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vampira.bmpA reunião na sala de visitas estava singular. Nunca tinha visto tantos vampiros reunidos. Bem, no Coucher du Soleil haviam muitos, mas não numa mesma sala, como agora. Eram tão belos ali reunidos. O rei, sentado na poltrona junto ao fogo numa posição de destaque, Romano a sua direita, Marie estava a esquerda do rei. Misha estava próximo a porta, enquanto Valdés estava no sofá ao lado de Togo. O clima entre ele e Misha ainda não havia melhorado. Lamentei por isso.

– Seja bem-vinda Isadora – disse o rei com amabilidade.

Entrei na sala e vi o criado do rei fechar a porta atrás de mim. No corredor os dois Pacificadores estavam de prontidão.

– Boa noite Majestade.

Todos sorriram, os caninos aparecendo entre lábios sedosos, pálidos. O único que não sorriu foi Togo. Ele era difícil de contaminar mesmo com ebola, se me entendem.

– Para nós é bom dia. – esclareceu Ariel Simon.

– Eu não sabia… Bom dia. – disse e eles sorriram um pouco mais.

– Vamos rapazes, ela está virando um tomate. – disse Marie que veio para meu lado. – Isadora, quero lhe apresentar o rei dos vampiros, Ariel Simon. Os demais você já conhece. Venha sente-se aqui. – ela me conduziu e sentei no sofá.

Agora estava de frente para todos eles.

– Sabe temos uma grande amiga chamada Isadora, ela é companheira de Tiago, nosso comediante. – lembrou o rei observando a jovem vampira, enquanto recebia um cálice de sangue das mãos do criado. – Então vou te chamar de Isa.

Era como Virgílio me chamava e não queria me lembrar dele.

– Ela prefere Dora – disse Misha antes que eu falasse.

– Dora então. – comentou Ariel observando o vampiro de modo misterioso.

– Sim majestade, eu prefiro Dora. – murmurei e vi um olhar de repreensão de Togo. Acho que não devia ter me dirigido ao rei.

– É perfeito. Agora temos que conversar. Hoje é uma noite muito importante.

Eles bebiam sangue em taças escuras e pareciam bem à vontade. Misha parecia distante, até tenso, algo novo para observar em sua postura visto, que agia como um bloco de gelo diante de minha pessoa.

– Filha de Virgílio – disse o rei analisando minha figura. – Ele sempre foi muito cuidadoso quando se tratou de gerar herdeiros de seu sangue e agora vejo o motivo.

Olhei em volta sem entender bem e como o rei esperava uma resposta falei:

– Diz isso por ter sobrevivido à prova do lobisomem?

Recusei um cálice de sangue. Estava ansiosa, não queria vomitar. O criado do rei era um jovem de cabelos loiros e presos num rabo de cavalo. Silencioso e atento a cada movimento de seu senhor e sempre pronto a sair da sala, para só voltar no momento exato.

– Considerou uma prova? – perguntou Romano.

– Desde o primeiro momento… Pareceu que estava sendo testada. Ele foi muito… Exigente. – baixei a vista.

– Precisávamos saber até onde poderia suportar. – disse Misha quase se sentindo culpado.

– Agora sabemos que exagerou. – respondeu Valdés.

– Estou muito bem, venci o lobisomem… Posso me defender. Isso foi bom para minha confiança.

Enquanto falava calei todos. O rei me fitava atento, calmo, como se já esperasse minha reação.

– Poderia ter morrido. – insistiu Valdés.

– Sim. Mas sobrevivi e estou pronta para partir.

– Parti? – o rei perguntou.

– Não é o que querem me dizer, que devo partir. – expliquei sincera.

– Modere-se. – o líder dos Pacificadores avisou frio.

– Desculpem-me.

– Não há porque se desculpar.

A sala ficou silenciosa e sem querer toquei a cicatriz em minha mão. Um risco branco sobre minha pele. Podia sentir as presas da fera dilacerando minha carne, enquanto o apunhalava. O sangue quente pingando sobre meu rosto. Afastei as lembranças e percebi que eles olhavam-me como se fosse uma tela onde podiam ler minhas menores emoções. Ouvia meu coração agitado. Sim, estava batendo outra vez.

– Misha foi enviado para testá-la. – disse o rei sem nenhuma emoção na voz. – Virgílio é um dos mais velhos entre nós.

– Sabe o que significa? – perguntou Togo testando meus conhecimentos e as aulas de Misha e Romano.

– Para receber a alcunha de mais velho é necessário ter oitocentos anos ou mais. Ele possui nas veias o sangue mais puro, mais antigo. Dos primeiros vampiros. – fiz uma pausa. – Daqueles que estavam mais próximos a nossa criação.

– Vejo que é uma excelente aluna. Não me admira Misha tê-la elogiado, ele faz isso a poucos.

A oferta de Misha voltou a minha mente. Nossos olhos se encontraram. Um lago frio, congelado, mas capaz de fazer meu corpo se aquecer, virar cinzas. Fechei os olhos e lembrei-me de sua visita, uma semana depois que despertei do ataque.

Estava lendo um dos livros para minha educação, quando ele pediu para entrar. Andou pelo quarto, observando-me no leito em repouso. Minha perna ainda doía, os músculos se reconstruiam.

– Como se sente? – perguntou analisando meu rosto.

– Melhor. – resumi tudo me sentindo desconfortável com sua presença.

– Precisa de alguma coisa? – quis saber olhando os livros, minhas anotações.

– Não. – disse passando a página mesmo sem conseguir terminar de ler.

– Trouxe algo especial para você. – anunciou e deu um passo em direção ao leito.

Ergui os olhos para ele e esperei. Olhei suas mãos vazias, eram bonitas, longas, fortes. As unhas estavam bem aparadas. Vestia uma malha cinza, calças negras, sapatos de cadarço. Não tinha trazido nada.

– Togo fez uns testes. Seu sangue, o meu. Posso cuidar de você plenamente. – uma frase estranha.

– Desculpe-me, não compreendi. – disse quase ciente do que ele tentava dolorosamente explicar. Não ia facilitar para ele, não era merecedor.

– Posso curá-la mais rapidamente se beber de minhas veias.

– Não é necessário. Estou muito bem.

Respondi seca. Depois de ouvi-lo falar e olhar para meus lábios como se já os sentisse sobre sua carne. Meu coração disparou no peito. O livro em minhas mãos era um bote salva-vidas onde me segurava.

– Peço que aceite. – mais um passo.

Estava ao lado da cama e me observava fixamente.

– Está muito pálida, precisa beber do sangue mais antigo. Sou o mais próximo a sua linhagem, tenho mais de cinco séculos.

Ergui a vista e seus olhos me colheram, envolveram numa carícia delicada. Desviei a vista e fitei as letras do livro e por fim o fechei. Era mais fácil quando ele bancava o mestre e me atacava.

– Sei que lhe devo obediência e respeito. Então não me castigue pelo que vou dizer. – comecei. – Não quero sua pena, seus favores, seu sangue. Você fez o que um mestre faria…

– Virgílio jamais a machucaria. – soltou secamente.

– É o que acredita? Por que acha que ele não me machucou?

– Tenho certeza que ele não a fez enfrentar um lobisomem apenas com uma faca.

– Ele me abandonou e sequer me deu uma faca. – disse o enfrentando. – Estou bem e vou me curar, não preciso que tenha pena de mim.

– Não tenho pena de você.

Ele se aproximou depressa demais. Sentou na cama e tocou meu rosto com os dedos longos, tépidos.

– A admiro e vim aqui alimentá-la. Não sairei ate que o faça.

A situação era nova e inquietante tentei sair do leito mais ele me deteve com um beijo. As duas mãos em meu rosto, os lábios pressionados contra os meus. Soltei um som sufocado de surpresa e segurei sua mão. Um movimento depois e ele devorava minha boca. Confusa, senti o sangue correr mais depressa por minhas veias. Ardia num fogo lento e abrasador. Sua boca sobre a minha era uma tempestade de desejo.

– Quero que me aceite como seu mestre de forma permanente. – murmurou junto aos meus lábios.

– Eu…

– Venha, beba. – dito isso cortou o pulso e levou aos meus lábios.

Segurei seu braço forte entre as mãos e suguei com fome. Houve uma onda de eletricidade, o sabor era rico e doce. Fechei os olhos, estava imersa, envolvida pelo gosto. Mas Misha me olhava seduzido e a cada gole e puxão ele sorria. Mas a lembrança de suas ordens, do modo frio como me tratava… Recuei e foi como saltar de um prédio. O choque nos sentidos foi intenso.

O vi de longe e apenas me recostei nos travesseiros e um minuto depois apaguei.

Misha ficou ao meu lado, seu sangue corria por minhas veias de forma dominadora, varrendo minha ligação com Virgílio, destruindo laços, construindo novos, enquanto ele acariciava meus cabelos e rosto. Despertei somente na noite seguinte e estava completamente recuperada, podia andar normalmente, até correr se quisesse. Sorri sozinha na sala de treinamento e percebi, que não me sentia mais tão triste, nem tão gelada.

– Vai pensar no que lhe propus?

Misha apareceu as minhas costas e quando me virei ele estava com roupas antigas. Calças, justas de montaria, botas, camisa de linho negro. O que ele queria? Bancar o príncipe encantado comigo?

– Eu não sei bem o que deseja. Já é meu tutor. – expliquei me secando com a toalha.

– Sim, sou, mas de modo provisório. Quero ser seu mestre e amante. – disse sem rodeios aproximando-se, enquanto eu recuava.

– Amante. – a palavra quase me engasgou.

– Sim, seu amante. – falou me encurralando junto à mesa onde as armas ficavam dispostas. Tocou meu rosto e tentou me beijar, mas escorreguei e fugi de sua proximidade.

– Vai pensar? – ­insistiu ele.

– Sim.

– Ótimo, agora venha tenho algo a lhe ensinar hoje.

– Não me sinto tão bem ainda.

– Sim, sei que ainda precisa de tempo. Mas isso não vai doer, na verdade acho que serei eu a sair machucado da aula de hoje.

Ele foi até o canto da sala e ligou o aparelho de som. Era uma valsa, não as antigas, consagradas. Era de Evgeny Grinko, o som do piano era uma melodia suave, bela e triste, mas cheia de emoção genuína. A minha frente estendeu-me a mão e reticente aceitei.

Não estava vestida a caráter, a calça colada ao meu corpo, a camiseta negra sobre meu top de lycra azul. Fora ali treinar com a espada diante do espelho, não dançar valsa.

– Apenas me siga, e deixe a música a guiar.

Uma das mãos grudada a minha, a outra sobre minha cintura levando-me, girando-me. Enquanto me movia ele corrigiu minha postura e queixo, os ombros. Olhava para baixo e o pisei, ele não ligou e me impediu de fugir segurando-me. Não ouvia meus protestos e continuava me levando ao som da música.

Logo me movia com leveza sentindo-me parte do ritmo. Podia nos ver pelo espelho girando. Minha mão sobre seu ombro mantinha-me presa ao mundo, pois o que sentia era desligamento absoluto. Estava livre, leve, meus pés tinham vida própria e senti-me ligada a ele, a sua mente. Sorria feliz quando a música chegou ao fim. Ele sorria também, seus olhos brilhavam com uma emoção desconhecida, mas bem real.

O silêncio era constrangedor e tentei me afastar, ele me segurou firme e me trouxe para junto de si. O peito largo me recebeu, os braços me envolveram e sua boca tomou a minha. As mãos dele em minha cintura me detinham, meus empurrões suaves. A cada movimento de sua boca sentia-me ceder e quando minhas mãos seguraram seus ombros, retribuiu ao beijo e ansiei por mais. Quando ele se afastou, sabia que estava ruborizada, com cara de boba. Ele disse algo em meu ouvido:

– Ты нужна мне.

– Hum? – disse confusa.

Antes de me soltar em definitivo sussurrou olhando-me nos olhos.

– Seja minha.

Ele queria me destruir certamente. Como podia sentir tanto e sofrer pela ausência de Virgílio? Soltou-me e saiu da sala.

Sai de minhas lembranças e evitei olhar em sua direção. Fiquei muda esperando as palavras do rei.

– Quero que faça parte de minha guarda pessoal, quando seu treinamento chegar ao fim. – disse o rei ignorando o quanto sua proposta era importante.

– Sou muito nova…

– Seu sangue é velho o suficiente. – disse Romano sorrindo-lhe suavemente. – Vai aprender com os melhores. Continuará tendo aulas com Misha, sem lobos dessa vez. – brincou ele e todos riram, menos Valdés. – Nós a ajudaremos a preparar-se.

– Minha campeã vai lhe ajudar também. Ela está em missão, mas quando retornar faremos as apresentações.

– Eu gostaria muito e aceito.

– Existe uma condição. – disse Valdés olhando-me como se quisesse me prevenir.

– Qual? – quis saber vendo que o rei e Misha o olhavam com certo aborrecimento.

– Terá de ter um mestre em definitivo. – falou como se fosse uma sentença.

– Será inscrita no Livro, e herdará os laços sanguíneos de seu novo mestre. Já lhe fizeram uma proposta? – Togo explicou e observou os vampiros presentes.

– Sim. Eu fiz a proposta.

O vampiro se levantou de modo formal e se colocou ao meu lado, esperava uma resposta. Novamente no centro do palco, todas as luzes ligadas sobre minha cabeça. Valdés olhava-me e não acreditava.

– Dois podem fazer o pedido. – disse Valdés ficando de pé e vindo ficar do meu lado.

– Eu…

O clima ficou tenso e os dois vampiros se encararam como inimigos. Podia sentir a animosidade crescendo. E quando Valdés tocou suas amigas eu resolvi falar.

– Não tomei nenhuma decisão. Posso pensar?

– Sim, claro que pode. – Togo afirmou. Tem um mês a contar dessa noite para decidir.

– Vou apresentar meu pedido também – disse Romano.

– Sinto-me envaidecida, obrigada. Eu não mereço. – disse agindo como a educação humana mandava.

– Dora você é adorável. – disse o rei ficando de pé para beijar minha testa como se eu fosse uma menina. – Tem muita sorte, esses três não disputam nada há séculos. E só o fazem quando realmente estão interessados. – falou segurando meu rosto e fitando meus olhos. – Agora pode se retira. Togo vai lhe passar os detalhes nas próximas noites e os pedidos formais dos três cavalheiros aqui.

Dizendo isso o rei ficou entre Misha e Valdés e Romano. Tentava evitar que se matassem na sala de Marie.

Desejei bom dia a todos e sai da sala. Enquanto subia as escadas ouvi a voz de Misha e Valdés exaltadas e em uma língua desconhecida. Horas Russo, noutras talvez espanhol. Fui para meu quarto e fiquei me perguntando o que faria agora.

Expressão em russo: “Eu preciso de você.”

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