O Salvador – Capítulo VI – A Escolha

any_passig_gemacht_by_enaston-d7mwupyQuando Isadora saiu da sala Misha e Valdés discutiram. Ariel Simon sentou e o criado o serviu de mais um cálice de sangue, enquanto ele observava os dois amigos colocarem a raiva para fora com uma calma invejável e desconcertante. Aquele era o rei.

– O rei o mandou testá-la, não mata-la. Você sequer a preparou para o que ia acontecer. Foi cruel, irresponsável.

– Era um maldito teste, se lhe desse as respostas como saberíamos se ela realmente tem poder? – o Russo defendia sua atitude mais uma vez.

– Misha já foi punido por sua falta de habilidade em executar o teste Valdés.

Comentou Togo passando aos três vampiros seus pedidos oficiais de guarda para que assinassem. Assim quando a vampira decidisse um deles teria a assinatura dela e de seu novo mestre. Eles assinaram na mesinha mais próxima e devolveram ao vampiro.

– Ela conseguiu… – começou Misha.

– Poderia estar em pedaços… Correção ela ficou em pedaços. Maldito seja Misha, eu pedi que cuidasse dela. – o vampiro ainda estava indignado.

– Ele recebeu ordens do rei. – falou Marie defendendo o amigo, enquanto tocava seus ombros e se colocava entre ele e Valdés apaziguadora.

– Não mandei que a matasse. – defendeu-se Ariel sorrindo misterioso para Misha.

– Ela é muito forte e capaz. – disse sem saber como explicar sua atitude.

O que Misha não revelou é que ao entrar no quarto da vampira aquela primeira noite e vê-la dormindo sentiu-se tocado por sua beleza. A desejou de imediato. Ela estava tão vulnerável entre os lençóis, seu cheiro no ar do quarto. No meio da imortalidade e da humanidade. A admirou por incontáveis minutos e chegou mesmo a tocar seus cabelos e a quis. Por que ela o tocou? O que ela tinha de tão especial? Uma recém-nascida abandonada, sem instrução, tão humana que ainda cheirava a sangue e vida!

Depois de amar Beliza e perdê-la se prometeu viver sem amor. Mas não fora covarde como Virgílio, jamais abandonaria sua cria. Ainda mais uma tão bela. Desejo? Sim, o mais puro desejo. A raiva o dominou e antes que percebesse a atacou. Saiu de suas lembranças e ouviu Valdés ainda enraivecido.

– Ela abriu uma reclamação? – Valdés quis saber.

– Isadora recusou esse direito. – respondeu o fitando com aborrecimento. Estava cansado de suas acusações.

– Ela não sabe o que faz, é muito jovem para compreender o que lhe foi feito. – replicou andando pela sala.

– Ai está seu engano. – começou o rei. – Aquela jovem vampira pode ser inocente em alguns aspectos, mas tem bastante juízo. Ela sente, compreende que está sendo testada e observada, apesar de sua insegurança.

– Quem não ficaria? – começou Marie entrando no dialogo. – Virgílio agiu como um idiota a abandonando. Tudo que ela tem feito é passar de mão em mão. Sente-se rejeitada, achou que a mandaríamos embora. Pobre criança. – comentou a bruxa na mesma língua, afinal Isadora não podia ouvir aquela conversa.

– Por que aceitou ficar com ela? – quis saber Romano.

– Virgílio chegou com ela desacordada e me implorou que tomasse conta dela. Galeso o chantageou, não pude me negar. Jamais o tinha visto tão transtornado.

– Você agiu bem Marie. – comentou o rei tocando sua mão. Ela havia se sentado ao seu lado. – Ele me ligou na noite seguinte e explicou os acontecimentos. Só não compreendo porque não a deixou sob custodia. Por que a abandonar?

– Ele sempre foi avesso a crias. – disse Togo organizando os pergaminhos assinados. Agora sabemos o motivo.

– De fato. – comentou Romano. – Ela tem muito poder nas veias. Pergunto-me se saberá lidar com ele. Estar-se-á livre do mal de sua herança sanguínea.

– Se Virgílio conseguiu ela conseguirá. – disse Valdés esperançoso.

– Ame com cautela meu querido Dom Valdés. – começou Ariel. – Sua irmãzinha terá de enfrentar grandes inimigos. Não quero que perca sua estabilidade se ela…

– Ela vai conseguir meu rei. – disse tomando a mão de Marie para beijar. Estava de partida.

– Valdés, quando vai me perdoar?

Misha quis saber o olhando com esperança contida.

– Então existe culpa? – o vampiro moreno e valoroso disse se retirando com um cumprimento cavalheiresco para seu rei.

– De um pouco de tempo a ele – disse Ariel – Sabe como é susceptível a jovens vampiras. Valdés precisa encontrar companhia. – disse o rei pensativo.

– Sim, e bem depressa. Aquelas facas não são boas companhias. – comentou Romano. – Mas o que toca seu coração? – se perguntou o vampiro.

– Facas? – brincou Ariel.

A reunião chegou ao fim e Ariel Simon ficou sob o teto de Marie aquela noite. Romano também, na noite seguinte daria aulas para Isadora e faria sua proposta oficial a ela. Seria bom tê-la como pupila, mas não teria chance, a julgar pelo modo como fitava Misha, ela logo cederia. Havia muita tensão entre eles. Era visível. Ela parecia confusa, até mesmo assustada, dividida por sentimentos conflitantes. Preparava-se para dormir quando seu celular tocou. Fitou a tela e se preocupou, atendeu e começou a falar em árabe.

– Como vai velho amigo?

– Não muito bem. – respondeu Virgílio. – Poderia me encontrar aqui fora?

Minutos depois Romano saiu pela janela e foi para o telhado. Virgílio o esperava junto ao parapeito. Romano se aproximou e eles se cumprimentaram com um abraço.

– Muito tempo.

– Sim, cinquenta anos?

– Exatamente.

– Mas porque não entrou?

– Não lhe parece óbvio?

– Não. – disse o vampiro sentando na borda do telhado. – Você criou uma vampira, a fez sua amante e a abandonou. Isadora tem beleza, potencial e poder nas veias. Ainda não exibiu os sintomas, se é o que veio saber. – comentou o vampiro.

– Cometi um erro criando-a. – falou baixando a vista.

– Não creio, ela é magnifica, inteligente e forte.

– Sim, e pode enlouquecer. E sim, novamente, eu soube do teste. – explicou ele num suspiro.

– O que o trouxe de volta? – questionou Romano.

– Quero que tome a tutela dela em definitivo. – disse seguro.

– Você não pode sequer vê-la agora, quanto mais escolher seu tutor. Você abandonou-a, quando a entregou a Marie a fez menos que um mortal. – acusou Romano.

– Estava desesperado. Galeso a raptou e foi por muito pouco, acredite-me. – a voz dele tremeu e Romano achou já ter visto aquele ar de louco na face de Misha.

Quando Isadora caiu na arena de terra feita em tiras pelo lobisomem, Misha percebeu o que fez, o que vinha fazendo. Uma noite depois do ocorrido foi chamado por Marie. Misha não saiu do lado do leito da vampira, que mais parecia feita de papel. Estava sujo de sangue com ar de louco. Entrou no quarto e foi recebido pelo vampiro que tinha uma adaga nas mãos. A mesma que ela usou para se defender do lobisomem.

– Como ela está?

– Ela vai ficar bem, vai ficar. – disse numa segurança trêmula e duvidosa.

– Sim. Ariel está vindo de Las Vegas para oferecer sangue para ela.

– O meu está sendo testado, vou dar tudo a ela. – explicou certo de que seu sangue a curaria.

– Misha, precisa se cuidar, não comeu ou dormiu. Quando ela despertar precisa…

– Ela precisa de mim. – foi frio e seguro. – Sou seu tutor. – explicou feroz.

– Sim. Vai deixar que ela o veja nesse estado?

O vampiro se olhou, as mãos primeiramente. O sangue seco, a adaga, por fim as roupas. Era o sangue de Isadora. Pareceu despertar do transe, do choque.

– Ela estava com muito medo. – começou ele falando muito baixo. – O rei me pediu que a testasse, mas não disse como. Ela precisava ir ao limite… Foi quando pensei nos lobos, seu sangue, a porção. – ele parou. – Desirée e eu os caçávamos antes do pacto. Ela usava uma faca, somente uma faca. – ele cobriu o rosto com as mãos.

– Achou que ela conseguiria o mesmo? – quis saber Romano tentando entender porque ele fora tão duro com aquela vampira. Compará-la a sua mestra Desirée era algo temerário.

Todos tinham seus traumas e lembranças do passado. Mas ao que parecia Isadora tocou fundo nos de Misha. Certamente ela o desafiou, isso era bem certo. Enquanto dava-lhe aulas sobre as leis notou sua inclinação a rebeldia, sua força de caráter.

– Sim, ela é muito forte. Mas foi muito cedo. – lamentou com os olhos febris presos na vampira inconsciente no leito.

– É, mas é uma criança e estava sob nossa responsabilidade.

Romano o lembrou tentando trazê-lo de volta a superfície. Ele estava em um abismo negro de dor e culpa. Era perigoso para um vampiro velho se deixar sucumbir assim.

– Quase a matei. Como pude achar que ela seria como Desirée? Era diferente, sua natureza não era nada que conhecêssemos bem. Isadora é… Delicada e eu a machuquei… – ele segurou sua mão sobre o leito e a levou aos lábios de modo reverente.

O que houve com o velho e frio Misha? Estaria apaixonado? O amor era uma armadilha sinistra e de grande poder.

– Ela vai ficar bem. Mas você precisa reagir Misha.

Ele se curvou sobre a cama e beijou sua testa e saiu do quarto sem dizer uma palavra.

Romano voltou sua atenção para Virgílio e resolveu falar o que estava engasgado em sua garganta.

– Ela é uma vampira doce e espantosamente inocente. Sabe quantas vezes a vi esconder lágrimas, que certamente foram por sua ausência? Inúmeras vezes.

– A estou protegendo. – ele tentou se justificar.

– É um modo estranho. Felizmente ela se recuperou e vai seguir em frente. O rei vai lhe dar a chance de tomar parte de sua guarda pessoal. Ela vai escolher um mestre em um mês.

– Não, isso não! É muito perigoso. – reclamou Virgílio em alerta.

– É um bom modo para ela usar seu poder. – explicou Romano observando o vampiro preocupar-se com os rumos dos acontecimentos.

– Peço-lhe, tome a guarda de Isa e não permita que ela aceite o convite do rei ou o de Misha. – exigiu Virgílio.

– Ela já aceitou, Virgílio. Já me ofereci, mas acho que ela não me escolherá. Misha fez o convite e a quer como pupila e amante. Nada mais os liga, afaste-se e deixe-a viver o presente da imortalidade que lhe deu.

O olhar do vampiro escureceu e aquilo certamente era ciúme e raiva. É, Ariel muito em breve teria de lidar com um duelo. Pois era o único modo de Virgílio ter sua pupila de volta. Pediria aos seus pretendentes que declinassem e enfrentaria aquele que não recuasse.

– Então veio aqui pedir que proteja sua amante? – perguntou Romano.

– Ela não é mais minha amante. – disse resignado.

– Você a ama, por que mantém esse orgulho? Por que a machucou tanto?

– Eu não… Não suportei a dor. – a voz dele estava presa na garganta. – Quando percebi que a perderia eu senti meu coração se contrair e sangrar… Ela era mais importante que minha vingança contra Galeso, nada mais importava. Não posso lidar com isso, vai me destruir. Tenho de matar Galeso.

– Você deu a ele trégua em troca da vida de Isadora e o está caçando? – perguntou surpreso com sua atitude. Ele mantinha sua palavra e seguia as leis. Aquilo era novo.

– Ele não pode continuar vivo, não depois de tocar em Isadora. Ela se transformou em um alvo, em minha fraqueza. – tentava justificar sua quebra de conduta.

– Ela tem um tutor valoroso e que odeia Galeso tanto quanto você. Apenas vá embora. Deixa crescer em paz, deixa escolher um novo amante.

– Tome-a como sua pupila. – ele pediu ansioso.

– Caro amigo, nada vou lhe prometer, Isadora pode e vai escolher sozinha. E você trate de se afastar e engolir seu ciúme.

Dito isso Romano voltou para dentro do prédio e deixou Virgílio a mercê de seus pensamentos nada organizados. Um pouco de confusão lhe faria bem. Isadora ficaria melhor sob a proteção do amor de Misha. Nem sempre aquele que gera é a melhor escolha.

Como uma sombra Virgílio entrou nos aposentos de Isadora. Usou uma passagem secreta que Marie lhe mostrou anos atrás, caso precisasse de um esconderijo, esgueirou-se pela casa e entrou no quarto. Os Pacificadores não o viram ou sentiram.

Isadora dormia no leito tento um livro sobre o peito. Depois da separação só a viu mais uma vez, ela estava em companhia de Valdés caçando. Observou-a por alguns minutos e partiu da cidade. Revê-la depois de tanto tempo foi doloroso. Havia mudado, estava mais forte, seu sangue a fazia amadurecer como vampira. As características tornavam-se mais evidentes, seu cheiro estava diferente, mais forte e embriagador. Aproximou-se do leito, se mantinha praticamente invisível para ela. Sua faradisa dormia lindamente. Desejou tomá-la nos braços e a possuir, cobrir seu corpo com beijos, ouvir sua voz sussurrando seu nome quando atingisse o êxtase.

A camisola de linho e renda era magnifica e recatada. Tocou o tecido suavemente, precisava dela nua sob seu corpo, sob seus dedos… Sem se conter nem mais um momento avançou no leito e a beijou.

Despertei sob a carícia da boca de um vampiro. As mãos exigentes tomando meu corpo. Recuei na semi-escuridão  e vi Virgílio.

– Escolha Romano, minha faradisa. – o tom era de ordem.

Não era justo! Não agora que ansiava por uma nova vida longe das lembranças do amor frágil e cruel, que ele lhe ofereceu. O empurrou e o surpreendeu. Pegou a espada que repousava sobre a cama onde antes ele estaria e a apontou para o vampiro.

– Saia! – ordenei segura, mas ferida em meus sentimentos.

– Não ouse me enfrentar minha Isa. – ele tentou dar-me ordens?

– Não ouse você. – disse-lhe furiosa e de espada em punho.

– Isa… – pude ver em seus olhos a incredulidade.

– Fora!– gritei sem me importar com todos que poderiam ouvir na casa.

Não podia fraquejar, não depois de ser abandonada, entregue a outra pessoa como um trapo velho. Não depois de tantas promessas quebradas. Ele fora cruel e eu lhe devolveria na mesma proporção. Apontava a espada para ele.

A porta se abriu e Misha apareceu. Estava de camiseta e jeans negros, descalço, cabelos em desalinho. Ele sentiu o medo de Isadora agora que seu sangue corria em suas veias. Seus sentimentos para ele eram tão reais quanto o toque de suas mãos. Reconheceu Virgílio e ficou surpreso por vê-lo.

– Sua presença não é bem vinda, na verdade, proibida. – começou Misha. – Devo mostrar-lhe a saída? – perguntou o russo baixando a espada que trazia nas mãos.

– Pretendo, antes de sair, conversar com a vampira. – disse Virgílio sugerindo com o olhar que devia aceitar.

– Não temos nada para tratar monsieur. – falei friamente contendo minhas emoções.

– Peço que repense sua decisão. – pediu confiante.

– Melhor que vá embora monsieur, como já lhe disse nada temos para falar. – ele precisava sentir minha dor através de minha determinação.

– Não banque a criança. – começou ele impaciente.

– Fui drogada e abandonada pelo meu criador. Apesar de ter o sangue dele nas veias, em meu coração alimentando minha imortalidade, não pertenço mais a ele. – falou guardando a espada. – Deixe que lhe apresente meu tutor e mestre.

Dito isso olhei para Misha que com um aceno de cabeça deixou claro que concordava com minha posição.

– Voltarei amanhã, nós precisamos conversar. – disse Virgílio no meio do caminho para a saída.

– Mestre ­– começou Isadora – Peço-lhe que me permita recusar tal visita. – ela falou e sua voz quase tremeu.

– Concedido. – Misha respondeu de imediato. – Peço que não insista Virgílio ou terei de proteger minha pupila.

– Pedirei permissão ao rei. Somente ele me impedirá de lhe falar Isa.

– Conhece as leis. Se o mestre não permitir, nem mesmo o rei terá o direito de intervir. – o russo disse dando um passo a frente de modo a proteger sua pupila.

Os ânimos se alteraram no quarto.

– Não deixe a sensação de um prazer jamais provado subir-lhe a cabeça Misha. – debochou o vampiro semicerrando os olhos.

O vampiro avançou tão depressa que sacudiu os meus cabelos soltos. Virgílio estava grudado à parede, contido por Misha que tinha sobre sua garganta a espada.

– Quem começou esse jogo foi você. Mas quem vai terminar ele será Isadora quando ela decidir quem será seu mestre. – dito isso ele o soltou e abriu a porta chamando os Pacificadores no corredor lateral.

– Eu preciso me explicar Isa.

Virgílio estava a minha frente, os olhos nos meus. Podia sentir o toque de sua boca, de suas mãos sobre minha pele. Recuei e fui até a mesinha de cabeceira e ele confiou esperançoso.

Quando voltei com um pedaço de papel o entreguei a meu antigo mestre e amante, meu coração batia descompassado, ferido.

– Acho que isso vai refrescar sua memória e evitar que perca seu tempo.

O vampiro olhou o papel e o reconheceu um minuto depois. Era a carta onde se despediu dela com tanta frieza. Não precisou ler, sabia o que estava escrito, cada palavra. Guardou o papel consigo e saiu do quarto. Os pacificadores o esperavam no corredor assim como Romano e Marie.

Ele foi levado certamente para a presença do rei. A porta se fechou e Misha se aproximou pronto a me tocar.

– Você está bem?

– Saia, por favor. – pedi a Misha que tinha a mão estendida para meu ombro.

– Ele não vai lhe ferir outra vez. Não permitirei…

– Deixe-me sozinha.

Pedi com a voz presa na garganta, continha as lágrimas a muito custo. Não queria chorar em sua presença. Fraquejar diante dele seria humilhante. Ele não se moveu por mais um minuto. Podia sentir minha dor? A agonia que experimentava? Deu a volta e saiu fechando a porta atrás de si. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro e sentada na banheira sob o jato de água quente chorei e lamentei por meu coração partido. Chorei por tudo que não mais podia ser.

Para Isadora

Enquanto escrevia o sexto capítulo do conto O Salvador, das crônicas da Alma e Sangue, ouvi essa música e a achei bem parecida com a personagem Isadora. Quarta feira tem novo Episódio – A Escolha.

Tradução

A Última dança

Oh, meu doce sofrimento

não adianta lutar, você começa outra vez

Eu sou um ser sem importancia

Sem ele eu sou um pouco pertubada

Eu vago sozinha no metrô

Uma última dança

Para esquecer minha dor enorme

Eu quero fugir e tudo recomeça

Oh, meu doce sofrimento

Eu movo o céu, o dia, a noite

Eu danço com o vento, a chuva

Um pouco de amor, um toque de mel

E eu danço, danço, danço, danço, danço

E no barulho, eu corro e tenho medo

É minha vez?

Vem a dor

Em toda Paris, Eu me abandono

E eu voo, voo, voo, voo, voo

Só esperança

Neste caminho em sua ausência

Eu trabalhei duro

Mas sem você minha vida é só uma decoração

Que brilha sem sentido

Eu movo o céu, o dia, a noite

Eu danço com a chuva de vento

Um pouco de amor, um toque de mel

E eu danço, danço, danço, danço, danço

E no barulho, eu corro e tenho medo

É minha vez?

Vem a dor

Em toda Paris, Eu me abandono

E eu voo, voo, voo, voo, voo

Neste doce sofrimento

Paguei por todas as ofensas

Escuta como meu coração é imenso

Eu sou uma criança do mundo

Eu movo o céu, o dia, a noite

Eu danço com a chuva de vento

Um pouco de amor, um toque de mel

E eu danço, danço, danço, danço, danço

E no barulho, eu corro e tenho medo

É minha vez?

Vem a dor

Em toda Paris, Eu me abandono

E eu voo, voo, voo, voo, voo

O Salvador – Capítulo V – A Revelação

vampira.bmpA reunião na sala de visitas estava singular. Nunca tinha visto tantos vampiros reunidos. Bem, no Coucher du Soleil haviam muitos, mas não numa mesma sala, como agora. Eram tão belos ali reunidos. O rei, sentado na poltrona junto ao fogo numa posição de destaque, Romano a sua direita, Marie estava a esquerda do rei. Misha estava próximo a porta, enquanto Valdés estava no sofá ao lado de Togo. O clima entre ele e Misha ainda não havia melhorado. Lamentei por isso.

– Seja bem-vinda Isadora – disse o rei com amabilidade.

Entrei na sala e vi o criado do rei fechar a porta atrás de mim. No corredor os dois Pacificadores estavam de prontidão.

– Boa noite Majestade.

Todos sorriram, os caninos aparecendo entre lábios sedosos, pálidos. O único que não sorriu foi Togo. Ele era difícil de contaminar mesmo com ebola, se me entendem.

– Para nós é bom dia. – esclareceu Ariel Simon.

– Eu não sabia… Bom dia. – disse e eles sorriram um pouco mais.

– Vamos rapazes, ela está virando um tomate. – disse Marie que veio para meu lado. – Isadora, quero lhe apresentar o rei dos vampiros, Ariel Simon. Os demais você já conhece. Venha sente-se aqui. – ela me conduziu e sentei no sofá.

Agora estava de frente para todos eles.

– Sabe temos uma grande amiga chamada Isadora, ela é companheira de Tiago, nosso comediante. – lembrou o rei observando a jovem vampira, enquanto recebia um cálice de sangue das mãos do criado. – Então vou te chamar de Isa.

Era como Virgílio me chamava e não queria me lembrar dele.

– Ela prefere Dora – disse Misha antes que eu falasse.

– Dora então. – comentou Ariel observando o vampiro de modo misterioso.

– Sim majestade, eu prefiro Dora. – murmurei e vi um olhar de repreensão de Togo. Acho que não devia ter me dirigido ao rei.

– É perfeito. Agora temos que conversar. Hoje é uma noite muito importante.

Eles bebiam sangue em taças escuras e pareciam bem à vontade. Misha parecia distante, até tenso, algo novo para observar em sua postura visto, que agia como um bloco de gelo diante de minha pessoa.

– Filha de Virgílio – disse o rei analisando minha figura. – Ele sempre foi muito cuidadoso quando se tratou de gerar herdeiros de seu sangue e agora vejo o motivo.

Olhei em volta sem entender bem e como o rei esperava uma resposta falei:

– Diz isso por ter sobrevivido à prova do lobisomem?

Recusei um cálice de sangue. Estava ansiosa, não queria vomitar. O criado do rei era um jovem de cabelos loiros e presos num rabo de cavalo. Silencioso e atento a cada movimento de seu senhor e sempre pronto a sair da sala, para só voltar no momento exato.

– Considerou uma prova? – perguntou Romano.

– Desde o primeiro momento… Pareceu que estava sendo testada. Ele foi muito… Exigente. – baixei a vista.

– Precisávamos saber até onde poderia suportar. – disse Misha quase se sentindo culpado.

– Agora sabemos que exagerou. – respondeu Valdés.

– Estou muito bem, venci o lobisomem… Posso me defender. Isso foi bom para minha confiança.

Enquanto falava calei todos. O rei me fitava atento, calmo, como se já esperasse minha reação.

– Poderia ter morrido. – insistiu Valdés.

– Sim. Mas sobrevivi e estou pronta para partir.

– Parti? – o rei perguntou.

– Não é o que querem me dizer, que devo partir. – expliquei sincera.

– Modere-se. – o líder dos Pacificadores avisou frio.

– Desculpem-me.

– Não há porque se desculpar.

A sala ficou silenciosa e sem querer toquei a cicatriz em minha mão. Um risco branco sobre minha pele. Podia sentir as presas da fera dilacerando minha carne, enquanto o apunhalava. O sangue quente pingando sobre meu rosto. Afastei as lembranças e percebi que eles olhavam-me como se fosse uma tela onde podiam ler minhas menores emoções. Ouvia meu coração agitado. Sim, estava batendo outra vez.

– Misha foi enviado para testá-la. – disse o rei sem nenhuma emoção na voz. – Virgílio é um dos mais velhos entre nós.

– Sabe o que significa? – perguntou Togo testando meus conhecimentos e as aulas de Misha e Romano.

– Para receber a alcunha de mais velho é necessário ter oitocentos anos ou mais. Ele possui nas veias o sangue mais puro, mais antigo. Dos primeiros vampiros. – fiz uma pausa. – Daqueles que estavam mais próximos a nossa criação.

– Vejo que é uma excelente aluna. Não me admira Misha tê-la elogiado, ele faz isso a poucos.

A oferta de Misha voltou a minha mente. Nossos olhos se encontraram. Um lago frio, congelado, mas capaz de fazer meu corpo se aquecer, virar cinzas. Fechei os olhos e lembrei-me de sua visita, uma semana depois que despertei do ataque.

Estava lendo um dos livros para minha educação, quando ele pediu para entrar. Andou pelo quarto, observando-me no leito em repouso. Minha perna ainda doía, os músculos se reconstruiam.

– Como se sente? – perguntou analisando meu rosto.

– Melhor. – resumi tudo me sentindo desconfortável com sua presença.

– Precisa de alguma coisa? – quis saber olhando os livros, minhas anotações.

– Não. – disse passando a página mesmo sem conseguir terminar de ler.

– Trouxe algo especial para você. – anunciou e deu um passo em direção ao leito.

Ergui os olhos para ele e esperei. Olhei suas mãos vazias, eram bonitas, longas, fortes. As unhas estavam bem aparadas. Vestia uma malha cinza, calças negras, sapatos de cadarço. Não tinha trazido nada.

– Togo fez uns testes. Seu sangue, o meu. Posso cuidar de você plenamente. – uma frase estranha.

– Desculpe-me, não compreendi. – disse quase ciente do que ele tentava dolorosamente explicar. Não ia facilitar para ele, não era merecedor.

– Posso curá-la mais rapidamente se beber de minhas veias.

– Não é necessário. Estou muito bem.

Respondi seca. Depois de ouvi-lo falar e olhar para meus lábios como se já os sentisse sobre sua carne. Meu coração disparou no peito. O livro em minhas mãos era um bote salva-vidas onde me segurava.

– Peço que aceite. – mais um passo.

Estava ao lado da cama e me observava fixamente.

– Está muito pálida, precisa beber do sangue mais antigo. Sou o mais próximo a sua linhagem, tenho mais de cinco séculos.

Ergui a vista e seus olhos me colheram, envolveram numa carícia delicada. Desviei a vista e fitei as letras do livro e por fim o fechei. Era mais fácil quando ele bancava o mestre e me atacava.

– Sei que lhe devo obediência e respeito. Então não me castigue pelo que vou dizer. – comecei. – Não quero sua pena, seus favores, seu sangue. Você fez o que um mestre faria…

– Virgílio jamais a machucaria. – soltou secamente.

– É o que acredita? Por que acha que ele não me machucou?

– Tenho certeza que ele não a fez enfrentar um lobisomem apenas com uma faca.

– Ele me abandonou e sequer me deu uma faca. – disse o enfrentando. – Estou bem e vou me curar, não preciso que tenha pena de mim.

– Não tenho pena de você.

Ele se aproximou depressa demais. Sentou na cama e tocou meu rosto com os dedos longos, tépidos.

– A admiro e vim aqui alimentá-la. Não sairei ate que o faça.

A situação era nova e inquietante tentei sair do leito mais ele me deteve com um beijo. As duas mãos em meu rosto, os lábios pressionados contra os meus. Soltei um som sufocado de surpresa e segurei sua mão. Um movimento depois e ele devorava minha boca. Confusa, senti o sangue correr mais depressa por minhas veias. Ardia num fogo lento e abrasador. Sua boca sobre a minha era uma tempestade de desejo.

– Quero que me aceite como seu mestre de forma permanente. – murmurou junto aos meus lábios.

– Eu…

– Venha, beba. – dito isso cortou o pulso e levou aos meus lábios.

Segurei seu braço forte entre as mãos e suguei com fome. Houve uma onda de eletricidade, o sabor era rico e doce. Fechei os olhos, estava imersa, envolvida pelo gosto. Mas Misha me olhava seduzido e a cada gole e puxão ele sorria. Mas a lembrança de suas ordens, do modo frio como me tratava… Recuei e foi como saltar de um prédio. O choque nos sentidos foi intenso.

O vi de longe e apenas me recostei nos travesseiros e um minuto depois apaguei.

Misha ficou ao meu lado, seu sangue corria por minhas veias de forma dominadora, varrendo minha ligação com Virgílio, destruindo laços, construindo novos, enquanto ele acariciava meus cabelos e rosto. Despertei somente na noite seguinte e estava completamente recuperada, podia andar normalmente, até correr se quisesse. Sorri sozinha na sala de treinamento e percebi, que não me sentia mais tão triste, nem tão gelada.

– Vai pensar no que lhe propus?

Misha apareceu as minhas costas e quando me virei ele estava com roupas antigas. Calças, justas de montaria, botas, camisa de linho negro. O que ele queria? Bancar o príncipe encantado comigo?

– Eu não sei bem o que deseja. Já é meu tutor. – expliquei me secando com a toalha.

– Sim, sou, mas de modo provisório. Quero ser seu mestre e amante. – disse sem rodeios aproximando-se, enquanto eu recuava.

– Amante. – a palavra quase me engasgou.

– Sim, seu amante. – falou me encurralando junto à mesa onde as armas ficavam dispostas. Tocou meu rosto e tentou me beijar, mas escorreguei e fugi de sua proximidade.

– Vai pensar? – ­insistiu ele.

– Sim.

– Ótimo, agora venha tenho algo a lhe ensinar hoje.

– Não me sinto tão bem ainda.

– Sim, sei que ainda precisa de tempo. Mas isso não vai doer, na verdade acho que serei eu a sair machucado da aula de hoje.

Ele foi até o canto da sala e ligou o aparelho de som. Era uma valsa, não as antigas, consagradas. Era de Evgeny Grinko, o som do piano era uma melodia suave, bela e triste, mas cheia de emoção genuína. A minha frente estendeu-me a mão e reticente aceitei.

Não estava vestida a caráter, a calça colada ao meu corpo, a camiseta negra sobre meu top de lycra azul. Fora ali treinar com a espada diante do espelho, não dançar valsa.

– Apenas me siga, e deixe a música a guiar.

Uma das mãos grudada a minha, a outra sobre minha cintura levando-me, girando-me. Enquanto me movia ele corrigiu minha postura e queixo, os ombros. Olhava para baixo e o pisei, ele não ligou e me impediu de fugir segurando-me. Não ouvia meus protestos e continuava me levando ao som da música.

Logo me movia com leveza sentindo-me parte do ritmo. Podia nos ver pelo espelho girando. Minha mão sobre seu ombro mantinha-me presa ao mundo, pois o que sentia era desligamento absoluto. Estava livre, leve, meus pés tinham vida própria e senti-me ligada a ele, a sua mente. Sorria feliz quando a música chegou ao fim. Ele sorria também, seus olhos brilhavam com uma emoção desconhecida, mas bem real.

O silêncio era constrangedor e tentei me afastar, ele me segurou firme e me trouxe para junto de si. O peito largo me recebeu, os braços me envolveram e sua boca tomou a minha. As mãos dele em minha cintura me detinham, meus empurrões suaves. A cada movimento de sua boca sentia-me ceder e quando minhas mãos seguraram seus ombros, retribuiu ao beijo e ansiei por mais. Quando ele se afastou, sabia que estava ruborizada, com cara de boba. Ele disse algo em meu ouvido:

– Ты нужна мне.

– Hum? – disse confusa.

Antes de me soltar em definitivo sussurrou olhando-me nos olhos.

– Seja minha.

Ele queria me destruir certamente. Como podia sentir tanto e sofrer pela ausência de Virgílio? Soltou-me e saiu da sala.

Sai de minhas lembranças e evitei olhar em sua direção. Fiquei muda esperando as palavras do rei.

– Quero que faça parte de minha guarda pessoal, quando seu treinamento chegar ao fim. – disse o rei ignorando o quanto sua proposta era importante.

– Sou muito nova…

– Seu sangue é velho o suficiente. – disse Romano sorrindo-lhe suavemente. – Vai aprender com os melhores. Continuará tendo aulas com Misha, sem lobos dessa vez. – brincou ele e todos riram, menos Valdés. – Nós a ajudaremos a preparar-se.

– Minha campeã vai lhe ajudar também. Ela está em missão, mas quando retornar faremos as apresentações.

– Eu gostaria muito e aceito.

– Existe uma condição. – disse Valdés olhando-me como se quisesse me prevenir.

– Qual? – quis saber vendo que o rei e Misha o olhavam com certo aborrecimento.

– Terá de ter um mestre em definitivo. – falou como se fosse uma sentença.

– Será inscrita no Livro, e herdará os laços sanguíneos de seu novo mestre. Já lhe fizeram uma proposta? – Togo explicou e observou os vampiros presentes.

– Sim. Eu fiz a proposta.

O vampiro se levantou de modo formal e se colocou ao meu lado, esperava uma resposta. Novamente no centro do palco, todas as luzes ligadas sobre minha cabeça. Valdés olhava-me e não acreditava.

– Dois podem fazer o pedido. – disse Valdés ficando de pé e vindo ficar do meu lado.

– Eu…

O clima ficou tenso e os dois vampiros se encararam como inimigos. Podia sentir a animosidade crescendo. E quando Valdés tocou suas amigas eu resolvi falar.

– Não tomei nenhuma decisão. Posso pensar?

– Sim, claro que pode. – Togo afirmou. Tem um mês a contar dessa noite para decidir.

– Vou apresentar meu pedido também – disse Romano.

– Sinto-me envaidecida, obrigada. Eu não mereço. – disse agindo como a educação humana mandava.

– Dora você é adorável. – disse o rei ficando de pé para beijar minha testa como se eu fosse uma menina. – Tem muita sorte, esses três não disputam nada há séculos. E só o fazem quando realmente estão interessados. – falou segurando meu rosto e fitando meus olhos. – Agora pode se retira. Togo vai lhe passar os detalhes nas próximas noites e os pedidos formais dos três cavalheiros aqui.

Dizendo isso o rei ficou entre Misha e Valdés e Romano. Tentava evitar que se matassem na sala de Marie.

Desejei bom dia a todos e sai da sala. Enquanto subia as escadas ouvi a voz de Misha e Valdés exaltadas e em uma língua desconhecida. Horas Russo, noutras talvez espanhol. Fui para meu quarto e fiquei me perguntando o que faria agora.

Expressão em russo: “Eu preciso de você.”

O Salvador – Capítulo IV– Seu Mestre e Pesadelo

my_sweet_vampire_by_anndr-d4rsa46Então aquele era o rei. O rei dos vampiros, meu rei. – pensava Isadora no alto das escadas da casa de Marie.

A maioria de nós tem a beleza ressaltada pelo sangue de seus mestres. Mas alguns são elevados à grandeza, talvez tenha sido isso que aconteceu com o status do rei Ariel Simon. Ele foi elevado a grandeza. Não conseguia afastar os olhos dele. E agradeci por esta às escondidas e poder observá-lo livremente do meu esconderijo.

Alto, talvez um metro e oitenta de altura corpo bem definido, forte, rosto perfeito em cada linha. Alguma deusa o desenhara. Não existiam mais homens como aquele nascendo em nosso século. Os cabelos ruivos e cacheados caiam em mechas sedosas pela testa, orelhas, ombros. Não era afetado, pelo menos, não nesse século. Mas quase podia vê-lo empunhando uma espada ou lencinho. Vestido com uma bela camisa de linho e calças negras. Nossa! Eu estava tento fantasias com o rei dos vampiros. Mas como não fazê-lo? Ele era soberbo! Seus olhos eram tão verdes quanto o musgo da Irlanda. Mas ali estava ele em trajes modernos. O jeans negro assim como a malha de lã fina, moldavam-se ao seu corpo como uma segunda pele. Havia tirado o blazer de couro. Falava segurando a mão de Marie, enquanto brincava com seus dedos.

Ocultei-me um pouco mais nas sombras. A presença daquele vampiro me trouxe sensações estranhas. E sequer havia estado a sua presença. Sentia-me desprotegida, no entanto, ligada a ele por sangue, ou algum poder invisível. Acho que era o sangue, ele nos unia a todos. Parte dele estava em meu antigo mestre. Agora em minhas veias. Apesar do título, mantinha uma aparência despojada. A primeira vista se passaria fácil por qualquer habitante da cidade. Numa segunda, sua beleza atrairia olhares, depois suspeitas. Afinal o rei possuía um pouco mais de dois mil anos.

Devia camuflar-se bem nas ruas. Através das portas ouvi a conversa que mantinha com Marie. Ao que parecia ela estava lhe censurando por sair todas as noites para vigiar uma vampira chamada Kara. Como rei devia se preservar e não se arriscar por uma vampira que sabia se cuidar muito bem sozinha e ainda por cima era sua campeã. Ele protestou com paciência e carinho e pelo visto faria o que desejava. Subitamente não consegui mais ouvi-los, por mais que tentasse, era como se houvesse uma barreira invisível bloqueando todo o resto, enquanto estavam presos naquela bolha protetora de som. Teria sido descoberta? Provavelmente, ou apenas queriam privacidade para conversar.

Aquela era a primeira vez que o via. Ele visitava Marie esporadicamente, mas nunca foi permitido ficar a sua presença. Às vezes dormia na casa. Quando isso acontecia dois grandes soldados, ou Pacificadores, vigiavam a casa. E havia mais deles do lado de fora, ou nos quartos. Quando ele partia, eles o seguiam.

Ele sorriu e seus caninos apareceram. O anel de rubi brilhou em sua mão quando tocou de leve o rosto de Marie, que sorria junto com ele. Ela sempre ficava mais feliz quando ele a visitava. Teria ela uma relação com o rei? Bem, ele não tinha rainha, e tão belo quanto era seria difícil ficar só. Aquela noite seria apresentada a ele, mas não lhe disseram o motivo. Subiu as escadas, não queria ser surpreendida bisbilhotando o rei. Ele chegou bem cedo, como evitara o sol?

Aquela pequena reunião com o rei, e seus mestres, estava mexendo com seus nervos. Mas não ao ponto de verdadeiramente se importar. Colocaram-na muito longe do limite há um ano. Teve vários tutores Marie, Valdés e Misha. Romano não a tutelava, mas dava-lhe aulas sobre as leis do mundo vampiro. Nenhum deles havia chegado. No inicio sentia-se desconfortável com a situação, contudo, eles disseram que era comum ter vários tutores quando se é filha dos Poderes. Esse era o nome dado a um vampiro sem mestre. Os abandonados. Não havia outra verdade, fora abandonada por Virgílio.

Por um momento Isadora se lembrou do beco, o sabor de seu sangue, toque de suas mãos. Tudo parecia muito, muito longe. Assim como a lembrança de seus carinhos, a promessa de não ser abandonada. O teve por tão pouco tempo. – lamentou silenciosamente. – Enquanto escondia a cabeça nos joelhos. – Uma bruxa. Deixou-a com uma bruxa tamanha a pressa em livrar-se dela. Algumas noites depois de perceber que Virgílio não voltaria, Isadora aceitou o abraço consolador de Marie, pois estava vivendo em silêncio, abatimento e lágrimas. Ela ouviu suas perguntas, culpas e a consolou, deu-lhe um rumo. A levou a Coucher du Soleil, mostrou-lhe a corte, a Togo, que a examinou com um olhar demorado e fez algumas sugestões a Marie em francês, língua que ela não conhecia. Sempre que queriam falar dela usavam outro idioma. Limitava-se a baixar a vista e engolir suas dúvidas e angustias. Mas daquele vampiro de olhos frios e orientais veio uma luz.

Ganhou um novo tutor, Valdés. Segundo soube, ele não tinha herdeiros de sangue, mas possuía horas livres para lhe ensinar a ser imortal e letal. Como ele gostava de dizer. O tempo passou e curou muitas dores, deu novos caminhos. Aprendia todos os dias com Valdés e suas “amantes” como ele costumava chamar suas pistolas e facas. Todas com nomes femininos. Era excêntrico e aventureiro, contava-lhe suas bravatas e tentava fazê-la sorrir com sua jovialidade. Tratava-a como um moleque, mas era um bom professor, até bondoso demais para o gosto de Marie, que vez, ou outra, supervisionava as aulas de tiro e luta…

Misha chegou. – antessentiu Isadora com seu coração, o rosto quente. Minutos depois ouvir sua voz. Ele a deixou com uma escolha por fazer algumas noites atrás. No entanto, não conseguiu sequer compreender seus motivos, quanto mais aceitar pensar em sua proposta.

Meses atrás quando Valdés disse que teria de partir em uma missão, Isadora sentiu o coração doer, se apegara a ele, era seu amigo, professor. Misha o substituiria. Mais um tutor? Quantos ela teria? Era como um saco de roupa suja passando de mão, em mão. Pensou se afastado.

– É a roupa suja mais bonita que conheço Dora. – disse chamando-a pelo apelido e lendo seus pensamentos. – O rei me deu uma missão, devo ficar fora por dois meses, talvez mais, você não pode tirar ferias. –brincou – Voltaremos com nossas aulas quando eu retornar. – disse empurrando sua testa com o dedo indicador. – Misha é como um irmão para mim, ele vai cuidar bem de você, minha irmãzinha mais nova. – dito isso a abraçou carinhoso.

Tinha sorte de tê-lo como tutor, ele aplacou muito de sua dor. Treinaram por algumas horas e depois saíram para caçar. Valdés a deixou em casa e partiu. Sentiria sua falta.

As apresentações foram diferentes com Misha.

Isadora acordou e a primeira coisa que fez foi se debater. Alguém apertava-lhe a garganta. No quarto escuro desferiu golpes e tentou compreender porque estava sendo atacada. Quando o brilho da lâmina ficou visível aos seus olhos soube que seu atacante pretendia matá-la. A seda da camisola sedia sob o fio da adaga. Rugia e num gesto aprendido com Valdés chutou e se livrou de seu agressor momentaneamente. Saiu da cama, mas foi recapturada, junto à porta. Seus cabelos estavam nas mãos de seu agressor e quando foi empurrada contra a porta o gosto de sangue invadiu sua boca.

Caiu no chão pesadamente e foi arrastada, enquanto lutava pateticamente para se libertar. Foi quando lembrou que podia saltar. O pulo a colocou sobre seu agressor. Mordeu seu ombro com força, e foi puxada com violência pelo braço, que certamente quebrou. Sentia o gosto do sangue do vampiro ele era tão forte e antigo quanto o de Virgílio. Tremia, estava seminua e descabelada. Nunca deixaria de ser a vítima? Precisava lutar melhor que isso. O vampiro se deteve esperando seus movimentos, a fitava das sombras onde não podia vê-lo.

– O que quer de mim…? – perguntou segurando o braço dolorosamente fora do lugar.

– Quero que lute. – a voz veio das sombras num timbre forte e exigente, frustrado.

– Quem é você?

– Importa saber quem ia cortar sua garganta?

Dito isso seu corpo se colou ao dela e adaga estava sobre sua pele fria e mortal. Ela se encolheu sob seu toque áspero. Um gemido saiu de sua garganta de forma involuntária.

– Vejo que tio Valdés a mimou demais.

Comentou o invasor tocando seus cabelos entre os dedos sentindo a textura suave. Fitou sua boca suja de sangue, a camisola cortada, o ombro ferido, as contusões que lhe provocou.

– Quem é você? Por que me atacou? – ela quis saber enfrentando seu olhar verde e dilatado.

– Seu novo tutor. Agora que acordou, bela adormecida, vamos treinar.

As luzes se ascenderam e Isabela viu o quarto revirado. Ficou de pé e tentou se cobrir, mas o braço doeu.

– Espere. – ordenou ele – Aproxime-se.

– Fique longe de mim. – rosnou ela apoquentada.

Os ferimentos dela não estavam cicatrizando, mas por quê?

– Sou seu mestre, deve-me obediência. – avisou sombrio.

– Vai à merda! Sai do meu quarto seu maníaco.

Um segundo depois estava colada na parede. Misha a mantinha presa e segurava seu braço dolorido.

– Apenas relaxe agora. – disse e estendeu o membro ferido.

Isadora gritou de dor quando ele posicionou o osso no lugar. Imediatamente seu organismo começou o processo de cura. Pode ver nos olhos do vampiro a surpresa com sua condição. As marcas roxas em sua garganta, os cortes nos lábios tudo sumia, bastou cuidar de um ferimento maior, e os menores cederam.

– Obrigada. – disse-lhe num sussurro, os olhos presos nos dele.

– Não me agradeça, apenas obedeça, e sim, será punida por me enfrentar e insultar. Você está diante de seu novo mestre, professor e pesadelo. – dizendo isso a deixou no quarto.

Naquela mesma noite quando desceu para sala de treinamento, encontrou o seu novo tutor, ou mestre, Misha. Valdés sempre falava dele, ou melhor, ele estava em suas aventuras de modo constante. Mas lá ele era bom e gentil, forte e letal, um maldito fodão com presas, que atacava jovens vampiras inexperientes.

Seus olhares se encontraram e ele a examinou. Lançou uma faca para que pegasse. Jogou-se sobre ela em luta e teve de se defender. Vinte minutos depois estava no chão e sangrando. Cortes marcavam sua pele e roupas.

– Levanta bonequinha. – debochou de costas para ela junto à mesa onde varias armas ficavam dispostas para o uso nos treinamentos. – Preciso lhe passar as regras agora que já analisei suas possibilidades.

Dolorida e com fome a vampira ficou de pé e mancou até ele. Estava muito pálida, o cabelo solto, ele puxara seu rabo de cavalo. Os olhos pareciam enormes. O cheiro de seu sangue no ar. Ele intacto, belo e a fitando como um maldito filho da puta. Odiou que ele fosse tão bonito, aqueles olhos verdes, os cabelos castanhos eram meio longos. Aqueles fortes dos ossos da face o deixavam com uma aparência gélida. Mais um maldito guerreiro.

– Quer me dizer alguma coisa? – perguntou ele certamente captando seus pensamentos furiosos.

– Por que esta me machucando?

– Você é fraca, por isso esta se machucando.

– Não é verdade… Está me surrando gratuitamente. Quebrou meu braço. Cortou-me inteira…

– É fraca, não consegue se defender, age como uma mortal.

– Valdés me ensinou…

– Ele mimou você!

O grito me fez recuar. Segurei o braço cortado, agora cortado e baixei a vista.

– Terminamos?

Não respondi. Percebendo que não falaria prosseguiu.

– Treinamos todas as noites, dentro e fora da casa. Armas, facas, espadas e tudo mais. Luta corporal será toda quinta feira. Marie lhe conseguirá roupas apropriadas. Deixei alguns livros que precisa ler na biblioteca. Quero um resumo de cada um deles para amanhã.

– Misha…

– Para você sou mestre. Entendeu?

– Você tem problemas, ou é só muito arrogante?

Imediatamente Misha pegou sobre a mesa um bastão fino de borracha e se aproximou dela. Ela recuou e por fim parou para enfrentar seu olhar gélido.

– Estenda as mãos.

– Não! Isso é ridículo…

– Se não estender as mãos vou usar o chicote nas suas costas. – a ameaça era verdadeira.

Fui tocada por minha realidade. O aviso de Virgílio em meus ouvidos:

“– Quero que a obedeça, ou será punida. Essas foram minhas ordens, e ela as fará cumprir. Não duvide. Nossas leis são cruéis e não merece senti-las em sua pele”.

– É a segunda vez que me desrespeita. – disse tirando-a de suas lembranças. – Virgílio não lhe ensinou nada? Sou seu mestre agora e me deve respeito e obediência, levo isso muito a sério.

– Eu só…

– As mãos. – exigiu sem dar espaço para explicações.

Fechei os olhos e engoli meu orgulho. Estendi as mãos e esperei com a vista baixa.

– Palmas para cima, e olhe para mim. – ordenou seco.

A vampira fitou o rosto sério de Misha e desejou ter poder para revidar em uma luta justa.

– Está sendo punida por desobedecer seu mestre e insultá-lo.

Os golpes desciam com força. A dor era bem real, os vergões uma marca de sua vergonha. Quando o vampiro se afastou não conseguia mover os dedos.

– Como deve me chamar? – ele exigiu fitando seu rosto, as lágrimas escorrendo pela face pálida. – Vamos ter mais problemas Isadora? – ele perguntou quando ela demorou a responder.

– Não. – a voz era um murmúrio rouco.

– Como deve me chamar Isadora? – ele insistiu rodeando-me como um tigre pronto a atacar.

– M… Mestre. – consegui dizer engolindo minha raiva.

– Ótimo. Vejo você amanhã. Agora pode se retirar.

Fitava as mãos quando ouvi a voz de Romano e sai momentaneamente de minhas lembranças. Mas ainda não podia descer. Ele me chamaria, quando fosse o momento.

Não saberia descrever a dor nas mãos. Os ossos doíam e os hematomas roxos pareciam sanguinolentos sob a pele. Ardia, ficavam dormentes e por fim doíam. Voltei para meu quarto naquela casa e percebi minha cruel situação. O quarto fora arrumado, moveis substituídos, tudo nos lugares. Dentro da banheira, imersa em água quente observava o sangue tingir a água. A olhava hipnotizada. Os cortes se fechavam, enquanto as lágrimas escorriam por minha face. Aquela era a única prova que Virgílio esteve em minha vida. Seu sangue, seu poder sobre meu corpo.

O tempo passou, mas não diminuiu a força da minha raiva, do ódio que sentia por Misha. As primeiras aulas foram de machucados e lágrimas que vertia sozinha na escuridão do meu quarto. Era cruel, exigente e não hesitava em castigar-me por meus erros. Com meses de treino e machucados consegui desenvolver técnica e golpes. Quando ele se recolhia, e eu não tinha livros para ler, ou tarefas para cumprir, voltava ao estúdio e treinava até o dia amanhecer e me fazer fugir para meu quarto.

Lutava para não ser massacrada por ele e à medida que evoluía, ele tornava tudo mais difícil. Certa noite fui levada por um pacificador para um local desconhecido. Quando tiraram o capuz de minha cabeça me vi em uma arena vazia. Acentos de madeira circulares. Chão de barro e grades altas. Uma porta de metal ainda fechada. Luzes focadas no centro do espaço, Senti cheiro de sangue de vampiro e suor de um animal.

Micha apareceu e sentou na quarta fileira e lançou sobre mim um frasco que aparei no ar.

– Se quiser ficar viva, beba.

Imediatamente sorvi a bebida amarga e pegajosa. Com ele não era permitido hesitações. Foi quando ouvi um rosnado. Havia um animal do outro lado da grade de ferro. Um lobo! Mas não um comum. Era um lobisomem. Ele lançou uma faca e uma espada aos meus pés.

– Boa sorte.

O animal foi solto e entrou na arena com fome de sangue. Meu sangue imortal. Lutei com unhas e dentes para ficar viva. Tive o braço mordido, a mão quase arrancada, mas matei o lobisomem. De pé sangrando e muito ferida, vi as minhas veias enegrecendo. O ar faltou em meus pulmões e antes que pudesse entender o que acontecia cai no chão.

Despertei, ou quase, um dia depois, meus ferimentos envoltos em gaze, sentia-me febril. Vi um homem vestido de branco, que me ponteou o ombro dilacerado, a mão. Ao lado dele Marie. Ela estava furiosa com Misha ela o expulsou do quarto. Vi Romano, Togo ao lado da minha cama. Olhavam-me com preocupação. Bebi líquidos quentes, amargos. Balbuciava palavras que não entendia, era consolada, mantida na cama. Tentava levantar, falar, mas por fim apaguei.

Quando a lucidez voltou vi Misha, ele estava com a cabeça apoiada na cama ao meu lado. Os cabelos tocando meus dedos, os olhos fechados.

Acariciei as mechas e por um segundo me perguntei o que fazia? Ele quase me matara. Afastei a mão e virei o rosto.

Um minuto depois o vi despertar e me olhar com seus belos olhos verdes. Havia alegria contida, uma pontada de culpa e alivio.

– Como se sente? – quis saber tocando minha mão.

Puxei a mão e vi sua vergonha por ter me tocado, e respondi como bem sabia.

– Mastigada.

Ele sorriu, algo raro. Mas que iluminava seu rosto e dava-lhe vida. Algo que não mostrara para mim em todos aqueles meses de treinamento rigoroso que quase matou-me.

– Sinto muito. – começou ele num surpreendente pedido de desculpas.

– Por quê? Por quebrar meu braço, me cortar, punir, por ser meu pesadelo? Ou me colocar em uma arena com um lobisomem?

– Deixei-me levar pelos poderes de sua herança sanguínea. Esqueci que é apenas uma recém-nascida. – disse envergonhado. – Você quase foi morta. Não estava pronta…

– Eu venci. – o cortei – Estou viva, estou pronta. Admita.

O vampiro olhou-me surpreso e ciente de que estava reivindicando um reconhecimento justo.

– Sim. Verdade, você venceu.

– Aprendi muito no último ano. Inclusive a perceber que é o que lhe fizeram. Vou ficar apenas com o que me ensinou, não pretendo me tornar o que é. – disse friamente. – Não existe necessidade de se sentir culpado. Estou pronta, sei me defender sozinha. Sua missão chega ao fim.

Misha olhou-me e sem dizer nenhuma palavra, deixou o quarto. Foram necessárias mais duas semanas para que ficasse completamente curada. Mas havia as cicatrizes. Com lobisomens as coisas eram mais demoradas, difíceis. Misha continuava na casa, apesar de não mais treinarmos. Recebi visitas, Romano, Togo, que deixou claro que podia abrir uma espécie de processo contra Misha. Recusei e ele partiu. Valdés, sim, ele voltou e depois de me visitar e constatar que estava bem, teve uma acalorada briga com seu melhor amigo. Virei motivo de discórdia de uma amizade de séculos.

– Isadora? – era Romano me chamando.

Sai em definitivo de minhas lembranças e fiquei de pé. Revisei a roupa. E respirando fundo comecei a descer as escadas. Chegara a hora de conhecer o rei, Ariel Simon.

Continua…

 

Alex Olivares, Lobo de Sangue Quente

capa pandora aNo primeiro livro da série Pandora Controle Sobrenatural, Alex Olivares é apresentado como o novo parceiro de Zoe Lessa.
Veterano dentro da agência Alex tem um histórico de missões invejáveis e até mesmo sigilosas.

Para muitos agentes isso funciona como um fator de segurança. Para Zoe é apenas um sinal vermelho, um alarme de perigo. Sem falar que ele é um lobo, e tem sangue quente. Isso não é bom para ela.

Nefilins tem o sangue frio e se sentem melhor longe de carnívoros.

A presença do lobo atiçou a imaginação das agentes de várias espécies, Zoe era uma das poucas imune. No início Alex acredita que isso seja somente antipatia, afinal seu antigo parceiro está em coma.

A beleza de Alex parece não afetar Zoe. Os olhos negros e misteriosos, o sorriso confiante e sensual. Os cabelos negros e lisos que deslizam sobre a testa larga. A barba aparada que o deixava com um ar selvagem, perigoso. Nada disso atraía a atenção da Nefilim. Por baixo do terno bem cortado haviam músculos bem definidos, que fizeram a assistente de Virgílio Guerra, diretor da agência, literalmente perder o fôlego.

A verdade é que sua nova parceira guarda segredos e poderes, que não estão catalogados na agência. Será esse o motivo da distância que ela coloca entre eles? Bem, Alex também não está sendo cem por cento honesto. Ele tem uma missão, manter Zoe Lessa viva.

Quer conhecer os segredos da série? Escreva para almaesangue@gmail.com e compre o livro autografado.

Beijos mordidos! :[

O Salvador – Capítulo III – A Fuga

193d55699d75d68c2bad1538ad1bdd76Algo me atingiu no ombro. O metal em minha carne tinha gosto amargo… Fraquejei, cai de joelhos. Um narcótico! Tentei puxar a flecha, mas a posição não ajudava e a carne reclamou. Trinquei os dentes e rugi de dor. Fiquei de pé, cambaleei e me segurei na parede próxima para não cair de cara no chão.

Corri o mais rápido que pude, mas a essa altura minha visão e poderes estavam comprometidos. Podia senti-los atrás de mim, quatro vampiros. Caçando-me, cercando, quando cai no chão tudo que pensava era em Virgílio. Não conseguia mais me mover. Fitei o céu escuro, vi as estrelas, as nuvens e tentei gritar. Estava consciente, todavia incapaz de mover-me. Chamei meu mestre, pedi ajuda e ouvi sua resposta:

– Estou indo Isa.

– Quatro vampiros, eles estão se aproximando…Não consigo me mover.

Era tarde para mim, fora detida. Rostos mascarados, mãos enluvadas, quem eram eles? Queria lutar, fazer todos em pedaços, mas só conseguia sentir as lágrimas escorrendo pela minha face.

Uma caixa de metal… Iam me colocar em uma caixa! Não! Gritava, tentava mover minhas mãos. Quando o metal me rodeou gritava alto, mas meus gritos estavam apenas em minha cabeça. Podia sentir a raiva de Virgílio, sua pressa. Não devia ter me afastado tanto dele. – pensei sentindo-me culpada. Vão me usar contra ele.

Virgílio não estava longe, mas não pode deter o rapto de Isadora. Furioso, aflito chegou ao prédio onde ela fora capturada. Pode sentir sua presença se esvaindo como seu perfume, seu sangue, algumas gotas, o cheiro da droga.

Quando seu telefone tocou, ele o tirou do bolso e viu o nome de sua pupila. Teria conseguido fugir? Uma tola esperança…

– Isadora…

– Como vai Virgílio?

A voz de Galeso trouxe um estremecimento de ódio ao corpo de Virgílio. As coisas eram bem pior do que supunha. Três meses atrás se afastou de sua casa, de sua pupila recém-nascida, para lidar com um inimigo. O caçou e matou ao velho estilo, adaga no coração, e logo depois decapitação. Queimou seus restos e avisou ao rei. Quitava uma divida antiga e possuía liberdade para matar todos, que lhe feriram a carne, e a daqueles que amou. Todavia, a presença de Galeso indicava que seu plano fora bem sucedido, mas trouxe consigo um perigo ainda maior. A hora do ajuste de contas havia chegado, e o que mais temeu aconteceu, havia quem ferir. Isadora e seu coração.

– Ficarei melhor quando cortar sua cabeça. – comentou suavemente.

– Que tal adiarmos isso? – sugeriu Galeso em tom de negociação.

– É um pedido? – debochou Virgílio com impassibilidade.

– Tenho algo em meu poder, como deve ter percebido. Pelo que vi, ela lhe é preciosa, além de bela.

– Solte-a. Está apenas aumentando seus crimes diante dos poderes.

– Estou lhe provocando, velho amigo. – disse Galeso. – Ela é diferente de suas antigas amantes. Pequena, frágil, mas é bonita.

Virgílio precisava manter as coisas sob-controle. Isso manteria Isadora viva. Galeso não mantinha promessas, ou era do tipo que soubesse lidar com reféns.

– O que quer, uma trégua? Cheguei perto demais? – provocou Virgílio sabendo que ele estava se sentindo ameaçado.

– A mantenho viva e você se afasta de meus negócios. – era uma troca.

– Isso não é uma hipótese. Você foi condenado, seus negócios não podem mais existir. Tente outra vez. Mas use a lógica.

Queimar seu cassino, matar seus comandados e clientes o abalou. Bem, tinha ordens expressas de Ariel Simon de destruir seus negócios de jogo e sangue. Estava na lista negra do mundo vampírico, mas quem teria a honra de cortar seu pescoço era Virgílio. A dívida de sangue era grande.

– Quero negociar. – o vampiro falou aproximando-se da caixa para olhar Isadora de olhos arregalados.

– Não vamos negociar. Você vai soltar minha cria e talvez lhe dê dois dias para correr. O que acha? – sugeriu caminhando pelo telhado.

– A coloquei em uma caixa de metal. As coisas vão esquentar para ela quando o dia nascer.

O vampiro do outro lado da linha fechou os olhos e não emitiu nenhum ruído. Mas ouviu o riso de Galeso.

– O que quer?

– Tempo, afaste os Pacificadores e os Caçadores.

Nesse momento Virgílio riu alto, gargalhou. Galeso do outro lado da linha apertou entre os dedos o aparelho em sua capa negra repleto de pequenos cristais. Algo feminino e clássico bem ao gosto de sua dona. Mas nas mãos do vampiro algo fora de prumo.

– Você me supõe muito poderoso. Ninguém controla os Caçadores, conhece as regras. – disse Virgílio olhando a noite a sua volta. Tinha apenas quatro horas para encontrar Isadora.

– Achei que tivesse alguma estima por suas crias. – começou Galeso – Lembro-me de vê-lo chorar da última vez que lhe tirei uma delas. A pequena Isadora não merece sua atenção?

– Três dias lhe bastam? – o vampiro perguntou pronto a ceder.

Não queria perder Isadora, mas também não pareceria frágil diante de Galeso. Ele já lhe tomara muito, não permitiria que a história se repetisse.

– É o suficiente. – o vampiro aceitou e tocou o rosto da vampira.

– Onde ela está?

Tentou não parecer impaciente, mas seu coração estava aflito. O sangue de Isadora em seus dedos o chocou bem mais do que poderia imaginar.

– Vai conseguir encontrá-la, eu prometo. Sabe, ela o chamou. É amor Virgílio. Ela o ama. – ele fez uma pausa maldosa – Como se sente?

O vampiro apertou o telefone e fechou os olhos. Ele a ouviu e sentiu seu medo, o desespero e isso quase o enlouqueceu. Não estava acostumado a lidar com tais sentimentos. Os havia enterrado muito fundo na alma. Ter que lidar com eles agora era algo perturbador. O mais estranho é que só agora percebia o quanto se ligara a Isadora.

– Como é ser amado depois de seiscentos anos? Como pode se permitir tal luxo? – o deboche de Galeso o atingiu como um soco. – Acreditou que não estaria vigiando, esperando?

O vampiro gargalhou cruel e sabia que Virgílio estava mergulhado em ódio e temor. Isadora não precise ser exposta a seu passado, ou seus inimigos.

– Maldito. – rugiu o vampiro perdendo parte de seu autocontrole.

– Vamos esquecer o passado. – começou ele – Serei bondoso e a pouparei. Mas sabe? Seria doce entregá-la aos pedaços para você, ou pelo menos, a cabeça. – o vampiro jogava cruelmente.

– Nada vai conseguir me impedir de matá-lo Galeso. Pode não ser hoje, ou amanhã, mas certamente o farei. Você vai implorar para que o mate.

A promessa de morte já existia, mas ela agora se repetia com mais intensidade e sanha. O rosto de Virgílio mudou, caninos expostos, olhos como cristais. Fora tomado por uma fúria esquecida e perigosa. Vinha caçando Galeso ao longo dos séculos, e isso pareceu petrificar seu ódio. No entanto, ouvir suas ameaças quebraram a crosta de sua frieza e o tornaram letal.

– O tempo fara as circunstâncias, não é mesmo? – ele sorriu. – Vou deixar sua cria entre a água e o fogo, diante do senhor que rege todos nós e diante dos olhos do Deus dos mortais. Sendo ela tão jovem, deve querer pedir perdão pelo sangue que vem sorvendo. Espero que consiga, ou vai encontrar somente cinzas.

Dito isso Galeso desligou o telefone de Isadora, ou melhor, o destroçou entre os dedos. Estava furioso. Fitou a caixa de metal onde a vampira jazia imobilizada e com um gesto mandou que fechassem a tampa.

A caixa foi movida e Isadora lutava contra a droga que a dominava. Foi quando lembrou que talvez se sangrasse, o narcótico usado pudesse sair de suas veias. Mas isso significava enfraquecer ou morrer. Precisava levar o pulso à boca… Ou… Fitou o interior da caixa e viu a ponta de um parafuso.

Virgílio guardou o celular e tocou o cimento do telhado. Tentava encontrar o rumo seguido pelos raptores de sua cria. Captou centelhas de pensamentos, vozes. Saltou do prédio e correu pela noite, seguindo o que acreditava ser o caminho seguido pelos homens de Galeso. Faltava uma hora para o amanhecer, Virgílio havia procurado por fontes e igrejas. Mas em nenhuma encontrou a combinação sugerida. Tentou se comunicar com Isadora, mas só havia confusão. Era o narcótico em seus sentidos, mas havia mais. Duas horas atrás algo mudou, ela enfraquecia, como se sumisse. Algo estava errado, ferida? Talvez.

Podia sentir o sol se anunciar sobre seus sentidos quando chegou a uma praça, a última que sabia ter uma fonte. A fonte jorrava água e diante dela havia uma igreja, não muito longe um relógio de sol.

Água da fonte, fogo do sol no horizonte, o poder de Deus, e o tempo. Mas onde estava a caixa?

Olhou a torre e a escalou. A luz aumentava, a madrugada sumia, enquanto galgava a construção de pedra. No alto viu a caixa de metal, ao seu redor o sangue manchava o piso empoeirado de pedra. Ajoelhou-se junto à caixa, fechou os olhos e esperando pelo pior, arrancou a tampa num único puxão. O metal gemeu rasgando-se sob sua força e raiva.

Sua Isa, sua Faradisa estava desmaiada em um mar de sangue, os cabelos manchados, a pele da cor do mármore. O pulso ferido… A retirou da caixa e tocou sua testa com a dele. Aspirou o aroma de seus cabelos e conteve um grito de ódio na garganta. Fitou o sol despontando no horizonte. Empurrou a porta de acesso a torre e se escondeu. A pedra fria, as sombras os envolveram. Tocou seu rosto e mordeu pulso para alimentá-la.

Isadora despertou com o toque suave das mãos de Virgílio sobre seus cabelos. Agarrou-se a ele num abraço apertado. Fitou o quarto escuro, o sol sob as frestas da porta a fez encolher-se com medo.

– Estamos em segurança. A porta está trancada.

Eram duas da tarde, o que teria acontecido?

– Você está bem?

O sussurro de seu mestre e amante a fez olhar seu rosto com amor e adoração. Ela soluçou e escondeu o rosto em seu peito.

– Não consegui fugir…

– Está tudo bem. Mas por que se cortou?

Isadora o olhou envergonhada e explicou o que pretendia fazer e viu nos olhos de Virgílio preocupação genuína. Seu esforço era para fugir, ou morrer? Ele se perguntou. Não importava, ela se colocou a beira da morte para fugir. Quando tirou o cordão de prata da carne de seu pulso praguejou e lambeu o corte para que se fechasse. Ela demorou muito a despertar, era jovem, e o dia não ajudava. Apenas a manteve em seus braços e a admirou dormir como fazia nos últimos meses. Desenhava-a com os dedos, os olhos, os lábios. Ela vinha o consumindo como o próprio sol. Amor? Desejo? Ele disse que não se apaixonava, mas ali estava rendido, preso aquela criatura feita de carne e sangue, seu sangue imortal. O perigo a que foi exposta o enlouqueceu. Não suportaria perdê-la. Imaginar o mundo sem sua presença era impossível. Como mantê-la protegida, segura?

Num arroubo de desejo a beijou, mas mãos a despiam, enquanto ela o ajudava. Sua pele luzia no quarto escuro, tomou-a no chão com paixão e amor. Dócil, ela cedia a cada carícia, guiada por suas mãos, sucumbindo a sua fome. Lambia e mordia, enquanto ela cravava as unhas em seus ombros abrindo cortes em sua pele. Gemendo, arfando sob sua fome de vampiro. Isadora só assumia o controle quando ele lhe oferecia sua veia. Nesse momento ela o dominava, o prendia com os dentes, com as pernas. O fazia seu e frágil. O sugava com força, aos puxões, quase como uma loba faminta, apertando-se contra ele, atingindo o gozo. Ao se afastar levava parte de sua alma consigo. Lambia os lábios sujos de sangue e fitava seu rosto sabendo-se selvagem e perigosa.

Quando a noite chegou saíram de seu esconderijo e voltaram para casa. As malas já estavam prontas, Antônio havia preparado tudo. Iam para Paris aquela noite. Não era seguro ficar em Barcelona. Virgílio deu ordens, ficou pelo menos uma hora no escritório ao telefone. Falava em árabe ou egípcio com alguém. Tomou banho e se vestiu, quando desceu Virgílio a esperava vestido em terno completo. Tomou sua mão e foram para o carro. No aeroporto tomaram um jatinho particular. Ele não falou muito, pelo menos não com ela. Aquilo a isolou estava distante, sempre ao telefone dando ordens naquele idioma antigo e inacessível.

Ainda podia sentir a carícia de sua boca, dos caninos sobre sua carne. Ele fora mais selvagem do que de costume, como se quisesse devorá-la, prendê-la dentro dele. Quando encontrou o gozo a prendeu junto a si. Tentou falar, mas ele cobriu sua boca com dois dedos e pediu silêncio com um: shhh!

Fechou os olhos e deixou que ele mais uma vez vencesse aquele jogo. O rosto em seu peito, as mãos o envolvendo, sentindo as pernas, seu sexo junto a ela. Ele era seu. Ninguém mudaria isso, nem mesmo o maldito, que tentou tomá-la dele. O envolveu e dormiu. Mas ali estava seu mestre, não o amante. Foram servidos de sangue, ele insistiu que ela bebesse mais de um cálice. Obedeceu, era melhor, mas quando terminou se sentiu pesada e sonolenta.

– Virgílio tem algo errado…

– Não, não tem Isa, apenas relaxe. – disse tocando seu rosto e beijando sua testa.

Despertei em um quarto amplo luxuoso. Lá fora Paris, o som dos carros, o cheiro da noite. Ergui-me do leito e tive certeza que fora drogada, mas por quê? Sentei na cama e senti o corpo reagir, formigar. Vi as flores, senti o cheiro de meu mestre nos lençóis, no quarto. Mas onde ele estava…? Nesse momento a porta se abriu e uma mulher entrou no quarto.

– Olá Isadora, que bom que acordou. – comentou aproximando-se do leito sem medo. – Meu nome é Marie, seja benvinda a minha casa. –

– Onde está Virgílio?

A mulher era um pouco mais alta do que eu, cabelos e olhos escuros. Imortal, mas não vampira. Bruxa? Sim, a julgar pelo anel de prata com a estrela de cinco pontas em seu dedo.

– Ele ficou conosco pela última hora, mas precisou partir. Bem, ele me pediu que lhe entregasse essa carta. Acho que vai encontrar as respostas que busca. – disse entregando-lhe o envelope. – Quando se sentir pronta desça, vou lhe mostrar a casa.

Dito isso a mulher vestida completamente de negro a deixou sozinha. Isadora abriu o envelope e se deparou com a caligrafia de Virgílio.

“Minha Faradisa é com grande tristeza que a deixo. Não posso mantê-la. Tenho inimigos e eles não têm escrúpulos, ou piedade. Considere-se com sorte de ter saído ilesa das mãos de Galeso. Acho que ele amoleceu com o tempo. Em outros tempos a teria feito em pedaços. Acredite-me. Marie é uma amiga inestimável e vai cuidar de você. Temos amigos e alguns deles vão lhe ensinar a sobreviver no nosso mundo. Apesar de não ser vampira, ela agora é sua mestra, dei a ela sua tutela. Quero que a obedeça, ou será punida. Essas foram minhas ordens, e ela as fará cumprir. Não duvide. Nossas leis são cruéis e não merece senti-las em sua pele. Dei-lhe a imortalidade para que fosse livre, e assim será quando aprender nossas leis.

O que tivemos foi maravilhoso e único. Os guardarei sempre comigo com muito carinho. Espero que faça o mesmo, mas não espere meu retorno, não voltarei aos seus braços. Busque um amante se assim quiser, como disse é livre.

Do seu salvador, Virgílio”.

O coração bateu dolorosamente, acho que sangrava dentro de meu peito, pois senti sangue escorrer do meu nariz. Fora abandonada por meu mestre e amante. Lágrimas brotaram de meus olhos e elas eram rubras, feitas de sangue. Ele partiu. Não ele fugiu.

Dom Pedro I Vampiro

Dom Pedro I VampiroÉ com grande prazer que divulgo a capa do meu novo livro, Dom Pedro I Vampiro, pela Editora Planeta.

A ideia surgiu de uma conversa com o editor Marcos Torrigo e antes que pudéssemos conter a imaginação Pedro aparecia mais do que imortalizado pela história, surgia imortal e com sede de sangue.

” Pedro é um vampiro. Ele tem hábitos simples, alimenta-se de sangue, dorme durante
o dia, dá o ar de sua graça quando chega a noite. Resultado da longa existência,
contabiliza inimigos que o perseguem há mais tempo do que pode suportar. É o preço
da imortalidade.
A vida de Pedro já havia sido bem diferente. Em outro momento, ele foi mortal. Muito
jovem, teve de enfrentar o desafio de governar uma colônia corrupta e falida, atividade
da qual fez questão de livrar-se na primeira oportunidade.
Cansado de ser contido e controlado, o que não combinava com o seu temperamento,
declarou independência de um país tropical, sobre o qual haviam depositado muitas
esperanças, mas que andava pouco acreditado. E Pedro o fez prosperar, contra tudo e
contra todos!
Amado, odiado, disputado pelas mulheres, sedento de sangue e de poder, governou o Brasil e nele deixou marcas profundas de suas
paixões e desejos. Reis, rainhas e imperadores tornam-se imortais através da morte, como aconteceu a Dom Pedro I, que por um golpe do destino fez o Imperador do Brasil se tornar um vampiro”.

O livro segue a linha de outros sucessos que também parodiaram personalidades
históricas ou literárias, como Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros.

Breve nas livrarias!