Crônicas de Alma e Sangue 3 Parte – Os Limites

A criada saiu levando consigo o carrinho do jantar. Ariel Simon cobriu a jovem adormecida, ligou o abajur, apagou o lustre de cristal no teto. Na penumbra pode ver a cor, o frescor da vida voltando lentamente ao corpo de sua hospede. Foi quando se lembrou de que ela não era Kara, não que houvesse as confundido, não. Algo nela lembrou sua campeã, talvez fosse pelo fato de possuir cabelos tão negros quanto os seus. Apesar de ter os cabelos negros, o rosto pequeno, os lábios carnudos. Yasmim Deveruox era uma mulher diferente e provavelmente não sentia medo do escuro como Kara, sua campeã. A lembrança dela o enchia de um sentimento bem conhecido de saudade e melancolia.

No corredor seguiu ao lado de Togo e escondeu sob a capa de frieza real, o que lhe ia ao coração. Recebeu a pasta com as informações solicitadas e enquanto caminhava até a biblioteca lia o conteúdo com interesse. Quando entrou na sala Ariel se posicionou detrás de sua escrivaninha e continuou observando os documentos.

– O que faremos majestade? – o homem com traços orientais perguntou com suavidade.

– Por enquanto nada. Dentro de dois dias ela estará de volta ao mundo dos mortais.

– O que pretende fazer até lá?

– Bancar o bom anfitrião, observá-la. Precisávamos de alguém de confiança dentro da polícia. – comentou Ariel cruzando os dedos pálidos diante da papelada. Ponderava com cuidado.

– Temos Marcond Marié. – comentou Togo, mesmo conhecendo a impressão do rei sobre o policial.

– O Tenente Olivier Marié era um excelente policial, integro justo de confiança. Um dos poucos mortais no qual confiei plenamente. Seu sobrinho deixa muito a desejar, não gosto dele e tenho minhas duvidas sobre sua utilidade e lealdade.

– O acha capaz de nos trair?

– Ele não viveria para tanto. Mas não me sinto a vontade para dar a ele a dádiva. – continuou levando o punho junto ao queixo.

– Ele tem mantido a ordem e ocultado pequenos incidentes, foi através dele que consegui as informações que examina. – lembrou Togo estudando o rosto do rei.

Os Poderes do mundo vampiro mantinham informantes em varias instâncias do mundo dos mortais. Homens e mulheres comuns que por acidente haviam descoberto o sobrenatural. A eles era oferecida uma escolha de esquecer, ou simplesmente integrar um grupo seleto de pessoas que contava com a proteção de criaturas imortais. A maioria aceitava, os benefícios eram muitos. Os Poderes chamavam tais benefícios de “Dadivas”, elas variavam de acordo com o mortal recrutado. Cura para um doente, dinheiro, proteção e muito mais.

Quando Olivier Marié decidiu que era hora de passar o cargo adiante, indicou seu sobrinho. O rei recebeu a indicação, liberou Olivier para que ele fosse desfrutar dos muitos favores, que recebeu por sua fidelidade. Mas deixou claro que Marcond Marié enfrentaria alguns testes antes de ser recebido na comunidade. Por algum motivo não gostou do mortal.  Ariel Simon era bastante criterioso quando se tratava de aquisições mortais.

– Um dos meus Pacificadores relatou que Marcond espancou um homem até a morte na madrugada de ontem. – dizendo isso tirou do bolso um pequeno gravador e o lançou em direção a Togo.

O Líder da Ordem dos Pacificadores não estranhou receber a informação do rei. Ariel Simon andava sempre com sua guarda pessoal, e eles lhe prestavam pequenos serviços. Togo ligou o dispositivo e viu com som e imagem a brutalidade desnecessária, e por fim a execução do jovem que teve o azar de cruzar com Marcond.

– Se isso for a publico, ele estará comprometido. Como pode perceber ele não sabe andar nas sombras. Esse incidente não é o primeiro nem o único. Acho que ele não tem o perfil de que precisamos.

– Devo mandar uma escolta trazê-lo?

– Não. Deixei que tudo como planejado.

– Em três dias ele será trazido a sua presença. Devemos proceder com o ritual?

– Sim, prepare o ritual. Tomarei minha decisão nos próximos dois dias. – disse o rei com um sorriso nos lábios.

Togo se retirou da sala, Ariel Simon observou seu telefone e pensou por um momento. Pegou o aparelho e foi para a pasta de imagens, as observava com carinho, os olhos brilhavam, havia um sorriso nos lábios. Algo meio bobo e ao mesmo tempo triste. Cansado de manter a distância acionou a discagem rápida. O telefone tocou três vezes e a chamada se completou.

– Ariel… Majestade.

A voz suave da mulher tocou sentidos como uma carícia. Ele fechou os olhos e ficou ali captando os sons a sua voz. No mundo onde ela existia longe dele. Sua voz suave fez os pelos de seu corpo se arrepiar.

– Não é um bom momento pequena?

– Me dê um minuto. – pediu.

A mulher do outro lado da linha afastou a cabeleira negra e cacheada e saiu do leito. Temeu acordar seu amante. Só despertou porque sentiu a vibração do celular na mesinha de cabeceira. Vestiu o roupão de Jan Kmam e se afastou temendo acordá-lo. Ele jazia adormecido entre os lençóis, o corpo forte semicoberto pelo lençol de seda com de chumbo. Os cabelos loiros sobre os ombros largos. A expressão pacifica que seu rosto másculo era encantadora. Na varanda Kara respirou o ar da madrugada e respondeu.

– É quase manhã. – disse sabendo do que se tratava.

– Estava dormindo com a janela aberta outra vez? – brincou ele sabendo que sim.

Houve um tempo, quando foram amantes, que era comum achá-la adormecida no divã de seus aposentos, a janela aberta, a manhã chegando perigosamente sobre seu corpo.

– Acho que adormeci… – a vampira falou num sussurro e fitou Jan imóvel no leito.

– Onde está Jan? – quis saber ele.

– Na cama. Algum problema Ariel? – quis saber notando certo peso em sua voz.

– Muitos e todos com uma única solução.

– Vamos, fale. Ainda posso ouvi-lo, majestade.

O rei continuou mudo e por fim soltou uma inspiração.

– Não seja cruel, sabe o quanto detesto quando me lembra quem sou. Para você eu sempre serei Ariel ou… – ele se calou em tempo. – Sinto muito.

– Você me prometeu…

– Quando vem nos visitar? – habilidoso mudou o rumo da conversa. Evitando revelar o apelido carinhoso que Kara o havia presenteado e que ele prometeu jamais revelar, e muito menos falar em voz alta.

– Não faço ideia. Agora responde, o que o atormenta? – pediu gentilmente.

Conhecia a solidão do rei, e compreendia que quando ele ligava era por não mais suportá-la. Ele já estava na sacada e fitou a luz que minguava levando consigo todo seu brilho e magia. O Jardim estava iluminado pelo orvalho e o ar estava impregnado com o cheiro doce das rosas. Da transpiração odorosa das árvores e plantas que rodeavam o Château.

– Nada que minha campeã possa resolver. Assuntos de estado, mas saiba que seu interesse me enche de satisfação. – afirmou feliz. – Na verdade só queria ouvir sua voz. Saber que está me ouvindo, que estou falando aos seus ouvidos. – havia no som de sua voz uma dor profunda. Algo que só revelava diante dela.

– Fico feliz em poder servi-lo de algum modo. – começou com suavidade. – Como estão todos os “meninos”?

– Mergulhados em saudade, você nos esqueceu, abandonou. Bruce é o único que tem noticias suas e nos faz inveja a todos. Segundo ele você elegeu um único rei a quem servir. – completou um tanto amargo.

– Estou bem perto de chamar Bruce, de boca de chafurdo. Se continuar assim quando pisar em solo Francês serei presa e condenada e decapitada por traição. – brincou tentando desfazer o clima pesado.

 – Presa, condenada e mantida em cárcere privado. Serei seu carrasco. – brincou cheio de desejo.

– Como está o tempo?

– Sinal vermelho. – disse compreendendo a pergunta. – Vamos, seja bondosa, e me deixe imaginar ainda me pertence. – foi um sussurro rouco. – Hoje preciso de você, amanhã e por mais mil anos.

– Quero que durma um pouco, hum? Parece-me cansado. Tome um longo banho, fume um dos charutos que te dei no Natal e entregue-se ao sono.

– Só se ficar comigo.

– Amanhã então.

– Que seja.

– Vou desligar. – avisou vendo Jan Kmam mover-se no leito, o braço estendido à mão buscando-a.

– Durma bem minha pequena.

–Sim, farei isso. Faça o mesmo, está bem?

– Por você sim, farei. Eu…

– Boa noite meu…

Ariel Simon fechou os olhos com prazer e desligou o celular. Pareceu estar nas nuvens. Ela nos gesto de piedade sussurrou ao seu ouvido o modo especial que o designara em sua vida.

Continua.

A Encruzilhada

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Um momento para refletir.

Para Eric Novello

O Garçom se aproxima, levanto a vista do copo gorducho e vazio, que estou rolando entre os dedos. O homem me olha e pergunta:

_ Mais um?

_ Já foram cinco. – reflito sem me enganar. A lucidez é uma merda!

_ Você é forte, sempre será, está nos ossos, sabe? Essa coisa de insistir.

_ Nos ossos sim. Se fosse na cabeça já teria desistido.

A fumaça do charuto fino e escuro sobe no ar como um dragão voando alto. Tudo é ilusão. A marca de batom na ponta é minha. Rubro como as luzes do bar onde se bebe ilusões em copos gorduchos ou altos.

_ É um caminho.

_ Uma maldição.

_ Seu caminho. ­ – ele me aponta o dedo como se me acusasse das escolhas que fiz.

_ Então eu escolho quando parar e quando seguir.

_ Sim, mas agora é hora de seguir. Não acha?

_ Merda nenhum. É doloroso, solitário, imprevisível, sem gloria e muito trabalho… – reflito suavemente.

_ Você fala bonito. – brincou limpando manchas de whisky do balcão.

_ Tive ajuda. – revelo sorrindo mansa como um lago.

O Garçom seca copos com habilidade e pega a garrafa. Olho o conteúdo e ele parece feito de luz. Algo luminoso e liquido, magia pura engarrafada. Como sangue, igual a ópio, tem cheiro de açúcar.

_ Então que seja com Blues. – digo empurrando o copo no balcão de madeira.

_ Sim, com muito Blues. – diz o garçom enchendo meu copo até a borda.

Está tudo ai, dentro do copo, dentro dessa imensidão invisível. Olho o liquido sem medo, é mais forte que meu charuto, neutro como a paz. Envolvente como um beijo durante o sexo. A escolha já foi feita. Isso aqui é só uma parada estratégica, continuo pensando.

_ A sua! – diz o garçom sorridente.

_ A nossa. – falo e viro o copo num gole longo.

Certas coisas precisam ser fortes, quentes e embriagadoras. Sorrio por fim e dou uma tragada no meu charuto e olho para o banco ao meu lado. Estava vazio fisicamente, mas na fantasia ele está sempre ali, ao meu lado sorrindo com confiança, os olhos estão sob a aba do chapéu branco. Conheço esse olhar.

Não é um fim, só mais um recomeço.

Beijos mordidos

 

II Capitulo das “Crônicas de Alma e Sangue, O inesperado acontece”.chateau-de-chantilly-walls

Yasmim acordou em um leito feito de lençóis de linho e almofadas de seda, que cheiravam a lavanda. Vestia uma camisola de algodão leve. Tinha curativos nos pulsos, testa e no ombro e braço, que jazia enfaixado junto ao peito. A atadura era firme, cheirava a anticéptico. A lembrança da tortura sofrida a fez tremer involuntariamente. Os cortes… Quase podia sentir a lâmina novamente sobre sua pele… Os gritos, o modo que o braço foi torcido. A corda envolvendo os pulsos feridos.

As janelas estavam fechadas, a lareira acesa, o ambiente estava deliciosamente aconchegante. Ficou de pé com certo esforço, se percebeu tonta. Desejou água, estava com muita sede. Olhou a mesinha de cabeceira e tentou alcançar a jarra de cristal e o copo delicado. Mas tudo que conseguiu foi ficar tonta. As pernas falharam, escorregou. O impacto só não foi maior porque se agarrou na coluna de madeira da cama que ocupava. Fez força para ficar de pé e sentiu suor banhar seu rosto e corpo. Estava fraca.

– Merda… Onde estou? – subitamente se sentiu enjoada. – Alguém…?

Havia muito luxo a sua volta. Cortinas de damasco e seda, a cama era uma peça de antiquário. O tapete onde estava caída era Oriental e pelo pouco que conhecia era bem antigo e valioso. Os quadros pareciam originais. O cheiro de rosas frescas vinha de um o vaso de porcelana chinesa. As rosas eram realmente magníficas, cultivadas certamente. Rosa e branco, uma combinação delicada certamente, e de muito bom gosto.

– Preciso de ajuda… Não quero vomitar no tapete…– murmurou fraca.

– O que está fazendo fora da cama Yasmim?

A porta se abriu e alguém irrompeu no quarto. Antes que pudesse responder, ou erguer a cabeça. Foi recolhida do chão e levada ao banheiro. Braços fortes a envolveram e a apoiaram, enquanto vomitava sentada no chão. O corpo tremia, sentiu o suor molhar sua pele. Com o braço livre segurava na borda do vaso. A mão masculina segurava seus cabelos castanhos, tocava sua testa evitando que batesse a cabeça. Estava muito fraca. Quando finalmente a ânsia passou. Sentiu uma toalha úmida deslizar por seu rosto delicadamente. Estava exausta, recostou-se no peito sólido, e tentou recuperar o folego, arquejava. Finalmente ergueu a vista. Um par de lindos olhos verdes a fitavam. O olhar estava escuro pela preocupação, mas com um toque curioso. Naquele momento só conseguiu continuar apoiada junto ao estranho. Não comia há quase três dias. Ele deslizou os dedos sobre sua cabeça. Só então percebeu que estava sentada em seu colo. As pernas fortes cobertas pelo jeans. O sapato de cadarço, aquele cheiro delicioso vinha dele? A mão livre segurava seu ombro…

– Onde estou? – foi um sussurro muito baixo.

A mão agora caia frouxa sobre seu colo, o peito do homem a amparava protetor. Sua fragrância máscula e cítrica a envolvia.

– Em segurança, fique tranquila.

– Estou com sede…

Foi suspensa no ar e levada de volta para o leito e lá servida de um copo de água. Bebeu com a ajuda do desconhecido e relaxou sobre os travesseiros. Tocou o braço ferido e pareceu sentir dor.

– Dr.Joshua te deu um analgésico forte, por isso o enjoo, mas vai passar. – dizendo isso abriu a porta para a criada com um carrinho.

Esgotada, Yasmim não recusou a sopa. Ou o modo que a sorveu. O homem vestido com uma camisa de malha negra e jeans azul. Sentou na borda da cama e passou a alimentá-la. As colheradas da sopa quente fizeram a cor voltar ao rosto pálido, a alimentava devagar. Parou duas vezes para reunir forças. Logo sua temperatura subiu percebeu quando ele tocou-lhe a testa com sua mão cálida. Deu-lhe forças para fazer perguntas.

– Qual seu nome?

– Ariel Simon, e o seu se não me engano é Yasmim, não é mesmo?

– Sim… Como sabe?

– Encontramos seus documentos no bolso de sua jaqueta. – explicou colocando os canudos próximos aos seus lábios feridos.– Vamos, tome, vai lhe fazer bem. – insistiu que ela tomasse o suco de maçã.

– Minha arma?

– Não, não localizamos. – disse e a viu piscar os olhos.– Mas não se preocupe está em segurança, medicada e por enquanto só precisa descansar e recuperar as forças.

– Obrigada. – murmurou segurando sua mão sobre o lençol.

O homem tomou sua mão entre as dele e a beijou reverente.

–Descanse criança, você passou por momentos terríveis.– dizendo isso apertou suavemente seus dedos. –Logo se sentirá mais forte e poderá sair da cama e retomar sua vida. Está livre e segura.

As palavras do homem, o modo carinhoso e respeitoso que a tratava deu-lhe confiança. A policial Yasmim piscou os olhos e cochilou, adormeceu. Ariel Simon a olhou entre os lençóis e viu Togo no corredor, certamente precisava lhe falar.Os olhos escuros de Yasmim estavam fixos na face do homem a sua frente. As pestanas ficaram pesadas e antes que percebesse adormeceu.

Continua Terça 29/01 e 31/01.

O Inesperado Acontece – Crônicas de Alma e Sangue

Vou postar aqui um conto, do que estou chamando de “Crônicas de Alma e Sangue”.

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O cavalo corria livre pela floresta, a trilha era sua velha conhecida. O cavaleiro deu-lhe rédeas soltas para fazê-lo. O garanhão negro dava tudo de si, e parecia gostar da liberdade que seu dono lhe dava. A noite estava fresca e suave.

O cheiro das árvores transpirando era embriagador. A lua era apenas um risco curvo no céu. O vento tocava os cabelos ruivos do cavaleiro, o corpo movia-se junto com o do animal, com se soubesse cada movimento antes mesmo de executá-lo. Os corações batiam juntos na desembalada corrida. Havia um sorriso nos lábios sedosos, um prazer indescritível na retina verde jade. Nesse deslizar veloz ambos conseguiam uma liberdade bem vinda.

Os sons da floresta estavam nos ouvidos e sentidos de ambos. Sentira a mudança, o cheiro do medo, o grito de terror. Os dedos ágeis seguraram as rédeas guiando o animal rumo ao som do grito. A trilha sumiu e o cavalo corria por entre as árvores com destreza. Um minuto depois a clareira apareceu. As luzes do carro. Deteve o animal e desmontou altivo. Houveram perguntas, que ele não respondeu, enquanto fitava a mulher no chão.

A luz dos faróis o iluminava, seu riso seguro, o olhar mudado causou sobressalto. Tudo aconteceu muito depressa, o tiro, o som de ossos se quebrando, o brilho da faca, o cheiro do sangue. O relinchar do garanhão, seus cascos sobre o homem que tentou segurar suas rédeas. Um minuto depois havia três corpos no chão e uma mulher desacordada e sangrando.

– Togo? Preciso de uma limpeza.

– Onde está majestade?

– Próximo à velha torre, três corpos, um veículo. Varredura cem metros à frente. Mande preparar um quarto e acorde Joshua, tenho uma mulher ferida, preciso dele e do soro, ela está morrendo.


Continua dia 24/01, 21:00.