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any_passig_gemacht_by_enaston-d7mwupyQuando Isadora saiu da sala Misha e Valdés discutiram. Ariel Simon sentou e o criado o serviu de mais um cálice de sangue, enquanto ele observava os dois amigos colocarem a raiva para fora com uma calma invejável e desconcertante. Aquele era o rei.

– O rei o mandou testá-la, não mata-la. Você sequer a preparou para o que ia acontecer. Foi cruel, irresponsável.

– Era um maldito teste, se lhe desse as respostas como saberíamos se ela realmente tem poder? – o Russo defendia sua atitude mais uma vez.

– Misha já foi punido por sua falta de habilidade em executar o teste Valdés.

Comentou Togo passando aos três vampiros seus pedidos oficiais de guarda para que assinassem. Assim quando a vampira decidisse um deles teria a assinatura dela e de seu novo mestre. Eles assinaram na mesinha mais próxima e devolveram ao vampiro.

– Ela conseguiu… – começou Misha.

– Poderia estar em pedaços… Correção ela ficou em pedaços. Maldito seja Misha, eu pedi que cuidasse dela. – o vampiro ainda estava indignado.

– Ele recebeu ordens do rei. – falou Marie defendendo o amigo, enquanto tocava seus ombros e se colocava entre ele e Valdés apaziguadora.

– Não mandei que a matasse. – defendeu-se Ariel sorrindo misterioso para Misha.

– Ela é muito forte e capaz. – disse sem saber como explicar sua atitude.

O que Misha não revelou é que ao entrar no quarto da vampira aquela primeira noite e vê-la dormindo sentiu-se tocado por sua beleza. A desejou de imediato. Ela estava tão vulnerável entre os lençóis, seu cheiro no ar do quarto. No meio da imortalidade e da humanidade. A admirou por incontáveis minutos e chegou mesmo a tocar seus cabelos e a quis. Por que ela o tocou? O que ela tinha de tão especial? Uma recém-nascida abandonada, sem instrução, tão humana que ainda cheirava a sangue e vida!

Depois de amar Beliza e perdê-la se prometeu viver sem amor. Mas não fora covarde como Virgílio, jamais abandonaria sua cria. Ainda mais uma tão bela. Desejo? Sim, o mais puro desejo. A raiva o dominou e antes que percebesse a atacou. Saiu de suas lembranças e ouviu Valdés ainda enraivecido.

– Ela abriu uma reclamação? – Valdés quis saber.

– Isadora recusou esse direito. – respondeu o fitando com aborrecimento. Estava cansado de suas acusações.

– Ela não sabe o que faz, é muito jovem para compreender o que lhe foi feito. – replicou andando pela sala.

– Ai está seu engano. – começou o rei. – Aquela jovem vampira pode ser inocente em alguns aspectos, mas tem bastante juízo. Ela sente, compreende que está sendo testada e observada, apesar de sua insegurança.

– Quem não ficaria? – começou Marie entrando no dialogo. – Virgílio agiu como um idiota a abandonando. Tudo que ela tem feito é passar de mão em mão. Sente-se rejeitada, achou que a mandaríamos embora. Pobre criança. – comentou a bruxa na mesma língua, afinal Isadora não podia ouvir aquela conversa.

– Por que aceitou ficar com ela? – quis saber Romano.

– Virgílio chegou com ela desacordada e me implorou que tomasse conta dela. Galeso o chantageou, não pude me negar. Jamais o tinha visto tão transtornado.

– Você agiu bem Marie. – comentou o rei tocando sua mão. Ela havia se sentado ao seu lado. – Ele me ligou na noite seguinte e explicou os acontecimentos. Só não compreendo porque não a deixou sob custodia. Por que a abandonar?

– Ele sempre foi avesso a crias. – disse Togo organizando os pergaminhos assinados. Agora sabemos o motivo.

– De fato. – comentou Romano. – Ela tem muito poder nas veias. Pergunto-me se saberá lidar com ele. Estar-se-á livre do mal de sua herança sanguínea.

– Se Virgílio conseguiu ela conseguirá. – disse Valdés esperançoso.

– Ame com cautela meu querido Dom Valdés. – começou Ariel. – Sua irmãzinha terá de enfrentar grandes inimigos. Não quero que perca sua estabilidade se ela…

– Ela vai conseguir meu rei. – disse tomando a mão de Marie para beijar. Estava de partida.

– Valdés, quando vai me perdoar?

Misha quis saber o olhando com esperança contida.

– Então existe culpa? – o vampiro moreno e valoroso disse se retirando com um cumprimento cavalheiresco para seu rei.

– De um pouco de tempo a ele – disse Ariel – Sabe como é susceptível a jovens vampiras. Valdés precisa encontrar companhia. – disse o rei pensativo.

– Sim, e bem depressa. Aquelas facas não são boas companhias. – comentou Romano. – Mas o que toca seu coração? – se perguntou o vampiro.

– Facas? – brincou Ariel.

A reunião chegou ao fim e Ariel Simon ficou sob o teto de Marie aquela noite. Romano também, na noite seguinte daria aulas para Isadora e faria sua proposta oficial a ela. Seria bom tê-la como pupila, mas não teria chance, a julgar pelo modo como fitava Misha, ela logo cederia. Havia muita tensão entre eles. Era visível. Ela parecia confusa, até mesmo assustada, dividida por sentimentos conflitantes. Preparava-se para dormir quando seu celular tocou. Fitou a tela e se preocupou, atendeu e começou a falar em árabe.

– Como vai velho amigo?

– Não muito bem. – respondeu Virgílio. – Poderia me encontrar aqui fora?

Minutos depois Romano saiu pela janela e foi para o telhado. Virgílio o esperava junto ao parapeito. Romano se aproximou e eles se cumprimentaram com um abraço.

– Muito tempo.

– Sim, cinquenta anos?

– Exatamente.

– Mas porque não entrou?

– Não lhe parece óbvio?

– Não. – disse o vampiro sentando na borda do telhado. – Você criou uma vampira, a fez sua amante e a abandonou. Isadora tem beleza, potencial e poder nas veias. Ainda não exibiu os sintomas, se é o que veio saber. – comentou o vampiro.

– Cometi um erro criando-a. – falou baixando a vista.

– Não creio, ela é magnifica, inteligente e forte.

– Sim, e pode enlouquecer. E sim, novamente, eu soube do teste. – explicou ele num suspiro.

– O que o trouxe de volta? – questionou Romano.

– Quero que tome a tutela dela em definitivo. – disse seguro.

– Você não pode sequer vê-la agora, quanto mais escolher seu tutor. Você abandonou-a, quando a entregou a Marie a fez menos que um mortal. – acusou Romano.

– Estava desesperado. Galeso a raptou e foi por muito pouco, acredite-me. – a voz dele tremeu e Romano achou já ter visto aquele ar de louco na face de Misha.

Quando Isadora caiu na arena de terra feita em tiras pelo lobisomem, Misha percebeu o que fez, o que vinha fazendo. Uma noite depois do ocorrido foi chamado por Marie. Misha não saiu do lado do leito da vampira, que mais parecia feita de papel. Estava sujo de sangue com ar de louco. Entrou no quarto e foi recebido pelo vampiro que tinha uma adaga nas mãos. A mesma que ela usou para se defender do lobisomem.

– Como ela está?

– Ela vai ficar bem, vai ficar. – disse numa segurança trêmula e duvidosa.

– Sim. Ariel está vindo de Las Vegas para oferecer sangue para ela.

– O meu está sendo testado, vou dar tudo a ela. – explicou certo de que seu sangue a curaria.

– Misha, precisa se cuidar, não comeu ou dormiu. Quando ela despertar precisa…

– Ela precisa de mim. – foi frio e seguro. – Sou seu tutor. – explicou feroz.

– Sim. Vai deixar que ela o veja nesse estado?

O vampiro se olhou, as mãos primeiramente. O sangue seco, a adaga, por fim as roupas. Era o sangue de Isadora. Pareceu despertar do transe, do choque.

– Ela estava com muito medo. – começou ele falando muito baixo. – O rei me pediu que a testasse, mas não disse como. Ela precisava ir ao limite… Foi quando pensei nos lobos, seu sangue, a porção. – ele parou. – Desirée e eu os caçávamos antes do pacto. Ela usava uma faca, somente uma faca. – ele cobriu o rosto com as mãos.

– Achou que ela conseguiria o mesmo? – quis saber Romano tentando entender porque ele fora tão duro com aquela vampira. Compará-la a sua mestra Desirée era algo temerário.

Todos tinham seus traumas e lembranças do passado. Mas ao que parecia Isadora tocou fundo nos de Misha. Certamente ela o desafiou, isso era bem certo. Enquanto dava-lhe aulas sobre as leis notou sua inclinação a rebeldia, sua força de caráter.

– Sim, ela é muito forte. Mas foi muito cedo. – lamentou com os olhos febris presos na vampira inconsciente no leito.

– É, mas é uma criança e estava sob nossa responsabilidade.

Romano o lembrou tentando trazê-lo de volta a superfície. Ele estava em um abismo negro de dor e culpa. Era perigoso para um vampiro velho se deixar sucumbir assim.

– Quase a matei. Como pude achar que ela seria como Desirée? Era diferente, sua natureza não era nada que conhecêssemos bem. Isadora é… Delicada e eu a machuquei… – ele segurou sua mão sobre o leito e a levou aos lábios de modo reverente.

O que houve com o velho e frio Misha? Estaria apaixonado? O amor era uma armadilha sinistra e de grande poder.

– Ela vai ficar bem. Mas você precisa reagir Misha.

Ele se curvou sobre a cama e beijou sua testa e saiu do quarto sem dizer uma palavra.

Romano voltou sua atenção para Virgílio e resolveu falar o que estava engasgado em sua garganta.

– Ela é uma vampira doce e espantosamente inocente. Sabe quantas vezes a vi esconder lágrimas, que certamente foram por sua ausência? Inúmeras vezes.

– A estou protegendo. – ele tentou se justificar.

– É um modo estranho. Felizmente ela se recuperou e vai seguir em frente. O rei vai lhe dar a chance de tomar parte de sua guarda pessoal. Ela vai escolher um mestre em um mês.

– Não, isso não! É muito perigoso. – reclamou Virgílio em alerta.

– É um bom modo para ela usar seu poder. – explicou Romano observando o vampiro preocupar-se com os rumos dos acontecimentos.

– Peço-lhe, tome a guarda de Isa e não permita que ela aceite o convite do rei ou o de Misha. – exigiu Virgílio.

– Ela já aceitou, Virgílio. Já me ofereci, mas acho que ela não me escolherá. Misha fez o convite e a quer como pupila e amante. Nada mais os liga, afaste-se e deixe-a viver o presente da imortalidade que lhe deu.

O olhar do vampiro escureceu e aquilo certamente era ciúme e raiva. É, Ariel muito em breve teria de lidar com um duelo. Pois era o único modo de Virgílio ter sua pupila de volta. Pediria aos seus pretendentes que declinassem e enfrentaria aquele que não recuasse.

– Então veio aqui pedir que proteja sua amante? – perguntou Romano.

– Ela não é mais minha amante. – disse resignado.

– Você a ama, por que mantém esse orgulho? Por que a machucou tanto?

– Eu não… Não suportei a dor. – a voz dele estava presa na garganta. – Quando percebi que a perderia eu senti meu coração se contrair e sangrar… Ela era mais importante que minha vingança contra Galeso, nada mais importava. Não posso lidar com isso, vai me destruir. Tenho de matar Galeso.

– Você deu a ele trégua em troca da vida de Isadora e o está caçando? – perguntou surpreso com sua atitude. Ele mantinha sua palavra e seguia as leis. Aquilo era novo.

– Ele não pode continuar vivo, não depois de tocar em Isadora. Ela se transformou em um alvo, em minha fraqueza. – tentava justificar sua quebra de conduta.

– Ela tem um tutor valoroso e que odeia Galeso tanto quanto você. Apenas vá embora. Deixa crescer em paz, deixa escolher um novo amante.

– Tome-a como sua pupila. – ele pediu ansioso.

– Caro amigo, nada vou lhe prometer, Isadora pode e vai escolher sozinha. E você trate de se afastar e engolir seu ciúme.

Dito isso Romano voltou para dentro do prédio e deixou Virgílio a mercê de seus pensamentos nada organizados. Um pouco de confusão lhe faria bem. Isadora ficaria melhor sob a proteção do amor de Misha. Nem sempre aquele que gera é a melhor escolha.

Como uma sombra Virgílio entrou nos aposentos de Isadora. Usou uma passagem secreta que Marie lhe mostrou anos atrás, caso precisasse de um esconderijo, esgueirou-se pela casa e entrou no quarto. Os Pacificadores não o viram ou sentiram.

Isadora dormia no leito tento um livro sobre o peito. Depois da separação só a viu mais uma vez, ela estava em companhia de Valdés caçando. Observou-a por alguns minutos e partiu da cidade. Revê-la depois de tanto tempo foi doloroso. Havia mudado, estava mais forte, seu sangue a fazia amadurecer como vampira. As características tornavam-se mais evidentes, seu cheiro estava diferente, mais forte e embriagador. Aproximou-se do leito, se mantinha praticamente invisível para ela. Sua faradisa dormia lindamente. Desejou tomá-la nos braços e a possuir, cobrir seu corpo com beijos, ouvir sua voz sussurrando seu nome quando atingisse o êxtase.

A camisola de linho e renda era magnifica e recatada. Tocou o tecido suavemente, precisava dela nua sob seu corpo, sob seus dedos… Sem se conter nem mais um momento avançou no leito e a beijou.

Despertei sob a carícia da boca de um vampiro. As mãos exigentes tomando meu corpo. Recuei na semi-escuridão  e vi Virgílio.

– Escolha Romano, minha faradisa. – o tom era de ordem.

Não era justo! Não agora que ansiava por uma nova vida longe das lembranças do amor frágil e cruel, que ele lhe ofereceu. O empurrou e o surpreendeu. Pegou a espada que repousava sobre a cama onde antes ele estaria e a apontou para o vampiro.

– Saia! – ordenei segura, mas ferida em meus sentimentos.

– Não ouse me enfrentar minha Isa. – ele tentou dar-me ordens?

– Não ouse você. – disse-lhe furiosa e de espada em punho.

– Isa… – pude ver em seus olhos a incredulidade.

– Fora!– gritei sem me importar com todos que poderiam ouvir na casa.

Não podia fraquejar, não depois de ser abandonada, entregue a outra pessoa como um trapo velho. Não depois de tantas promessas quebradas. Ele fora cruel e eu lhe devolveria na mesma proporção. Apontava a espada para ele.

A porta se abriu e Misha apareceu. Estava de camiseta e jeans negros, descalço, cabelos em desalinho. Ele sentiu o medo de Isadora agora que seu sangue corria em suas veias. Seus sentimentos para ele eram tão reais quanto o toque de suas mãos. Reconheceu Virgílio e ficou surpreso por vê-lo.

– Sua presença não é bem vinda, na verdade, proibida. – começou Misha. – Devo mostrar-lhe a saída? – perguntou o russo baixando a espada que trazia nas mãos.

– Pretendo, antes de sair, conversar com a vampira. – disse Virgílio sugerindo com o olhar que devia aceitar.

– Não temos nada para tratar monsieur. – falei friamente contendo minhas emoções.

– Peço que repense sua decisão. – pediu confiante.

– Melhor que vá embora monsieur, como já lhe disse nada temos para falar. – ele precisava sentir minha dor através de minha determinação.

– Não banque a criança. – começou ele impaciente.

– Fui drogada e abandonada pelo meu criador. Apesar de ter o sangue dele nas veias, em meu coração alimentando minha imortalidade, não pertenço mais a ele. – falou guardando a espada. – Deixe que lhe apresente meu tutor e mestre.

Dito isso olhei para Misha que com um aceno de cabeça deixou claro que concordava com minha posição.

– Voltarei amanhã, nós precisamos conversar. – disse Virgílio no meio do caminho para a saída.

– Mestre ­– começou Isadora – Peço-lhe que me permita recusar tal visita. – ela falou e sua voz quase tremeu.

– Concedido. – Misha respondeu de imediato. – Peço que não insista Virgílio ou terei de proteger minha pupila.

– Pedirei permissão ao rei. Somente ele me impedirá de lhe falar Isa.

– Conhece as leis. Se o mestre não permitir, nem mesmo o rei terá o direito de intervir. – o russo disse dando um passo a frente de modo a proteger sua pupila.

Os ânimos se alteraram no quarto.

– Não deixe a sensação de um prazer jamais provado subir-lhe a cabeça Misha. – debochou o vampiro semicerrando os olhos.

O vampiro avançou tão depressa que sacudiu os meus cabelos soltos. Virgílio estava grudado à parede, contido por Misha que tinha sobre sua garganta a espada.

– Quem começou esse jogo foi você. Mas quem vai terminar ele será Isadora quando ela decidir quem será seu mestre. – dito isso ele o soltou e abriu a porta chamando os Pacificadores no corredor lateral.

– Eu preciso me explicar Isa.

Virgílio estava a minha frente, os olhos nos meus. Podia sentir o toque de sua boca, de suas mãos sobre minha pele. Recuei e fui até a mesinha de cabeceira e ele confiou esperançoso.

Quando voltei com um pedaço de papel o entreguei a meu antigo mestre e amante, meu coração batia descompassado, ferido.

– Acho que isso vai refrescar sua memória e evitar que perca seu tempo.

O vampiro olhou o papel e o reconheceu um minuto depois. Era a carta onde se despediu dela com tanta frieza. Não precisou ler, sabia o que estava escrito, cada palavra. Guardou o papel consigo e saiu do quarto. Os pacificadores o esperavam no corredor assim como Romano e Marie.

Ele foi levado certamente para a presença do rei. A porta se fechou e Misha se aproximou pronto a me tocar.

– Você está bem?

– Saia, por favor. – pedi a Misha que tinha a mão estendida para meu ombro.

– Ele não vai lhe ferir outra vez. Não permitirei…

– Deixe-me sozinha.

Pedi com a voz presa na garganta, continha as lágrimas a muito custo. Não queria chorar em sua presença. Fraquejar diante dele seria humilhante. Ele não se moveu por mais um minuto. Podia sentir minha dor? A agonia que experimentava? Deu a volta e saiu fechando a porta atrás de si. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro e sentada na banheira sob o jato de água quente chorei e lamentei por meu coração partido. Chorei por tudo que não mais podia ser.

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