Etiquetas

, , , , ,

193d55699d75d68c2bad1538ad1bdd76Algo me atingiu no ombro. O metal em minha carne tinha gosto amargo… Fraquejei, cai de joelhos. Um narcótico! Tentei puxar a flecha, mas a posição não ajudava e a carne reclamou. Trinquei os dentes e rugi de dor. Fiquei de pé, cambaleei e me segurei na parede próxima para não cair de cara no chão.

Corri o mais rápido que pude, mas a essa altura minha visão e poderes estavam comprometidos. Podia senti-los atrás de mim, quatro vampiros. Caçando-me, cercando, quando cai no chão tudo que pensava era em Virgílio. Não conseguia mais me mover. Fitei o céu escuro, vi as estrelas, as nuvens e tentei gritar. Estava consciente, todavia incapaz de mover-me. Chamei meu mestre, pedi ajuda e ouvi sua resposta:

– Estou indo Isa.

– Quatro vampiros, eles estão se aproximando…Não consigo me mover.

Era tarde para mim, fora detida. Rostos mascarados, mãos enluvadas, quem eram eles? Queria lutar, fazer todos em pedaços, mas só conseguia sentir as lágrimas escorrendo pela minha face.

Uma caixa de metal… Iam me colocar em uma caixa! Não! Gritava, tentava mover minhas mãos. Quando o metal me rodeou gritava alto, mas meus gritos estavam apenas em minha cabeça. Podia sentir a raiva de Virgílio, sua pressa. Não devia ter me afastado tanto dele. – pensei sentindo-me culpada. Vão me usar contra ele.

Virgílio não estava longe, mas não pode deter o rapto de Isadora. Furioso, aflito chegou ao prédio onde ela fora capturada. Pode sentir sua presença se esvaindo como seu perfume, seu sangue, algumas gotas, o cheiro da droga.

Quando seu telefone tocou, ele o tirou do bolso e viu o nome de sua pupila. Teria conseguido fugir? Uma tola esperança…

– Isadora…

– Como vai Virgílio?

A voz de Galeso trouxe um estremecimento de ódio ao corpo de Virgílio. As coisas eram bem pior do que supunha. Três meses atrás se afastou de sua casa, de sua pupila recém-nascida, para lidar com um inimigo. O caçou e matou ao velho estilo, adaga no coração, e logo depois decapitação. Queimou seus restos e avisou ao rei. Quitava uma divida antiga e possuía liberdade para matar todos, que lhe feriram a carne, e a daqueles que amou. Todavia, a presença de Galeso indicava que seu plano fora bem sucedido, mas trouxe consigo um perigo ainda maior. A hora do ajuste de contas havia chegado, e o que mais temeu aconteceu, havia quem ferir. Isadora e seu coração.

– Ficarei melhor quando cortar sua cabeça. – comentou suavemente.

– Que tal adiarmos isso? – sugeriu Galeso em tom de negociação.

– É um pedido? – debochou Virgílio com impassibilidade.

– Tenho algo em meu poder, como deve ter percebido. Pelo que vi, ela lhe é preciosa, além de bela.

– Solte-a. Está apenas aumentando seus crimes diante dos poderes.

– Estou lhe provocando, velho amigo. – disse Galeso. – Ela é diferente de suas antigas amantes. Pequena, frágil, mas é bonita.

Virgílio precisava manter as coisas sob-controle. Isso manteria Isadora viva. Galeso não mantinha promessas, ou era do tipo que soubesse lidar com reféns.

– O que quer, uma trégua? Cheguei perto demais? – provocou Virgílio sabendo que ele estava se sentindo ameaçado.

– A mantenho viva e você se afasta de meus negócios. – era uma troca.

– Isso não é uma hipótese. Você foi condenado, seus negócios não podem mais existir. Tente outra vez. Mas use a lógica.

Queimar seu cassino, matar seus comandados e clientes o abalou. Bem, tinha ordens expressas de Ariel Simon de destruir seus negócios de jogo e sangue. Estava na lista negra do mundo vampírico, mas quem teria a honra de cortar seu pescoço era Virgílio. A dívida de sangue era grande.

– Quero negociar. – o vampiro falou aproximando-se da caixa para olhar Isadora de olhos arregalados.

– Não vamos negociar. Você vai soltar minha cria e talvez lhe dê dois dias para correr. O que acha? – sugeriu caminhando pelo telhado.

– A coloquei em uma caixa de metal. As coisas vão esquentar para ela quando o dia nascer.

O vampiro do outro lado da linha fechou os olhos e não emitiu nenhum ruído. Mas ouviu o riso de Galeso.

– O que quer?

– Tempo, afaste os Pacificadores e os Caçadores.

Nesse momento Virgílio riu alto, gargalhou. Galeso do outro lado da linha apertou entre os dedos o aparelho em sua capa negra repleto de pequenos cristais. Algo feminino e clássico bem ao gosto de sua dona. Mas nas mãos do vampiro algo fora de prumo.

– Você me supõe muito poderoso. Ninguém controla os Caçadores, conhece as regras. – disse Virgílio olhando a noite a sua volta. Tinha apenas quatro horas para encontrar Isadora.

– Achei que tivesse alguma estima por suas crias. – começou Galeso – Lembro-me de vê-lo chorar da última vez que lhe tirei uma delas. A pequena Isadora não merece sua atenção?

– Três dias lhe bastam? – o vampiro perguntou pronto a ceder.

Não queria perder Isadora, mas também não pareceria frágil diante de Galeso. Ele já lhe tomara muito, não permitiria que a história se repetisse.

– É o suficiente. – o vampiro aceitou e tocou o rosto da vampira.

– Onde ela está?

Tentou não parecer impaciente, mas seu coração estava aflito. O sangue de Isadora em seus dedos o chocou bem mais do que poderia imaginar.

– Vai conseguir encontrá-la, eu prometo. Sabe, ela o chamou. É amor Virgílio. Ela o ama. – ele fez uma pausa maldosa – Como se sente?

O vampiro apertou o telefone e fechou os olhos. Ele a ouviu e sentiu seu medo, o desespero e isso quase o enlouqueceu. Não estava acostumado a lidar com tais sentimentos. Os havia enterrado muito fundo na alma. Ter que lidar com eles agora era algo perturbador. O mais estranho é que só agora percebia o quanto se ligara a Isadora.

– Como é ser amado depois de seiscentos anos? Como pode se permitir tal luxo? – o deboche de Galeso o atingiu como um soco. – Acreditou que não estaria vigiando, esperando?

O vampiro gargalhou cruel e sabia que Virgílio estava mergulhado em ódio e temor. Isadora não precise ser exposta a seu passado, ou seus inimigos.

– Maldito. – rugiu o vampiro perdendo parte de seu autocontrole.

– Vamos esquecer o passado. – começou ele – Serei bondoso e a pouparei. Mas sabe? Seria doce entregá-la aos pedaços para você, ou pelo menos, a cabeça. – o vampiro jogava cruelmente.

– Nada vai conseguir me impedir de matá-lo Galeso. Pode não ser hoje, ou amanhã, mas certamente o farei. Você vai implorar para que o mate.

A promessa de morte já existia, mas ela agora se repetia com mais intensidade e sanha. O rosto de Virgílio mudou, caninos expostos, olhos como cristais. Fora tomado por uma fúria esquecida e perigosa. Vinha caçando Galeso ao longo dos séculos, e isso pareceu petrificar seu ódio. No entanto, ouvir suas ameaças quebraram a crosta de sua frieza e o tornaram letal.

– O tempo fara as circunstâncias, não é mesmo? – ele sorriu. – Vou deixar sua cria entre a água e o fogo, diante do senhor que rege todos nós e diante dos olhos do Deus dos mortais. Sendo ela tão jovem, deve querer pedir perdão pelo sangue que vem sorvendo. Espero que consiga, ou vai encontrar somente cinzas.

Dito isso Galeso desligou o telefone de Isadora, ou melhor, o destroçou entre os dedos. Estava furioso. Fitou a caixa de metal onde a vampira jazia imobilizada e com um gesto mandou que fechassem a tampa.

A caixa foi movida e Isadora lutava contra a droga que a dominava. Foi quando lembrou que talvez se sangrasse, o narcótico usado pudesse sair de suas veias. Mas isso significava enfraquecer ou morrer. Precisava levar o pulso à boca… Ou… Fitou o interior da caixa e viu a ponta de um parafuso.

Virgílio guardou o celular e tocou o cimento do telhado. Tentava encontrar o rumo seguido pelos raptores de sua cria. Captou centelhas de pensamentos, vozes. Saltou do prédio e correu pela noite, seguindo o que acreditava ser o caminho seguido pelos homens de Galeso. Faltava uma hora para o amanhecer, Virgílio havia procurado por fontes e igrejas. Mas em nenhuma encontrou a combinação sugerida. Tentou se comunicar com Isadora, mas só havia confusão. Era o narcótico em seus sentidos, mas havia mais. Duas horas atrás algo mudou, ela enfraquecia, como se sumisse. Algo estava errado, ferida? Talvez.

Podia sentir o sol se anunciar sobre seus sentidos quando chegou a uma praça, a última que sabia ter uma fonte. A fonte jorrava água e diante dela havia uma igreja, não muito longe um relógio de sol.

Água da fonte, fogo do sol no horizonte, o poder de Deus, e o tempo. Mas onde estava a caixa?

Olhou a torre e a escalou. A luz aumentava, a madrugada sumia, enquanto galgava a construção de pedra. No alto viu a caixa de metal, ao seu redor o sangue manchava o piso empoeirado de pedra. Ajoelhou-se junto à caixa, fechou os olhos e esperando pelo pior, arrancou a tampa num único puxão. O metal gemeu rasgando-se sob sua força e raiva.

Sua Isa, sua Faradisa estava desmaiada em um mar de sangue, os cabelos manchados, a pele da cor do mármore. O pulso ferido… A retirou da caixa e tocou sua testa com a dele. Aspirou o aroma de seus cabelos e conteve um grito de ódio na garganta. Fitou o sol despontando no horizonte. Empurrou a porta de acesso a torre e se escondeu. A pedra fria, as sombras os envolveram. Tocou seu rosto e mordeu pulso para alimentá-la.

Isadora despertou com o toque suave das mãos de Virgílio sobre seus cabelos. Agarrou-se a ele num abraço apertado. Fitou o quarto escuro, o sol sob as frestas da porta a fez encolher-se com medo.

– Estamos em segurança. A porta está trancada.

Eram duas da tarde, o que teria acontecido?

– Você está bem?

O sussurro de seu mestre e amante a fez olhar seu rosto com amor e adoração. Ela soluçou e escondeu o rosto em seu peito.

– Não consegui fugir…

– Está tudo bem. Mas por que se cortou?

Isadora o olhou envergonhada e explicou o que pretendia fazer e viu nos olhos de Virgílio preocupação genuína. Seu esforço era para fugir, ou morrer? Ele se perguntou. Não importava, ela se colocou a beira da morte para fugir. Quando tirou o cordão de prata da carne de seu pulso praguejou e lambeu o corte para que se fechasse. Ela demorou muito a despertar, era jovem, e o dia não ajudava. Apenas a manteve em seus braços e a admirou dormir como fazia nos últimos meses. Desenhava-a com os dedos, os olhos, os lábios. Ela vinha o consumindo como o próprio sol. Amor? Desejo? Ele disse que não se apaixonava, mas ali estava rendido, preso aquela criatura feita de carne e sangue, seu sangue imortal. O perigo a que foi exposta o enlouqueceu. Não suportaria perdê-la. Imaginar o mundo sem sua presença era impossível. Como mantê-la protegida, segura?

Num arroubo de desejo a beijou, mas mãos a despiam, enquanto ela o ajudava. Sua pele luzia no quarto escuro, tomou-a no chão com paixão e amor. Dócil, ela cedia a cada carícia, guiada por suas mãos, sucumbindo a sua fome. Lambia e mordia, enquanto ela cravava as unhas em seus ombros abrindo cortes em sua pele. Gemendo, arfando sob sua fome de vampiro. Isadora só assumia o controle quando ele lhe oferecia sua veia. Nesse momento ela o dominava, o prendia com os dentes, com as pernas. O fazia seu e frágil. O sugava com força, aos puxões, quase como uma loba faminta, apertando-se contra ele, atingindo o gozo. Ao se afastar levava parte de sua alma consigo. Lambia os lábios sujos de sangue e fitava seu rosto sabendo-se selvagem e perigosa.

Quando a noite chegou saíram de seu esconderijo e voltaram para casa. As malas já estavam prontas, Antônio havia preparado tudo. Iam para Paris aquela noite. Não era seguro ficar em Barcelona. Virgílio deu ordens, ficou pelo menos uma hora no escritório ao telefone. Falava em árabe ou egípcio com alguém. Tomou banho e se vestiu, quando desceu Virgílio a esperava vestido em terno completo. Tomou sua mão e foram para o carro. No aeroporto tomaram um jatinho particular. Ele não falou muito, pelo menos não com ela. Aquilo a isolou estava distante, sempre ao telefone dando ordens naquele idioma antigo e inacessível.

Ainda podia sentir a carícia de sua boca, dos caninos sobre sua carne. Ele fora mais selvagem do que de costume, como se quisesse devorá-la, prendê-la dentro dele. Quando encontrou o gozo a prendeu junto a si. Tentou falar, mas ele cobriu sua boca com dois dedos e pediu silêncio com um: shhh!

Fechou os olhos e deixou que ele mais uma vez vencesse aquele jogo. O rosto em seu peito, as mãos o envolvendo, sentindo as pernas, seu sexo junto a ela. Ele era seu. Ninguém mudaria isso, nem mesmo o maldito, que tentou tomá-la dele. O envolveu e dormiu. Mas ali estava seu mestre, não o amante. Foram servidos de sangue, ele insistiu que ela bebesse mais de um cálice. Obedeceu, era melhor, mas quando terminou se sentiu pesada e sonolenta.

– Virgílio tem algo errado…

– Não, não tem Isa, apenas relaxe. – disse tocando seu rosto e beijando sua testa.

Despertei em um quarto amplo luxuoso. Lá fora Paris, o som dos carros, o cheiro da noite. Ergui-me do leito e tive certeza que fora drogada, mas por quê? Sentei na cama e senti o corpo reagir, formigar. Vi as flores, senti o cheiro de meu mestre nos lençóis, no quarto. Mas onde ele estava…? Nesse momento a porta se abriu e uma mulher entrou no quarto.

– Olá Isadora, que bom que acordou. – comentou aproximando-se do leito sem medo. – Meu nome é Marie, seja benvinda a minha casa. –

– Onde está Virgílio?

A mulher era um pouco mais alta do que eu, cabelos e olhos escuros. Imortal, mas não vampira. Bruxa? Sim, a julgar pelo anel de prata com a estrela de cinco pontas em seu dedo.

– Ele ficou conosco pela última hora, mas precisou partir. Bem, ele me pediu que lhe entregasse essa carta. Acho que vai encontrar as respostas que busca. – disse entregando-lhe o envelope. – Quando se sentir pronta desça, vou lhe mostrar a casa.

Dito isso a mulher vestida completamente de negro a deixou sozinha. Isadora abriu o envelope e se deparou com a caligrafia de Virgílio.

“Minha Faradisa é com grande tristeza que a deixo. Não posso mantê-la. Tenho inimigos e eles não têm escrúpulos, ou piedade. Considere-se com sorte de ter saído ilesa das mãos de Galeso. Acho que ele amoleceu com o tempo. Em outros tempos a teria feito em pedaços. Acredite-me. Marie é uma amiga inestimável e vai cuidar de você. Temos amigos e alguns deles vão lhe ensinar a sobreviver no nosso mundo. Apesar de não ser vampira, ela agora é sua mestra, dei a ela sua tutela. Quero que a obedeça, ou será punida. Essas foram minhas ordens, e ela as fará cumprir. Não duvide. Nossas leis são cruéis e não merece senti-las em sua pele. Dei-lhe a imortalidade para que fosse livre, e assim será quando aprender nossas leis.

O que tivemos foi maravilhoso e único. Os guardarei sempre comigo com muito carinho. Espero que faça o mesmo, mas não espere meu retorno, não voltarei aos seus braços. Busque um amante se assim quiser, como disse é livre.

Do seu salvador, Virgílio”.

O coração bateu dolorosamente, acho que sangrava dentro de meu peito, pois senti sangue escorrer do meu nariz. Fora abandonada por meu mestre e amante. Lágrimas brotaram de meus olhos e elas eram rubras, feitas de sangue. Ele partiu. Não ele fugiu.

Anúncios