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Corri pela sala desferindo golpes com a espada, minha adversária se defendia e atacava na mesma proporção. Ela era muito boa. Dançávamos um bale leve e ágil, com nossas espadas tinindo pela sala. Nossa plateia assistia aquele misto de treino e combate com entusiasmo.

Vinte dias haviam se passado desde a visita do rei, desde o retorno desastroso de Virgílio. Não havia tomado nenhuma decisão, eu não estava com pressa apesar de me sentir pressionada, tensa e confusa com os sentimentos que me assaltavam. Misha cortejava-me, ensinava-me a dançar e lutar. Roubava-me beijos, falava de seu desejos. E isso me dava forças para apagar a presença de meu antigo mestre. Contudo era difícil quando seu coração e sangue lhe traiam. Provavelmente Misha sabia disso e não insistiu, apenas me mostrava como seria estar ao seu lado, sob sua asa protetora. Isso me fazia sonhar com uma relação duradoura. Apesar de sua posição dura como tutor não acreditava que a mantivesse, caso o escolhesse. No entanto, ficava o medo. Afinal como saber o que vai ao coração dos homens vampiros? Uma hora estava nos braços de Virgílio e no outro abandonada nas mãos de uma estranha.
Na sala de armas o rei estava sentado em uma cadeira no limite do tablado, com ele os meus tutores,e os fãs de Kara, a campeã do rei. Sim, eu estava lutando com a campeã do rei! Mas era algo amistoso, para trocarmos experiências.
Uma semana antes fui avisada por Misha, que ela queria me conhecer. Confesso que fiquei lisonjeada, já haviam me falado da vampira. Era excepcional, apesar de não ter sequer dez anos de vida imortal. Ela passou pelo menos um mês perseguindo um vampiro, que vinha atacando adolescentes e causando falatório entre os mortais. No fim ela o encontrou e matou. Mas isso era nada em comparação a ter liderado o ataque durante a guerra do Pacto no deserto. Valdés contou-me como ela havia conseguido participar do torneio e se tornar a mais jovem campeã.

A vampira veio como combinado e Marie a recebeu como uma velha e querida amiga. Fomos apresentadas e deixadas a sós para que conversássemos. A primeira impressão é que estava diante de uma deusa. A vampira era linda. Cabelos e olhos negros, corpo pequeno, não era alta, mas sua presença enchia uma sala. Usava roupas modernas, calças justas, o corset de couro marrom com fivelas delicadas estava sobre uma malha negra. E a deixava com um aspecto realmente esguio e poderoso. As botinhas de cadarço davam-lhe altura e certamente deixavam seus chutes mais fortes. Vestia-se como uma vampira, não como uma vampira tentando parecer uma mortal.

Por um momento analisei sua roupa de treino e me vi perto do seu estilo. Calça e malha negras, botas leves. Misha, fora ele que conseguira aquelas roupas para ela. Em dado momento Kara mostrou-me algumas de suas cicatrizes, enquanto falávamos de meu teste. Ela também enfrentara lobisomens. A campeã ficou fascinada vendo as linhas finas no meu braço. Tínhamos realmente muito em comum.

– Sou a primeira vampira com a qual tem contato? – perguntou Kara.

– Sim, vi algumas, mas não me aproximei. – a informei sem tirar os olhos de suas roupas e beleza. – Você é muito bonita.

– Obrigada. Mas você também é. Já se olhou no espelho recentemente? – comentou brincalhona. – ela tinha senso de humor.

– Eu sou muito pálida e desinteressante.

– Se comer assim que despertar, manterá cor na pele. Deixe alguma coisa a mão em seu quarto. Eu mantenho uma garrafa térmica. – uma boa dica. –Também pode usar um pouco de maquiagem, se quiser posso te ensinar como disfarçar alguns traços. –ofereceu gentil.

– Não tenho maquiagem. Aliás tenho poucas coisas, não pude fazer a mala e… Meu mestre me entregou a Marie. Foi algo inesperado. – fiquei em silêncio.

– Podemos resolver isso, venho te pegar amanhã para fazermos compras. –sugeriu animada. – Conheço algumas lojas que abrem toda a noite. Também podemos comprar pela internet, faço compras on-line o tempo todo.
Ela pareceu sincera, acho que precisava de amigos tanto quanto eu mesma.

– Eu gostaria muito, tenho algum dinheiro. – expliquei afinal tinha uma mesada de meus tutores.
– A mesada dos Poderes. Eu também recebo e meu salário de campeã. Mas esse eu não uso e minha aposentadoria. – bincou. – Não fiquei envergonhada, também fui abandonada pelo meu mestre. – ela falou tentando dar um tom comum a revelação, mas pude sentir no timbre de sua voz que havia dor oculta.

– É comum então? – quis saber imaginando por que um vampiro abandonaria uma vampira como aquela.

– Não muito. Mas acontece. – respondeu Kara andando pela sala.

– Gostaria de saber o motivo. – disse pensativa.

– O meu não revelou o motivo. Respondeu com meias verdades. – ela disse deixando claro que perguntas foram feitas.

– Não sei se o motivo é importante, mas gostaria de saber, visto que existe um castigo para quem o faz. Não foi nosso caso, fomos postas na porta dos poderes. Você voltaria para seu mestre? – perguntei e a vi me olhar de modo melancólico.

A vampira que andava pela sala há alguns minutos, sentou no sofá de seda cor de chocolate novamente e cruzou as pernas. Recostando-se nas almofadas bordadas e relaxou a cabeça, fitou o teto, mas vasculhava seu coração. Por fim me olhou e começou a falar.

– Não sei ao certo Dora. – começou brincando com um anel de pedra azul, que trazia no dedo anelar. – Eu perdi minhas lembranças, parte delas, não conte a ninguém, por favor. Como sabe sou a campeã do rei, perderia pontos.

– Não teria para quem contar mesmo que quisesse. Contudo, não se preocupe, prometo guardar seu segredo.

– Sofri uma espécie de choque e perdi parte das lembranças, meu mestre fazia parte delas. – falou e apoiou os cotovelos nos joelhos, os cachos escorregaram pelos ombros e face. – Sabe ele está na minha mente, lembro-me de algumas coisas e a intensidade delas. Se não fosse elas poderia sequer pensar nele. Mas quando as lembranças voltam me pergunto como algo tão intenso foi primeiramente esquecido. Dizem que foi o choque, e porque ele, que não as esqueceu, resolveu abrir mão delas, de minha pessoa?

A voz dela se tornou um pouco rouca e baixa, amarga. Ela sentia o peso do abandono tanto quanto eu. Isso doeu.

– Sim, porque fomos abandonadas. – falei e toquei seu ombro.

Ela olhou-me com seus olhos negros e brilhantes e sorriu tristemente.

Mudamos de assunto e naquele primeiro contato fomos para sala de armas. Ouvia os conselhos de Kara e acompanhava seus movimentos. Alertou-me sobre lutar de cabelo solto, ou  preso. Falou-me sobre um adorno com espinhos para colocar entre os fios de minha trança, que inibem puxões. Duas horas depois ela partiu e ficamos de nos vermos na noite seguinte. Como combinado ela apareceu e fomos às compras. Kara realmente sabia o que comprar e onde fazê-lo. Voltei cheia de sacolas e feliz como não me sentia há muito tempo. Ficamos amigas. As roupas novas chamaram a atenção de Misha de modo singular. Ele gostou das calças justas, as malhas que se moldavam as minhas curvas, e especialmente dos vestidos e os sapatos. Deixou isso bem claro, quando me parou no corredor e tocou a seda do meus vestido floral, a malha delicada do casaco leve que vestia foi seu segundo alvo. Estava indo para meu quarto dormir, enquanto lia um livro, que havia escolhido na biblioteca. Nunca lera tanto, a imortalidade, a natureza de um vampiro precisa desesperadamente de algo que as preencha. Os livros são incrivelmente nutritivos para cérebros ávidos. Ergui os olhos em tempo de não colidir com Misha, e me vi em seus braços. O livro era a única coisa que separava nossos corpos naquele momento.

Ergui os olhos e encontrei os seus. O rosto forte, bonito, de linhas tão frias, mas ao mesmo tempo tão belas. Acho que entreabri os lábios, porque ao sentir sua boca sobre a minha gemi. O sabor de sangue era real, havia se alimentado recentemente. Sangue quente e vivo, tirado das veias de alguém. Aquilo me fez retribuir instintivamente.

– A campeã do rei sabe como fazer algo se tornar mortal. – se referia a meu vestido.

As mãos dele estavam sobre a seda na altura da cintura. O casaco leve que cobria meus ombros não era barreira para os dedos de Misha. O beijo veio cálido e doce sobre meu ombro e pescoço. O livro caiu de minhas mãos. Ele afastou a boca de minha pele e deslizou a cabeça lentamente, me olhou e depois ao livro. Abaixou-se e sem desviar a vista subiu com o livro entre as mãos.

– Preciso ir…

– Dora não fuja. – pediu e me segurou delicadamente. – Tem pensado em sua escolha?

– Sim. – consegui dizer, mas não o olhei.

– E?

– Não decidi ainda. – disse sincera.

– É um passo importante. – as mãos dele estavam em minhas costas. Podia sentir o peso, o calor suave dos dedos. – Eu tenho muito a oferecer Dora. Você me fez mudar. – falou tocando meu queixo com beijos.

– Que bom. – disse sentindo que tomaria minha boca novamente.

– Quero cuidar de você. Jamais vou lhe abandonar.

O beijo foi mais intenso e me comprimiu contra a parede, o livro caiu novamente de minhas mãos. O que havia comigo? Desejo? Sim,muito e Misha estava me enlouquecendo noite após noite com seus ataques. Ele me queria e muito. Não só como aluna, como mulher. Respeitava meu espaço, mas quando o desejo o sufocava ele me cercava e tomava o que desejava. Os beijos em minha garganta fizeram-me ansiar pela mordida. Meus olhos estavam dilatados, os caninos sob os lábios exigiam carne e sangue…

Empurrei Misha e corri para meu quarto. Estávamos sendo observados. Na outra ponta do corredor Virgílio apareceu, pude ouvir seu coração, sua raiva e ciúme. Fechei minha mente. Kara me ensinou alguns truques e vejam só! Foram úteis. O que ele queria de mim afinal?

O amor podia se transformar em ódio. Depois de sua aparição Virgílio foi levado a presença de Ariel. Ele estava de roupão e não gostou nem um pouco de ser incomodado, após ter se recolhido com sua convidada, uma jovem mulher chamada Janine. Ele não tinha um caso com Marie. Tratava-a como uma filha. Ela apenas o ajudava a manter seus encontros com aquela jovem mulher. Ela era enfermeira e ficou a minha cabeceira, enquanto me recuperava. Fora Pacificadora e agora trabalhava com o doutor Joshua, na recém-criada enfermaria.

– Foi dor na consciência ou simplesmente percebeu o quanto foi idiota?

O rei quis saber sentando-se na poltrona do quarto para observar o vampiro. Virgílio viu as roupas femininas no chão, a cama desfeita. O maldito invadiu a casa de Marie e violou o selo real. Um sinal posto somente para os olhos dos inscritos no Livro, avisando que a casa é proibida para imortais.

– Conhece minha história, porque a deixei…

– Responda a pergunta. – o rei rugiu com voz firme e alta.

– Eu… Eu…

– Vamos Virgílio, não é tão difícil dizer as palavras. – começou Ariel. –Está vendo esse anel. – falou e mostrou seu dedo onde o símbolo de seu poder repousava rubro. – Ele jamais me impediu de amar. – foi sincero. – A imortalidade é um abismo frio e silencioso, que só ganha calor e som com a presença dos que estimamos. Agora fale! – exigiu o rei sem nenhuma paciência.

– Eu a amo e a quero de volta.

– Ah! Sim, claro. Um idiota. – disse Ariel. – Procure Togo, peça direito a visitas. Mas Dora decide se deseja vê-lo ou não, afinal ela não ficou nem um pouco animada com seu retorno. – debochou o rei – Como diria Antoine, tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Sinto saudade dele. Agora vá, antes que eu mude de ideia e mande que o prendam por violar um selo real. O vampiro foi conduzido para fora e o rei esperou junto a porta já fechada. Foi quando sentiu as mãos de Janine o puxando para o leito.

Agora Virgílio podia visitá-la uma vez por semana. Mas se ela não quisesse vê-lo ele teria de partir. Misha tentou impedir as visitas, mas a lei era clara e o favorecia.

O recebeu nas últimas semanas, mas não queria que ele a lesse, a cortejasse. Estava furiosa com ele, frustrada. Repeliu suas investidas e o lembrou do abandono sofrido e ele reagiu como de costume a olhou e partiu em silêncio.

De volta a sala de armas. A luta era amistosa, não visava melhor ou pior. Kara estava vencendo, não poderia vencê-la, mas estava aprendendo com aquela luta e ate certo modo proporcionando um excelente combate para ela e aos que nos assistiam.

Ambas davam o melhor de si e em dado momento Kara e Isadora sorriram animadas. Os vampiros na pequena plateia aplaudiam os golpes, apostavam, riam e bebiam sangue servido pelos criados.
A luta estava bem equilibrada, Kara me deixava crescer nos movimentos e dava dicas, enquanto as espadas se chocavam.
Sequer podiam imaginar como eram encantadoras lutando com tanta graça e força. Os corpos delicados, a beleza de seus movimentos. Pernas, braços e seios. Os cabelos flutuando, enquanto as lâminas cortavam o ar ruidosas.

O olhar do rei estava sobre Kara . Ele tinha a mão no queixo, o dedo indicador acariciando o lábio. Um brilho misterioso nos olhos cor de jade. Trazia o cabelo preso por uma fita de veludo negro aquela noite. Vestia jeans, camiseta e um casaco até a cintura, bordado em fios de ouro velho. Parecia um toureiro. A o brinco na orelha esquerda já era parte de seu estilo selvagem e moderno, a eleita aquela noite fora uma pérola imperfeita e rara. Misha não estava diferente dele, o olhar estava preso em sua aluna. Não conseguiu ficar sentado para assistir. Andava de um lado a outro observando atento, estudando seus movimentos e golpes. Valdés via sua atitude com mais tranquilidade, era aparente que estava ligado a Isadora, que a desejava e não sabia lidar bem com tais sentimentos. O tempo de Isadora estava se esgotando, logo teria de escolher seu mestre. Desconfiava que ela o escolhesse. Os observou e notou que ela o admirava, e até certo ponto o desejava. Ele estava caido de amor. Já haviam presentes, um quarto em sua casa e sabe mais Deus o que!
A presença constante de Virgílio, que arrependido tentava conquistar o que descartou com tanta facilidade, confundia Isadora. Temia pelo coração de Misha. E se ela o recusasse? Se a voz do sangue falasse mais alto. A porta da sala se abriu, o pacificador deixou Virgílio entrar. Ver Isadora lutar o fez sorrir suavemente admirado.A viu matar seus agressores na noite que a imortalizou.No entanto, aquilo era poesia! Ela era muito boa e lutava com uma das vampiras mais fortes e poderosas daquele século, a campeã do rei. O seu olhar buscou o dela, o que a fez perder a concentração. Isadora recebeu um golpe de raspão e gemeu de dor de modo involuntário.

Kara recuou e a viu Isadora acenar dizendo que tudo estava bem. Mas não estava, a presença de Virgílio a incomodava e feria. Voltaram a lutar, mas ficou claro que ela perdera o foco. No meio de um movimento ela sentiu um repuxam no peito, o braço pesou, a espada caiu. Kara fitou a vampira cair sobre o tablado e correu para ajudá-la. Estava pálida e seu corpo enrijecia. Kara conhecia aquele estado, se colocou nele quando fora capturada pelo meio vampiro filho de Otávio. As lembranças a fizeram tremer e antes que pudesse entender o que ocorria desmaiou. A sala se tornou um caos.

Ariel Simon se aproximou de Kara e a tomou nos braços e viu sinais preocupantes. Manteve a calma e a tirou da sala. Levou consigo rumo ao seus aposentos naquela casa. Isadora estava nos braços de Misha, mas ele teve de recuar para que Virgílio cuidasse de sua cria. Aquele era seu primeiro episódio. O que mostrava que ela não estava livre da maldição de seu mestre. Ele cortou o pulso e a alimentou. As gotas de sangue rubro coloriram os lábios carnudos. O estado de palidez marmórea se desfez lentamente e logo ela pode ser tomada nos braços e levada para seus aposentos. Mas quem o fez foi Valdés. Ele passou a frente dos dois vampiros e evitou um confronto eminente pelo ciúme e pelo amor.

 

 

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