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A criada saiu levando consigo o carrinho do jantar. Ariel Simon cobriu a jovem adormecida, ligou o abajur, apagou o lustre de cristal no teto. Na penumbra pode ver a cor, o frescor da vida voltando lentamente ao corpo de sua hospede. Foi quando se lembrou de que ela não era Kara, não que houvesse as confundido, não. Algo nela lembrou sua campeã, talvez fosse pelo fato de possuir cabelos tão negros quanto os seus. Apesar de ter os cabelos negros, o rosto pequeno, os lábios carnudos. Yasmim Deveruox era uma mulher diferente e provavelmente não sentia medo do escuro como Kara, sua campeã. A lembrança dela o enchia de um sentimento bem conhecido de saudade e melancolia.

No corredor seguiu ao lado de Togo e escondeu sob a capa de frieza real, o que lhe ia ao coração. Recebeu a pasta com as informações solicitadas e enquanto caminhava até a biblioteca lia o conteúdo com interesse. Quando entrou na sala Ariel se posicionou detrás de sua escrivaninha e continuou observando os documentos.

– O que faremos majestade? – o homem com traços orientais perguntou com suavidade.

– Por enquanto nada. Dentro de dois dias ela estará de volta ao mundo dos mortais.

– O que pretende fazer até lá?

– Bancar o bom anfitrião, observá-la. Precisávamos de alguém de confiança dentro da polícia. – comentou Ariel cruzando os dedos pálidos diante da papelada. Ponderava com cuidado.

– Temos Marcond Marié. – comentou Togo, mesmo conhecendo a impressão do rei sobre o policial.

– O Tenente Olivier Marié era um excelente policial, integro justo de confiança. Um dos poucos mortais no qual confiei plenamente. Seu sobrinho deixa muito a desejar, não gosto dele e tenho minhas duvidas sobre sua utilidade e lealdade.

– O acha capaz de nos trair?

– Ele não viveria para tanto. Mas não me sinto a vontade para dar a ele a dádiva. – continuou levando o punho junto ao queixo.

– Ele tem mantido a ordem e ocultado pequenos incidentes, foi através dele que consegui as informações que examina. – lembrou Togo estudando o rosto do rei.

Os Poderes do mundo vampiro mantinham informantes em varias instâncias do mundo dos mortais. Homens e mulheres comuns que por acidente haviam descoberto o sobrenatural. A eles era oferecida uma escolha de esquecer, ou simplesmente integrar um grupo seleto de pessoas que contava com a proteção de criaturas imortais. A maioria aceitava, os benefícios eram muitos. Os Poderes chamavam tais benefícios de “Dadivas”, elas variavam de acordo com o mortal recrutado. Cura para um doente, dinheiro, proteção e muito mais.

Quando Olivier Marié decidiu que era hora de passar o cargo adiante, indicou seu sobrinho. O rei recebeu a indicação, liberou Olivier para que ele fosse desfrutar dos muitos favores, que recebeu por sua fidelidade. Mas deixou claro que Marcond Marié enfrentaria alguns testes antes de ser recebido na comunidade. Por algum motivo não gostou do mortal.  Ariel Simon era bastante criterioso quando se tratava de aquisições mortais.

– Um dos meus Pacificadores relatou que Marcond espancou um homem até a morte na madrugada de ontem. – dizendo isso tirou do bolso um pequeno gravador e o lançou em direção a Togo.

O Líder da Ordem dos Pacificadores não estranhou receber a informação do rei. Ariel Simon andava sempre com sua guarda pessoal, e eles lhe prestavam pequenos serviços. Togo ligou o dispositivo e viu com som e imagem a brutalidade desnecessária, e por fim a execução do jovem que teve o azar de cruzar com Marcond.

– Se isso for a publico, ele estará comprometido. Como pode perceber ele não sabe andar nas sombras. Esse incidente não é o primeiro nem o único. Acho que ele não tem o perfil de que precisamos.

– Devo mandar uma escolta trazê-lo?

– Não. Deixei que tudo como planejado.

– Em três dias ele será trazido a sua presença. Devemos proceder com o ritual?

– Sim, prepare o ritual. Tomarei minha decisão nos próximos dois dias. – disse o rei com um sorriso nos lábios.

Togo se retirou da sala, Ariel Simon observou seu telefone e pensou por um momento. Pegou o aparelho e foi para a pasta de imagens, as observava com carinho, os olhos brilhavam, havia um sorriso nos lábios. Algo meio bobo e ao mesmo tempo triste. Cansado de manter a distância acionou a discagem rápida. O telefone tocou três vezes e a chamada se completou.

– Ariel… Majestade.

A voz suave da mulher tocou sentidos como uma carícia. Ele fechou os olhos e ficou ali captando os sons a sua voz. No mundo onde ela existia longe dele. Sua voz suave fez os pelos de seu corpo se arrepiar.

– Não é um bom momento pequena?

– Me dê um minuto. – pediu.

A mulher do outro lado da linha afastou a cabeleira negra e cacheada e saiu do leito. Temeu acordar seu amante. Só despertou porque sentiu a vibração do celular na mesinha de cabeceira. Vestiu o roupão de Jan Kmam e se afastou temendo acordá-lo. Ele jazia adormecido entre os lençóis, o corpo forte semicoberto pelo lençol de seda com de chumbo. Os cabelos loiros sobre os ombros largos. A expressão pacifica que seu rosto másculo era encantadora. Na varanda Kara respirou o ar da madrugada e respondeu.

– É quase manhã. – disse sabendo do que se tratava.

– Estava dormindo com a janela aberta outra vez? – brincou ele sabendo que sim.

Houve um tempo, quando foram amantes, que era comum achá-la adormecida no divã de seus aposentos, a janela aberta, a manhã chegando perigosamente sobre seu corpo.

– Acho que adormeci… – a vampira falou num sussurro e fitou Jan imóvel no leito.

– Onde está Jan? – quis saber ele.

– Na cama. Algum problema Ariel? – quis saber notando certo peso em sua voz.

– Muitos e todos com uma única solução.

– Vamos, fale. Ainda posso ouvi-lo, majestade.

O rei continuou mudo e por fim soltou uma inspiração.

– Não seja cruel, sabe o quanto detesto quando me lembra quem sou. Para você eu sempre serei Ariel ou… – ele se calou em tempo. – Sinto muito.

– Você me prometeu…

– Quando vem nos visitar? – habilidoso mudou o rumo da conversa. Evitando revelar o apelido carinhoso que Kara o havia presenteado e que ele prometeu jamais revelar, e muito menos falar em voz alta.

– Não faço ideia. Agora responde, o que o atormenta? – pediu gentilmente.

Conhecia a solidão do rei, e compreendia que quando ele ligava era por não mais suportá-la. Ele já estava na sacada e fitou a luz que minguava levando consigo todo seu brilho e magia. O Jardim estava iluminado pelo orvalho e o ar estava impregnado com o cheiro doce das rosas. Da transpiração odorosa das árvores e plantas que rodeavam o Château.

– Nada que minha campeã possa resolver. Assuntos de estado, mas saiba que seu interesse me enche de satisfação. – afirmou feliz. – Na verdade só queria ouvir sua voz. Saber que está me ouvindo, que estou falando aos seus ouvidos. – havia no som de sua voz uma dor profunda. Algo que só revelava diante dela.

– Fico feliz em poder servi-lo de algum modo. – começou com suavidade. – Como estão todos os “meninos”?

– Mergulhados em saudade, você nos esqueceu, abandonou. Bruce é o único que tem noticias suas e nos faz inveja a todos. Segundo ele você elegeu um único rei a quem servir. – completou um tanto amargo.

– Estou bem perto de chamar Bruce, de boca de chafurdo. Se continuar assim quando pisar em solo Francês serei presa e condenada e decapitada por traição. – brincou tentando desfazer o clima pesado.

 – Presa, condenada e mantida em cárcere privado. Serei seu carrasco. – brincou cheio de desejo.

– Como está o tempo?

– Sinal vermelho. – disse compreendendo a pergunta. – Vamos, seja bondosa, e me deixe imaginar ainda me pertence. – foi um sussurro rouco. – Hoje preciso de você, amanhã e por mais mil anos.

– Quero que durma um pouco, hum? Parece-me cansado. Tome um longo banho, fume um dos charutos que te dei no Natal e entregue-se ao sono.

– Só se ficar comigo.

– Amanhã então.

– Que seja.

– Vou desligar. – avisou vendo Jan Kmam mover-se no leito, o braço estendido à mão buscando-a.

– Durma bem minha pequena.

–Sim, farei isso. Faça o mesmo, está bem?

– Por você sim, farei. Eu…

– Boa noite meu…

Ariel Simon fechou os olhos com prazer e desligou o celular. Pareceu estar nas nuvens. Ela nos gesto de piedade sussurrou ao seu ouvido o modo especial que o designara em sua vida.

Continua.

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