Etiquetas

, , , , , ,

Um presentinho para meus leitores. Um conto.

Todos os direitos reservados a Autora®

e4fb6966dfbe158065fdc15182c9f6be

O homem caminhou pelo beco úmido e sujo e se aproximou do meu corpo caído no chão.

Vi-o através da cortina de sangue e lágrimas, que agora eram meus olhos. Naquele pedaço de inferno onde o desespero e a violência haviam se enfrentado. A violência ganhou. Ele se agachou e me tomou nos seus braços. Não se importou com meu estado. Estava suja de lama, sangue e sémem dos meus agressores. Minhas roupas eram trapos, o rosto ferido deixava pouco a se ver.

Tentava focalizar seu rosto, mas isso representava gastar energia que não dispunha. Receava mais violência. Mas ele não parecia disposto a me machucar. Na verdade parecia ter caído do céu, mas nada de angelical havia em sua face.

Mesmo alquebrada, e a beira da morte podia sentir que ele não era humano. A pele incrivelmente pálida, suave como se tempo jamais pudesse tocá-la deixava óbvia sua natureza sobrenatural.

Possuía tanta beleza dentro de seus olhos, que poderia ficar durante horas observando o brilho de sua retina.

Naquele olhar havia desejo, não o físico, afinal restou pouco da beleza que eu possuía. Contudo, podia sentir toda a extensão de seu desejo. Cada músculo de seu corpo me desejava, vi o movimento dos lábios cheios convidativos. Desejei beijá-lo, mas isso só me traria dor…

Os dedos longos e pálidos acariciavam meu cabelo desgrenhado tentando dar a ele alguma ordem.

Por fim os caninos apareceram e por uma fração de segundos desejei recuar, mas o toque de sua pele sobre a minha adiou a fuga. Estava disposto a lhe dar minha vida, meu sangue…

A mordida trouxe-me a consciência física de que mais uma vez fora atacada.

O corpo estirou-se, cada músculo e tendão parecia lutar. Sua mão poderosa segurava meu ombro apertando minha carne. Seus dentes estavam cravados sobre minha garganta. Tentei empurrá-lo, mas foi um gesto débil, sequer toquei seu belo casaco negro. O cabelo sedoso tocava minha face, podia sentir seu cheiro másculo de sândalo.

Arquejei e relaxei, ele sugava. E de uma forma atemorizante percebi-me drenada. Minhas veias, meu corpo enfraquecia sob a pressão do beijo. Movia os lábios e era tomada pelo enfraquecimento, mas a consciência não perdia. Seus lábios, sim, eram eles que me ligavam ao mundo, sua força sobre minha carne.

O peso de sua força sobre a minha. O corpo estava paralisado e somente o coração e os olhos se moviam. O vampiro recuou e como reflexo arquejei dolorosamente. Uma gota de sangue. Sim, ele caia de sua boca, meu sangue. Despencou dos caninos, escorregou sobre o queixo e mergulhou no vazio para cair sobre minha boca. E no que pareceu uma eternidade, despreguei os lábios que pareciam colados e provei do meu próprio sangue.

A face do vampiro era um mistério perdido no cabelo escuro e liso. Mas eu podia ver sua boca carmim, sua carne se alimentando do meu sangue. Sua mão deslizou por minha face agora fria.

– Você quer viver?

Como podia ser tão belo?

– Não se apaixone por mim, pois isso só vai fazê-la sofrer eternamente, minha querida amiga – o vampiro murmurou – Não sou do tipo que se apaixona. Diga-me, quer viver?

– Sim…

– Então deixe que lhe mostre o que é viver plenamente. – sussurrou.

Não houve lugar para dúvida, nojo, asco, somente para a fome que dominou meus sentidos, o pensamento lúcido evaporou como água em um incêndio.

Abandonava a vida como conhecia. Renascia através do sangue do vampiro.

Quando consegui ficar de pé ele segurou minha mão e me conduziu para o fim do beco. Com um puxão arrancou um cano na parede e o fez jorrar água sobre minha cabeça.

– Lave-se, volto em um minuto.

Não o vi seguir pelo beco, ele apenas sumiu. Fiquei debaixo da água sem forças para me mover. Meu salvador retornou com uma sacola plástica na mão. Roupas e um par de sapatos.

– Mandei lavar-se. – disse impaciente.

Suas mãos puxaram os trapos que cobriam minha nudez. Lavou-me como se fora uma criança. Por fim me puxou de debaixo da água e pressionou uma toalha sobre meus ombros.

– Eu… Eu vou vomitar.

– É, eu sei. – disse ele me segurando para que não caísse no chão.

Vomitei e tremi em seus braços, enquanto ele segurava minha testa. E subitamente tudo parou, nada mais sentia além de fome. Fitei seu rosto e me senti ligada a ele, a seu corpo e mente.

– Sim, eu sei pequena. Está faminta. Isso é perfeitamente normal.

Ele entregou-me roupas limpas. Pouco depois vestida percebi seu olhar avaliativo.

– Vai servir por enquanto.

Era seu modo de dizer que não gostou do resultado. Camisa de mangas e uma calça azul de brim.

– Hora de comer e resolver assuntos pendentes.

Ele me levou consigo. Saímos do beco e caminhamos algumas quadras por ruas que se alternavam entre desertas e pouco movimentadas. Até chegarmos a um velho galpão. Reconheci o carro dos homens que me atacaram e paralisei.

– Você precisa comer e essa primeira refeição deve ser especial.

Dizendo isso o vampiro me beijou longamente. Podia sentir sua mão apertando-me de encontro a seu corpo forte. Meus seios comprimidos junto ao seu peito. Meu coração batia enlouquecido, feroz, agarrei-me a ele e retribui e quando finalmente nos afastamos ele murmurou:

– O salvamento acabou. – disse friamente.

– Como…?

– É livre para partir. Mas pode ficar comigo se quiser. No entanto, se fizer isso quero que se prove merecedora. – disse tocando meu rosto.

– Eu… Como faço isso?

– Eles estão ai dentro. Os homens que a atacaram, que a feriram e esfaquearam. – ele falava carinhosamente. – Mate-os como quiser, beba seu sangue e prove que merece meu sangue em suas veias.

– Eles… Eles vão me ferir novamente… – disse aterrorizada.

– Não, não vão.

Ele me arrastou até o carro e colocou minha mão sobre o retrovisor.

– Aperte.

Obedeci e vi o retrovisor se amassar sob meus dedos como se fosse feito de papel.

– Compreende o presente que lhe dei?

Balancei a cabeça e fitei o galpão, podia ouvir seus risos, o cheiro nauseante deles. Lembranças da violência sofrida me assaltaram. A raiva cresceu dentro do meu peito de modo frio e controlado.

– Estarei por perto. – murmurou junto ao meu ouvido.

Ele disse e me empurrou levemente, num incentivo.

Caminhei sem me deter e quando toquei as portas do galpão as empurrei para dentro arrancando-as da parede.

Tudo aconteceu num turbilhão de sons e imagens. Gritos, sangue, ossos se partindo sob meus dedos. O sangue em minha boca, alimentando minha fome. Fiz muita sujeira e aprendi muito sobre meu novo eu. Quando aquela tempestade de ódio chegou ao fim. Percebi que havia levado alguns tiros, que em nada me feriram.

Meu salvador caminhou até meu lado e me fitou com orgulho e estendeu a mão em minha direção.

– Passou com louvor.

– O que sou agora?

– Minha pupila, minha amante se quiser…

Pulei em seus braços e o beijei numa entrega apaixonada.

– É, você quer. – comentou ele sorrindo. – Vampira, imortal, assim como eu sou, é o que é agora. – ele falou, enquanto saiamos do galpão.

– Devo temer algo ou alguém?

– O sol. – disse ele apontando o céu. – Ele está ali, oculto pela sombra da terra, em mais quatro horas reaparecerá e pode nos transformar em tochas, cinzas.

O seguia e ouvia suas recomendações e conselhos, cheia de uma calma única.

– Revele sua face tão-somente para suas vitimas, beba somente sangue.

– Sinto medo. – murmurei com a cabeça recostada ao seu ombro.

– Impossível, eu o sorvi de suas veias, Isadora. – argumentou dizendo meu nome pela primeira vez.

– Quem é você?

– Seu salvador, nada mais. – disse cobrindo meus ombros com seu braço protetor.

– Qual seu nome?

– Virgílio.

– Para onde vamos?

– Para casa, você precisa de roupas limpas. – ele riu. E só então eu vi o sangue manchando a blusa e a calça.

– Antes, é claro, quero vê-la mais uma vez completamente nua. – disse num murmúrio sensual, enquanto a mão tocava minha cintura estreita.

Virgílio caminhava lentamente me levando com ele para seu mundo. Meu coração batia agitado, faminto. Pois agora ele pertencia a criatura que me salvou, um vampiro.

Anúncios