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cleopatra-noticias-the-history-channelVirgílio vivia em uma casa no centro da cidade cercada por muros altos, que ele me ajudou a transpor. Passou a mão sobre minha cintura e me elevou no ar junto com ele. Quando pisei na grama fiquei encantada com a construção em estilo marroquino. Ele vivia em um riads. Um prédio repleto de pátios internos com janelas de madeira apelidadas de muxarabi. O resultado é privacidade e contato com jardins, que são obrigatórios em prédios desse estilo.

Dois pisos pintados de branco e azul, portas e janelas de madeira marrom avermelhada. O som do murmúrio das fontes, três delas espalhadas pela casa e jardim seduzia, convidava ao relaxamento.

A primeira que vi estava na frente da casa. Pedra, ladrilhos azuis, verdes e negros, peixes sob o fluxo constante e límpido. Ele percebeu minha aprovação, quando tirei os tênis e passei a caminhar descalça pela grama. Sorriu e me viu tocar flores e plantas fascinada com o que meus olhos humanos não viam. O verde, as linhas de energia que fluíam de cada uma delas, o pulsar da vida em meus dedos. Por que somos tão cegos? Incapazes de ver a vida, a morte?

Ele tocou meu ombro e me convidou a entrar. Sabia que podia me perder no jardim fitando a vida ao meu redor.

Dentro da mansão o que se via eram tapetes, luminárias de latão de cobre penduradas do teto abobadado, repleta de arcos em tons brancos, ou da cor de barro vermelho. Os móveis e mesas seguiam o mesmo estilo. Cortinas de linho branco bordado flutuavam na brisa noturna. O piso de lajota verde, azul e até vermelha combinava com o ambiente. Pude ver paredes com azulejos pintados com desenhos rebuscados.

No ar pairava o perfume de incenso de rosas. No corredor haviam bancos de madeira trabalhada com almofadas em tons coloridos, bordadas. Nas paredes quadros exibiam cenas de homens do deserto, oásis e belos animais. No átrio estava a terceira e certamente a maior fonte. Ela era em desenho octogonal e exibia flores aquáticas em sua bacia. Em seu redor sofás que seguiam o contorno da parede. As luzes estavam acesas e era um recanto incrível para ler ou simplesmente ficar e admirar. O piso era repleto de desenhos rebuscados. Algumas inscrições que meus pês descalços riscaram distraidamente.

– Sua casa é magnífica.

– Muito obrigada. Esse é meu oásis, te trouxe para ele porque sei que tem sede. Espero poder saciá-la. – disse vendo-me estender a mão para o jorro de água na fonte no centro da casa.

Andei por todo o átrio e olhei para cima vendo o céu, as estrelas. Os ambientes do segundo andar abriam suas portas para aquele espaço de beleza exótica.

– Venha, deixe-me levá-la para seu quarto.

Dizendo isso me tomou pela mão e me conduziu a escada pintada de branco. Em cada degrau havia uma lamparina azul a óleo. Seguimos pelo corredor e quando ele abriu a pesada porta de madeira escura, fiquei diante do quarto mais bonito que já vira.

A cama ficava junto à parede, na cabeceira havia um nicho onde estavam resguardados um abajur e livros. O colchão ficava sobre uma plataforma de pedra. Os lençóis e fronhas eram bordados. Junto ao leito uma penteadeira antiga de madeira esculpida em arabescos intrincados resguardava objetos de toucador. Aos pês da cama e pelo quarto tapetes em tons claros e quase rosados. No banheiro havia uma banheira feita de pedra e ladrilhos. Sobre ela pendia um candelabro, e ao seu lado um sofá de seda de listras douradas e marrons. Um armário repleto com roupões, toalhas e produtos de uso pessoal dos mais diversos.

– Gostou? – quis saber tocando meu rosto com a ponta dos dedos frios.

– Sim.

– Ótimo. Desfrute de tudo e relaxe. Antônio vai lhe ajudar com o que precisar. – dizendo isso se afastou.

Segurei sua mão e o detive. Fui para seu abraço e o beijei, ele não retribuiu de imediato, mas por fim cedeu as minhas carícias. Retribuiu ao beijo com fome e desejo e quando me soltou falou:

– Teremos tempo para tudo. Quando me quiser ver, basta chamar. – dizendo isso beijou minha testa e sumiu diante dos meus olhos.

Tudo mudou. Minha percepção do tempo, do ar entrando e saindo dos meus pulmões. Os músculos em meu corpo, eu podia ouvir meu coração bater. Na verdade podia controlar seus batimentos, ou simplesmente fazê-lo parar.

A imortalidade me deu consciência sobre a matéria. Houve uma divisão, alma e corpo. Conhecia o limite de ambos agora. Podia sentir cada célula de meu corpo pulsando. A consciência aguçada do meu eu, começou a me sufocar. Os sentidos, as sensações me dominaram e eu desabei no chão segurando a cabeça confusa. A dor era demasiada grande para me afastar das sensações, que agora deveria administrar. Foi quando o ouvi, Virgílio.

– Feche os olhos. – foi uma ordem. – Apenas feche os olhos e respire o mais profundamente que conseguir.

– Não consigo…

– Isso é inaceitável. Respire!

A ordem foi gritada aos meus sentidos e vinda de lugar nenhum de minha mente. A ordem agitou meu corpo e antes que percebesse fechara os olhos e respirava o mais fundo que conseguia, evitando o colapso que me faria aniquilar meu cérebro.

Minutos depois a dor, os ruídos, as sensações estavam sob controle, pelo menos, por enquanto.

Onde ele estava? Meu mestre e salvador? Na biblioteca, ou em seu estúdio. Desde que cheguei ao oásis, como Virgílio chamava a casa. Só o vi mais duas vezes. Passados trinta dias sentia-me sozinha, carente de sua presença, e até de sua voz em seus pensamentos. Mas só recebia silêncio. Talvez sido o silêncio, que tenha me levado aquele pequeno incidente com meus sentidos, a solidão.

– Já o chamei inúmeras vezes, por que não vem?

O silêncio como resposta. Cansada de sua ausência, resolvi partir. Talvez não fosse bem vinda. O criado, Antônio, não respondia perguntas e era muito pouco amistoso. Resolvi partir como cheguei com a roupa do corpo. Certamente já fora dada como morta por minha colega de quarto. Mas poderia me esconder em um velho sótão, ou porão. Fui em direção à porta, mas antes que tocasse o trinco ele apareceu na varanda do quarto.

– Para onde vai? – perguntou sem entrar no quarto.

– Embora. – respondi olhando sua silhueta por entre as cortinas.

– Por quê?

Ele estava mesmo surpreso?

– Já usufrui o suficiente da sua hospitalidade e caridade. – disse amarga.

– Minha hospitalidade não tem fim, fique. – pediu gentilmente.

Andei até a varanda e me aproximei de Virgílio, ele olhava a noite, o jardim. Quando por fim voltou seus olhos a minha pessoa, senti meu coração saltar no peito. Belo demais para que pudesse reagir de outro modo. Os olhos claros, dourados, o cabelo negro e liso, exótico. Desviei a vista e esperei em silêncio.

– Tenho sido relapso com sua educação. Lamento muito por isso. – disse gentilmente. – Estive ocupado com alguns assuntos e você quase entrou em colapso.

– Eu… Fui muito tola…

– Não – ele me corrigiu – Não a ensinei a conter seus sentidos, normal que acontecesse.

Ele tocava meu rosto agora e por fim pegou minha mão e me puxou para dentro do quarto. Não parou até que estivéssemos em seu estúdio. Um lugar que estava sempre de porta trancada, até aquela noite quando ele tocou o trinco e o abriu. A sala era ampla e resguardava o mesmo estilo exótico dos demais ambientes. Ele sentou no sofá e me colocou ao seu lado.

– Vou lhe ensinar alguns truques.

Daí em diante aprendi tocar sua mente, ler alguns de seus pensamentos, pelo menos até onde ele permitiu. Ligar as luzes, a chama de uma vela, abrir uma porta fechada começando por destrancar a chave. Chamar Antônio, bem isso foi mais difícil, mas ele veio. Ficou um pouco irritado, mas disfarçou. Antes que saísse Virgílio lhe falou algo em árabe pelo que pude notar.

Vinte minutos depois alguém bateu na porta do escritório. Era um mortal. O senti ainda no corredor. Ele entrou quando permitido e esperou no canto da sala. Devia ter vinte e cinco anos, era forte, pele morena. Ouvi seu coração, senti o gosto de sua pele.

– Isadora esse é Filipe. Ele nos presta um serviço muito especial.

Dito isso ele se aproximou de minha poltrona e sentou. Recuei um pouco assustada. Levantei rapidamente e sai porta fora.

– Isadora?

Virgílio me deteve no corredor. Escondi o rosto contra a parede e fechei os olhos. Ele buscou meu queixo e viu os olhos mudados quando os abri para fitá-lo. Os caninos a mostra eram um aviso de minha fome.

– Você é tão linda… Mas por que fugiu? Por que se esconde?

– Não, não sou… Eu estou feroz e horrível. – cobri o rosto com as mãos.

– Seus pais lhe deram a vida. – disse, enquanto fitava meus caninos – Eu lhe dei o dom da morte. E pelo que vejo ele cai muito bem em você. –o polegar acariciava meu lábio inferior. – Você é linda.

Dito isso tomou minha boca num beijo esfomeado. Encostada na parede eu senti a pressão de seu corpo, das mãos firmes. Toquei seu peito, quase o empurrando, afinal me esmagava contra a parede. O desejo era óbvio.

– Não fuja de seus desejos. – disse com os olhos nos meus e eles estavam tão mudados quanto os meus.

– Não quero matar ele…

– Não vou deixar, quero apenas que aprenda a se conter diante de um servo de sangue. – sussurrava junto a minha boca.

Conduziu-me de volta a sala. Colocou-se na poltrona e o mortal se aproximou, ajoelhou-se a minha frente e abriu a camisa.

– Não seja tímida aproveite o momento. Isso deve ser prazeroso.

Toquei o rosto do mortal e seu pescoço, os ombros nus. Podia ver a veia me convidando. O coração irrigando o corpo de sangue e vida. Estava com fome, me inclinei e ele se curvou para que me servisse. Meus lábios tocaram a pele quente e gemi sem perceber. A língua sugou a carne firme, o coração do mortal acelerou. Pude sentir que desejava aquilo, a mordida. De olhos fechados o mordi. O mortal segurou-se nos braços da poltrona e aguentou firme. Suguei com força, enquanto segurava os ombros fortes. O sabor era rico e forte. Pude jurar que ele se alimentava e cuidava bem de seu corpo. Nada de cigarro, álcool. Doce, forte e limpo. Um toque em meu ombro desfez o transe e me afastei.

Fitei o mortal sorrir e receber uma pequena toalha para cobrir o ferimento. Lambi os lábios os limpando. A porta se fechou e só então percebi que ele havia partido.

– O que achou?

– Bom… Muito bom.

– Nem sempre precisamos matar. Temos como conseguir o que desejamos sem chamar atenção.

Antônio entrou na sala trazendo uma bandeja, nela uma garrafa de vinho e dois cálices. O vinho certamente francês tinha gravado na garrafa o nome Petrus. Virgílio a abriu com elegância de um conhecedor de vinhos. Quando me entregou o cálice sorriu e falou:

– Bem vinda ao mundo civilizado.

O sabor do vinho agradou-me profundamente. Pude sentir o sabor da uva, da madeira do barril em que envelheceu. Fechei os olhos por um instante e senti o sabor, o cheiro da terra. As raízes da parreira. Aquilo era uma viajem. Virgílio olhava-me satisfeito e até convencido, ele sabia de meus estranhos dons. Podia praticamente atravessar o tempo agora. Bastava desejar, tocar um objeto ou provar algo.

– Você é muito especial Isadora. Quero que acredite em mim quando digo isso. – comentou sorvendo o vinho em mais um gole.

– Vai me deixar sozinha novamente? – quis saber decidida a partir se ele o fizesse.

– Você não esteve sozinha nem por uma noite. – começou ele diminuindo a distância que nos separava. – Sempre que voltava para casa visitava seus aposentos. Sempre a encontrava dormindo e fiquei o tempo que pude admirando nossa criação.

O sangue recém-sorvido me fez corar. Ele gostou disso e tocou meu rosto. Os dedos sentindo o calor da vida em minha pele pálida.

– Devia ter me despertado…

– Teria sido indelicado. Além disso, queria dar algum tempo para que se acostumasse a sua nova condição… E não queria apressar as coisas. Você foi tocada com muita rudeza.

– Não sinto mais nada sobre isso. Na verdade, quando os matei, tudo silenciou.

– Aprenda, minha cria. O tempo é nosso maior aliado e inimigo. Ele cura até mesmo o que não sentimos, nos dá paz. Enlouquece-nos com a solidão, nos tortura com sua lentidão. Desejo você, mas esperei que o tempo a tocasse primeiro. Ele a cobriria de paz, limparia sua mente de lembranças, para que meu toque fosse novo, o início de algo profundo e duradouro.

O beijo veio como todos os outros arrebatador e faminto. Entreguei-me a ele sem reservas, por que as teria? Eu o queria com tanto desespero. Quando separou os lábios dos meus me puxou com ele pela casa rumo ao seus aposentos. O quarto era grande e decorado em tons escuros. A cama de madeira tinha um cortinado feito de seda adamascada.

Entre beijos e carícia ele me despiu. Nua a sua frente senti o toque de suas roupas sobre minha pele. Afastou-se um passo e tirou o colete, a camisa e expos o peito largo, músculos firmes, cintura fina. Haviam tatuagens intrincadas sobre os braços e pulsos, nas costas. Pernas firmes. Magnífico e ansioso por meu corpo.

No leito nossos corpos encontraram o ritmo, o tom. Uma melodia nova foi composta pelo prazer. Amante atencioso, suave quando preciso e exigente quando provocado. Nossos corpos pálidos e imortais absorviam prazer e sangue na medida exata. As marcas nos meus seios, em seus ombros sumiram, mas as mordidas existiram e deixaram um rastro de fogo e êxtase. Aconchegada a ele me senti plena. Estava ao lado do meu mestre e ele parecia completamente satisfeito, seduzido. A mão em minha cintura, o modo como escondeu o rosto em meu pescoço, sob meus cabelos me fez crer que não sairia do leito por algum tempo.

As janelas se fecharam, as cortinas deslizaram sobre elas lentamente. Um zumbido elétrico que Virgílio controlou com sua mente. O quarto ficou escuro, o dia chegava, hora de dormir.

Segurei suas mãos sobre minha cintura e fechei os olhos e o ouvi murmurar:

– Não vai mais ficar sozinha, minha Faradisa.

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