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0cc36b004b4b4447c4f977ad2a8557beA vida é misteriosa e os caminhos, que ela traça são como uma intrincada teia de segredos os quais devemos pelo menos tentar decifrar. Meu sonho com o personagem Hannibal Lecter ocorreu uns dias antes de vir a público que a série seria cancelada. Lamentável.

Talvez não seja compreensível gostar de um personagem como ele. Explicações demais tiram a beleza da coisa, mas podemos aprender mesmo com o que não é bom. Não estou incentivando ninguém a comer gente no sentido mais literal da coisa. E sim, aprender a reconhecer o mau. A série tem um apelo psicológico sedutor, pelo menos para quem compreende os símbolos, certos medos e dimensões da natureza humana. Escolhi ver, não gosto de ficar cega diante da humanidade, é muito perigoso não saber identificar o mau.

Três dias depois de fazer o primeiro post vi uns capítulos da primeira temporada e sonhei novamente com ele. Não tão claro quanto o primeiro, mas muito revelador.

Minha imaginação é como uma fornalha basta alimentá-la para que gere calor. Nutrida e animada aqui estou para contar a segunda parte do sonho.

Jantando com Hannibal Lecter – Parte II – Final

Recebeu-me na porta com um sorriso do tipo anfitrião satisfeito. Mostrou-me a casa, que elogiei com sinceridade. Apesar de sombria ela tinha toques modernos, frios, que mostram claramente o gosto de seu dono. A casa do bicho papão parece com o bicho papão.

Os tons quentes, os objetos, dizem claramente: aqui mora um predador. Isso me agrada até certo ponto. Sala, corredor, cozinha. E sim, o centro da casa, seu coração. Ela é parte de seu palácio mental. Aquele lugar já fora palco de muitos acontecimentos. Acho que ele percebeu o olhar, a divagação contentada.

– Tenho a impressão de que me conhece, meu mundo. Por quê?

Vestia uma camisa impecavelmente branca, calças negras, sapatos engraxados. E quando foi para detrás do balcão me perguntei se poderia tocar seu mundo?

– Foi bastante elogiado e comentado no jantar, quando fomos apresentados. Acredito que fiz algumas imagens baseadas no que ouvi. Mas nada supera a realidade.

– Me colocou no seu processo criativo?

– Sim. É como vejo tudo. – comecei a explicar, enquanto o via pegar dois cálices num dos móveis próximos. – Cada texto, página, capítulo e livro é feito de imagens.

– Está ambientada com o método de loci. – comentou me fitando atentamente. – Percebi ao ler um de seus textos, que eles são seus palácios da memória. A riqueza dos detalhes me fez perceber que estava no ambiente.

– Acredito que sim. – não estrague, tudo pensei.

– Admirável. E o que ouviu? – ele estava curioso e charmoso. Percebendo que não compreendi. – Sobre mim, o que ouviu?

Um momento delicado. Como não misturar o assassino com o profissional? Excelente cozinheiro e anfitrião, inteligente, cavalheiro, reputação impecável. Sem falar no seu apreço pela arte, música e tudo que se refira à cultura. Misterioso inclui por minha conta.

– Mas acredito, que seus talentos vão muito além. – comentei me referindo à culinária.

– Todos temos talentos ocultos. – explicou servindo o vinho nos cálices.

– Estou surpresa, acreditei que me serviria vinho branco.

Comentei observando o vinho profundamente rosé.

– Sua personalidade e presença pedem cores mais sombrias, sabores doces. Por isso escolhi o Ice Wine para servi essa noite. Esse é feito de uvas austríacas Grünner Velttiner, colhidas na primavera quando estão congeladas. A água congelada desidrata as uvas conservando todo o açúcar.

Recebi o cálice e provei incentivada por ele. Saboreei o líquido e fiz suspense.

– Arrebatador.

– Fico feliz em apresentar-lhe a novos sabores. – disse semicerrando os olhos.

– É uma das coisas boas em ser escritora, está sempre aberta a novas sensações e experiências.

– Admiro isso. – confessou ele e completou. – Na verdade ainda não me decepcionou. Pelo contrário, despertou minha curiosidade. Geralmente as mulheres tem uma tendência à cria expectativas com convites. Você não o fez.

– Explique. – pedi estendendo-lhe o cálice para que me servisse mais vinho. Algo que ele apreciou.

– O vestido negro cobre os joelhos, as meias são finas, mas não muito. Gosta de conforto, escolheu sapatos baixos, optou por ele. E não me provocar com saltos altos. – riu – Obrigada por isso, não sou do tipo que se excita com panturrilhas tensas. Usou pouco perfume, na verdade, uma colônia. Não gosta de chamar a atenção sobre si. – parou ao ver-me sorver o vinho e observá-lo por o avental com interesse.

– Vamos comer peixe, não queria estragar nosso paladar com uma fragrância artificial. – expliquei.

– Pérolas. Manteve seu anel de prata favorito. Na verdade e ele não sai mais de seu dedo. Notei quando nos conhecemos. É uma peça que estima muito. – Bela, elegante, segura, sem pretensões, exageros.

– Sem expectativas a vida se torna uma experiência baseada em escolhas. Gosto de escolher.

– Estar no controle.

– Analisando-me?

– Não pude resistir. É fascinante. Mas não como paciente. – percebendo que o olhava nos olhos. – Espero não tê-la a ofendido.

– De modo algum. O que isola o homem e cria medos é a ausência de uma boa análise. Sinto-me lisonjeada. – disse erguendo o cálice de vinho. Ele elevou o seu e bebemos.

Como prometido ele preparava salmão, gostei disso. Ele não me imporia seus “gostos” e me acompanharia. Usava as facas com maestria. Aproximei-me do balcão o observando trabalhar. O avental, a camisa dobrada. O cabelo liso bem penteado, o rosto barbeado com esmero. Ele sorveu um gole de vinho com os olhos presos nos meus e desviei a vista. Não foi algo inteligente a fazer quando um predador lhe olha.

– Posso? – perguntei observando as facas no suporte de metal.

– Deixe-me apresentá-las.

Ele se aproximou ficando as minhas costas. Pegou uma das facas e num gesto a expôs aos meus olhos. Estava entre seus braços tendo a faca como o começo e o fim daquele circulo.

– Cuidado, são muito afiadas. – murmurou junto ao meu rosto.

Toquei a lâmina em suas mãos e ele a deixou sob meus cuidados. Os olhos observadores. Havia peso e leveza, poder e terror. Aço puro, desenhado em uma única peça.

– São maravilhosas.

– Cozinha?

– Somente palavras. Sou obtusa nessa área, além disso, a sensação… ­– disse aproximando-me do salmão – Do corte – falei cortando um pedaço do peixe. – Traz-me impressões… – quis recuar, mas ele me deteve suavemente.

Colocou a mão sobre as minhas ficando atrás de mim novamente.

– Frio ou medo? – perguntou em tom baixo.

– Sou fria por natureza.

– Observei sua temperatura quando fomos apresentados. Hoje ao chegar e agora. É uma criatura rara.

Meu corpo ficou levemente tenso. Nossos rostos se refletiram na lâmina na altura do peito. O perfume dele me envolveu como seus braços, a camisa sobre minha pele fria. Ele segurava minhas mãos com prazer e o calor dele era real.

– Podemos compartilhar?

– Sim.

O contato era suave, os dedos dele conduziam os meus sobre a carne cortando fatias finas. Fazendo-me sentir a textura, o aço sob meus dedos. Percebi que ele aspirou meu perfume. Soltou-me e convidou-me a lavar as mãos. Olhei o peixe pronto para ser servido e sorri. Nos seus olhos havia um brilho misterioso.

Quando nos sentamos para apreciar o salmão, ele já havia vestido o terno impecável e negro. Serviu-me do sushi e continuamos tomando vinho. Comentou que era um jantar diferente, sem regras, só para nosso prazer. Falei sobre o livro a seu pedido e dividir com ele minhas ideias foi muito bom. Na sala, após terminarmos o jantar, ele mostrou-me alguns livros e quando nos sentamos. Sugeriu caminhos mais densos ao personagem. Foi quando começou a falar sobre morte.

– Notei que segura à faca, ou melhor, a caneta. Existem cortes necessários ao crescimento.

– Nada é simples na literatura.

– Bem sabe que é uma desculpa. Gosta de derramar sangue – disse direto – Às espadas, a mordida, o machado. – ele riu misterioso.

– Considero arriscado. – comentei sabendo do que ele falava.

– Medo de se sujar? – quis saber olhando-me com frieza – Impor limites é perigoso. Liberte seus monstros.

– Como sabe que são monstros?

Ele ergueu a sobrancelha e me observou por um minuto. Não, certamente não me achou tola. Sabia bem o que queria ouvir. E quando falou, continuava prendendo meu olhar com o seu.

– É gelada como minhas facas. Curiosa como um assassino, suave como o fio de uma navalha. Estou diante de algo feroz, disso não tenho duvidas. Liberte a fera.

Houve um minuto de silêncio contemplativo e saboroso. Dois predadores se admirando.

– É um elogio? – sussurrei.

– Devo retribuir ao seu. Não acha justo? – a frase foi dita, enquanto levava os dedos à têmpora.

– Compreende a natureza da situação?

– É como estar diante de um espelho.

– Quer compartilhar?

– Ficarei lisonjeado.

Sorvi o resto do vinho e com a unha cortei o pulso. O líquido quente preencheu o cálice. Nada mais que um gole. Aproximei-me, lhe estendi o cálice. O convite foi aceito, o sabor o dominou, fechou os olhos e eu sorri sabendo bem o que ele experimentava.

Nos seus olhos claros havia um contentamento único. E não esperei muito. Ele imitou meu gesto e o provei no mesmo cálice. Forte, vivo como nenhum outro.

– Dizem que os malvados são os que possuem o sangue mais precioso, estão certos.

– Posso dizer o mesmo do doce vinho do verão que me deu.

Ele disse fazendo um trocadilho com a música Summer Wine. Uma estranha cumplicidade se fez. O presente trocado. Meu poder corria em suas veias. Quando ele ofereceu-me o lenço, mostrei a carne cicatrizada. O vi levar meu pulso aos lábios e beijar reverente. O dele ainda sangrava e quando minha boca tocou a carne ele fechou os olhos. Podia devorá-lo. O beijo sugado, a lambida pararam o sangue. Habilidosa, cobri o corte com o lenço que me ofereceu.

– O que acha Dr. Lecter? – perguntei ao finalizar o curativo improvisado no seu pulso.

– Quase uma cirurgiã.

– Preciso ir.

– Eu sei e lamento.

Fui envolvida num abraço poderoso, que retribui. O bicho papão despedia-se e antes de me soltar beijou minha fronte.

– Volte, será sempre bem vinda.

– Sei que sim.

O jantar chegou ao fim. Sobrevivi e sai daquele doce e perigoso sonho com um pouco do monstro correndo em minhas veias. Mas certamente mais sábia e mais consciente.

Vejam esses dois textos como minha homenagem ao escritor Thomas Harris, ao personagem Hannibal, a vampira Nazarethe Fonseca, e ao ator, Mads Mikkelsen.

Lamentável que a série seja cancelada. Espero que algum outro canal a compre.

 

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