Há muito tempo tinha certeza que os livros de Anne Rice não eram para qualquer leitor. Não estou sendo preconceituosa, nem levando a fantasia tão a sério, o fato é, sou fã da autora e compreendo certos aspectos do seu universo literário, como autora eu também tenho meus momentos. Ela me surpreende a cada livro, mas em especial no livro Memnoch The Devil, sua força criadora ultrapassou todos os limites. Lestat é de longe seu melhor personagem. Personagens queridos, são como um casaco velho, que já tem a forma do corpo e quando você veste lhe cai muito bem. Assim é Anne escrevendo sobre Lestat, natural, bem vindo e extremamente prazeroso. Lestat não é ela, e Anne não é ele. É somente criador e criatura em completa união.

A história mostra Lestat completamente “apaixonado” por Roger,um traficante de grande poder. Até ai tudo bem, o fato é que Lestat está sendo seguido por uma criatura digamos, única, o próprio Príncipe das Trevas, Memnoch. Que o convida para ser o herdeiro de seu império infernal.

Nessa aventura temos Louis de Point du Lac, Armand, David e Dora, a bela filha do traficante que assassinou.

Lestat aceita ouvir a proposta de Memnoch, o anjo caído que, ateriormente um dos preferidos de Deus. E que foi punido com a queda por envolver-se de forma carnal com uma mortal. A viajem é através do Firmamento e o Inferno, o Purgatório. Esqueça a forma que o diabo é caracterizado em quadros, ilustrações, filmes. Memnoch se mostra exatamente como foi gerado por Deus, como um anjo, um instrumento, o senhor do inferno, ou salão das almas.

Ao longo da narrativa me vi diante de diversos outros livros que li sobre o tema, o diabo, o inferno, a bíblia, livros sobre o inferno e o que teria no firmamento. Achei respostas para perguntas antigas e em dados momentos deixei a mente racional completamente aberta, para aceitar que certas verdades existem e que são impossíveis de serem contestadas.

A criação do homem, o mito sobre céu e inferno. Em dado momento tive certeza que se estivéssemos na idade média, Anne Rice teria sido queimada na fogueira por produzir um livro tão complexo, revelador. Seria chamada de herege por ter falado de mistérios e dogmas sobre Deus e o Diabo. Durante os dias que li os livros fiz diversas reflexões e percebi o texto como um grande dialogo teológico, espiritual e acima de tudo revelador. Como disse Memnoch The Devil, não é para todos.

Debati durante horas com minha mãe sobre alguns capítulos do livro, pesquisei fontes e aprendi muito. Foi como se houvesse provado do fruto da árvore do meio do jardim, e subitamente houvesse perdido a inocência e visse o mundo como ele realmente é. Foi como tomar a pílula vermelha e acordar para coisas que somente supunha dentro da Matrix.

Recomendo para aqueles que não têm medo de fazer perguntas sobre sua fé, sem perdê-la ao fim do livro. Acredito que devemos ter fé em Deus, um ser feito de luz que só pede adoração de suas criações. Que não precisa de sangue como sacrifício e muito menos de templos grandiosos para ser idolatrado. Afinal, se você puder pegar um punhado de terra nas mãos, ou sorver um copo de água vai perceber que a sua força criadora está em tudo, até mesmo em nós para o bem e para o mal.

O livro é totalmente independente, não é a continuação de nenhum das crônicas vampirescas. Mas para ler é preciso saber quem é David, Armand e Louis. E por estranho que pareça é um dos livros menos conhecidos da autora, e o quinto e sua lista de lançamentos.

Beijos mordidos

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