamente quebrou. Sentia o gosto do sangue do vampiro ele era tão forte e antigo quanto o de Virgílio. Tremia, estava seminua e descabelada. Nunca deixaria de ser a vítima? Precisava lutar melhor que isso. O vampiro se deteve esperando seus movimentos, a fitava das sombras onde não podia vê-lo.

– O que quer de mim…? – perguntou segurando o braço dolorosamente fora do lugar.

– Quero que lute. – a voz veio das sombras num timbre forte e exigente, frustrado.

– Quem é você?

– Importa saber quem ia cortar sua garganta?

Dito isso seu corpo se colou ao dela e adaga estava sobre sua pele fria e mortal. Ela se encolheu sob seu toque áspero. Um gemido saiu de sua garganta de forma involuntária.

– Vejo que tio Valdés a mimou demais.

Comentou o invasor tocando seus cabelos entre os dedos sentindo a textura suave. Fitou sua boca suja de sangue, a camisola cortada, o ombro ferido, as contusões que lhe provocou.

– Quem é você? Por que me atacou? – ela quis saber enfrentando seu olhar verde e dilatado.

– Seu novo tutor. Agora que acordou, bela adormecida, vamos treinar.

As luzes se ascenderam e Isabela viu o quarto revirado. Ficou de pé e tentou se cobrir, mas o braço doeu.

– Espere. – ordenou ele – Aproxime-se.

– Fique longe de mim. – rosnou ela apoquentada.

Os ferimentos dela não estavam cicatrizando, mas por quê?

– Sou seu mestre, deve-me obediência. – avisou sombrio.

– Vai à merda! Sai do meu quarto seu maníaco.

Um segundo depois estava colada na parede. Misha a mantinha presa e segurava seu braço dolorido.

– Apenas relaxe agora. – disse e estendeu o membro ferido.

Isadora gritou de dor quando ele posicionou o osso no lugar. Imediatamente seu organismo começou o processo de cura. Pode ver nos olhos do vampiro a surpresa com sua condição. As marcas roxas em sua garganta, os cortes nos lábios tudo sumia, bastou cuidar de um ferimento maior, e os menores cederam.

– Obrigada. – disse-lhe num sussurro, os olhos presos nos dele.

– Não me agradeça, apenas obedeça, e sim, será punida por me enfrentar e insultar. Você está diante de seu novo mestre e pesadelo. – dizendo isso a deixou no quarto.

Naquela mesma noite quando desceu para sala de treinamento, encontrou o seu novo tutor, ou mestre, Misha. Valdés sempre falava dele, ou melhor, ele estava em suas aventuras de modo constante. Mas lá ele era bom e gentil, forte e letal, um maldito fodão com presas, que atacava jovens vampiras inexperientes.

Seus olhares se encontraram e ele a examinou. Lançou uma faca para que pegasse. Jogou-se sobre ela em luta e teve de se defender. Vinte minutos depois estava no chão e sangrando. Cortes marcavam sua pele e roupas.

– Levanta bonequinha. – debochou de costas para ela junto à mesa onde varias armas ficavam dispostas para o uso nos treinamentos. – Preciso lhe passar as regras agora que já analisei suas possibilidades.

Dolorida e com fome a vampira ficou de pé e mancou até ele. Estava muito pálida, o cabelo solto, ele puxara seu rabo de cavalo. Os olhos pareciam enormes. O cheiro de seu sangue no ar. Ele intacto, belo e a fitando como um maldito filho da puta. Odiou que ele fosse tão bonito, aqueles olhos verdes, os cabelos castanhos eram meio longos. Aqueles fortes dos ossos da face o deixavam com uma aparência gélida. Mais um maldito guerreiro.

– Quer me dizer alguma coisa? – perguntou ele certamente captando seus pensamentos furiosos.

– Por que esta me machucando?

– Você é fraca, por isso esta se machucando.

– Não é verdade… Está me surrando gratuitamente. Quebrou meu braço. Cortou-me inteira…

– É fraca, não consegue se defender, age como uma mortal.

– Valdés me ensinou…

– Ele mimou você!

O grito me fez recuar. Segurei o braço cortado, agora cortado e baixei a vista.

– Terminamos?

Não respondi. Percebendo que não falaria prosseguiu.

– Treinamos todas as noites, dentro e fora da casa. Armas, facas, espadas e tudo mais. Luta corporal será toda quinta feira. Marie lhe conseguirá roupas apropriadas. Deixei alguns livros que precisa ler na biblioteca. Quero um resumo de cada um deles para amanhã.

– Misha…

– Para você sou mestre. Entendeu?

– Você tem problemas, ou é só muito arrogante?

Imediatamente Misha pegou sobre a mesa um bastão fino de borracha e se aproximou dela. Ela recuou e por fim parou para enfrentar seu olhar gélido.

– Estenda as mãos.

– Não! Isso é ridículo…

– Se não estender as mãos vou usar o chicote nas suas costas. – a ameaça era verdadeira.

Fui tocada por minha realidade. O aviso de Virgílio em meus ouvidos:

“– Quero que a obedeça, ou será punida. Essas foram minhas ordens, e ela as fará cumprir. Não duvide. Nossas leis são cruéis e não merece senti-las em sua pele”.

– É a segunda vez que me desrespeita. – disse tirando-a de suas lembranças. – Virgílio não lhe ensinou nada? Sou seu mestre agora e me deve respeito e obediência, levo isso muito a sério.

– Eu só…

– As mãos. – exigiu sem dar espaço para explicações.

Fechei os olhos e engoli meu orgulho. Estendi as mãos e esperei com a vista baixa.

– Palmas para cima, e olhe para mim. – ordenou seco.

A vampira fitou o rosto sério de Misha e desejou ter poder para revidar em uma luta justa.

– Está sendo punida por desobedecer seu mestre e insultá-lo.

Os golpes desciam com força. A dor era bem real, os vergões uma marca de sua vergonha. Quando o vampiro se afastou não conseguia mover os dedos.

– Como deve me chamar? – ele exigiu fitando seu rosto, as lágrimas escorrendo pela face pálida. – Vamos ter mais problemas Isadora? – ele perguntou quando ela demorou a responder.

– Não. – a voz era um murmúrio rouco.

– Como deve me chamar Isadora? – ele insistiu rodeando-me como um tigre pronto a atacar.

– M… Mestre. – consegui dizer engolindo minha raiva.

– Ótimo. Vejo você amanhã. Agora pode se retirar.

Fitava as mãos quando ouvi a voz de Romano e sai momentaneamente de minhas lembranças. Mas ainda não podia descer. Ele me chamaria, quando fosse o momento.

Não saberia descrever a dor nas mãos. Os ossos doíam e os hematomas roxos pareciam sanguinolentos sob a pele. Ardia, ficavam dormentes e por fim doíam. Voltei para meu quarto naquela casa e percebi minha cruel situação. O quarto fora arrumado, moveis substituídos, tudo nos lugares. Dentro da banheira, imersa em água quente observava o sangue tingir a água. A olhava hipnotizada. Os cortes se fechavam, enquanto as lágrimas escorriam por minha face. Aquela era a única prova que Virgílio esteve em minha vida. Seu sangue, seu poder sobre meu corpo.

O tempo passou, mas não diminuiu a força da minha raiva, do ódio que sentia por Misha. As primeiras aulas foram de machucados e lágrimas que vertia sozinha na escuridão do meu quarto. Era cruel, exigente e não hesitava em castigar-me por meus erros. Com meses de treino e machucados consegui desenvolver técnica e golpes. Quando ele se recolhia, e eu não tinha livros para ler, ou tarefas para cumprir, voltava ao estúdio e treinava até o dia amanhecer e me fazer fugir para meu quarto.

Lutava para não ser massacrada por ele e à medida que evoluía, ele tornava tudo mais difícil. Certa noite fui levada por um pacificador para um local desconhecido. Quando tiraram o capuz de minha cabeça me vi em uma arena vazia. Acentos de madeira circulares. Chão de barro e grades altas. Uma porta de metal ainda fechada. Luzes focadas no centro do espaço, Senti cheiro de sangue de vampiro e suor de um animal.

Misha apareceu e sentou na quarta fileira e lançou sobre mim um frasco que aparei no ar.

– Se quiser ficar viva, beba.

Imediatamente sorvi a bebida amarga e pegajosa. Com ele não era permitido hesitações. Foi quando ouvi um rosnado. Havia um animal do outro lado da grade de ferro. Um lobo! Mas não um comum. Era um lobisomem. Ele lançou uma faca e uma espada aos meus pés.

– Boa sorte.

O animal foi solto e entrou na arena com fome de sangue. Meu sangue imortal. Lutei com unhas e dentes para ficar viva. Tive o braço mordido, a mão quase arrancada, mas matei o lobisomem. De pé sangrando e muito ferida, vi as minhas veias enegrecendo. O ar faltou em meus pulmões e antes que pudesse entender o que acontecia cai no chão.

Despertei, ou quase, um dia depois, meus ferimentos envoltos em gaze, sentia-me febril. Vi um homem vestido de branco, que me ponteou o ombro dilacerado, a mão. Ao lado dele Marie. Ela estava furiosa com Misha ela o expulsou do quarto. Vi Romano, Togo ao lado da minha cama. Olhavam-me com preocupação. Bebi líquidos quentes, amargos. Balbuciava palavras que não entendia, era consolada, mantida na cama. Tentava levantar, falar, mas por fim apaguei.

Quando a lucidez voltou vi Misha, ele estava com a cabeça apoiada na cama ao meu lado. Os cabelos tocando meus dedos, os olhos fechados.

Acariciei as mechas e por um segundo me perguntei o que fazia? Ele quase me matara. Afastei a mão e virei o rosto.

Um minuto depois o vi despertar e me olhar com seus belos olhos verdes. Havia alegria contida, uma pontada de culpa e alivio.

– Como se sente? – quis saber tocando minha mão.

Puxei a mão e vi sua vergonha por ter me tocado, e respondi como bem sabia.

– Mastigada.

Ele sorriu, algo raro. Mas que iluminava seu rosto e dava-lhe vida. Algo que não mostrara para mim em todos aqueles meses de treinamento rigoroso que quase matou-me.

– Sinto muito. – começou ele num surpreendente pedido de desculpas.

– Por quê? Por quebrar meu braço, me cortar, punir, por ser meu pesadelo? Ou me colocar em uma arena com um lobisomem?

– Deixei-me levar pelos poderes de sua herança sanguínea. Esqueci que é apenas uma recém-nascida. – disse envergonhado. – Você quase foi morta. Não estava pronta…

– Eu venci. – o cortei – Estou viva, estou pronta. Admita.

O vampiro olhou-me surpreso e ciente de que estava reivindicando um reconhecimento justo.

– Sim. Verdade, você venceu.

– Aprendi muito no último ano. Inclusive a perceber que é o que lhe fizeram. Vou ficar apenas com o que me ensinou, não pretendo me tornar o que é. – disse friamente. – Não existe necessidade de se sentir culpado. Estou pronta, sei me defender sozinha. Sua missão chega ao fim.

Misha olhou-me e sem dizer nenhuma palavra, deixou o quarto. Foram necessárias mais duas semanas para que ficasse completamente curada. Mas havia as cicatrizes. Com lobisomens as coisas eram mais demoradas, difíceis. Misha continuava na casa, apesar de não mais treinarmos. Recebi visitas, Romano, Togo, que deixou claro que podia abrir uma espécie de processo contra Misha. Recusei e ele partiu. Valdés, sim, ele voltou e depois de me visitar e constatar que estava bem, teve uma acalorada briga com seu melhor amigo. Virei motivo de discórdia de uma amizade de séculos.

– Isadora?

Sai em definitivo de minhas lembranças e fiquei de pé. Revisei a roupa. E respirando fundo comecei a descer as escadas. Chegara a hora de conhecer o rei, Ariel Simon.

Continua…

O Salvador – Capítulo V – A Revelação

A reunião na sala de visitas estava singular. Nunca tinha visto tantos vampiros reunidos. Bem, no Coucher du Soleil haviam muitos, mas não numa mesma sala, como agora. Eram tão belos ali reunidos. O rei, sentado na poltrona junto ao fogo numa posição de destaque, Romano a sua direita, Marie estava a esquerda do rei. Misha estava próximo a porta, enquanto Valdés estava no sofá ao lado de Togo. O clima entre ele e Misha ainda não havia melhorado. Lamentei por isso.

– Seja bem-vinda Isadora – disse o rei com amabilidade.

Entrei na sala e vi o criado do rei fechar a porta atrás de mim. No corredor os dois Pacificadores estavam de prontidão.

– Boa noite Majestade.

Todos sorriram, os caninos aparecendo entre lábios sedosos, pálidos. O único que não sorriu foi Togo. Ele era difícil de contaminar mesmo com ebola, se me entendem.

– Para nós é bom dia. – esclareceu Ariel Simon.

– Eu não sabia… Bom dia. – disse e eles sorriram um pouco mais.

– Vamos rapazes, ela está virando um tomate. – disse Marie que veio para meu lado. – Isadora, quero lhe apresentar o rei dos vampiros, Ariel Simon. Os demais você já conhece. Venha sente-se aqui. – ela me conduziu e sentei no sofá.

Agora estava de frente para todos eles.

– Sabe temos uma grande amiga chamada Isadora, ela é companheira de Tiago, nosso comediante. – lembrou o rei observando a jovem vampira, enquanto recebia um cálice de sangue das mãos do criado. – Então vou te chamar de Isa.

Era como Virgílio me chamava e não queria me lembrar dele.

– Ela prefere Dora – disse Misha antes que eu falasse.

– Dora então. – comentou Ariel observando o vampiro de modo misterioso.

– Sim majestade, eu prefiro Dora. – murmurei e vi um olhar de repreensão de Togo. Acho que não devia ter me dirigido ao rei.

– É perfeito. Agora temos que conversar. Hoje é uma noite muito importante.

Eles bebiam sangue em taças escuras e pareciam bem à vontade. Misha parecia distante, até tenso, algo novo para observar em sua postura visto, que agia como um bloco de gelo diante de minha pessoa.

– Filha de Virgílio – disse o rei analisando minha figura. – Ele sempre foi muito cuidadoso quando se tratou de gerar herdeiros de seu sangue e agora vejo o motivo.

Olhei em volta sem entender bem e como o rei esperava uma resposta falei:

– Diz isso por ter sobrevivido à prova do lobisomem?

Recusei um cálice de sangue. Estava ansiosa, não queria vomitar. O criado do rei era um jovem de cabelos loiros e presos num rabo de cavalo. Silencioso e atento a cada movimento de seu senhor e sempre pronto a sair da sala, para só voltar no momento exato.

– Considerou uma prova? – perguntou Romano.

– Desde o primeiro momento… Pareceu que estava sendo testada. Ele foi muito… Exigente. – baixei a vista.

– Precisávamos saber até onde poderia suportar. – disse Misha quase se sentindo culpado.

– Agora sabemos que exagerou. – respondeu Valdés.

– Estou muito bem, venci o lobisomem… Posso me defender. Isso foi bom para minha confiança.

Enquanto falava calei todos. O rei me fitava atento, calmo, como se já esperasse minha reação.

– Poderia ter morrido. – insistiu Valdés.

– Sim. Mas sobrevivi e estou pronta para partir.

– Parti? – o rei perguntou.

– Não é o que querem me dizer, que devo partir. – expliquei sincera.

– Modere-se. – o líder dos Pacificadores avisou frio.

– Desculpem-me.

– Não há porque se desculpar.

A sala ficou silenciosa e sem querer toquei a cicatriz em minha mão. Um risco branco sobre minha pele. Podia sentir as presas da fera dilacerando minha carne, enquanto o apunhalava. O sangue quente pingando sobre meu rosto. Afastei as lembranças e percebi que eles olhavam-me como se fosse uma tela onde podiam ler minhas menores emoções. Ouvia meu coração agitado. Sim, estava batendo outra vez.

– Misha foi enviado para testá-la. – disse o rei sem nenhuma emoção na voz. – Virgílio é um dos mais velhos entre nós.

– Sabe o que significa? – perguntou Togo testando meus conhecimentos e as aulas de Misha e Romano.

– Para receber a alcunha de mais velho é necessário ter oitocentos anos ou mais. Ele possui nas veias o sangue mais puro, mais antigo. Dos primeiros vampiros. – fiz uma pausa. – Daqueles que estavam mais próximos a nossa criação.

– Vejo que é uma excelente aluna. Não me admira Misha tê-la elogiado, ele faz isso a poucos.

A oferta de Misha voltou a minha mente. Nossos olhos se encontraram. Um lago frio, congelado, mas capaz de fazer meu corpo se aquecer, virar cinzas. Fechei os olhos e lembrei-me de sua visita, uma semana depois que despertei do ataque.

Estava lendo um dos livros para minha educação, quando ele pediu para entrar. Andou pelo quarto, observando-me no leito em repouso. Minha perna ainda doía, os músculos se reconstruiam.

– Como se sente? – perguntou analisando meu rosto.

– Melhor. – resumi tudo me sentindo desconfortável com sua presença.

– Precisa de alguma coisa? – quis saber olhando os livros, minhas anotações.

– Não. – disse passando a página mesmo sem conseguir terminar de ler.

– Trouxe algo especial para você. – anunciou e deu um passo em direção ao leito.

Ergui os olhos para ele e esperei. Olhei suas mãos vazias, eram bonitas, longas, fortes. As unhas estavam bem aparadas. Vestia uma malha cinza, calças negras, sapatos de cadarço. Não tinha trazido nada.

– Togo fez uns testes. Seu sangue, o meu. Posso cuidar de você plenamente. – uma frase estranha.

– Desculpe-me, não compreendi. – disse quase ciente do que ele tentava dolorosamente explicar. Não ia facilitar para ele, não era merecedor.

– Posso curá-la mais rapidamente se beber de minhas veias.

– Não é necessário. Estou muito bem.

Respondi seca. Depois de ouvi-lo falar e olhar para meus lábios como se já os sentisse sobre sua carne. Meu coração disparou no peito. O livro em minhas mãos era um bote salva-vidas onde me segurava.

– Peço que aceite. – mais um passo.

Estava ao lado da cama e me observava fixamente.

– Está muito pálida, precisa beber do sangue mais antigo. Sou o mais próximo a sua linhagem, tenho mais de cinco séculos.

Ergui a vista e seus olhos me colheram, envolveram numa carícia delicada. Desviei a vista e fitei as letras do livro e por fim o fechei. Era mais fácil quando ele bancava o mestre e me atacava.

– Sei que lhe devo obediência e respeito. Então não me castigue pelo que vou dizer. – comecei. – Não quero sua pena, seus favores, seu sangue. Você fez o que um mestre faria…

– Virgílio jamais a machucaria. – soltou secamente.

– É o que acredita? Por que acha que ele não me machucou?

– Tenho certeza que ele não a fez enfrentar um lobisomem apenas com uma faca.

– Ele me abandonou e sequer me deu uma faca. – disse o enfrentando. – Estou bem e vou me curar, não preciso que tenha pena de mim.

– Não tenho pena de você.

Ele se aproximou depressa demais. Sentou na cama e tocou meu rosto com os dedos longos, tépidos.

– A admiro e vim aqui alimentá-la. Não sairei ate que o faça.

A situação era nova e inquietante tentei sair do leito mais ele me deteve com um beijo. As duas mãos em meu rosto, os lábios pressionados contra os meus. Soltei um som sufocado de surpresa e segurei sua mão. Um movimento depois e ele devorava minha boca. Confusa, senti o sangue correr mais depressa por minhas veias. Ardia num fogo lento e abrasador. Sua boca sobre a minha era uma tempestade de desejo.

– Quero que me aceite como seu mestre de forma permanente. – murmurou junto aos meus lábios.

– Eu…

– Venha, beba. – dito isso cortou o pulso e levou aos meus lábios.

Segurei seu braço forte entre as mãos e suguei com fome. Houve uma onda de eletricidade, o sabor era rico e doce. Fechei os olhos, estava imersa, envolvida pelo gosto. Mas Misha me olhava seduzido e a cada gole e puxão ele sorria. Mas a lembrança de suas ordens, do modo frio como me tratava… Recuei e foi como saltar de um prédio. O choque nos sentidos foi intenso.

O vi de longe e apenas me recostei nos travesseiros e um minuto depois apaguei.

Misha ficou ao meu lado, seu sangue corria por minhas veias de forma dominadora, varrendo minha ligação com Virgílio, destruindo laços, construindo novos, enquanto ele acariciava meus cabelos e rosto. Despertei somente na noite seguinte e estava completamente recuperada, podia andar normalmente, até correr se quisesse. Sorri sozinha na sala de treinamento e percebi, que não me sentia mais tão triste, nem tão gelada.

– Vai pensar no que lhe propus?

Misha apareceu as minhas costas e quando me virei ele estava com roupas antigas. Calças, justas de montaria, botas, camisa de linho negro. O que ele queria? Bancar o príncipe encantado comigo?

– Eu não sei bem o que deseja. Já é meu tutor. – expliquei me secando com a toalha.

– Sim, sou, mas de modo provisório. Quero ser seu mestre e amante. – disse sem rodeios aproximando-se, enquanto eu recuava.

– Amante. – a palavra quase me engasgou.

– Sim, seu amante. – falou me encurralando junto à mesa onde as armas ficavam dispostas. Tocou meu rosto e tentou me beijar, mas escorreguei e fugi de sua proximidade.

– Vai pensar? – ­insistiu ele.

– Sim.

– Ótimo, agora venha tenho algo a lhe ensinar hoje.

– Não me sinto tão bem ainda.

– Sim, sei que ainda precisa de tempo. Mas isso não vai doer, na verdade acho que serei eu a sair machucado da aula de hoje.

Ele foi até o canto da sala e ligou o aparelho de som. Era uma valsa, não as antigas, consagradas. Era de Evgeny Grinko, o som do piano era uma melodia suave, bela e triste, mas cheia de emoção genuína. A minha frente estendeu-me a mão e reticente aceitei.

Não estava vestida a caráter, a calça colada ao meu corpo, a camiseta negra sobre meu top de lycra azul. Fora ali treinar com a espada diante do espelho, não dançar valsa.

– Apenas me siga, e deixe a música a guiar.

Uma das mãos grudada a minha, a outra sobre minha cintura levando-me, girando-me. Enquanto me movia ele corrigiu minha postura e queixo, os ombros. Olhava para baixo e o pisei, ele não ligou e me impediu de fugir segurando-me. Não ouvia meus protestos e continuava me levando ao som da música.

Logo me movia com leveza sentindo-me parte do ritmo. Podia nos ver pelo espelho girando. Minha mão sobre seu ombro mantinha-me presa ao mundo, pois o que sentia era desligamento absoluto. Estava livre, leve, meus pés tinham vida própria e senti-me ligada a ele, a sua mente. Sorria feliz quando a música chegou ao fim. Ele sorria também, seus olhos brilhavam com uma emoção desconhecida, mas bem real.

O silêncio era constrangedor e tentei me afastar, ele me segurou firme e me trouxe para junto de si. O peito largo me recebeu, os braços me envolveram e sua boca tomou a minha. As mãos dele em minha cintura me detinham, meus empurrões suaves. A cada movimento de sua boca sentia-me ceder e quando minhas mãos seguraram seus ombros, retribuiu ao beijo e ansiei por mais. Quando ele se afastou, sabia que estava ruborizada, com cara de boba. Ele disse algo em meu ouvido:

– Ты нужна мне.

– Hum? – disse confusa.

Antes de me soltar em definitivo sussurrou olhando-me nos olhos.

– Seja minha.

Ele queria me destruir certamente. Como podia sentir tanto e sofrer pela ausência de Virgílio? Soltou-me e saiu da sala.

Sai de minhas lembranças e evitei olhar em sua direção. Fiquei muda esperando as palavras do rei.

– Quero que faça parte de minha guarda pessoal, quando seu treinamento chegar ao fim. – disse o rei ignorando o quanto sua proposta era importante.

– Sou muito nova…

– Seu sangue é velho o suficiente. – disse Romano sorrindo-lhe suavemente. – Vai aprender com os melhores. Continuará tendo aulas com Misha, sem lobos dessa vez. – brincou ele e todos riram, menos Valdés. – Nós a ajudaremos a preparar-se.

– Minha campeã vai lhe ajudar também. Ela está em missão, mas quando retornar faremos as apresentações.

– Eu gostaria muito e aceito.

– Existe uma condição. – disse Valdés olhando-me como se quisesse me prevenir.

– Qual? – quis saber vendo que o rei e Misha o olhavam com certo aborrecimento.

– Terá de ter um mestre em definitivo. – falou como se fosse uma sentença.

– Será inscrita no Livro, e herdará os laços sanguíneos de seu novo mestre. Já lhe fizeram uma proposta? – Togo explicou e observou os vampiros presentes.

– Sim. Eu fiz a proposta.

O vampiro se levantou de modo formal e se colocou ao meu lado, esperava uma resposta. Novamente no centro do palco, todas as luzes ligadas sobre minha cabeça. Valdés olhava-me e não acreditava.

– Dois podem fazer o pedido. – disse Valdés ficando de pé e vindo ficar do meu lado.

– Eu…

O clima ficou tenso e os dois vampiros se encararam como inimigos. Podia sentir a animosidade crescendo. E quando Valdés tocou suas amigas eu resolvi falar.

– Não tomei nenhuma decisão. Posso pensar?

– Sim, claro que pode. – Togo afirmou. Tem um mês a contar dessa noite para decidir.

– Vou apresentar meu pedido também – disse Romano.

– Sinto-me envaidecida, obrigada. Eu não mereço. – disse agindo como a educação humana mandava.

– Dora você é adorável. – disse o rei ficando de pé para beijar minha testa como se eu fosse uma menina. – Tem muita sorte, esses três não disputam nada há séculos. E só o fazem quando realmente estão interessados. – falou segurando meu rosto e fitando meus olhos. – Agora pode se retira. Togo vai lhe passar os detalhes nas próximas noites e os pedidos formais dos três cavalheiros aqui.

Dizendo isso o rei ficou entre Misha e Valdés e Romano. Tentava evitar que se matassem na sala de Marie.

Desejei bom dia a todos e sai da sala. Enquanto subia as escadas ouvi a voz de Misha e Valdés exaltadas e em uma língua desconhecida. Horas Russo, noutras talvez espanhol. Fui para meu quarto e fiquei me perguntando o que faria agora.

Expressão em russo: “Eu preciso de você.”

O Salvador – Capítulo VI – A Escolha

Quando Isadora saiu da sala Misha e Valdés discutiram. Ariel Simon sentou e o criado o serviu de mais um cálice de sangue, enquanto ele observava os dois amigos colocarem a raiva para fora com uma calma invejável e desconcertante. Aquele era o rei.

– O rei o mandou testá-la, não mata-la. Você sequer a preparou para o que ia acontecer. Foi cruel, irresponsável.

– Era um maldito teste, se lhe desse as respostas como saberíamos se ela realmente tem poder? – o Russo defendia sua atitude mais uma vez.

– Misha já foi punido por sua falta de habilidade em executar o teste Valdés.

Comentou Togo passando aos três vampiros seus pedidos oficiais de guarda para que assinassem. Assim quando a vampira decidisse um deles teria a assinatura dela e de seu novo mestre. Eles assinaram na mesinha mais próxima e devolveram ao vampiro.

– Ela conseguiu… – começou Misha.

– Poderia estar em pedaços… Correção ela ficou em pedaços. Maldito seja Misha, eu pedi que cuidasse dela. – o vampiro ainda estava indignado.

– Ele recebeu ordens do rei. – falou Marie defendendo o amigo, enquanto tocava seus ombros e se colocava entre ele e Valdés apaziguadora.

– Não mandei que a matasse. – defendeu-se Ariel sorrindo misterioso para Misha.

– Ela é muito forte e capaz. – disse sem saber como explicar sua atitude.

O que Misha não revelou é que ao entrar no quarto da vampira aquela primeira noite e vê-la dormindo sentiu-se tocado por sua beleza. A desejou de imediato. Ela estava tão vulnerável entre os lençóis, seu cheiro no ar do quarto. No meio da imortalidade e da humanidade. A admirou por incontáveis minutos e chegou mesmo a tocar seus cabelos e a quis. Por que ela o tocou? O que ela tinha de tão especial? Uma recém-nascida abandonada, sem instrução, tão humana que ainda cheirava a sangue e vida!

Depois de amar Beliza e perdê-la se prometeu viver sem amor. Mas não fora covarde como Virgílio, jamais abandonaria sua cria. Ainda mais uma tão bela. Desejo? Sim, o mais puro desejo. A raiva o dominou e antes que percebesse a atacou. Saiu de suas lembranças e ouviu Valdés ainda enraivecido.

– Ela abriu uma reclamação? – Valdés quis saber.

– Isadora recusou esse direito. – respondeu o fitando com aborrecimento. Estava cansado de suas acusações.

– Ela não sabe o que faz, é muito jovem para compreender o que lhe foi feito. – replicou andando pela sala.

– Ai está seu engano. – começou o rei. – Aquela jovem vampira pode ser inocente em alguns aspectos, mas tem bastante juízo. Ela sente, compreende que está sendo testada e observada, apesar de sua insegurança.

– Quem não ficaria? – começou Marie entrando no dialogo. – Virgílio agiu como um idiota a abandonando. Tudo que ela tem feito é passar de mão em mão. Sente-se rejeitada, achou que a mandaríamos embora. Pobre criança. – comentou a bruxa na mesma língua, afinal Isadora não podia ouvir aquela conversa.

– Por que aceitou ficar com ela? – quis saber Romano.

– Virgílio chegou com ela desacordada e me implorou que tomasse conta dela. Galeso o chantageou, não pude me negar. Jamais o tinha visto tão transtornado.

– Você agiu bem Marie. – comentou o rei tocando sua mão. Ela havia se sentado ao seu lado. – Ele me ligou na noite seguinte e explicou os acontecimentos. Só não compreendo porque não a deixou sob custodia. Por que a abandonar?

– Ele sempre foi avesso a crias. – disse Togo organizando os pergaminhos assinados. Agora sabemos o motivo.

– De fato. – comentou Romano. – Ela tem muito poder nas veias. Pergunto-me se saberá lidar com ele. Estar-se-á livre do mal de sua herança sanguínea.

– Se Virgílio conseguiu ela conseguirá. – disse Valdés esperançoso.

– Ame com cautela meu querido Dom Valdés. – começou Ariel. – Sua irmãzinha terá de enfrentar grandes inimigos. Não quero que perca sua estabilidade se ela…

– Ela vai conseguir meu rei. – disse tomando a mão de Marie para beijar. Estava de partida.

– Valdés, quando vai me perdoar?

Misha quis saber o olhando com esperança contida.

– Então existe culpa? – o vampiro moreno e valoroso disse se retirando com um cumprimento cavalheiresco para seu rei.

– De um pouco de tempo a ele – disse Ariel – Sabe como é susceptível a jovens vampiras. Valdés precisa encontrar companhia. – disse o rei pensativo.

– Sim, e bem depressa. Aquelas facas não são boas companhias. – comentou Romano. – Mas o que toca seu coração? – se perguntou o vampiro.

– Facas? – brincou Ariel.

A reunião chegou ao fim e Ariel Simon ficou sob o teto de Marie aquela noite. Romano também, na noite seguinte daria aulas para Isadora e faria sua proposta oficial a ela. Seria bom tê-la como pupila, mas não teria chance, a julgar pelo modo como fitava Misha, ela logo cederia. Havia muita tensão entre eles. Era visível. Ela parecia confusa, até mesmo assustada, dividida por sentimentos conflitantes. Preparava-se para dormir quando seu celular tocou. Fitou a tela e se preocupou, atendeu e começou a falar em árabe.

– Como vai velho amigo?

– Não muito bem. – respondeu Virgílio. – Poderia me encontrar aqui fora?

Minutos depois Romano saiu pela janela e foi para o telhado. Virgílio o esperava junto ao parapeito. Romano se aproximou e eles se cumprimentaram com um abraço.

– Muito tempo.

– Sim, cinquenta anos?

– Exatamente.

– Mas porque não entrou?

– Não lhe parece óbvio?

– Não. – disse o vampiro sentando na borda do telhado. – Você criou uma vampira, a fez sua amante e a abandonou. Isadora tem beleza, potencial e poder nas veias. Ainda não exibiu os sintomas, se é o que veio saber. – comentou o vampiro.

– Cometi um erro criando-a. – falou baixando a vista.

– Não creio, ela é magnifica, inteligente e forte.

– Sim, e pode enlouquecer. E sim, novamente, eu soube do teste. – explicou ele num suspiro.

– O que o trouxe de volta? – questionou Romano.

– Quero que tome a tutela dela em definitivo. – disse seguro.

– Você não pode sequer vê-la agora, quanto mais escolher seu tutor. Você abandonou-a, quando a entregou a Marie a fez menos que um mortal. – acusou Romano.

– Estava desesperado. Galeso a raptou e foi por muito pouco, acredite-me. – a voz dele tremeu e Romano achou já ter visto aquele ar de louco na face de Misha.

Quando Isadora caiu na arena de terra feita em tiras pelo lobisomem, Misha percebeu o que fez, o que vinha fazendo. Uma noite depois do ocorrido foi chamado por Marie. Misha não saiu do lado do leito da vampira, que mais parecia feita de papel. Estava sujo de sangue com ar de louco. Entrou no quarto e foi recebido pelo vampiro que tinha uma adaga nas mãos. A mesma que ela usou para se defender do lobisomem.

– Como ela está?

– Ela vai ficar bem, vai ficar. – disse numa segurança trêmula e duvidosa.

– Sim. Ariel está vindo de Las Vegas para oferecer sangue para ela.

– O meu está sendo testado, vou dar tudo a ela. – explicou certo de que seu sangue a curaria.

– Misha, precisa se cuidar, não comeu ou dormiu. Quando ela despertar precisa…

– Ela precisa de mim. – foi frio e seguro. – Sou seu tutor. – explicou feroz.

– Sim. Vai deixar que ela o veja nesse estado?

O vampiro se olhou, as mãos primeiramente. O sangue seco, a adaga, por fim as roupas. Era o sangue de Isadora. Pareceu despertar do transe, do choque.

– Ela estava com muito medo. – começou ele falando muito baixo. – O rei me pediu que a testasse, mas não disse como. Ela precisava ir ao limite… Foi quando pensei nos lobos, seu sangue, a porção. – ele parou. – Desirée e eu os caçávamos antes do pacto. Ela usava uma faca, somente uma faca. – ele cobriu o rosto com as mãos.

– Achou que ela conseguiria o mesmo? – quis saber Romano tentando entender porque ele fora tão duro com aquela vampira. Compará-la a sua mestra Desirée era algo temerário.

Todos tinham seus traumas e lembranças do passado. Mas ao que parecia Isadora tocou fundo nos de Misha. Certamente ela o desafiou, isso era bem certo. Enquanto dava-lhe aulas sobre as leis notou sua inclinação a rebeldia, sua força de caráter.

– Sim, ela é muito forte. Mas foi muito cedo. – lamentou com os olhos febris presos na vampira inconsciente no leito.

– É, mas é uma criança e estava sob nossa responsabilidade.

Romano o lembrou tentando trazê-lo de volta a superfície. Ele estava em um abismo negro de dor e culpa. Era perigoso para um vampiro velho se deixar sucumbir assim.

– Quase a matei. Como pude achar que ela seria como Desirée? Era diferente, sua natureza não era nada que conhecêssemos bem. Isadora é… Delicada e eu a machuquei… – ele segurou sua mão sobre o leito e a levou aos lábios de modo reverente.

O que houve com o velho e frio Misha? Estaria apaixonado? O amor era uma armadilha sinistra e de grande poder.

– Ela vai ficar bem. Mas você precisa reagir Misha.

Ele se curvou sobre a cama e beijou sua testa e saiu do quarto sem dizer uma palavra.

Romano voltou sua atenção para Virgílio e resolveu falar o que estava engasgado em sua garganta.

– Ela é uma vampira doce e espantosamente inocente. Sabe quantas vezes a vi esconder lágrimas, que certamente foram por sua ausência? Inúmeras vezes.

– A estou protegendo. – ele tentou se justificar.

– É um modo estranho. Felizmente ela se recuperou e vai seguir em frente. O rei vai lhe dar a chance de tomar parte de sua guarda pessoal. Ela vai escolher um mestre em um mês.

– Não, isso não! É muito perigoso. – reclamou Virgílio em alerta.

– É um bom modo para ela usar seu poder. – explicou Romano observando o vampiro preocupar-se com os rumos dos acontecimentos.

– Peço-lhe, tome a guarda de Isa e não permita que ela aceite o convite do rei ou o de Misha. – exigiu Virgílio.

– Ela já aceitou, Virgílio. Já me ofereci, mas acho que ela não me escolherá. Misha fez o convite e a quer como pupila e amante. Nada mais os liga, afaste-se e deixe-a viver o presente da imortalidade que lhe deu.

O olhar do vampiro escureceu e aquilo certamente era ciúme e raiva. É, Ariel muito em breve teria de lidar com um duelo. Pois era o único modo de Virgílio ter sua pupila de volta. Pediria aos seus pretendentes que declinassem e enfrentaria aquele que não recuasse.

– Então veio aqui pedir que proteja sua amante? – perguntou Romano.

– Ela não é mais minha amante. – disse resignado.

– Você a ama, por que mantém esse orgulho? Por que a machucou tanto?

– Eu não… Não suportei a dor. – a voz dele estava presa na garganta. – Quando percebi que a perderia eu senti meu coração se contrair e sangrar… Ela era mais importante que minha vingança contra Galeso, nada mais importava. Não posso lidar com isso, vai me destruir. Tenho de matar Galeso.

– Você deu a ele trégua em troca da vida de Isadora e o está caçando? – perguntou surpreso com sua atitude. Ele mantinha sua palavra e seguia as leis. Aquilo era novo.

– Ele não pode continuar vivo, não depois de tocar em Isadora. Ela se transformou em um alvo, em minha fraqueza. – tentava justificar sua quebra de conduta.

– Ela tem um tutor valoroso e que odeia Galeso tanto quanto você. Apenas vá embora. Deixa crescer em paz, deixa escolher um novo amante.

– Tome-a como sua pupila. – ele pediu ansioso.

– Caro amigo, nada vou lhe prometer, Isadora pode e vai escolher sozinha. E você trate de se afastar e engolir seu ciúme.

Dito isso Romano voltou para dentro do prédio e deixou Virgílio a mercê de seus pensamentos nada organizados. Um pouco de confusão lhe faria bem. Isadora ficaria melhor sob a proteção do amor de Misha. Nem sempre aquele que gera é a melhor escolha.

Como uma sombra Virgílio entrou nos aposentos de Isadora. Usou uma passagem secreta que Marie lhe mostrou anos atrás, caso precisasse de um esconderijo, esgueirou-se pela casa e entrou no quarto. Os Pacificadores não o viram ou sentiram.

Isadora dormia no leito tento um livro sobre o peito. Depois da separação só a viu mais uma vez, ela estava em companhia de Valdés caçando. Observou-a por alguns minutos e partiu da cidade. Revê-la depois de tanto tempo foi doloroso. Havia mudado, estava mais forte, seu sangue a fazia amadurecer como vampira. As características tornavam-se mais evidentes, seu cheiro estava diferente, mais forte e embriagador. Aproximou-se do leito, se mantinha praticamente invisível para ela. Sua faradisa dormia lindamente. Desejou tomá-la nos braços e a possuir, cobrir seu corpo com beijos, ouvir sua voz sussurrando seu nome quando atingisse o êxtase.

A camisola de linho e renda era magnifica e recatada. Tocou o tecido suavemente, precisava dela nua sob seu corpo, sob seus dedos… Sem se conter nem mais um momento avançou no leito e a beijou.

Despertei sob a carícia da boca de um vampiro. As mãos exigentes tomando meu corpo. Recuei na semi-escuridão e vi Virgílio.

– Escolha Romano, minha faradisa. – o tom era de ordem.

Não era justo! Não agora que ansiava por uma nova vida longe das lembranças do amor frágil e cruel, que ele lhe ofereceu. O empurrou e o surpreendeu. Pegou a espada que repousava sobre a cama onde antes ele estaria e a apontou para o vampiro.

– Saia! – ordenou segura, ferida.

– Não ouse me enfrentar minha Isa. – ele tentou.

– Não ouse você. – disse ela feroz e ainda de espada em punho.

– Isa… – pude ver em seus olhos a incredulidade.

– Fora!

Não podia fraquejar, não depois de ser abandonada, entregue a outra pessoa como um trapo velho. Não depois de tantas promessas quebradas. Apontava a espada para ele.

A porta se abriu e Misha apareceu. Estava de camiseta negra e jeans, descalço. Ele sentiu o medo de Isadora agora que seu sangue corria em suas veias. Seus sentimentos para ele eram tão reais quanto o toque de suas mãos. Reconheceu Virgílio e ficou surpreso por vê-lo.

– Sua presença não é bem vinda, na verdade, proibida. – começou Misha. – Devo mostrar-lhe a saída? – perguntou o russo baixando a espada que trazia nas mãos.

– Pretendo, antes de sair, conversar com a vampira. – disse Virgílio sugerindo com o olhar que devia aceitar.

– Não temos nada para tratar monsieur. – falei friamente contendo minhas emoções.

– Peço que repense sua decisão. – pediu confiante.

– Melhor que vá embora monsieur, como já lhe disse nada temos para falar. – ele precisava sentir minha dor através de minha determinação.

– Não banque a criança. – começou ele impaciente.

– Fui drogada e abandonada pelo meu criador. Apesar de ter o sangue dele nas veias, em meu coração alimentando minha imortalidade, não pertenço mais a ele. – falou guardando a espada. – Deixe que lhe apresente meu tutor e mestre.

Dito isso olhei para Misha que com um aceno de cabeça deixou claro que concordava com minha posição.

– Voltarei amanhã, nós precisamos conversar. – disse Virgílio no meio do caminho para a saída.

– Mestre ­– começou Isadora – Peço-lhe que me permita recusar tal visita. – ela falou e sua voz quase tremeu.

– Concedido. – Misha respondeu de imediato. – Peço que não insista Virgílio ou terei de proteger minha pupila.

– Pedirei permissão ao rei. Somente ele me impedirá de lhe falar Isa.

– Conhece as leis. Se o mestre não permitir, nem mesmo o rei terá o direito de intervir. – o russo disse dando um passo a frente de modo a proteger sua pupila.

Os ânimos se alteraram no quarto.

– Não deixe a sensação de um prazer jamais provado subir-lhe a cabeça Misha. – debochou o vampiro semicerrando os olhos.

O vampiro avançou tão depressa que sacudiu os meus cabelos soltos. Virgílio estava grudado à parede, contido por Misha que tinha sobre sua garganta a espada.

– Quem começou esse jogo foi você. Mas quem vai terminar ele será Isadora quando ela decidir quem será seu mestre. – dito isso ele o soltou e abriu a porta chamando os Pacificadores no corredor lateral.

– Eu preciso me explicar Isa.

Virgílio estava a minha frente, os olhos nos meus. Podia sentir o toque de sua boca, de suas mãos sobre minha pele. Recuei e fui até a mesinha de cabeceira e ele confiou esperançoso.

Quando voltei com um pedaço de papel o entreguei a meu antigo mestre e amante, meu coração batia descompassado, ferido.

– Acho que isso vai refrescar sua memória e evitar que perca seu tempo.

O vampiro olhou o papel e o reconheceu um minuto depois. Era a carta onde se despediu dela com tanta frieza. Não precisou ler, sabia o que estava escrito, cada palavra. Guardou o papel consigo e saiu do quarto. Os pacificadores o esperavam no corredor assim como Romano e Marie.

Ele foi levado certamente para a presença do rei. A porta se fechou e Misha se aproximou pronto a me tocar.

– Você está bem?

– Saia, por favor. – pedi a Misha que tinha a mão estendida para meu ombro.

– Ele não vai lhe ferir outra vez. Não permitirei…

– Deixe-me sozinha.

Pedi com a voz presa na garganta, continha as lágrimas a muito custo. Não queria chorar em sua presença. Fraquejar diante dele seria humilhante. Ele não se moveu por mais um minuto. Podia sentir minha dor? A agonia que experimentava? Deu a volta e saiu fechando a porta atrás de si. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro e sentada na banheira sob o jato de água quente chorei e lamentei por meu coração partido. Chorei por tudo que não mais podia ser.

O Salvador – Capítulo VII – A Guerreira
Corri pela sala desferindo golpes com a espada, minha adversária se defendia e atacava na mesma proporção. Ela era muito boa. Dançávamos um bale leve e ágil, com nossas espadas tinindo pela sala. Nossa plateia assistia aquele misto de treino e combate com entusiasmo.

Vinte dias haviam se passado desde a visita do rei, desde o retorno desastroso de Virgílio. Não havia tomado nenhuma decisão, eu não estava com pressa apesar de me sentir pressionada, tensa e confusa com os sentimentos que me assaltavam. Misha cortejava-me, ensinava-me a dançar e lutar. Roubava-me beijos, falava de seu desejos. E isso me dava forças para apagar a presença de meu antigo mestre. Contudo era difícil quando seu coração e sangue lhe traiam. Provavelmente Misha sabia disso e não insistiu, apenas me mostrava como seria estar ao seu lado, sob sua asa protetora. Isso me fazia sonhar com uma relação duradoura. Apesar de sua posição dura como tutor não acreditava que a mantivesse, caso o escolhesse. No entanto, ficava o medo. Afinal como saber o que vai ao coração dos homens vampiros? Uma hora estava nos braços de Virgílio e no outro abandonada nas mãos de uma estranha.
Na sala de armas o rei estava sentado em uma cadeira no limite do tablado, com ele os meus tutores,e os fãs de Kara, a campeã do rei. Sim, eu estava lutando com a campeã do rei! Mas era algo amistoso, para trocarmos experiências.
Uma semana antes fui avisada por Misha, que ela queria me conhecer. Confesso que fiquei lisonjeada, já haviam me falado da vampira. Era excepcional, apesar de não ter sequer dez anos de vida imortal. Ela passou pelo menos um mês perseguindo um vampiro, que vinha atacando adolescentes e causando falatório entre os mortais. No fim ela o encontrou e matou. Mas isso era nada em comparação a ter liderado o ataque durante a guerra do Pacto no deserto. Valdés contou-me como ela havia conseguido participar do torneio e se tornar a mais jovem campeã.

A vampira veio como combinado e Marie a recebeu como uma velha e querida amiga. Fomos apresentadas e deixadas a sós para que conversássemos. A primeira impressão é que estava diante de uma deusa. A vampira era linda. Cabelos e olhos negros, corpo pequeno, não era alta, mas sua presença enchia uma sala. Usava roupas modernas, calças justas, o corset de couro marrom com fivelas delicadas estava sobre uma malha negra. E a deixava com um aspecto realmente esguio e poderoso. As botinhas de cadarço davam-lhe altura e certamente deixavam seus chutes mais fortes. Vestia-se como uma vampira, não como uma vampira tentando parecer uma mortal.

Por um momento analisei sua roupa de treino e me vi perto do seu estilo. Calça e malha negras, botas leves. Misha, fora ele que conseguira aquelas roupas para ela. Em dado momento Kara mostrou-me algumas de suas cicatrizes, enquanto falávamos de meu teste. Ela também enfrentara lobisomens. A campeã ficou fascinada vendo as linhas finas no meu braço. Tínhamos realmente muito em comum.

– Sou a primeira vampira com a qual tem contato? – perguntou Kara.

– Sim, vi algumas, mas não me aproximei. – a informei sem tirar os olhos de suas roupas e beleza. – Você é muito bonita.

– Obrigada. Mas você também é. Já se olhou no espelho recentemente? – comentou brincalhona. – ela tinha senso de humor.

– Eu sou muito pálida e desinteressante.

– Se comer assim que despertar, manterá cor na pele. Deixe alguma coisa a mão em seu quarto. Eu mantenho uma garrafa térmica. – uma boa dica. –Também pode usar um pouco de maquiagem, se quiser posso te ensinar como disfarçar alguns traços. –ofereceu gentil.

– Não tenho maquiagem. Aliás tenho poucas coisas, não pude fazer a mala e… Meu mestre me entregou a Marie. Foi algo inesperado. – fiquei em silêncio.

– Podemos resolver isso, venho te pegar amanhã para fazermos compras. –sugeriu animada. – Conheço algumas lojas que abrem toda a noite. Também podemos comprar pela internet, faço compras on-line o tempo todo.
Ela pareceu sincera, acho que precisava de amigos tanto quanto eu mesma.

– Eu gostaria muito, tenho algum dinheiro. – expliquei afinal tinha uma mesada de meus tutores.
– A mesada dos Poderes. Eu também recebo e meu salário de campeã. Mas esse eu não uso e minha aposentadoria. – bincou. – Não fiquei envergonhada, também fui abandonada pelo meu mestre. – ela falou tentando dar um tom comum a revelação, mas pude sentir no timbre de sua voz que havia dor oculta.

– É comum então? – quis saber imaginando por que um vampiro abandonaria uma vampira como aquela.

– Não muito. Mas acontece. – respondeu Kara andando pela sala.

– Gostaria de saber o motivo. – disse pensativa.

– O meu não revelou o motivo. Respondeu com meias verdades. – ela disse deixando claro que perguntas foram feitas.

– Não sei se o motivo é importante, mas gostaria de saber, visto que existe um castigo para quem o faz. Não foi nosso caso, fomos postas na porta dos poderes. Você voltaria para seu mestre? – perguntei e a vi me olhar de modo melancólico.

A vampira que andava pela sala há alguns minutos, sentou no sofá de seda cor de chocolate novamente e cruzou as pernas. Recostando-se nas almofadas bordadas e relaxou a cabeça, fitou o teto, mas vasculhava seu coração. Por fim me olhou e começou a falar.

– Não sei ao certo Dora. – começou brincando com um anel de pedra azul, que trazia no dedo anelar. – Eu perdi minhas lembranças, parte delas, não conte a ninguém, por favor. Como sabe sou a campeã do rei, perderia pontos.

– Não teria para quem contar mesmo que quisesse. Contudo, não se preocupe, prometo guardar seu segredo.

– Sofri uma espécie de choque e perdi parte das lembranças, meu mestre fazia parte delas. – falou e apoiou os cotovelos nos joelhos, os cachos escorregaram pelos ombros e face. – Sabe ele está na minha mente, lembro-me de algumas coisas e a intensidade delas. Se não fosse elas poderia sequer pensar nele. Mas quando as lembranças voltam me pergunto como algo tão intenso foi primeiramente esquecido. Dizem que foi o choque, e porque ele, que não as esqueceu, resolveu abrir mão delas, de minha pessoa?

A voz dela se tornou um pouco rouca e baixa, amarga. Ela sentia o peso do abandono tanto quanto eu. Isso doeu.

– Sim, porque fomos abandonadas. – falei e toquei seu ombro.

Ela olhou-me com seus olhos negros e brilhantes e sorriu tristemente.

Mudamos de assunto e naquele primeiro contato fomos para sala de armas. Ouvia os conselhos de Kara e acompanhava seus movimentos. Alertou-me sobre lutar de cabelo solto, ou  preso. Falou-me sobre um adorno com espinhos para colocar entre os fios de minha trança, que inibem puxões. Duas horas depois ela partiu e ficamos de nos vermos na noite seguinte. Como combinado ela apareceu e fomos às compras. Kara realmente sabia o que comprar e onde fazê-lo. Voltei cheia de sacolas e feliz como não me sentia há muito tempo. Ficamos amigas. As roupas novas chamaram a atenção de Misha de modo singular. Ele gostou das calças justas, as malhas que se moldavam as minhas curvas, e especialmente dos vestidos e os sapatos. Deixou isso bem claro, quando me parou no corredor e tocou a seda do meus vestido floral, a malha delicada do casaco leve que vestia foi seu segundo alvo. Estava indo para meu quarto dormir, enquanto lia um livro, que havia escolhido na biblioteca. Nunca lera tanto, a imortalidade, a natureza de um vampiro precisa desesperadamente de algo que as preencha. Os livros são incrivelmente nutritivos para cérebros ávidos. Ergui os olhos em tempo de não colidir com Misha, e me vi em seus braços. O livro era a única coisa que separava nossos corpos naquele momento.

Ergui os olhos e encontrei os seus. O rosto forte, bonito, de linhas tão frias, mas ao mesmo tempo tão belas. Acho que entreabri os lábios, porque ao sentir sua boca sobre a minha gemi. O sabor de sangue era real, havia se alimentado recentemente. Sangue quente e vivo, tirado das veias de alguém. Aquilo me fez retribuir instintivamente.

– A campeã do rei sabe como fazer algo se tornar mortal. – se referia a meu vestido.

As mãos dele estavam sobre a seda na altura da cintura. O casaco leve que cobria meus ombros não era barreira para os dedos de Misha. O beijo veio cálido e doce sobre meu ombro e pescoço. O livro caiu de minhas mãos. Ele afastou a boca de minha pele e deslizou a cabeça lentamente, me olhou e depois ao livro. Abaixou-se e sem desviar a vista subiu com o livro entre as mãos.

– Preciso ir…

– Dora não fuja. – pediu e me segurou delicadamente. – Tem pensado em sua escolha?

– Sim. – consegui dizer, mas não o olhei.

– E?

– Não decidi ainda. – disse sincera.

– É um passo importante. – as mãos dele estavam em minhas costas. Podia sentir o peso, o calor suave dos dedos. – Eu tenho muito a oferecer Dora. Você me fez mudar. – falou tocando meu queixo com beijos.

– Que bom. – disse sentindo que tomaria minha boca novamente.

– Quero cuidar de você. Jamais vou lhe abandonar.

O beijo foi mais intenso e me comprimiu contra a parede, o livro caiu novamente de minhas mãos. O que havia comigo? Desejo? Sim,muito e Misha estava me enlouquecendo noite após noite com seus ataques. Ele me queria e muito. Não só como aluna, como mulher. Respeitava meu espaço, mas quando o desejo o sufocava ele me cercava e tomava o que desejava. Os beijos em minha garganta fizeram-me ansiar pela mordida. Meus olhos estavam dilatados, os caninos sob os lábios exigiam carne e sangue…

Empurrei Misha e corri para meu quarto. Estávamos sendo observados. Na outra ponta do corredor Virgílio apareceu, pude ouvir seu coração, sua raiva e ciúme. Fechei minha mente. Kara me ensinou alguns truques e vejam só! Foram úteis. O que ele queria de mim afinal?

O amor podia se transformar em ódio. Depois de sua aparição Virgílio foi levado a presença de Ariel. Ele estava de roupão e não gostou nem um pouco de ser incomodado, após ter se recolhido com sua convidada, uma jovem mulher chamada Janine. Ele não tinha um caso com Marie. Tratava-a como uma filha. Ela apenas o ajudava a manter seus encontros com aquela jovem mulher. Ela era enfermeira e ficou a minha cabeceira, enquanto me recuperava. Fora Pacificadora e agora trabalhava com o doutor Joshua, na recém-criada enfermaria.

– Foi dor na consciência ou simplesmente percebeu o quanto foi idiota?

O rei quis saber sentando-se na poltrona do quarto para observar o vampiro. Virgílio viu as roupas femininas no chão, a cama desfeita. O maldito invadiu a casa de Marie e violou o selo real. Um sinal posto somente para os olhos dos inscritos no Livro, avisando que a casa é proibida para imortais.

– Conhece minha história, porque a deixei…

– Responda a pergunta. – o rei rugiu com voz firme e alta.

– Eu… Eu…

– Vamos Virgílio, não é tão difícil dizer as palavras. – começou Ariel. –Está vendo esse anel. – falou e mostrou seu dedo onde o símbolo de seu poder repousava rubro. – Ele jamais me impediu de amar. – foi sincero. – A imortalidade é um abismo frio e silencioso, que só ganha calor e som com a presença dos que estimamos. Agora fale! – exigiu o rei sem nenhuma paciência.

– Eu a amo e a quero de volta.

– Ah! Sim, claro. Um idiota. – disse Ariel. – Procure Togo, peça direito a visitas. Mas Dora decide se deseja vê-lo ou não, afinal ela não ficou nem um pouco animada com seu retorno. – debochou o rei – Como diria Antoine, tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Sinto saudade dele. Agora vá, antes que eu mude de ideia e mande que o prendam por violar um selo real. O vampiro foi conduzido para fora e o rei esperou junto a porta já fechada. Foi quando sentiu as mãos de Janine o puxando para o leito.

Agora Virgílio podia visitá-la uma vez por semana. Mas se ela não quisesse vê-lo ele teria de partir. Misha tentou impedir as visitas, mas a lei era clara e o favorecia.

O recebeu nas últimas semanas, mas não queria que ele a lesse, a cortejasse. Estava furiosa com ele, frustrada. Repeliu suas investidas e o lembrou do abandono sofrido e ele reagiu como de costume a olhou e partiu em silêncio.

De volta a sala de armas. A luta era amistosa, não visava melhor ou pior. Kara estava vencendo, não poderia vencê-la, mas estava aprendendo com aquela luta e ate certo modo proporcionando um excelente combate para ela e aos que nos assistiam.

Ambas davam o melhor de si e em dado momento Kara e Isadora sorriram animadas. Os vampiros na pequena plateia aplaudiam os golpes, apostavam, riam e bebiam sangue servido pelos criados.
A luta estava bem equilibrada, Kara me deixava crescer nos movimentos e dava dicas, enquanto as espadas se chocavam.
Sequer podiam imaginar como eram encantadoras lutando com tanta graça e força. Os corpos delicados, a beleza de seus movimentos. Pernas, braços e seios. Os cabelos flutuando, enquanto as lâminas cortavam o ar ruidosas.

O olhar do rei estava sobre Kara . Ele tinha a mão no queixo, o dedo indicador acariciando o lábio. Um brilho misterioso nos olhos cor de jade. Trazia o cabelo preso por uma fita de veludo negro aquela noite. Vestia jeans, camiseta e um casaco até a cintura, bordado em fios de ouro velho. Parecia um toureiro. A o brinco na orelha esquerda já era parte de seu estilo selvagem e moderno, a eleita aquela noite fora uma pérola imperfeita e rara. Misha não estava diferente dele, o olhar estava preso em sua aluna. Não conseguiu ficar sentado para assistir. Andava de um lado a outro observando atento, estudando seus movimentos e golpes. Valdés via sua atitude com mais tranquilidade, era aparente que estava ligado a Isadora, que a desejava e não sabia lidar bem com tais sentimentos. O tempo de Isadora estava se esgotando, logo teria de escolher seu mestre. Desconfiava que ela o escolhesse. Os observou e notou que ela o admirava, e até certo ponto o desejava. Ele estava caido de amor. Já haviam presentes, um quarto em sua casa e sabe mais Deus o que!
A presença constante de Virgílio, que arrependido tentava conquistar o que descartou com tanta facilidade, confundia Isadora. Temia pelo coração de Misha. E se ela o recusasse? Se a voz do sangue falasse mais alto. A porta da sala se abriu, o pacificador deixou Virgílio entrar. Ver Isadora lutar o fez sorrir suavemente admirado.A viu matar seus agressores na noite que a imortalizou.No entanto, aquilo era poesia! Ela era muito boa e lutava com uma das vampiras mais fortes e poderosas daquele século, a campeã do rei. O seu olhar buscou o dela, o que a fez perder a concentração. Isadora recebeu um golpe de raspão e gemeu de dor de modo involuntário.

Kara recuou e a viu Isadora acenar dizendo que tudo estava bem. Mas não estava, a presença de Virgílio a incomodava e feria. Voltaram a lutar, mas ficou claro que ela perdera o foco. No meio de um movimento ela sentiu um repuxam no peito, o braço pesou, a espada caiu. Kara fitou a vampira cair sobre o tablado e correu para ajudá-la. Estava pálida e seu corpo enrijecia. Kara conhecia aquele estado, se colocou nele quando fora capturada pelo meio vampiro filho de Otávio. As lembranças a fizeram tremer e antes que pudesse entender o que ocorria desmaiou. A sala se tornou um caos.

Ariel Simon se aproximou de Kara e a tomou nos braços e viu sinais preocupantes. Manteve a calma e a tirou da sala. Levou consigo rumo ao seus aposentos naquela casa. Isadora estava nos braços de Misha, mas ele teve de recuar para que Virgílio cuidasse de sua cria. Aquele era seu primeiro episódio. O que mostrava que ela não estava livre da maldição de seu mestre. Ele cortou o pulso e a alimentou. As gotas de sangue rubro coloriram os lábios carnudos. O estado de palidez marmórea se desfez lentamente e logo ela pode ser tomada nos braços e levada para seus aposentos. Mas quem o fez foi Valdés. Ele passou a frente dos dois vampiros e evitou um confronto eminente pelo ciúme e pelo amor.

O Salvador – Capítulo VIII – O Tempo da Verdade – Parte I
O quarto estava às escuras, as cortinas semicerradas, a janela que dava para a rua aberta. A brisa fria empurrava as cortinas deixando um pouco da noite de Paris entrar. Ele estava dentro do quarto, podia sentir sua presença, a força de seu sangue gritando ao meu. Meu mestre estava ali me vigiando como não fazia há meses. Como desejei por tantas noites. Meu coração não batia agitado de emoção, paixão ou amor. Só havia frieza em meu corpo, o queria longe, fora do quarto de minha vida, de Paris.

Busquei o cheiro, a força de meu tutor e não a encontrei. Seu sangue ainda estava em minhas veias, fraco, mas presente. Era ele que desejava que estivesse naquela vigília silenciosa ao meu lado. Meu coração havia abandonado-se a ele, ao desejo de pertencer-lhe.

Movi o corpo e senti dor. Parecia ter levado uma surra. Não queria que ele me percebesse desperta, não ainda. Mas era tarde ele me notou e

– Não se levante, precisa descansar.

A voz de Virgílio foi um comando que faria questão de rejeitar. Fitei seu rosto dentro da semi-escuridão e percebi que continuava o achando muito bonito. Talvez fosse a saudade, que senti por tantos meses, dando sabor a algo que se tornou amargo. Sentei no leito e ele se aproximou preocupado olhando meu estado. Em seus olhos era como se fosse de vidro.

– Eu estou bem. Apenas saia do meu quarto, por favor. – pedi secamente, não suportava sua presença.

– Vou ficar Isa. – ele avisou calmamente.

– Meu nome é Isadora.

– Sim, é, mas para mim é Isa, ou a minha faradisa. – argumentou seriamente, sem se importar com o quanto aquilo era tolo e me importunava.

– Não tem mais direitos sobre minha pessoa… Nem de me chamar como sua amante.

– Tenho. – anunciou seguro. – Diante de seu estado o rei anulou os pedidos por sua custodia e devolveu-me os direitos de mestre.

– Não, isso é mentira. – disse indignada, incrédula.

– Peço que descanse, deixe as perguntas para depois. – sugeriu suavemente.

– O que aconteceu? – quis saber me sentindo tonta e faminta.

– Você teve um episódio. – começou ele cuidadoso.

– Como? Episódio?

– Quando estiver menos agitada falaremos. Agora só precisa saber que pode controlar e que está em nossa linhagem de sangue.

– Quanto tempo estive desacordada?

– Esteve desacordada por uma semana. – disse como se aquilo falasse por si só.

– Não pode ser… Eu só me lembro de sentir dor e meu braço ficou rígido… – vasculhei minha mente e vi Misha correndo ao meu encontro. – Onde está Misha?

– Foi embora. – disse com uma ponta de satisfação e alivio.

– Ele não me deixaria. – disse me lembrando de suas palavras. – Ele… – ainda podia sentir seu coração. Fechei os olhos, toquei o peito. Ele estava longe, o sangue que me ligou a ele enfraquecia. Concentrei-me e pude sentir sua presença.

– Ele a alimentou?

Puxei o braço com força, Virgílio havia segurado minha mão, quando a coloquei perto do peito tentando sentir a presença de Misha. Estava com cara de poucos amigos.

– Sim, ele me alimentou – o olhava nos olhos. – Quando o meu mestre não estava aqui para fazê-lo. Ele me deu de suas veias e me curou…

– Ele quase a matou!

– Acreditou que pudesse vencer e venci. Ele me ensinou muito mais do que você. Saia!

– Não quero puni-la, ainda está fraca…

– Me punir? Por quê? Por dizer verdades e não mais aceita-lo como mestre e amante? – rugia. – O que acha que sou afinal, um objeto para passar de mão em mão?

– Você é minha cria e eu a quero comigo.

As palavras tinha sentido para ele? Para mim nada significavam. Ainda haviam laços de sangue, mas havia somente um grande buraco em meu peito e ele exigia outro como alimento.

– Estou com fome. – disse sem pensar.

– A alimentarei de minhas veias. É tempo de nos unirmos novamente.

Enquanto falava aproximava-se do leito de modo confiante. Recuei para o espelho da cama e me encolhi. Ele notou minha fuga e sentiu minha rejeição. Não o queria, nem ao seu sangue. Levantei da cama e fui para o banheiro. Lá me tranquei, ele bateu na porta por algum tempo e depois desistiu. Quando saiu do quarto percebi que tinha pouco tempo e precisava agir depressa. Vesti-me e peguei minhas coisas e as coloquei em uma valise, vesti o casaco, coloquei a espada no suporte que ganhei de Kara e saltei pela janela.

À noite me recebeu e deixou que me misturasse com as pessoas na rua. Levantei o capuz de meu casaco e depois de algum tempo andando pela cidade parei. Precisava usar meus sentidos, encontrar Misha e foi o que fiz, deixei meus passos me guiarem até ele. Andei sem rumo por uma hora e me deparei com ruelas sinuosas e pequenas moradias. Aquele pequeno pedaço de Paris era como um vilarejo. Busquei descobrir onde estava e vi uma placa, Butte-aux-Cailles, ou colina das codornizes. Estava no centro histórico do 13º arrondissement. Era como esta no campo, o som dos carros ficou para trás nas ruas mais movimentadas. Ali só havia paz, uma paz que buscava ansiosamente.

Parei diante de uma das casas de três pisos com um jardim bem cuidado e repleto de rosas em grande parte vermelhas. O aroma me atraiu enormemente. Estendi a mão entre as grades do muro e toquei uma delas. A suavidade me encantou, eu a queria e num puxão a arranquei. O puxão trouxe-me dor. Fitei a mão e o talo da roseira e vi os espinhos, o sangue. Nada mais profético – pensei e fitei o portão. Foi quando o senti. Era Misha! Na porta de entrada da casa.

Eu o havia encontrado. Ele veio em minha direção e observou minha fuga óbvia. Abriu o portão de ferro e abriu caminho me deixando entrar em sua casa. No hall de entrada era pequeno, mas bem decorado e acolhedor. Pegou minha a capa, a espada e colocou dentro do armário embutido na entrada.

– Siga-me. – pediu carregando minha valise pelo corredor.

Quando chegamos à sala não pude evitar a sensação de que estava em casa. A lareira estava acesa e o fogo crepitava envolvendo a sala em uma atmosfera acolhedora. Os móveis de madeira até meio rústicos reforçavam a ideia de que havíamos entrado em uma cabana nas montanhas, próximo a um lago. Sentei em um dos sofás confortáveis e olhei a manta de tricô, o tapete delicado. Há muito não me sentia tão a vontade em um ambiente. As roupas informais chamaram minha atenção. Estava de jeans, camiseta de manga longa, azul e negro. Só então notei que estava descalço.

Sentei na poltrona mais próxima e fitei as mãos sujas de sangue, a rosa.

– Minhas rosas sabem se defender. – comentou tirando-a a rosa de minha mão com cuidado.

– Sinto muito, eu… Não consegui resistir.

– Compreendo.

Ele fitou a rosa e saiu da sala, quando retornou a trazia em um cálice com água. E colocou na mesinha próxima a poltrona onde estava sentada. Sentou e me fitou demoradamente, suspirou e perguntou:

– O que esta fazendo?

– Não vou voltar para Virgílio. – disse olhando as mãos cicatrizadas, mas ainda sujas de sangue.

– Você fugiu?

– Sim. – respondi sem medo e sustentando seu olhar.

Recebi o lenço úmido e limpei o sangue dos dedos.

– Você… Disse que não me abandonaria. – as palavras saltaram de meus lábios de uma vez, enquanto o fitava buscando um fio de esperança.

– Não a abandonei. O rei revogou o meu pedido, retirou o convite para que seja parte de sua guarda e devolveu sua custodia a Virgílio. – ele explicou de modo sério e se mantendo distante das palavras.

– Por quê? O que fiz de errado? Eu estava lutando quando senti algo. Despertei e tudo que conquistei havia desaparecido. – lamentei. – Não posso passar por algo assim novamente…

O soluço escapou de minha garganta e cobri o rosto e chorei aflita. As lágrimas molhavam minha face. Meu corpo tremia quando Misha me tomou em seu abraço e me consolou. Agarrei-me a ele e solucei infeliz. Ele murmurava suavemente que me acalma-se, que tudo ia dar certo. Não queria perdê-lo. Ergui o rosto e meus olhos encontraram os dele. Foi o encontro de duas almas que se desejavam.

O beijo foi apaixonado e faminto. Vi-me envolvida por seus braços e correspondi como ardor. Havia feito minha escolha e nada nem ninguém me faria desistir dele. Entre beijos e carícias Misha me levou para seu quarto e lá nos despimos e amamos. Tomou-me com paixão e carinho. Tocou meu corpo de modo reverente, lento, faminto. Seu corpo nu confirmou o que imaginava. Músculos perfeitos, definidos, que me deliciei beijando, tocando. Quando ele me tomou junto ao peito senti que desejava provar de meu sangue. O corpo estava tenso, os caninos a mostra, o olhar mudado. Mas ainda havia carinho e os beijos me faziam tremer de prazer. A tortura de suas caricias me levou ao gozo por três vezes. Suas mãos habilidosas me fizeram dizer seu nome em sussurros e gemidos. O beijei e ali em seu colo ofereci lânguida a garganta para que ele me tomasse por inteiro. Os lábios, a língua, a sucção suave na carne antecedendo as presas. Segurava-me em seus ombros e não esperei muito. A mordida foi deliciosa e me levou ao êxtase. Flutuava numa nuvem de prazer e quando ele afastou os caninos e sugou com força, soltei um arquejo. Estava ancorada a ele, enquanto meu sangue era sorvido e meu corpo tomado. Era ele que amava e desejava, meu criador ou não, eu amava Misha.

– Tome de minha veia. – ele murmurou junto a minha boca.

Os lábios rubros com meu sangue. Amparada por seus braços o vi oferecer-me o pescoço forte. Beijei delicadamente e senti seu corpo arrepiar-se de prazer. Lambi numa tortura lenta que o deixou um pouco mais excitado. O levava ao limite, pois era lá que estávamos no limite, na beirada do precipício. Mordi e o ouvi rugir de prazer. Era um ronronar baixo, algum másculo e poderoso. Havia tanto prazer e quando ele me apertou em seus braços senti meu corpo se encher dele, de sua força numa união poderosa e única. Meu coração e o dele. Éramos um único ser. Afastei-me e desfrutei de seu sabor dominando meu corpo. Abraçamo-nos e ficamos assim no leito. Por longos minutos ficamos em silêncio, apenas ouvindo nossos corações. Estava completa, a fome saciada. Aconcheguei-me no peito de meu amante e assim adormeci.

Despertei com o som da porta sendo arrombada. Fomos surpreendidos ainda na cama. Os pacificadores nos cercaram, Misha tinha a espada na mão e me protegia com seu corpo. Cobri-me com o lençol e tentei entender o que acontecia.

– O que está acontecendo? – cobrou Misha aborrecido com a invasão.

O pacificador líder do grupo não estava para dialogo e ao falar deu ordens.

– Levantem, estão sendo detidos por traição.

– Traição?

– Está na cama com a pupila de outro vampiro. As leis são claras e você as violou ao possuí-la. – o Pacificador explicou pronto a fazer valer a lei.

– O que está acontecendo? – quis saber as suas costas.

– Seu criador nos mandou caçar.

Misha ergueu-se do leito sem constrangimento e ergueu o lençol para que me vestisse com privacidade. Feito isso, pegou suas roupas e fez o mesmo. Fomos algemados, retirados da casa e conduzidos para um carro. O destino, Coucher du Soleil, entramos por corredores longe dos salões e fomos conduzidos para o subsolo. Corredores de pedras, celas com grades. Não podia acreditar! Quando a grade de ferro se abriu e fomos conduzidos para seu interior pensei: é um pesadelo. Mas não era um sonho ruim. Era bem real. Fomos pegos nus na cama em plena traição ao meu mestre.

– Vai ficar tudo bem. – disse Misha pondo à mão entre as grades para me tocar.

Fomos colocados em selas separadas e ali esquecidos por duas horas. Quando Togo apareceu no corredor, Misha se colocou de pé e foi para perto das grades. A postura do vampiro líder da ordem dos pacificadores era a mesma de que me lembrava. Altiva e concentrada.

– Quão ruim estão as coisas?

– A vampira e recém criada, fugiu de seu mestre. Ele alega que deu-lhe seu sangue, é verdade?

– Fomos mais longe que isso Togo. – disse Misha com coragem e sem nenhum constrangimento.

Togo olhou-me como seu olhar estilo radiografia e senti-me congelar. Ele me culpava.

– Será libertado ao anoitecer para respondeu ao rei em liberdade. Isadora deve permanecer presa até que seu mestre venha requisitá-la.

– Não vou voltar para ele. – assegurei indo para o fundo da cela.

– Se não o fizer ele pode mantê-la presa aqui ou em seu território o tempo que quiser. – explicou como se saber daquilo bastasse. – Escute-me Isadora. Virgílio é um vampiro muito velho e poderoso. Quando fugiu deu a ele direitos para puni-la.

­ – Quero um defensor. – pedi sabendo o quanto aquilo era difícil de ser conseguido, mas não impossível.

– Nenhum vampiro vai querer defendê-la de tal crime. – Togo explicou os olhando.

– Kara, a campeã do rei, quero-a como defensora.

Continua…

O Salvador – Capítulo VIII – O Tempo da Verdade – Parte II

O silêncio pode ser assustador. A liberdade sempre me foi muito preciosa. Ser imortal é só acentuou esse sentimento. Poderes, sentidos, a ausência de medo. Medo. Bem, ele ainda nos assalta, mas é diferente, é algo que podemos olhar com frieza. Na mortalidade nossos sentimentos e corpo nos traem, e o medo é um limitador, enquanto na imortalidade é uma mola que nos impulsiona a ação.

Minha liberdade fora roubada. Estava em uma cela quase medieval sob o Coucher du Soleil. A acusação? Traição. Trai meu criador com outro vampiro. Fui pega na cama com meu amante, um flagrante. Diante das leis do mundo dos vampiros, sou menor, uma criança com poucos direitos, muitas obrigações e sujeita a muitas penalidades.

As grades, a ausência de janelas, o corredor, a grossura da porta deixaram clara a impossibilidade de fuga. Aquele lugar era muito antigo e certamente fora projetado para deter criaturas com poderes bem superior aos meus. O lugar era limpo, cheirava a detergente. Pelo menos não era degradante. Havia até mesmo um sanitário. Bem, era inútil, a menos que desejasse vomitar. Isso um vampiro consegue fazer. Todo o resto é improvável.

Desejava minha cama, ou a de Misha, onde nos amamos pela primeira vez. Como minha vida pode mudar tanto em apenas um ano? Um terremoto a cada três meses.

Quando o líder da Ordem dos Pacificadores, Togo, nos deixou cientes das acusações percebi que Virgílio queria vingança. Não sabia o que pensar, o que fiz? O vampiro de descendência oriental nos deixou e eu desabei no chão agarrada as grades e chorei de raiva e fui amparada por meu novo amante. Sim, ele era meu amante e nada que Virgílio fizesse mudaria isso. Meu coração agora pertencia a Misha. Abraçada a ele tendo as grades como um limitador, eu lamentei.

– Eu sinto muito… Não deveria ter ido procurá-lo…

– Dora? Olha para mim. – ordenou Misha fitando meu rosto manchado com lágrimas tintas. – Eu teria ido atrás de você mais cedo ou mais tarde… Eu te amo.

Dizendo isso ele cobriu minha boca num beijo faminto e cálido, que fez meu coração se aquecer, bater tão depressa que acreditei que explodiria. O segurei forte junto a meu corpo e solucei. Ele acariciou meu cabelo e costas. Ele só provou o que verdadeiramente sentia por minha pessoa.

– Demorei muito, deveria tê-la beijado quando entrei em seu quarto e a vi dormindo. – começou ele beijando meu rosto para limpar as lágrimas. – Senti seu perfume e meu coração disparou. – murmurou e acariciou meus lábios com o polegar.

– O coloquei em perigo. – disse tocando seu rosto.

– Já lidei com coisas piores que uma cela, uma acusação. – disse olhando-me nos olhos. – Quando a tomei como minha amante conhecia os riscos. Seremos julgados, mas eu terei vez e voz. Usarei meus direitos como lorde. Ariel é um rei justo, apenas acalme-se, tudo vai acabar bem.

Ele podia sentir meus medos, minha frustração e culpa. Ficamos sentados no chão mantendo contato por entre as grades. Contive as lágrimas, enquanto ele fazia planos para quando saíssemos daquela confusão. Quando o dia nasceu ficou claro, que não receberíamos mais nenhuma visita. Tremi de frio. As celas eram de pedra maciça e não ofereciam conforto. Adormeci agarrada a Misha, mas ele me despertou delicadamente e me fez ir para a cama em minha cela. O colchão era fino, mas era melhor que o chão gelado.

Deitei-me e fiquei insone, queria respostas. O que nos aconteceria? O que Virgílio poderia fazer contra Misha? Não conhecia o suficiente das leis para saber o que aconteceria agora. Ele era um lorde e estava sendo tratado como criminoso.

– Misha?

– Hum? – respondeu atento.

– O que realmente aconteceu depois que desmaiei?

O silêncio que pesou entre as celas falava de algo além de seu poder. Ele respirou alto e aquilo significava problemas. Misha estava deitado no catre, o braço sobre os olhos. Mas sentou, e se recostou na parede e olhando em minha direção começou a falar.

– Os mais próximos sabem que Virgílio amou apenas uma mulher, Zafara. Não a conheci como mortal, ou vampira, mas me disseram que era muito bonita. Uma pérola rara, que Virgílio tratava como rainha e Galeso esmagou num gesto de vingança. Eles são inimigos há tanto tempo, que sequer sabemos o que gerou a rivalidade. Mas certamente é algo, que ficou mais sério quando ele caçou e matou Zafara e devolveu aos pedaços para Virgílio.

As palavras de Misha mantinha um tom baixo, profundo. Ele tentava não me alarmar, mas era impossível. Estive nas mãos de Galeso e escapara ilesa. Então fora por isso que ele me abandonou? Medo que fosse feita em pedaços? Abracei os joelhos e fechei os olhos. Misha fazia o caminho mais longo para me revelar à verdade.

– Seu criador descende quase diretamente do sangue dos Anciões. Acho que ainda não ouviu falar deles. Mas sendo cria de quem é, melhor saber a verdade. Os anciões são os mais velhos vampiros do mundo. É deles que todos nós descendemos. Em algum momento nossos mestres receberam seu sangue. Virgílio é o segundo herdeiro do sangue de Ordalia, a líder das anciãs. Isso faz dele um vampiro muito velho e poderoso.

– Mais velho que o rei?

– Sim, mais velho que Ariel. Contudo, Virgílio não anseia por poder. Poucos sabem de sua real idade. Entende?

Balancei a cabeça afirmativamente compreendendo um pouco mais da árvore de onde eu havia caído.

– Porém no que isso me toca? – quis saber com inocência.

– Os anciãos têm alguns poderes diferentes dos que desenvolvemos quando vampiros. Os mortais que herdam seu sangue ao invés dos poderes receberam dons sombrios na grande maioria. – ele se calou. – Eles têm nomes, tais “dons”. A febre do sangue, o sussurro, a visão, a fúria. Você desenvolveu a marmórea.

– Desenvolvi o que? – quis saber realmente confusa.

– Quando é submetida a muita pressão seu organismo se defende. Sua pele, sangue e músculos assumem a textura do mármore. Isso é apenas uma alusão ao seu estado. Seu corpo enrijece assumindo a firmeza, a cor do mármore…

As palavras morreram em seus lábios. Ele baixou a vista, deslizou a mãos pelos cabelos claros. Por fim olhou-me novamente e suspirou.

– O treinamento, os testes, ter de escolher um novo mestre, lidar com o retorno de Virgílio, a fizeram ter seu primeiro episódio. – ele falou frustrado.

Ouvia a descrição da “doença” percebi que realmente sentira-me levemente enrijecida, mais pálida que o normal para um vampiro. A dor no peito, o braço sem controle quando lutava. Acreditei-me tensa devido à presença de Virgílio. Sua presença disparou o ataque. Estava muito bem, mas ao vê-lo cruzar a porta senti a primeira fisgada.

– Existe uma cura? – era bom saber.

– Não. Tudo que pode ser feito é manter-se longe de pressões. Nada de stress para você. Isso a manterá bem e desperta para nosso mundo. – completou sem muita confiança.

– Mas não faz sentido, se sabiam disso, por que o rei me chamou para ser sua guarda costas? Os testes? – aquelas perguntas mereciam respostas.

– Acreditávamos que desenvolveria o mesmo “dom” que Zafara manifestou. – explicou Misha de imediato.

– E qual seria?

– A fúria. Ela perdia a consciência e tornava-se extremamente violenta pelo que soube. Quando tudo passava não se lembrava das matanças que promovia com lobisomens, mortais, vampiros. Virgílio não conseguia dominá-la. Seu sangue não lhe dava a paz perdida. Por fim descobriram, que se ela se desgastasse treinando, os episódios ficavam controlados.

– Por isso me afizeram treinar. E todo o resto. – falei compreendendo tudo.

– Sim, seria melhor provocar a crise e estar pronto para lidar com ela. Do que ser pego de surpresa. Infelizmente nada aconteceu e você desenvolveu um dom diferente. – lamentou Misha.

– O que acontece se eu não tiver o sangue dele?

– Pode não voltar à consciência. – ele disse desgostoso. – Ficará presa nesse estado indeterminadamente.

– Isso é loucura, não pode ser. Sou feita de carne e sangue. – tentei racionalizar as boas notícias que recebera.

– Acredite-me, é possível. Quando desmaiou seu corpo se enrijeceu. Não consegui fazê-la despertar. Virgílio quase não conseguia abrir seus lábios para que sorvesse seu sangue.

Dizer aquilo lhe custou muito. Outro homem, outro vampiro conseguiu ajudá-la, ele apenas teve de observar e perceber, que ela não lhe pertencia. Aquelas palavra calaram fundo nele e por algum tempo apenas ficou em silêncio. Mergulhado nos acontecimentos que presenciou.

– Você precisa dele.

– Preciso apenas do sangue dele. – o corrigi com carinho.

– Meu sangue não pode ajudá-la Dora. – completou cansado.

– Foi por isso que o rei me devolveu a ele?

– Sim. É nova demais, mas também preciosa para que sua existência seja perdida. Somos poucos, os antigos. Cada nova cria representa nossa sobrevivência como espécie.

– Estamos em extinção? – perguntei confusa.

– Somos poucos e não estamos nos reproduzindo. – completou Misha.

– Não preciso de Virgílio. Ele só me trouxe tristeza, seu abandono me feriu mortalmente. Tudo morreu dentro de meu coração e renasceu por você, Misha.

Fui até as grades e o fitei suplicante. Malditas grades! Eu o queria tanto. Um minuto depois nos beijávamos apaixonadamente. Cansada e sonolenta fui para a cama e dormi durante quase todo o dia. Tive a impressão de ouvir conversas, sons de passos, mas estava sonolenta demais para entender o que ocorria. Mas pude perceber que Misha falava com alguém.

Quando a noite chegou despertei e estava faminta. Tentei esconder minha necessidade gritante por sangue. Mas era visível, estava muito pálida, agitada andando na cela de um lado a outro. Quando se é jovem sangue é uma urgência. Minutos depois ouvimos passos no corredor e logo Togo apareceu. Tive a esperança que ele trouxesse sangue consigo, mas ela morreu ao vê-lo de mãos vazias e acompanhado por meu antigo mestre.

Ver Virgílio me encheu de uma sensação estranha de medo e raiva. Recuei para o fundo da cela onde as sombras me esconderiam. Foi um instinto animal de sobrevivência e pouca lucidez. A vampira estava bem desperta e faminta. Pronta para o ataque.

Havia também um Pacificador, que fez menção de abrir a minha cela.

– Se fosse você não faria isso, é perigoso.

Togo que estava atento a minha atitude deteve o pacificador. Minha herança sanguínea tinha peso realmente. Ele fitou Virgílio e esse entendeu o recado.

– Vim buscá-la Isadora. – ele avisou com suavidade e altivez.

– Não vou a lugar algum em sua companhia. – minha voz estava calma e segura. – Peço que retire as acusações que nos fez. Eu sou livre desde o dia que me abandonou aos cuidados de uma bruxa. Lembra?

– Tem conhecimento das ordens do rei?

O líder da ordem dos Pacificadores me perguntou. Ele trazia nas mãos uma pasta antiga. Em sua face estava estampada imparcialidade, que costumava usar para resolver do mais simples, ao mais complexo caso dentro do mundo vampiro.

– Sim. Fui avisada, mas não vou acatá-las.

– Tem consciência de que pode ser punida por isso?

– Por quem? Pelo rei ou por esse ai que se diz meu mestre? – debochei e o vi semicerrar os olhos perigosamente.

– Por seu mestre primeiramente. – disse Virgílio do lado de fora da cela.

– Fiz minha escolha. Misha é meu novo mestre e amante.

Dizendo isso sai das sombras onde havia me ocultado e estendi a mão pelas grades. Imediatamente Misha a segurou me passando apoio.

– Podemos resolver isso pacificamente, Virgílio. – começou Misha dando um passo a frente para o olhar nos olhos. – Cuidei de Isadora e nos afeiçoamos. Não havia impedimento ou crime. Apenas deixe-me ficar com a guarda dela. O rei não fará objeções. – ele falou e olhou Togo.

– Não. O rei não faria nenhuma objeção. Na verdade tenho ainda os papeis comigo. Mas é claro, que Virgílio teria de dar seu sangue para protegê-la. Isso é simples. – Togo organizou tudo.

O vampiro olhou nossas mãos unidas e o seu desprezo era evidente.

– Vai protegê-la de Galeso? – ele quis saber com frieza.

– De qualquer um que a toque. – respondeu Misha seguro.

– Pensei que fosse mais realista lorde Misha – começou ele – Galeso sempre vai ver em Isadora uma forma de me ferir. Sem falar na herança sanguínea que ela carrega. – falava como se eu não estivesse presente.

– Posso viver sem seu sangue. O fiz por seis meses.

– Deveria deixá-la tentar. Mas não vou, Togo, faça cumprir meus direitos.

O líder dos Pacificadores suspirou de modo cansado, previa problemas. Deu um sinal e o pacificador se aproximou da cela abrindo-a. Tremi junto a Misha. O fitei em desespero.

– Virgílio seja razoável. – pediu ainda apelando. – Não a toque! – rugiu Misha furioso percebendo que ele não cederia.

– Não se aproxime! – falei me afastando de Misha para me esconder no fundo da cela.

– Isso pode ser feito de modo civilizado Isa. – começou ele há alguns passos de distância. – Você banca a pupila inteligente, esquece toda essa tolice e me segue. O que acha?

– Não me faça sua inimiga, apenas deixe-me ir. – pedi e fitei Misha.

Ele andava de um lado a outro da cela. Era um animal enjaulado e perigoso. Togo tentava acalmá-lo, mas era impossível. Ele tinha os caninos a mostra e os olhos dilatados. Sua face de vampiro estava a mostra sem retoques.

– Você é minha Isadora.

Dizendo isso Virgílio se deslocou na cela e me atacou. Um segundo estava livre e no outro, presa entre seus braços. Lutei e gritei, chutei. Mas ele me deteve facilmente, era meu mestre, tinha poder sobre meu sangue. Arrastou-me com ele para a luz e numa espécie de vingança puxou minha blusa e mordeu minha garganta. Gritei e o esmurrei, enquanto era drenada. Ele o fazia com os olhos presos em Misha. Ele exibia seus poderes sobre mim e afrontava seu rival. Um urro furioso ergueu-se da garganta do vampiro, que segurou as grades e as fez tremer sob seus golpes furiosos.

Sem forças me vi suspensa no ar, estava nos braços de meu antigo mestre e salvador. Lágrimas escorriam por minha face, queria estender a mão e tocar a de Misha estendida pelas grades. Mas não tinha forças, fechei os olhos e me entreguei à escuridão.

 

 

 

 

 

Anúncios