Etiquetas

, , , , , ,

Tirando a poeira do meu blog e voltando com as Crônicas de Alma e Sangue com uma aventura de Yasmim, a policial salva pelo rei Ariel Simon no último episódio das crônicas.

23abr2011_03

Crônicas de Alma e Sangue, O Preço – I Parte.

As duas motos ziguezagueavam por entre os carros em grande velocidade. As luzes amareladas dos postes davam a noite um ar dourado. Os faróis brancos eram fachos de luzes cortando a escuridão e a chuva que caia com força sobre Paris. A perseguição começou no Boulevard de Port-Royal. Mas nenhum dos dois veículos dava mostra de render-se. A oficial de polícia judiciária Yasmim Buerlet seguia os rastros de Guy Vic há quase um mês.

Quando parte de corpos foram encontrados no passeio público em Paris, Yasmim recebeu uma mensagem criptografada em seu celular. Aquele não era um simples caso de assassinato, muito menos um serial Killer. O assassino não era humano, apesar de se parecer com um. As Sentinelas conseguiram fazer a limpeza duas vezes. Contudo, quando partes do corpo da terceira vítima foram lançados próximo a Versalhes foi impossível impedir que a polícia o encontrasse.

O quarto ataque aconteceu no meio da rua. Testemunhas falam de um homem com garras saltando sobre uma jovem e dilacerando seu ombro. O único problema é a jovem sobreviveu. Natalia tinha vinte anos e apesar da perca de sangue, seu coração aguentou firme. Ela permanecia internada e sob vigilância. A polícia acreditava que o agressor voltaria para silenciá-la. Corajosa, ela descreveu o homem com muita clareza. Um retrato falado corria pelos telejornais. O número de polícias na rua dobrou e isso era muito ruim para uma parcela muito especial da população.

Vampiros e Homens lobo, Lobisomens, tiveram de manter-se o mais discretamente possível. Os cinco poderes enviaram um alerta e quem quebrasse a quarentena seria caçado e decapitado. Nesses momentos era bom ter fígado e sangue fresco na geladeira.

Não foi difícil achar o rastro de Guy Vic, complicado era matá-lo na frente de tantos mortais. Yasmim sabia que precisaria de toda sua força e habilidades. Quando deixou a central estava exausta, passou grande parte do dia tentando achar o esconderijo do suspeito. Encontrou muito pouco. Apesar da sujeira que fazia, ele sabia esconder sua toca com muita habilidade. Foi para seu apartamento, precisava dormir, comer, tomar um banho. Estava com cheiro de esgoto no nariz. Fez uma busca pelos canais, mas só encontrou ratos mortos e merda.

Despertou de um salto. Os pesadelos continuavam a assaltando noite após noite. Olhou a sua volta e reconheceu o quarto, as cores suaves, a decoração sofisticada e limpa, o aquário deixando o ambiente levemente azul. Adorava aquários, no antigo espaço tinha somente um, no novo apartamento conseguiu montar dois. Estava tentando se habituar a ter mais espaço. O seu antigo apartamento era menor. Morava agora entre a Rua St Jacques e o Boulevard St Michel, dali até a estação de Porto Real não era longe. Estava no segundo andar, isso era muito bom quando não se tem elevador, mas isso em Paris nos bairros antigos é comum. Noventa metros quadrados todos seus, dois quartos, um banheiro. Ali era o 5° distrito, mais conhecido como Quartier Latin, bairro das faculdades e escolas de ensino médio. O lugar transpira cultura com suas galerias, museus, cafés, bares e restaurantes.

O apartamento além de espaçoso e bonito possuía um quarto do pânico. Um lugar seguro para ficar em caso de ataque. Era lá que Yasmim conseguia dormir. Colocava sua arma carregada com balas de prata e fósforo sob o travesseiro. E observando o aquário dormia em paz. O lugar foi um presente do rei, Ariel Simon para sua mais nova “Pacificadora”. Foi assim que a chamaram, quando sobreviveu ao teste.

Foi para a cozinha esticando os braços, o pescoço. Vestia um short de malha e uma camiseta de malha onde havia escrito: Dormir é para os fortes. No fundo ela concordava com aquela frase. Todas as vezes que se deitava e se entregava ao sono, via as imagens de seus raptores, a tortura sofrida. No fim a voz daquele homem de olhos verdes. O modo como a salvou da morte eminente.

Pegou a garrafa inox. Yasmim a abriu e encheu um copo médio com parte do conteúdo. O liquido vermelho e denso era seu jantar. Levou ao micro-ondas por trinta segundos. Mais do que isso mataria as células vivas no comporto. Sorveu num gole longo e apreciou o sabor forte, levemente doce. Era estranho como se habituou tão depressa a alimentar-se do soro. Claro, houve um período de rejeição. Mas ele ficou para trás, dentro de uma hora poderia comer como qualquer mortal. Tomou o resto do soro e viu o telefone iluminar-se.

– E minha visita?

– Hoje sem falta. – respondeu Yasmim andando pela cozinha.

– Dormiu bem? – a voz suave, mas firme perguntou do outro lado da linha.

– Uma hora a mais que na semana passada. – disse suavemente.

– Ótimo, logo os pesadelos irão embora e poderá sonhar somente com seu rei. – brincou Ariel Simon do outro lado da linha. – Estou com seu suprimento de soro para o mês.

– Assim que sair da central irei até você. – disse amável.

– Fica para dormir?

– Se assim desejar. – murmurou pronta a ceder.

– Perfeito. Ate mais tarde minha bela Yasmim.

Desligou o telefone e pegou um recipiente de metal dentro do congelador. Nele uma seringa e um frasco com conteúdo azulado. Encheu a seringa e injetou na veia. Doeu, sempre doía muito. O soro a defenderia da infecção causada pela mordida de um lobisomem.

– Putz! – disse esfregando o antebraço dolorido.

A sirene da polícia soou bem perto. A moto pilotada por Yasmim  cortava as faixas de pedestre, carros e bicicletas sem em nenhum momento parar, ou atropelar quem quer que fosse. Suas novas habilidades davam-lhe uma visão perfeita e quase premonitória dos movimentos dos seres a sua volta. Estava conectada a cidade e seu coração pulsante. Mas não precisava da polícia, ela era a polícia. Todavia não podia explicar o que fazia perseguindo aqueles dois seres.

– Merda! – rugiu Yasmim entre dentes e acelerando ao máximo.

Natália, a sobrevivente do ataque do suposto maníaco, estava sendo monitorada no hospital. A Sentinela que a vigiava foi autorizada a controlá-la o melhor que pudesse. A manteve sob hipnose a maior parte do tempo, mas o controle perdeu a força a medida que o loba assumia o corpo da jovem. Ela rejeitou a alimentação, que a impediria de agir como uma besta. Fígado e sangue. Tentou fugir e quis gritar. A Sentinela a drogou e enviou o alerta. Infelizmente a droga falhou. Natália derrubou a Sentinela e atacou o guarda que vigiava sua porta. O que era um comportamento comum para um lobo recém-nascido, mas para os mortais era a barbárie. Bem, não era fácil saber que havia deixado à normalidade, o anonimato solitário da raça humana.

Continua…

Anúncios